O fim das vacas gordas
Na semana passada avancei com uma explicação para a crise inteiramente diferente daquela que tem sido apresentada.
Basicamente, disse o seguinte: o problema não foi o subprime, nem as fraudes, nem outras práticas menos ortodoxas.
O problema é a globalização.
A questão é que o capitalismo deixou de ser ‘regional’ para ser ‘global’.
Um modelo que vigorava apenas na Europa Ocidental e na América (com uma ‘extensão’ ao Japão) em meia dúzia de anos passou a vigorar praticamente em todo o Globo.
Para isto foi decisiva a transição da Rússia e da China do sistema comunista para a economia de mercado.
A crise que estamos a viver é comparável a um terramoto.
No interior da Terra há movimentos constantes de gases e de materiais em ebulição – que regularmente determinam ajustes das placas tectónicas.
Quando esses ajustes atingem determinada dimensão, pode ocorrer um tremor de terra.
Com o capitalismo passou--se o mesmo.
A referida entrada da China e da Rússia (mais os países de Leste) no campo capitalista, o extraordinário aumento da circulação nas últimas décadas de mercadorias e de pessoas por todo o Planeta, foi provocando alterações semelhantes àquelas que se dão no interior da Terra.
Alterações que não podiam deixar de ter consequências explosivas.
Certos produtos do Oriente, feitos nalguns casos por uma mão-de-obra quase escrava, que antes praticamente não saíam dos locais de origem, circulam hoje às toneladas por todo o mundo ao preço da chuva – esmagando os correspondentes produtos feitos nos países ocidentais.
A população migrante flutuante – oriunda do Brasil, da África, da América do Sul –, aceita nos locais de destino (sobretudo América e Europa) tarefas e salários que a população aí residente já não aceita – baixando a fasquia dos salários e das regalias sociais nessas regiões.
As mudanças de linhas de produção de um local para outro (as célebres ‘deslocalizações’) criam atritos entre os trabalhadores dos vários países – aumentando a margem de manobra das administrações das empresas.
O velho apelo de Marx ‘Trabalhadores de todos os países, uni-vos’ está cada vez mais distante, porque os trabalhadores passaram a estar em competição uns com os outros: os operários da AutoEuropa estão hoje contra os operários das fábricas da Volkswagen pelo mundo fora que lhes possam roubar as linhas de produção.
Significa isto que o tempo que aí vem será mais competitivo, mais desumano.
A competição, ao tornar-se global, torna-se mais assanhada, a luta é mais dura.
Quem pense que isto ainda pode voltar para trás, desiluda-se.
Esta crise não vai ser ‘superada’, a ‘retoma’ não vai chegar, pela simples razão de que estes ajustes no capitalismo eram inevitáveis e necessários – e por isso vieram para ficar.
Ao dar o salto de um sistema regional, geograficamente localizado, para um sistema global, o capitalismo necessitou de fazer acertos – e são deles que estamos a sofrer as consequências, até se atingir um novo equilíbrio.
Pondo em confronto economias em estádios de desenvolvimento muito diferentes, a globalização do capitalismo funcionará como os vasos comunicantes: as economias dos países que estão mais acima vão perder peso, as dos que estão mais abaixo vão ganhá-lo.
Claro que isto levará anos, décadas.
Mas não deixará de ser assim.
Cidadãos do Ocidente: esta crise não é nenhuma crise – é a simples adaptação das estruturas dos nossos países a uma nova fase da economia de mercado, que de repente sofreu uma expansão brusca.
Estamos a viver um terramoto – semelhante ao que ocorre com os ajustamentos das placas tectónicas – e, como nos verdadeiros terramotos, nada voltará a ser como dantes.
Se outros produzem os mesmos produtos que nós a preços inferiores; se os imigrantes aceitam trabalhos que nós não aceitamos, recebendo salários inferiores; se as empresas que cá estão podem mudar-se para outros países onde conseguem fabricar as mesmas encomendas com menores custos – então ninguém tenha dúvidas de que vamos ter de ceder nos salários, nas regalias, nas benesses, etc.
No novo capitalismo global, só há duas alternativas: ou somos competitivos e conseguimos sobreviver ou somos engolidos.
E, para sermos competitivos, temos de passar a viver pior.
Para nós, o tempo das vacas gordas acabou para sempre.
Mas não façamos disso uma tragédia: a verdade é que, no Ocidente, muita gente estava (e ainda está) a viver muito acima das suas necessidades.
P. S. – Oliveira e Costa passou num ápice de vilão a carrasco. E foi ver os jornalistas, que horas antes eram capazes de o lançar à fogueira, usarem as suas palavras como ‘prova da verdade’ sobre o que se passou no BPN. E Dias Loureiro, demitindo-_-se do Conselho de Estado no dia seguinte, deu-lhe razão. Quando é que os políticos percebem que não podem agir ao sabor das ondas mediáticas?