SOL

O fim das vacas gordas

Publicação: 29 Maio 09 12:00

      

Na semana passada avancei com uma explicação para a crise inteiramente diferente daquela que tem sido apresentada.

Basicamente, disse o seguinte: o problema não foi o subprime, nem as fraudes, nem outras práticas menos ortodoxas.

O problema é a globalização.

A questão é que o capitalismo deixou de ser ‘regional’ para ser ‘global’.

Um modelo que vigorava apenas na Europa Ocidental e na América (com uma ‘extensão’ ao Japão) em meia dúzia de anos passou a vigorar praticamente em todo o Globo.

Para isto foi decisiva a transição da Rússia e da China do sistema comunista para a economia de mercado.

 

A crise que estamos a viver é comparável a um terramoto.

No interior da Terra há movimentos constantes de gases e de materiais em ebulição – que regularmente determinam ajustes das placas tectónicas.

Quando esses ajustes atingem determinada dimensão, pode ocorrer um tremor de terra.

Com o capitalismo passou--se o mesmo.

A referida entrada da China e da Rússia (mais os países de Leste) no campo capitalista, o extraordinário aumento da circulação nas últimas décadas de mercadorias e de pessoas por todo o Planeta, foi provocando alterações semelhantes àquelas que se dão no interior da Terra.

Alterações que não podiam deixar de ter consequências explosivas.

 

Certos produtos do Oriente, feitos nalguns casos por uma mão-de-obra quase escrava, que antes praticamente não saíam dos locais de origem, circulam hoje às toneladas por todo o mundo ao preço da chuva – esmagando os correspondentes produtos feitos nos países ocidentais.

A população migrante flutuante – oriunda do Brasil, da África, da América do Sul –, aceita nos locais de destino (sobretudo América e Europa) tarefas e salários que a população aí residente já não aceita – baixando a fasquia dos salários e das regalias sociais nessas regiões.

As mudanças de linhas de produção de um local para outro (as célebres ‘deslocalizações’) criam atritos entre os trabalhadores dos vários países – aumentando a margem de manobra das administrações das empresas.

O velho apelo de Marx ‘Trabalhadores de todos os países, uni-vos’ está cada vez mais distante, porque os trabalhadores passaram a estar em competição uns com os outros: os operários da AutoEuropa estão hoje contra os operários das fábricas da Volkswagen pelo mundo fora que lhes possam roubar as linhas de produção.

Significa isto que o tempo que aí vem será mais competitivo, mais desumano.

A competição, ao tornar-se global, torna-se mais assanhada, a luta é mais dura.

Quem pense que isto ainda pode voltar para trás, desiluda-se.

Esta crise não vai ser ‘superada’, a ‘retoma’ não vai chegar, pela simples razão de que estes ajustes no capitalismo eram inevitáveis e necessários – e por isso vieram para ficar.

Ao dar o salto de um sistema regional, geograficamente localizado, para um sistema global, o capitalismo necessitou de fazer acertos – e são deles que estamos a sofrer as consequências, até se atingir um novo equilíbrio.

Pondo em confronto economias em estádios de desenvolvimento muito diferentes, a globalização do capitalismo funcionará como os vasos comunicantes: as economias dos países que estão mais acima vão perder peso, as dos que estão mais abaixo vão ganhá-lo.

Claro que isto levará anos, décadas.

Mas não deixará de ser assim.

 

Cidadãos do Ocidente: esta crise não é nenhuma crise – é a simples adaptação das estruturas dos nossos países a uma nova fase da economia de mercado, que de repente sofreu uma expansão brusca.

Estamos a viver um terramoto – semelhante ao que ocorre com os ajustamentos das placas tectónicas – e, como nos verdadeiros terramotos, nada voltará a ser como dantes.

Se outros produzem os mesmos produtos que nós a preços inferiores; se os imigrantes aceitam trabalhos que nós não aceitamos, recebendo salários inferiores; se as empresas que cá estão podem mudar-se para outros países onde conseguem fabricar as mesmas encomendas com menores custos – então ninguém tenha dúvidas de que vamos ter de ceder nos salários, nas regalias, nas benesses, etc.

 

No novo capitalismo global, só há duas alternativas: ou somos competitivos e conseguimos sobreviver ou somos engolidos.

E, para sermos competitivos, temos de passar a viver pior.

Para nós, o tempo das vacas gordas acabou para sempre.

Mas não façamos disso uma tragédia: a verdade é que, no Ocidente, muita gente estava (e ainda está) a viver muito acima das suas necessidades.

 

P. S. – Oliveira e Costa passou num ápice de vilão a carrasco. E foi ver os jornalistas, que horas antes eram capazes de o lançar à  fogueira, usarem as suas palavras como ‘prova da verdade’ sobre o que se passou no BPN. E Dias Loureiro, demitindo-_-se do Conselho de Estado no dia seguinte, deu-lhe razão. Quando é que os políticos percebem que não podem agir ao sabor das ondas mediáticas?

por JAS

Comentários

# PlenaCidadania said on Maio 29, 2009 14:27:

Por que não há 'SOL' sobre o Tâmega?

# Loxyr said on Maio 29, 2009 23:51:

NICE TO HAVE VS MUST HAVE

A

Agrada-me a sua arte de pensar.

B

Socratizar  a Espanha.

C

Zapatero de cabelo preto, junto do Sr. Sócrates parece um sócio júnior.

D

Hoje em dia sem patentear o que se cria no outro já tudo esta copiado e pirateado.

*

Já a agora quantas patentes foram registadas nos últimos 4 anos?

Não há motivação na criação? Ou é preciso fundos europeus?

E

China Índia Brasil tem uma grande população jovem ao contrário da europeia. Na Europa aposta-se no ensino para ser competitivo.

*

Se não há jovens como vai ser o manhã? Europa o continente esquecido?

*

O mundo não espera pela Europa.

*

Eles vão em frente com o progresso, e os 500 milhões de europeus continuam a discutir, e a falar em nazismo.

*

Daqui a 20 anos a coisa esta difícil para a Europa.

F

Sou a favor mas mais concretamente contra.

*

É o termo que se usa quando alguém esta contra mas ao mesmo tempo tira proveitos do que contesta.

G

Um sorriso par ao protocolo.

O Parlamento Inglês tem que se salvar a ele próprio  

H

rescimento de uns são despesas para outros.

Poupar ou trabalhar? Tem que decidir as duas coisas ao mesmo tempo não é possível O estado gasta e cria empregos ou nada faz e o desemprego trepa e a economia desce.

*

O que se gasta com a saúde não fica na economia.

*

O que se poupa no publico vai-se gastar no privado que decerto mais barato não é.

*

E se o publico não da reposta o privado tapa as falhas.

*

Um sector cresce a custa de outro. Poupar no lugar certo não é para depois gastar no lugar errado.

I

Em média, a indústria na Europa deve lançar para o desemprego mais de 50% da sua mão-de-obra.

J

A China se quiser exportar tem que subvencionar o consumo. Interno e nos mercados exportadores.

*

Só que seja quando um militar e oficial chinês ganhar tanto como no exército russo, já para não escrever igual ao exército americano, como vai aquele país aguentar tais orçamentos militares?

L

Portugal deve exportar para a china aquilo que os patrões consomem na sua vida privada. Porque  são os únicos mas muitos que realmente têm dinheiro para importar português. É estudar a sua cultura de consumo para lhes vender.

*

Uma coligação PS/PSD seria uma coligação para 3 anos no máximo.  

*

No último ano seria só entrigas  para ver quem roubava o poder ao outro. E se algum lhe cheira-se a maioria então ainda pior.

M

Só um partido pequeno, que não consiga só por si ser governo consegue se aguentar em coligação para tentar ser sempre governo.

*

Portanto politicamente mais estável.

*

Como a ecologia esta na moda, e o comboio também um meio de transporte preferido dos partidos verdes.

N

Como o PS não deve em Outubro próximo alcançar a maioria, creio que a semelhança do SPD alemão e que muito sucesso teve, uma coligação PEV/PS seria uma solução para os próximos 4 anos.  E além disso muitos votos voltavam a área dos dois partidos. Claro a custa dos votos do  BCP e BE.

*

A crise e a estabilidade politicam que o país precisa seria esta a melhor chave. E que os outros partidos decerto não levavam a mal?

*

Esperamos então pelo fumo branco saindo da  chaminé de S.Bento.

# Viasol said on Maio 30, 2009 0:23:

O ocidente nunca se foi a baixo.

Desta vez tão pouco o vai ficar.

Quando um filho é rico a mãe tão bem não passa fome.

A europa a mãe do mundo.

# Bastu said on Maio 30, 2009 9:00:

Quando se é director e a braços com esta crise;  o querer ser-se claro, breve e convincente, não é proeza fácil...

O JAS aqui, com a sua colorida análise,  parece um desesperado europeu feudalista da Idade Média a encorajar os vassalos,  das virtudes do feudalismo...

Que já estamos na mudança; lá isso, parece ser uma verdade!...

Que não há outro caminho - quer se queira quer não - já há muito que está provado!...

Que a globalização veio para ficar, é um facto que não se pode negar!...  

Agora querer animar o pessoal com a comparação de fenómenos naturais,  ponho as minhas irrefutáveis dúvidas, na sua fabulosa explicação...

Os que viverem nessa altura que o confirmem...  

# reisa said on Maio 30, 2009 11:04:

JAS disse uma grande verdade. O Ocidente viveu acima das suas possibilidades e esbanjou a riqueza artificial. Há famílias que ainda hoje tem 3 televisões , 2 carros, cada filho 2 telemóveis, um cão no apartamento apertado(anti-higiénico) roupas e calçados em exesso, etc.

Chegou a hora de pouparem os mínimos que possuem. ACABOU-SE A BOA VIDA.  

# surpreso said on Maio 30, 2009 17:38:

Isto só está mau para os desempregados e por enquanto nem isso.Devgar se vai voltar ao modelo anterior ,emboa "devagarinho".O mundo está comandado pelos banqueiros e eles querem vender dinheiro.Agora ainda só estão a comprá-lo barato...É evidente que Portugal ,por falta de competitividade, vai recuar uns furos, na escala.Mas vão escolher outra vez Sócrates e terão o que merecem..Teatro..

# jcrf09 said on Maio 31, 2009 22:54:

A questão é que foram as economias ocidentais a abrir a caixa de Pandora, mais própriamente as grandes empresas, suportadas pelos governos.

As grandes empresas com capacidade de se globalizarem, deslocalizaram os seus investimentos para países mais pobres, deixando para trás desemprego, suportado pelo Estado Social.

Como se não bastasse, produzem produtos com custos de mão de obra infinitamente mais baixos do que no ocidente.

Esses produtos entram no mercado ocidental  e fazem concorrencia aos produtos das empresas que não têm capacidade de globalização, gerando mais desemprego...

É concorrência desleal. É como se cá uma empresa não pagasse Segurança Social, obtendo com isso uma vantagem concorrencial.

A globalização só interessa às grandes multinacionais.

Deveria levar uma ou duas décadas a implementar, obrigando esses países a compatibilizar as prestações sociais com as da Europa.

Com as contribuições para o Estado Social, a Europa nunca terá possibilidade para concorrer com esses países.

# zeDasIscas said on Junho 1, 2009 22:43:

Os ocidentais terão que perceber que vivem com rendimentos muitissimo acima da média mundial. Basta que reduzam os seus rendimentos para metade em beneficio dos paises emergentes para que a economia mundial volte ao normal.

Isto no fundo não passa de uma crise de crescimento.

Só precisamos de governos competentes e que nunca se desviem de tres grandes orientações; liberdade, igualdade e fraternidade.

# Atr said on Junho 1, 2009 23:13:

Caro JAS,

Há muita gente a viver acima das suas necessidades ( e aqui a palavra necessidade é de facto a correcta) não somente no ocidente como em qualquer parte do globo.

Chama-se a isso desejo e ganância e faz parte da natureza humana ainda em parte animalesca onde o viver se resume a competir para engolir e não ser engolido.

Agora usar a palavra para sempre e decretar o fim das conquistas é negar a própria evolução.

Eu sei que a evolução não se processa em linha recta e que existem avanços e recuos na proporção de três passos para a frente e dois para trás precisamente para nunca voltar exactamente ao mesmo sitio. Mais uma vez lhe digo que a curto prazo poderá ter razão porque é essa a perspectiva daqueles que vêm o século XXI com uma mentalidade do século XIX e ainda são muitos e com muito poder. Contudo pensar assim é negar aquilo que está inscrito em qualquer parte do universo. Até o sol no seu movimento à volta do centro da galáxia regressa ao que parece ser o mesmo sitio ao fim de cerca de 25.000 anos mas não é exactamente o mesmo sitio porque o seu movimento é em espiral e não num circulo fechado.

Da mesma forma o movimento rotatório fechado dos electrões nos átomos da matéria mais simples se converte num movimento rotatório em espiral e aberto nos elementos mais complexos e por isso a matéria se torna radioactiva até se transformar em energia e daí sucessivamente até aos fenómenos da vida. Isto chama-se evolução e está patente em qualquer parte do universo.

Assim também lhe digo que o homem não vai continuar para sempre um animal feroz com vontade de engolir o próximo a cada esquina. Esqueceu-se que o Homem também tem alma e que no devido momento saberá estabelecer correctas relações humanas precisamente porque é esse o próximo passo para a frente.

No curto prazo essa sua mentalidade vai ainda prevalecer porque ainda está muita gente convencida que é a única forma de vencer.

Contudo há outras formas de todos vencerem sem engolir ou sequer humilhiar o próximo,  através da cooperação.

Se não acredita nesta parte do ser humano é porque você só vê ainda a sua parte animalesca. E contrariamente ao que pensa serão os países ocidentais os primeiros a descobrir isso ou seja a estabelecer correctas relações humanas.

Pode achar-me um lírico ou um otupista mas eu, que estou no meio desse inferno da competição, estou convencido que vão haver mudanças muito mais rápidas do que você imagina em sentido contrário ao capitalismo selvagem porque o HOMEM vai ter que escolher entre a BOLSA e a VIDA e eu tenho fé que escolherá a VIDA. Todos os dados já estão á frente de quém os quizer ver, só que a cegueira e o preconceito ainda mantêm muitos de olhos fechados.

AR.

# teteamigo said on Junho 7, 2009 0:29:

O que não é esperado é que as pessoas não se ponham de lado, aos que fizeram a globalização, nós todos inevitavelmente, mas logo a seguir numa hierarquia bem superior, aqueles que vivem de gigantescas margens que buscam por alocarem o capital, em locais, onde por eles próprios já não querem saber de viver com padrão de vida elevado, onde a cultura é, temos de passar por isto, para não levarmos porrada de superiores, ou então para progredirmos como povo. O caso da China é paradigmático, um pouco mais de 1 bilião de pessoas, com pouco mais de umas dezenas de milhões de ricos, alguns deles provavelmente por serem umas p***s finas do ocidente. Pergunto eu, temos de rebaixarmo-nos aos chineses, que escondem apenas o ciclo do capital, tal e qual, aquelas famílias (analogia ao mundo) onde todos são bons, mas só uns são mais bons que outros, ao querem o que é dos outros, porque fazer riqueza é difícil e explorar pelo mais do mesmo é fácil...

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