LAGOS: SOMOS DOS QUE ESCOLHERAM IR DESCOBRIR !

ESTA DEMOCRACIA MORREU. QUEREMOS OUTRA. EM LIBERDADE (II)
LAGOS 1/3
No post sobre esta Democracia Portuguesa (v. link
) em que tão penosamente sobrevivemos e que já tantos, embora tão
tardiamente, vão reconhecendo estar podre, falida e conter das maiores
impunidades que se possam imaginar, prometi escrever sobre o que me
preocupa mais de perto: Lagos, a cidade onde nasci e resido e o
Algarve, a minha região e de tantas gerações de antepassados, de quase
todos os concelhos desta região de Portugal.
Como esta minha promessa tem algumas
semanas, tomo a iniciativa de compensar os prezados leitores com esta
prosa dividida em várias partes por ser algo extensa, dirão, mas que
terá múltiplas utilidades tanto para quem aprecia o humilde escriba
como para quem gosta de extensões. Nomeadamente quando estiverem à
espera por alguma coisa, como por exemplo que a Onda passe a
bio-diesel, que o comboio parta ou chegue a iTunes – que bom já
chegámos – ou que a competente auto-estrada vá de Bensafrim até Sines,
ou que se inaugurem três pólos da Universidade de Faro em Lagos,
Aljezur e Sagres ou então para um sempre útil ‘3 em 1′ alternativo como
será:
1) o de esperar por vez no wc do centro comercial Marina, logo seguido pela
2) sua utilização como cinzeiro, enrolando o papel em cone e
3) se ainda por cima o papel já tiver
acabado nesse momento sublime para qualquer opositor do que quer que
seja, fazer então esse exercício de aproveitar a foto do topo do texto,
que já vai preparada para tal, fazer uma tatuagem do Talefe por baixo,
com a adequada compressão sem tremer, ao mesmo tempo que
3.1) põe a si mesmo a hipótese séria de
se opôr a si próprio, coisa adequada para cada vez mais gente que, de
repente, se vai vendo a falar sòzinha e
3.2) fazer um exercício libertador
dizendo em voz alta: “Não, não, agora não posso que não tenho papel,
não tenho papel, não tenho papel…”.
Não esquecer que, antes de sair, será
imperativo pensar porque é que não tinha papel. Das duas três: ou é
porque gastaram o papel todo, ou porque o levaram para limpar as mãos
ou, então, é porque se esqueceram de pôr mais papel, logo quando lhe
era mais necessário. Este insignificante passo reflexivo é deveras
importante para perceber completamente o texto e para que o mesmo não
lhe volte a acontecer no futuro…
Não esqueça que, após sair, é
imperativo escolher interiorizar a opção “ver se há papel” antes de
entrar. Havendo papel entre pela porta que tem papel. Se não o fizer,
pode acontecer-lhe exactamente o mesmo que antes. Depois de entrar, se
já não se tiver borrado entretanto, tente perceber porque é que já lhe
passou a vontade. Se não lhe passou a vontade é porque o Talefe não
provoca prisão de ventre. Já o contrário não me atrevo a afirmar.
Alivie-se, que já vai sendo tempo.
Não é simples nem fácil pensar ou
ignorar o que se passa em Lagos. Para mais, nos tempos que correm. Mais
que esquecer as inúmeras memórias que todos temos e devemos ter
presentes independentemente das origens de cada um – porque se a Terra
é só uma, então a nossa terra é onde temos os pés a cada momento – pior
é esquecer a memória dos sucessivos sonhos colectivos e pessoais, por
serem ainda em maior número que a dos factos que possamos
individualmente recordar. Do mais subido piorio é a sua traição.
É que se a diversidade é riqueza, como
está abundantemente demostrado, afrontar ou esquecer as matrizes
sociológicas intrínsecas pode ter consequências imprevisíveis para quem
quer que seja que o faça. Ou deixe fazer.
AVISO À NAVEGAÇÃO
Antes de mais, quero esclarecer que não
gosto de brincar nem com as palavras, nem com o tempo, nem com os
direitos ou com o dinheiro dos outros. Coisa que constato mais
frequentemente do que seria admissível acontecer nesta nossa terra
portuguesa. O tempo não é de ironias vãs, e seria uma extultícia da
minha parte explicar aqui o que é um weblog (abrev. blog). Nunca fui
nem vou em grupos e a última coisa que quero é confundir as pessoas,
coitadinhas, com a emissão com boatos, lamúrias ou falsidades, como
algures se pode ler numa espécie de blog impresso da nossa terra. Não,
não, este é um texto de opinião livre e genuína de um cidadão do mundo,
europeu, português, algarvio, lacobrigense e tudo! Nascido na Travessa
do Penhasco…
Posto isto, acredito que os tempos são,
e serão crescentemente, potenciadores dos maiores perigos e das maiores
confusões – ninguém disso tenha dúvidas – das aborgadens mais
demagógicas assumidas sob a capa de uma repetição discursiva de lugares
comuns, já demonstradamente ultrapassadas pelos acontecimentos, mas
sempre ao serviço aparentemente inconsciente de males maiores. Sem
falsas ingenuidades, não creio que sejam estes os momentos de inventar
problemas onde eles não existem. E muito menos de condicionar a opinião
divergente, venha ela de onde vier. Era só o que faltava. Todos somos
poucos.
Mas, sobretudo, estes também não são
mais os tempos de ignorar a realidade e olhar para o lado como se ela
não existisse. Por outras palavras, é importante valorizar e
rentabilizar tudo o que de positivo existe, e é muito, mas não é menos
imperativo olhar e ver as causas de tudo o que de negativo existe, o
que também não é pouco. Seja qual fôr o veículo. Identificar as causas,
as origens, dessas realidades negativas e resolvê-las consistentemente
e pela positiva em união de esforços, em vez de inventar falsas
questões e separatismos pessoais ou (pseudo)grupais a partir das
consequências – as quais, por serem infelizmente já reais, se prestam a
esse exercício da mais pura desonestidade intelectual – isso é que é
por demais contraproducente face aos legítimos interesses da
generalidade das pessoas.
A situação é claramente de emergência
nacional e, como tal, também regional e local. Como a conta-gotas vai
sendo reconhecido pelos mais variados opinion leaders de todas as (in)sensibilidades.
Escrevo agora sobre Lagos porque quero
exercer este meu direito de cidadania e porque é a minha terra. Como
antes escrevi de Portugal e como escreverei oportunamente de uma
perspectiva evolutiva que transmitirei e que vem sendo desenvolvida por
alguns cidadãos para o Algarve, tema que se imporá este ano, mais que
nunca, introduzir no debate autárquico da região. Sem tibiezas nem
rodeios, porque neste conservadorismo estrutural em que vegetamos há
décadas… reside uma das origens recorrentes que vêm sedimentando as
falsas soluções, com os consequentes problemas com que todos nos
debatemos. Ninguém tenha ilusões porque ninguém o fará por nós. Muito
menos as tenham os que pensaram que podiam lucrar eternamente com a
chamada “situação” e que, dramaticamente para todos, parece ainda não
terem percebido que tudo perderão nada fôr alterado. Como aliás já
aconteceu antes…
Conheço e tenho estima pessoal por
alguns dos que local e regionalmente têm vindo a desempenhar cargos
públicos a todos os níveis e em todos os quadrantes. Não me move
qualquer tipo de parcialidade própria destes tempos eleitorais. O que
seria até reforçadamente legítimo, dado que estamos perante um Abismo e
como eu nasci na Travessa do Penhasco tenho experiência naturalmente
destas coisas. Como tantos outros concidadãos. Mas não é o caso, fiquem
descansados.
De resto, apenas acrescento aqui hoje
que, quer no país ou no estrangeiro, em todos os locais por onde passei
em muito trabalho e pouco lazer nos últimos 30 anos, tenho poucos mas
bons amigos e amigas em praticamente todas as áreas profissionais ou
políticas, e acrescento que jamais fui acusado de incompetência ou de
deslealdade.
Como alguém disse um dia «não vos posso dar a receita do meus bons sucessos, mas a dos fracassos é querer agradar a todos».
Por isso, e por muito alta que possa vir a ser a discórdia, desde já
reitero que, da minha parte, a consideração pessoal será a de sempre,
independentemente de todas as divergências.
O que é imperativo, o que nos interessa
a todos, é o exercício prático da Liberdade por Todos, a salvação da
Democracia como regime e a positivação urgente da dificílima realidade
em que estamos a navegar colectivamente, embora a maioria possa ainda
não ter dela a devida consciência. Ou não queiram ou não possam
expressá-la. Como lapidarmente referiu A. Barreto recentemente «A falta de capacidade de respirar livremente, sem recordar os fantasmas, é a vontade de viver amarrado ao passado».
Isto é válido em Portugal e em Lagos, como no resto do Algarve. Porque, repito, todos somos poucos.
A INICIAL MEMÓRIA DA MÚSICA E DA CARPINTARIA DO MEU AVÔ
Numa breve viagem por aquelas memórias
pessoais mais ou menos fortes, apesar deste lacobrigense ter nascido
apenas em 1960, esse “ano da avenida” e das “comemorações henriquinas”,
a memória mais inicial que transporto é a de ter saído de casa numa
bela tarde apenas com dois anos. Relataram-me anos depois o desespero
dos meus pais e dos amigos a correr pela avenida até que por fim me
encontraram tranquilamente, já noite dentro, a ouvir um ensaio na
Filarmónica. No mesmo local onde anos atrás o meu avô Pedro Martins,
que tinha uma carpintaria na Rua de São Sebastião, tinha tocado…
Coincidências.
Deve-se aliás à Filarmónica a minha
existência, porque foi numa arruada da banda que esse pai do meu pai
conheceu a minha avó Maria do Carmo Borba! Embora esse episódio deva
ter ocorrido com uma das bandas filarmónicas que precedeu a “1º de
Maio”, essa mesma que no Dia do Trabalhador de 2009 comemorou os seus
78 anos. Aqui ficam os meus mais sinceros parabéns e votos de longa
vida para esta nossa tão genuinamente pioneira e profícua academia de
música e a todas as outras que fizeram e asseguram a continuidade do
ensino da Música..
A MEMÓRIA DO CINEMA IMPÉRIO, DOS AMENDOINS E DO BANCO, DO PEDREIRO E DO PAPAGAIO
Quero relembrar hoje aqui esse quase
poético desfile semanal do “homem do cinema” que ia buscar, uma vez por
semana a pé e de carro-de-mão, as bobines dos filmes novos à Estação
C.F. ou o bom e quase sempre “inexplicavelmente” triste Sr. Salazar,
que vendia amendoins à porta do banco a informar, com ar grave os que
lhe pediam ali mesmo dinheiro emprestado, do acordo que ele tinha com o
BPA e que o impedia de o fazer: «Ó homem, então vocemecê não vê que eu
tenho que respeitar o acordo que tenho aqui com o banco. Sabe, é que a
gente tem um acordo, eles não vendem amendoins e eu não empresto
dinheiro, ‘tá percebendo?». Se fosse hoje… até empresas de cafés e
sumos os bancos têm. Dinheiro é outra conversa… Mas adiante.
Recordo-me ainda muito vivamente
daquele mágico espectáculo do sábio pedreiro-maestro do papagaio
Loureco das antiguidades pondo-o a cantar como um tenor “Goooooolll..do
Benfica” ao fim da tarde quando diariamente por ali passava pela Rua
Direita. Só visto. Simplesmente mágico.
OUTRAS MEMÓRIAS E O GIGANTESCO DR. TELLO
E que dizer do insupeitadamente
cultíssimo e poliglota Mestre Despachadinho, em cuja loja funcionou a
sede local da campanha do General Humberto Delgado?…Genial aquela sua
resposta a um tipo do Norte que queria comprar chumbadas e lhe
perguntou se tinha “tomates de chumbo” (com ‘c’) ao que o Mestre, com
aquele seu andar característico e nada apressado lhe respondeu,
mirando-o de soslaio por cima do ombro e levando a mão à anca: “Não,
não, isto é só uma dôrzinha aqui nas costas”…
Muito viva é também a memória do
Coronel Rocha de Abreu, que integrou a S. P. Teosofia, outro superior
espírito que empreendeu entre nós a notável “Casa de S. Gonçalo”, assim
como é essencial relembrar – hoje mais que nunca – essas tranquilas
lições cívicas de vida do enorme Dr. António Guerreiro Tello, com
consultório um pouco mais abaixo, inestimável para tantos
lacobrigenses. Conta quem assistiu, que proferiu um discurso
inolvidável na Praça da Música, nos anos 50, em que explicou à Cidade
porque decidiu não aceitar o convite que o regime do Estado Novo lhe
fazia para ir para Lisboa como deputado. No final, tardaram os aplausos
unânimes porque todos os que o ouviram, ou seja a totalidade da praça
(a cidade de então em peso…), ficaram literalmente em lágrimas, com
alguns em pranto convulsivo…
Aqui fica uma única sugestão para quem
a possa concretizar: já tarda homenagear, mais do que em nome de rua,
com uma estátua ainda maior que a do tamanho real desse gigante de
humanidade e altruísmo que escolheu viver na nossa Grande Cidade. O
nosso Tolentino de Lagos certamente aceitará materializar esse
imperativo de tão vivo traço da consciência colectiva com desconto
especial.
Por mim, antevejo que a estátua seja
colocada em pé e sem pedestal nessa mesma praça de tão indescritível
discurso. Em pé em homenagem à sua verticalidade e ao lado dos seus
iguais, como tão sabiamente soube estar e ser sempre tão essencialmente
útil.
LAGOS: ÀS PORTAS DE UM PORTUGAL DO FATALISMO, DA INJUSTIÇA E DA IMPUNIDADE
Se todos nós nascemos originais e
morremos cópias, como alguém disse um dia, são estas – como inúmeras
outras – as pequenas coisas que nos dinamizam os espíritos e não se
limitam apenas a habitar-nos a memória. São antes uma fonte de
inspiração e motivação acrescidas para continuar a manter viva uma
lúcida capacidade de indignação perante as sucessivas situações reais
que, embora diferentes no tempo, espaço e qualidade, afinal por vezes
contiveram e contêm idênticos e tão comuns atributos negativos: da
INJUSTIÇA à IMPUNIDADE passando pelas vitórias sobre todos os
FATALISMOS.
São aqueles traços vivos, diferentes
consoante a percepção pessoal de cada um, que nos podem fazer ser aqui
cada vez menos cópias de nós mesmos e cada vez mais originais, seja
face à nossa essencial matriz sociológica, seja nas concretizações para
que estamos permanentemente convocados pela MATERIALIZAR, como outros o
fizeram no passado. Uns mais outros menos, não importa.Cada um à sua
medida e na sua dimensão, o que importa é NÃO DESISTIR e OUSAR AGIR
SEMPRE !
Porque é perante a necessidade de saber
escolher as saídas para a desgraça colectiva em nos tentam
objectivamente encurralar que todos estamos confrontados neste raro ano
de quase todas as escolhas.
LAGOS, O BARLAVENTO E A HISTÓRIA: SOMOS DOS QUE ESCOLHERAM IR DESCOBRIR
Não é preciso recuar ao Califa
Abderrahman e ao seu trabalho na organização desta Zawia, Cidade do
Lago… ou do Poço, poço sem fundo em que o despótico centralismo vem de
tempos a tempos insistir em nos manter afogados, largando migalhita
aqui e ali, para reverente gáudio provinciano das afanosas tribos
políticas, como antes aconteceu com as tribos corporativas.
Comecemos antes pela Vela, porque fomos
nós, os Portugueses, que inventámos a primeira capaz de navegar contra
o vento…E daqui fomos, nessa atitude inspiradora de interiorização bem
necessária hoje para quem quiser sobreviver ao autêntico tsunami
financeiro que está, apenas e ainda em crescimento descontrolado, a
alastrar a todas as áreas e a todo o mundo, com excepção da Antárctida,
essa espécie de Atlântida de que muito pouco se fala…
É que podem ter tido origem no pinhal
de Leiria as madeiras para os barcos, ou a carne do Norte para
mantimentos, na razão original das tão famosas tripas, mas aqui, nesta
nossa região do Barlavento do Algarve não ficámos, naquele tempo
refundador, ao abrigo confortável de qualquer restelo mental a ver a
barcaria partir e a falar – erradamente, como a História constatou – da
impossibilidade dessa tão gigantesca empresa que foram os
Descobrimentos Portugueses.
Não, aqui se escolheu fixar a produção
da empresa, mobilizando a necessária Inteligência disponível, e daqui
eram as Pessoas, as conhecidas mas sobretudo as incógnitas, que
partiram e voltaram materializando essa inovação de confiar e querer
ligar pelo Mar as separadas Terras. Porque raio estatemos condenados a
ficar agora parados a lamentar o “Deixa Mamar” televisivo à espera que
outros resolvam o que só nós podemos resolver?
LAGOS E O TERRAMOTO DE 1755 DIARIAMENTE RECORDADO POR…UM SINO
Que fique desde já muito clarinho que
não há marreco mental nenhum que nos consiga retirar o nosso grandioso
e factual contributo histórico. Seja quem fôr e onde possa estar
instalado em nosso nome. Nem que seja em Odemira. Por maiores que sejam
a estrutural vénia ou o vivaz poderoso. Desse contributo não se podem
apenas conservar cartas forais ou fazer desfiles históricos por mais
belos que sejam. E são, mas é preciso mais.
Mais do que encenar participadamente
esta encruzilhada de tantas culturas distantes no tempo e no espaço, é
muito importante fixar documentalmente a memória do dificílimo trânsito
de tantas comunidades do/pelo nosso Barlavento junto dos mais jovens,
designadamente desde o período em que o terramoto de 1755 nos levou o
estatuto e toda uma vida própria de Capital do Algarve e uma das
cidades mais importantes da Europa… para Faro, onde qualquer dia até
para ir aos mictórios lá teremos que nos fazer à via.
Para aliviar a carga, ainda um dia
destes, pensando eu que cada estabelecimento aberto ao público tinha
que ter um, perguntei por lá num balcão de café onde eram e obtive a
seguinte resposta de uma solícita empregada de cachucho no dedo e no
melhor português do Brasil: “Mictóriósss não temosss, só pástèuzinhosss
de bácálhauu e tão bein chamuçasss…”. Faro no seu melhor. Aguentei-me,
lá pedi uma chamuça e… “oberei”. Que me perdoem a recorrente alusão,
mas não é este um dos já raros exercícios espirituais que nos restam
hoje? Recomendo-o pelo menos uma vez por dia, e quanto mais cedo
melhor, como treino para este tão igualmente raro e inoportuno ano
eleitoral. Depois duma dentada inicial, lembrei-me da tribo canibal dos
Costas, uns 10 000, que apenas permitiram a miscigenação de um Costa
português que a liderou e foram essenciais para correr com os
holandeses do Brasil, que fugiram – poucos – aterrorizados, porque os
valentes Costas, depois de ganharem as suas batalhas, assavam e comiam
os inimigos. Restou aos holandeses vir cá ao nosso Tejo de dois em dois
anos com uma frotita ameaçante receber a sua acordada tençazinha de
ouro…
Ainda tentei meter conversa com ela
elogiando-lhe o anel, perguntei-lhe se era diamante, mas ela deixou-me
estarrecido: “Não sinhor, é dji marido mesmo…”. É de momentos destes
que um qualquer dia precisa. Reflexão e rara riqueza cultural. Acabei
de comer, paguei e lá fui eu à procura da casa-de-banho do centro
comercial. Tanto mar…
Estou também a gostar muito de
recomendar a quem conheço outro invulgar exercício enriquecedor de
qualquer cidadania: a audição dessa espantosa média diária de 607
badaladas do autárquico sino da Igreja de São Sebastião, em Lagos. Ele
estar várias vezes acima do máximo legal está, mas faz muito bem ao
espírito de tolerância democrática tão necessário nestes dias. E não é
que está a virar atracção turística?
Conheço mesmo um casal que já veio de
Lisboa, ela prima de uma outra célebre balconista, da Damaia lisbia, só
para ouvir o tão celestial chimfrim. Vejam bem que eles costumam ir a
Mafra aos concertos de carrilhão, mas quando eu lhes falei que as
melhores badaladas nacionais eram as de Lagos ao domingo de manhã,
puseram-se à estrada. E gostaram os dois muito. Não foi de carrilhão
mas foi de badalo. Eles não ouvem muito bem, mas conseguiram afinar os
aparelhos antes do segundo chorrilho e adoraram.
Aliás, também sei de fonte segura que o
ministro M. GAGO apreciou devidamente aquela que se está a tornar,
conjuntamente com o nosso novo e bom pároco (haja Deus…), numa nóvel
atracção turístico-religiosa que apresenta sinergias por demais
evidentes com o inaugurado Centro Ciência Viva. Mais concretamente no
âmbito da Acústica, esse ramo da Física que estuda os Sons. Se ainda
ontem até um gajo que é SURDO que nem uma porta sorriu para mim olhando
para o sino, a descer a rua. Como estavam a dar as badaladas do
meio-dia só pode ter sido de alegria…
Mas ainda sobre o sino da igreja onde
fui baptizado, de resto, de que me serviria ir eu agora incomodar o
Ministério Público com as badaladas de um sino se nem um qualquer
suporte vídeo pode ser admitido como prova no sistema processual penal
em que os nossos insignes magistrados estão obrigados a trabalhar? O
que ainda não percebi, e ainda me irão explicar um dia, é para é que
servem os sistemas de vigilância electrónica pagos a peso de ouro pelo
erário público que se vão instalando por todo o país…como no centro
histórico do Porto, por exemplo. Será apenas para se conseguir atingir
esse inconcebível objectivo que diz ser o de aumentar a “sensação de
segurança”? Será esta assim como, digamos que, eventualmente, uma
espécie de segurança? Não há pachorra…
Posto isto, claro que ficamos, como
todos os portugueses, ansiosamente à espera de mais medidas para
aumentar outras sensações muito importantes, em vez desta espécie de
sensação de absorção que quase todos sentem no bolso. Assim de repente,
lembro-me de algumas outras espécies de sensações: a sensação de
vivermos em democracia e liberdade, a sensação de termos procura
turística, a sensação de termos comida à mesa duas vezes por dia, a
sensação de estarmos a ser governados por gente competente, rigorosa e
desapegada do poder, a sensação de ter trabalho – que emprego é outra
conversa – a sensação de termos um aparelho de Estado pequeno, dinâmico
e efectivamente controlador, a sensação de termos uma comunicação
social livre, a sensação de crescimento económico ou essa basilar
sensação de Justiça…
LAGOS E O BARLAVENTO DO ALGARVE
Estava eu a pensar que me faltava um
MUDO para este breve apontamento de frutuosa ironia e eis senão quando,
ao folhear o CM de segunda-feira 4, me deparo com a surpreendente
visita de S. Exª. o Ministro do Ambiente à Vila do Bispo – num
domingo…onde é que eu já vi isto? – para anunciar o 4º Polis Litoral, a
começar já já já em 2010 e com a duração de 3 anos, 8 a 10 milhões de
contos, «para valorizar as áreas balneares, proteger as arribas,
criar percursos de visitação, ecovias e ciclovias e ainda melhorar os
núcleos populacionais». O homem pode falar pouco, mas lá que
anuncia bem anuncia. E como também tem interesses pessoais na nossa
sub-região ficamos mais descansados. Ou tudo isto vai mudar para
melhor, ou então é mais um episódio do “agora-é-que-é-ismo” cíclico, mesmo em cima das eleições.
Ainda para mais, como «o anúncio de
Nunes Correia agradou ao presidente da Câmara de Vila do Bispo,
Gilberto Viegas, que reclamara precisamente a necessidade de um Polis
para a Costa Vicentina» ou até porque «O ministro não resistiu a comentar que o referido autarca tem “um dedo que adivinha”», nós, os Cidadãos do Triângulo Vicentino ficamos todos ainda mais reforçadamente descansados…
Embora também tenha aproveitado a
oportunidade para logo falar sobre “turismo de qualidade” e não tenha
falado nadinha nadinha nadinha sobre eólicas. Mas o mais assustador é
que nem uma palavrinha saiu sobre os já célebres PIN’s, essa aberração
do Direito Administrativo com que o centralismo da capital e dos
felizes provincianos que o garantem brindam repetidamente todos os
Cidadãos e todo o País.
Sast’fet’ ia eu virar a página quando me chama a atenção mais peixe: «Segundo
o governante, o objectivo “é trazer desenvolvimento a uma região cujas
populações se sentem muitas vezes abandonadas”. Mas alertou para o
facto de as actividades económicas a implementar terem de ser
“compatíveis com as exigências do Parque Natural do Sudoeste Alentejano
e Costa Vicentina”, dado que “não se pode matar a galinha dos ovos de
ouro”. A aposta passa, por isso, pelo “turismo de qualidade”.» e «Nunes
Correia disse ainda que esta semana será revista a portaria sobre a
pesca lúdica no Parque Natural, sendo aliviadas as restrições em vigor
desde Fevereiro». Na mesma ocasião o ministro informou ainda que «O
Governo vai apresentar no dia 18 de Maio uma nova proposta para a
revisão do Plano de Ordenamento do Parque Natural do Sudoeste
Alentejano e Costa Vicentina.»…
Uma região cujas populações se sentem
muitas vezes abandonadas? Coitadinhas? Quantas vezes? A que horas? E é
quem as abandona ou abandonou que lhes pretende vir agora ensinar a
viver na sua própria terra? Não será isto um claro caso que integra o
extenso rol do que designa geralmente por demagogia eleitoralista? Quem
pensa esta gente que ainda pode enganar? Só se fôr quem, uma vez mais,
pensa que lucra com a presença nos poderes públicos ao serviço da “situação“… e de parques naturais então nem vale a pena falar muito.
Continuem a espalhar-se ao comprido que
cá estaremos todos um dia para fazer as contas. Se não desaparecerem os
registos das pseudo-legalidades…
Nunes Correia realmente empolgou-se com
a encomenda. Mas a realidade dos “seus” anúncios é que contêm
demasiadas coincidências em mais um episódio “3 em 1″ definitivamente
esclarecedor:
1) o anúncio de um Plano de Investimento, simultâneo à
2) alteração do Plano de Ordenamento que o condiciona… e
3) a pouco tempo de mais umas eleições autárquicas e legislativas.
Para já, uma coisa é certa: como o pior
CEGO é o que não quer ver, cegos seremos todos os que ainda queiramos
insistir em não querer ver a realidade do mais despudorado saque
patrimonial, cultural e eleitoral nesta democracia triste, podre,
corrupta, falida e ainda impune em que ainda têm a suprema lata de nos
vir portas adentro tentar forçar a que nela vegetemos reverencialmente
agradecidos.
Como diria um antigo mecânico sobre um
velho modelo que não cumpria a sua função, parece-me que as “polis” já
estão um poucachinho gastas.
E, já agora, uma sugestão para o Sr.
Ministro: é para pedir-lhe o favor de informar S. Exª. o Senhor
Presidente do Conselho que tão silenciosamente integra que a Costa
Vicentina não é no Sudoeste Alentejano, é no Barlavento do Algarve. Já
sei que dirão que sempre assim foi, que a sede sempre foi em Odemira,
mas olhe que esta ainda é uma boa oportunidade para desfazer mais um
erro organizacional não sufragado pelos titulares do Poder Democrático:
os Cidadãos. Ah, e para mandar rever os sistemas anti-fogo e
anti-intrusão desse escritóriozeco inútil. Seria uma pena que se
perdessem os registos e os documentos de tão cansativo e profícuo
trabalho de defesa do nosso património natural que, certamente por
fatal coincidência, só começou a ser desgraçadamente delapidado depois
dessas invenções que são mais uma espécie de besilhões organizacionais
com poderes especiais.
E, olhe, senhor ministro do ambiente,
já agora, que abra ou mande abrir as portas do que sempre esteve aberto
a todos, há mais de 500 anos… Nem o Salazar, que era danadinho para as
contas – apesar de ser de Direito… – se lembrou de cobrar entradas na
Fortaleza de Sagres. Certamente as entradas pagas são para implementar
o turismo de qualidade…
Outra vergonha que qualquer Cidadão
Português sente é o Farol do Cabo de S. Vicente estar fechado. Há
gente que vem do outro lado do mundo e fica à porta a olhar por entre
as grades… Um verdadeiro nojo que envergonha qualquer pessoa que tenha
vergonha na cara. Se calhar ainda é para abrir lá algum wellness resort PINote ou um restaurante chinês, não? A bem de um turismo de qualidade?…
De regresso à História das Gentes,
acredito que continua a ser pertinente fazer um levantamento
sistemático das pessoas, contextos e das vidas que fizeram a História
da nossa Cidade e da nossa Região. Há ainda algumas pessoas vivas que
tem essas memórias, que urge fixar para o futuro. E existem tantas
iniciativas dispersas de muito mérito que urge reunir e divulgar.
Na minha opinião, esse trabalho de
restauro da memória deve focar com especial incidência esse nada
inocente vazio no ensino escolar português com que, durante tanto
tempo, foi esquecida a História do séc. XX no Algarve até aos anos 70.
Sem esquecer os mais recuados anos da Revolução Liberal do séc. XIX,
com muita memória oral viva ainda no eixo Lagoa/Silves, importa
conhecer melhor o que foram os anos da Implantação da República, do
Estado Novo, da Guerra Colonial e os anos vizinhos do 25 de Abril de
1974 entre nós. Tal como inventariar e registar os espólios dispersos
e, evidentemente, conservar os documentos registados. Estes e todos os
outros, mais recentes. Não vá acontecer-lhes o mesmo que aos azulejos e
a tantas outras peças patrimoniais por este país fora, ou qualquer
outro imprevisto mais quente ou poderoso…
LAGOS HOJE: AMAR A CIDADE É RESPEITAR OS DIREITOS DOS CONCIDADÃOS
Há mais de 2 anos tive a dolorosa
oportunidade de mandar gravar na campa de minha Mãe uma citação que me
apareceu naqueles momentos tão difíceis: «O Amor é o único sonho que não se sonha».
Porque foi a grande lição de vida que dela pude receber e que aqui
partilho com todos. Recebi-a eu como tantas outras pessoas que com ela
conviveram diariamente no exercício da sua tão generosa profissão de
Professora. “Os seus outros filhos e filhas” – como ela dizia sempre
com indisfarçável orgulho.
Bem me parece que este raro sentido do
Amor realmente faz-se, constrói-se, pratica-se. No seu sentido maior
pode fazer-se todos os dias, no respeito completo pelo outro, na
palavra amiga, na ajuda ao que menos sabe ou menos pode, ajudando-o a
progredir pessoal e profissionalmente mesmo em contextos complicados,
como era frequente e nestes tempos está a voltar a ser. Assim como se
faz ajudando a levantar-se quem tropeça e cai. Ou avisando, prevenindo
sem sobrancerias mas com clareza. Embora o que mais vemos em todo o
lado seja o abandono, o abuso do saber em relação ao que menos sabe ou
os mais brutais e silenciosos abusos de confiança que desaguam na
subversão de tantas realidades e potenciais pessoais sacrificados a tão
tristes quão temporários oportunismos pessoais e políticos…
Mas esse Amor também se faz na defesa
do que é nosso, sejam postos de trabalho ou patrimónios, pessoais ou
colectivos, materiais e imateriais, desempenhados e conquistados
honestamente e com continuado esforço ao longo de tantas vidas de luta
e trabalho tantas vezes oculto na espuma dos dias mais ou menos negros
da nossa vida colectiva. Os quais, ninguém disto tenha dúvidas, estão
de novo no horizonte temporal de Portugal, como nos de Lagos e do
Algarve.
É em nome desse AMOR e desse RESPEITO
pela MEMÓRIA e pelo TRABALHO de todos quantos por cá andaram antes de
nós que escrevo estas linhas. A mim, em concreto, possibilitou a este
neto de dois honestos carpinteiros não ter que “vender a alma ao
diabo”. Sem entrar noutros detalhes, que existem, viabilizou-me um
dificílimo regresso às origens (v. link
) recusando-me à incluir-me no extensíssimo rol dos reféns da
componente empresarial privada de um sistema corrupto e ainda impune,
cujos respectivos “rabos de palha” irão mais cedo ou mais tarde arder,
acesos de uma forma ou de outra, mas sempre de modo perigosamente
imprevisivel… Porque tudo tem limites.
É que pode enganar-se uma pessoa uma
vez, duas pessoas duas vezes, mas não se pode enganar toda a gente o
tempo todo! Nem em Portugal, nem no Algarve, nem em Lagos.
(…/…)
José Borba Martins, Lagos