Com a devida vénia, transcrevo de Clara Ferreira Alves um seu artigo de Julho 2008. «Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. |
| Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros. |
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| Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto |
| final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. |
| Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. |
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| Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, |
| nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é |
| definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado. |
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| Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, |
| foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao |
| caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. |
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| Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços |
| de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de |
| apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da |
| história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as |
| coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura. |
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| E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este |
| estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos |
| computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao |
| maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e |
| esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade. |
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| Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às |
| escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao |
| caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa e Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? |
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| Vale e Azevedo pagou por todos. |
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| Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de |
| Leonor Beleza com o vírus da sida? |
| Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado |
| num parque aquático? |
| Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos |
| crimes imputados ao padre Frederico? |
| Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre |
| Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? |
| Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja |
| cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal? |
| Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e |
| enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma. |
| No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, |
| alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? |
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| As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da |
| criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a |
| Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância. |
| E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as |
| crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? |
| E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, |
| alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que |
| aconteceu? Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. |
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| E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela |
| reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? |
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| E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios |
| escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que |
| isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da |
| Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha |
| para a sua filha. |
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| E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter |
| assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? |
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| E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de |
| colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é |
| surda, muda, coxa e marreca. |
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| Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são |
| arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao |
| esquecimento. |
| Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. |
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| Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem |
| eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e |
| abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto |
| que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. |
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| Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de |
| protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e |
| reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade. |
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| Este é o maior fracasso da democracia portuguesa.» |