Os jovens respeitam mais o Ambiente?
H Á MUITAS ideias feitas e lugares comuns completamente errados. Estaria mesmo tentado a dizer que a maioria das ideias feitas são erradas. Mas não vou tão longe.
Uma frase que hoje se ouve frequentemente é que «as novas gerações são mais sensíveis aos problemas ambientais», sugerindo-se com isto que, no futuro, o Ambiente será mais preservado.
Ora esta ideia é duplamente errada: nem os jovens de hoje preservam mais o Ambiente, nem o futuro será melhor do que o presente, bem pelo contrário.
Podem fazer-se cimeiras, declarar-se boas intenções, assinar-se acordos – mas uma coisa a que os homens chamam ‘progresso’ tem muita força e acabará sempre por se impor.
c OMECEMOS pelas preocupações ambientais dos jovens.
É verdade que as novas gerações se mostram mais sensíveis à questão ambiental e à ideologia que a sustenta. Como têm acesso a muito mais informação, absorvem mais rapidamente as ideias em voga. Ralham com as mães por não separarem o lixo ou se enganarem nos contentores, deitando o vidro no contentor do plástico ou metendo as embalagens de leite no contentor do papel e cartão.
Mas estará o comportamento dos jovens, em termos globais, em consonância com a ideologia que dizem defender?
É PRECISO pensar que os jovens de hoje consomem incomensuravelmente mais do que os pais consumiam quando eram jovens. Em todos os aspectos. Consomem mais roupa, mais alimentos, mais tecnologia, mais água, mais energia, etc.
Hoje, logo desde a infância, os jovens começam a querer usar roupa de marca e a ter preocupações com a moda. São bonés, são t-shirts assim ou assado, são calças rotas ou de cós descaído, são ténis de determinado tipo, etc. Há 30 anos este fenómeno não se verificava. Os miúdos não eram influenciados pela moda nem andavam atrás dela.
Na alimentação passa-se o mesmo: a quantidade de porcarias (passe o termo) que os jovens hoje consomem é gigantesca. As prateleiras dos supermercados estão a abarrotar de produtos, a oferta é enorme, há de tudo para todos os gostos (desde refrigerantes de todo o tipo a pacotes de tudo e mais alguma coisa), o marketing é muito agressivo, a juventude é sensível a ele e farta-se de comprar.
Q UANTO à tecnologia, nem vale a pena falar. O que um jovem consome hoje é assustador: telemóveis, headphones, iPhones, iPods, consolas, PlayStations, computadores, impressoras, jogos electrónicos, etc., etc. É um mundo. Que ainda por cima está sempre a ficar ‘obsoleto’, exigindo uma renovação constante.
No que respeita ao consumo de água – e recorrendo a um exemplo simples – basta pensar nos hábitos de higiene. Nas vilas e aldeias, há 30 anos, tomava-_-se banho uma vez por semana, quando se tomava. Ora os filhos dessas pessoas vivem hoje nas cidades e todos tomam banho diariamente. Com a agravante de que são mais gastadores, não têm os cuidados que havia antes. Quem se dá hoje ao trabalho de fechar a torneira da água enquanto escova os dentes ou ensaboa o corpo? O verbo ‘poupar’, que era de uso corrente (e frequente) pelos nossos antepassados, caiu em desuso, quando não é mesmo ridicularizado.
e COM A ENERGIA sucede o mesmo que acontece com a água – ou pior.
Hoje, praticamente todos os jovens a partir dos 18 anos têm carro. E, quando não têm, usam com frequência o carro dos pais. Por isso o consumo de gasolina disparou.
Depois, os jovens vivem hoje muito mais à noite. Viver à noite tornou-se moda. Os hábitos de vida nocturna generalizaram-se, com o consequente aumento dos gastos em energia a todos os níveis (até porque nos estabelecimentos nocturnos não imperam propriamente as preocupações ecológicas).
T ENDO em conta o que fica – e limitei-me a um retrato impressionista –, arrisco-me a dizer que os jovens de hoje consomem em média, de um modo geral, dez a vinte vezes mais do que os jovens de há 30 anos. E não se mostram dispostos a consumir menos.
Que interessa, por isso, preocuparem-se com a separação do lixo ou participarem nas ruidosas manifestações ambientalistas? Que importa isso? Que impacto tem isso? A defesa do Ambiente tem sobretudo que ver com a poluição. Ora, quanto mais consumo houver, mais as indústrias terão de crescer e mais poluição haverá, por melhor que seja a tecnologia usada.
Esta é que é a realidade. As novas gerações habituaram-se a consumir muito – e isso terá consequências ambientais tremendas.
A TÉ AQUI tenho vindo a referir-me à sociedade portuguesa, cuja juventude – no que respeita aos hábitos de consumo – já está, aliás, relativamente próxima da dos países mais ricos. Sucede que, nas regiões menos desenvolvidas, os jovens vão querer no futuro imitar estes. É inevitável.
As juventudes dos países que ficaram para trás quererão progredir. Não admitirão que lhes digam: «A partir de agora não podem consumir mais, porque o mundo já está muito poluído».
Não esqueçamos que, neste momento, há muitos Estados e regiões que dão os primeiros passos na sociedade de consumo – a Rússia e os países do Leste europeu, certas zonas da China e do Oriente, de África e da América Latina – e os seus jovens vão querer usufruir daquilo de que os jovens do Ocidente já beneficiam há muito. A globalização, levando todos os tipos de produtos e as respectivas campanhas de publicidade aos quatro cantos do mundo, acelerará brutalmente este fenómeno.
Tal como os jovens da Europa e dos Estados Unidos – que falam muito em Ambiente mas não querem abdicar de um estilo de vida muito poluente –, também os das regiões menos desenvolvidas não aceitarão abdicar de consumir mais, recusando-se a desempenhar eternamente um papel secundário ou terciário.
A ESPIRAL do progresso é imparável. Talvez no Ocidente o ritmo de crescimento abrande – porque não é possível crescer indefinidamente, sem limites. Mas em vastas áreas do Globo a industrialização não vai abrandar, até irá acelerar-se. A destruição do Planeta pelo homem é, pois, uma inevitabilidade – só falta saber quando se dará a ruptura. Quanto tempo faltará para a Terra se tornar inabitável.
Nós podemos atrasar ou acelerar este fenómeno; não conseguiremos é travá-lo.