Os avalistas de Sócrates
Que Sócrates tem jeito para o cargo que ocupa, já o escrevi várias vezes.
Mas isso não o coloca acima de toda a suspeita.
Também Isaltino Morais tem indiscutível talento para o lugar que desempenha e isso não significa que seja uma pessoa irrepreensível.
Nem o facto de Sócrates ter sido reeleito com clara maioria constitui um atestado de honestidade.
Também Isaltino conquistou uma maioria absoluta depois de ter sido condenado em tribunal.
O jeito para as funções ou as vitórias eleitorais não ilibam os políticos de eventuais crimes ou irregularidades que cometam.
São planos diferentes.
Estou, aliás, convencido de que muitos daqueles que votaram PS nas últimas legislativas não comprariam a Sócrates um carro em segunda mão.
Nem sequer uma bicicleta.
É, pois, para mim um mistério a defesa acirrada que eminentes socialistas fazem dele – como se tivessem a certeza absoluta da sua inocência.
Ao ver António Costa na Quadratura do Círculo, ou Vieira da Silva a atacar a Justiça, ou Santos Silva a disparar em todas as direcções, ou Francisco Assis, ou José Lello, ou Marinho Pinto, ou Proença de Carvalho, ou José Miguel Júdice, todos a porem as mãos no fogo pelo primeiro-ministro, interrogo-me: «Será que estarão mesmo convencidos do que dizem?».
Será que – depois da história da licenciatura, dos projectos de mamarrachos, da central de combustagem da Cova da Beira, do Freeport, agora do Face Oculta – não terão nenhuma dúvida sobre a completa inocência do primeiro-ministro?
Pensarão mesmo que Sócrates é um cidadão inatacável, impoluto, que nunca violou uma lei, que é apenas uma vítima de ataques soezes, produto de perversas maquinações políticas e jornalísticas?
É que, além dos casos duvidosos que foram referenciados, há ainda a questão dos amigos.
Um sábio ditado português sentencia: ‘Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és’.
Sabemos que é assim: é muito difícil uma pessoa séria dar-_-se com gente desonesta e vice-_-versa.
Ora temos de reconhecer que Sócrates se dá com algumas pessoas não muito recomendáveis – o que só por si lança sobre ele algumas dúvidas.
Por tudo isto – insisto – estranho ver tanta gente a defendê-lo com tanto ardor.
Até Mário Soares – que começou por criticá-lo, comparando-o a Blair – hoje defende-_-o com toda a convicção.
E mesmo alguns daqueles que Sócrates demitiu do Governo – como Correia de Campos ou Manuel Pinho – continuam a apoiá-lo.
Enquanto noutros partidos as solidariedades se quebram, há intrigas, conspirações, golpes palacianos, no PS o bloco mantém-se irrepreensivelmente unido.
Dir-se-á que o poder ajuda a que isto aconteça.
Nem sempre é assim: basta ver o que aconteceu no PSD quando Santana Lopes foi primeiro-ministro.
O partido partiu-se ao meio, o Governo foi abandonado a si próprio, mesmo no núcleo duro de Santana se deram divisões e desistências.
Está, pois, por explicar como Sócrates consegue esta unidade em torno de si próprio.
É óbvio que alguns o apoiarão por interesse.
Mas nem todos.
Soares não tem grande necessidade de o fazer, António Costa idem, Correia de Campos também não.
Poderiam, pelo menos, estar calados.
Se o apoiam, só pode ser por uma de duas razões: por motivos tácticos ou por Sócrates os ter pessoalmente persuadido da sua virtude.
Se foi por esta segunda razão, tenho de lhe tirar o chapéu!
Depois de tudo o que se tem dito sobre ele, conseguir isso é obra!
Se foi por motivos tácticos, teremos então de esperar pelos próximos episódios.
E, ou muito me engano, ou esses motivos prendem-se com o objectivo comum de combater Cavaco Silva e a sua recandidatura presidencial.
Uma coisa é certa: Sócrates está hoje nas mãos de outros.
No dia em que algumas personalidades influentes da área do PS o deixarem cair, ele não se aguentará.
Como a sua credibilidade pessoal está afectada, ele depende hoje do aval dos notáveis.
Se António Costa, Mário Soares e a ‘elite’ socialista deixarem de o defender, e ele passar a depender apenas de si próprio e dos seus fieis, não terá condições para continuar.
No dia em que os avalistas lhe retirarem o aval, Sócrates perderá o poder.
P.S. – O PGR, Pinto Monteiro, teve há semanas um desabafo que um jornal transformou em manchete onde dizia mais ou menos isto: «Se for necessário para acalmar os ânimos, eu divulgo as escutas todas do 1.º-ministro». Ora essa divulgação é impossível, como o PGR sabe, por uma razão inultrapassável: as conversas contêm linguagem imprópria, com insultos e referências desprimorosas a figuras públicas, pelo que não podem ser divulgadas. Se isso acontecesse, Sócrates seria forçado a renunciar – ou o PR teria de o demitir.