SOL

J. B. DLEGS

A OPINÃO DE UM PORTUGUÊS LIVRE ou A IRONIA LOCAL CONTRA A ANESTESIA GERAL

LAGOS: SOMOS DOS QUE ESCOLHERAM IR DESCOBRIR !

 

 

 

ESTA DEMOCRACIA MORREU. QUEREMOS OUTRA. EM LIBERDADE (II)

LAGOS 1/3

No post sobre esta Democracia Portuguesa (v. link ) em que tão penosamente sobrevivemos e que já tantos, embora tão tardiamente, vão reconhecendo estar podre, falida e conter das maiores impunidades que se possam imaginar, prometi escrever sobre o que me preocupa mais de perto: Lagos, a cidade onde nasci e resido e o Algarve, a minha região e de tantas gerações de antepassados, de quase todos os concelhos desta região de Portugal.

Como esta minha promessa tem algumas semanas, tomo a iniciativa de compensar os prezados leitores com esta prosa dividida em várias partes por ser algo extensa, dirão, mas que terá múltiplas utilidades tanto para quem aprecia o humilde escriba como para quem gosta de extensões. Nomeadamente quando estiverem à espera por alguma coisa, como por exemplo que a Onda passe a bio-diesel, que o comboio parta ou chegue a iTunes – que bom já chegámos – ou que a competente auto-estrada vá de Bensafrim até Sines, ou que se inaugurem três pólos da Universidade de Faro em Lagos, Aljezur e Sagres ou então para um sempre útil ‘3 em 1′ alternativo como será:

1) o de esperar por vez no wc do centro comercial Marina, logo seguido pela

2) sua utilização como cinzeiro, enrolando o papel em cone e

3) se ainda por cima o papel já tiver acabado nesse momento sublime para qualquer opositor do que quer que seja, fazer então esse exercício de aproveitar a foto do topo do texto, que já vai preparada para tal, fazer uma tatuagem do Talefe por baixo, com a adequada compressão sem tremer, ao mesmo tempo que

3.1) põe a si mesmo a hipótese séria de se opôr a si próprio, coisa adequada para cada vez mais gente que, de repente, se vai vendo a falar sòzinha e

3.2) fazer um exercício libertador dizendo em voz alta: “Não, não, agora não posso que não tenho papel, não tenho papel, não tenho papel…”.

Não esquecer que, antes de sair, será imperativo pensar porque é que não tinha papel. Das duas três: ou é porque gastaram o papel todo, ou porque o levaram para limpar as mãos ou, então, é porque se esqueceram de pôr mais papel, logo quando lhe era mais necessário. Este insignificante passo reflexivo é deveras importante para perceber completamente o texto e para que o mesmo não lhe volte a acontecer no futuro…

Não esqueça que, após sair, é imperativo escolher interiorizar a opção “ver se há papel” antes de entrar. Havendo papel entre pela porta que tem papel. Se não o fizer, pode acontecer-lhe exactamente o mesmo que antes. Depois de entrar, se já não se tiver borrado entretanto, tente perceber porque é que já lhe passou a vontade. Se não lhe passou a vontade é porque o Talefe não provoca prisão de ventre. Já o contrário não me atrevo a afirmar. Alivie-se, que já vai sendo tempo.

Não é simples nem fácil pensar ou ignorar o que se passa em Lagos. Para mais, nos tempos que correm. Mais que esquecer as inúmeras memórias que todos temos e devemos ter presentes independentemente das origens de cada um – porque se a Terra é só uma, então a nossa terra é onde temos os pés a cada momento – pior é esquecer a memória dos sucessivos sonhos colectivos e pessoais, por serem ainda em maior número que a dos factos que possamos individualmente recordar. Do mais subido piorio é a sua traição.

É que se a diversidade é riqueza, como está abundantemente demostrado, afrontar ou esquecer as matrizes sociológicas intrínsecas pode ter consequências imprevisíveis para quem quer que seja que o faça. Ou deixe fazer.

AVISO À NAVEGAÇÃO

Antes de mais, quero esclarecer que não gosto de brincar nem com as palavras, nem com o tempo, nem com os direitos ou com o dinheiro dos outros. Coisa que constato mais frequentemente do que seria admissível acontecer nesta nossa terra portuguesa. O tempo não é de ironias vãs, e seria uma extultícia da minha parte explicar aqui o que é um weblog (abrev. blog). Nunca fui nem vou em grupos e a última coisa que quero é confundir as pessoas, coitadinhas, com a emissão com boatos, lamúrias ou falsidades, como algures se pode ler numa espécie de blog impresso da nossa terra. Não, não, este é um texto de opinião livre e genuína de um cidadão do mundo, europeu, português, algarvio, lacobrigense e tudo! Nascido na Travessa do Penhasco…

Posto isto, acredito que os tempos são, e serão crescentemente, potenciadores dos maiores perigos e das maiores confusões – ninguém disso tenha dúvidas – das aborgadens mais demagógicas assumidas sob a capa de uma repetição discursiva de lugares comuns, já demonstradamente ultrapassadas pelos acontecimentos, mas sempre ao serviço aparentemente inconsciente de males maiores. Sem falsas ingenuidades, não creio que sejam estes os momentos de inventar problemas onde eles não existem. E muito menos de condicionar a opinião divergente, venha ela de onde vier. Era só o que faltava. Todos somos poucos.

Mas, sobretudo, estes também não são mais os tempos de ignorar a realidade e olhar para o lado como se ela não existisse. Por outras palavras, é importante valorizar e rentabilizar tudo o que de positivo existe, e é muito, mas não é menos imperativo olhar e ver as causas de tudo o que de negativo existe, o que também não é pouco. Seja qual fôr o veículo. Identificar as causas, as origens, dessas realidades negativas e resolvê-las consistentemente e pela positiva em união de esforços, em vez de inventar falsas questões e separatismos pessoais ou (pseudo)grupais a partir das consequências – as quais, por serem infelizmente já reais, se prestam a esse exercício da mais pura desonestidade intelectual – isso é que é por demais contraproducente face aos legítimos interesses da generalidade das pessoas.

A situação é claramente de emergência nacional e, como tal, também regional e local.  Como a conta-gotas vai sendo reconhecido pelos mais variados opinion leaders de todas as (in)sensibilidades.

Escrevo agora sobre Lagos porque quero exercer este meu direito de cidadania e porque é a minha terra. Como antes escrevi de Portugal e como escreverei oportunamente de uma perspectiva evolutiva que transmitirei e que vem sendo desenvolvida por alguns cidadãos para o Algarve, tema que se imporá este ano, mais que nunca, introduzir no debate autárquico da região. Sem tibiezas nem rodeios, porque neste conservadorismo estrutural em que vegetamos há décadas… reside uma das origens recorrentes que vêm sedimentando as falsas soluções, com os consequentes problemas com que todos nos debatemos. Ninguém tenha ilusões porque ninguém o fará por nós. Muito menos as tenham os que pensaram que podiam lucrar eternamente com a chamada “situação” e que, dramaticamente para todos, parece ainda não terem percebido que tudo perderão nada fôr alterado. Como aliás já aconteceu antes…

Conheço e tenho estima pessoal por alguns dos que local e regionalmente têm vindo a desempenhar cargos públicos a todos os níveis e em todos os quadrantes. Não me move qualquer tipo de parcialidade própria destes tempos eleitorais. O que seria até reforçadamente legítimo, dado que estamos perante um Abismo e como eu nasci na Travessa do Penhasco tenho experiência naturalmente destas coisas. Como tantos outros concidadãos. Mas não é o caso, fiquem descansados.

De resto, apenas acrescento aqui hoje que, quer no país ou no estrangeiro, em todos os locais por onde passei em muito trabalho e pouco lazer nos últimos 30 anos, tenho poucos mas bons amigos e amigas em praticamente todas as áreas profissionais ou políticas, e acrescento que jamais fui acusado de incompetência ou de deslealdade.

Como alguém disse um dia «não vos posso dar a receita do meus bons sucessos, mas a dos fracassos é querer agradar a todos». Por isso, e por muito alta que possa vir a ser a discórdia, desde já reitero que, da minha parte, a consideração pessoal será a de sempre, independentemente de todas as divergências.

O que é imperativo, o que nos interessa a todos, é o exercício prático da Liberdade por Todos, a salvação da Democracia como regime e a positivação urgente da dificílima realidade em que estamos a navegar colectivamente, embora a maioria possa ainda não ter dela a devida consciência. Ou não queiram ou não possam expressá-la. Como lapidarmente referiu A. Barreto recentemente «A falta de capacidade de respirar livremente, sem recordar os fantasmas, é a vontade de viver amarrado ao passado».

Isto é válido em Portugal e em Lagos, como no resto do Algarve. Porque, repito, todos somos poucos.

A INICIAL MEMÓRIA DA MÚSICA E DA CARPINTARIA DO MEU AVÔ

Numa breve viagem por aquelas memórias pessoais mais ou menos fortes, apesar deste lacobrigense ter nascido apenas em 1960, esse “ano da avenida” e das “comemorações henriquinas”, a memória mais inicial que transporto é a de ter saído de casa numa bela tarde apenas com dois anos. Relataram-me anos depois o desespero dos meus pais e dos amigos a correr pela avenida até que por fim me encontraram tranquilamente, já noite dentro, a ouvir um ensaio na Filarmónica. No mesmo local onde anos atrás o meu avô Pedro Martins, que tinha uma carpintaria na Rua de São Sebastião, tinha tocado… Coincidências.

Deve-se aliás à Filarmónica a minha existência, porque foi numa arruada da banda que esse pai do meu pai conheceu a minha avó Maria do Carmo Borba! Embora esse episódio deva ter ocorrido com uma das bandas filarmónicas que precedeu a “1º de Maio”, essa mesma que no Dia do Trabalhador de 2009 comemorou os seus 78 anos. Aqui ficam os meus mais sinceros parabéns e votos de longa vida para esta nossa tão genuinamente pioneira e profícua academia de música e a todas as outras que fizeram e asseguram a continuidade do ensino da Música..

A MEMÓRIA DO CINEMA IMPÉRIO, DOS AMENDOINS E DO BANCO, DO PEDREIRO E DO PAPAGAIO

Quero relembrar hoje aqui esse quase poético desfile semanal do “homem do cinema” que ia buscar, uma vez por semana a pé e de carro-de-mão, as bobines dos filmes novos à Estação C.F. ou o bom e quase sempre “inexplicavelmente” triste Sr. Salazar, que vendia amendoins à porta do banco a informar, com ar grave os que lhe pediam ali mesmo dinheiro emprestado, do acordo que ele tinha com o BPA e que o impedia de o fazer: «Ó homem, então vocemecê não vê que eu tenho que respeitar o acordo que tenho aqui com o banco. Sabe, é que a gente tem um acordo, eles não vendem amendoins e eu não empresto dinheiro, ‘tá percebendo?». Se fosse hoje… até empresas de cafés e sumos os bancos têm. Dinheiro é outra conversa… Mas adiante.

Recordo-me ainda muito vivamente daquele mágico espectáculo do sábio pedreiro-maestro do papagaio Loureco das antiguidades pondo-o a cantar como um tenor “Goooooolll..do Benfica” ao fim da tarde quando diariamente por ali passava pela Rua Direita. Só visto. Simplesmente mágico.

OUTRAS MEMÓRIAS E O GIGANTESCO DR. TELLO

E que dizer do insupeitadamente cultíssimo e poliglota Mestre Despachadinho, em cuja loja funcionou a sede local da campanha do General Humberto Delgado?…Genial aquela sua resposta a um tipo do Norte que queria comprar chumbadas e lhe perguntou se tinha “tomates de chumbo” (com ‘c’) ao que o Mestre, com aquele seu andar característico e nada apressado lhe respondeu, mirando-o de soslaio por cima do ombro e levando a mão à anca: “Não, não, isto é só uma dôrzinha aqui nas costas”…

Muito viva é também a memória do Coronel Rocha de Abreu, que integrou a S. P. Teosofia, outro superior espírito que empreendeu entre nós a notável “Casa de S. Gonçalo”, assim como é essencial relembrar – hoje mais que nunca – essas tranquilas lições cívicas de vida do enorme Dr. António Guerreiro Tello, com consultório um pouco mais abaixo, inestimável para tantos lacobrigenses. Conta quem assistiu, que proferiu um discurso inolvidável na Praça da Música, nos anos 50, em que explicou à Cidade porque decidiu não aceitar o convite que o regime do Estado Novo lhe fazia para ir para Lisboa como deputado. No final, tardaram os aplausos unânimes porque todos os que o ouviram, ou seja a totalidade da praça (a cidade de então em peso…), ficaram literalmente em lágrimas, com alguns em pranto convulsivo…

Aqui fica uma única sugestão para quem a possa concretizar: já tarda homenagear, mais do que em nome de rua, com uma estátua ainda maior que a do tamanho real desse gigante de humanidade e altruísmo que escolheu viver na nossa Grande Cidade. O nosso Tolentino de Lagos certamente aceitará materializar esse imperativo de tão vivo traço da consciência colectiva com desconto especial.

Por mim, antevejo que a estátua seja colocada em pé e sem pedestal nessa mesma praça de tão indescritível discurso. Em pé em homenagem à sua verticalidade e ao lado dos seus iguais, como tão sabiamente soube estar e ser sempre tão essencialmente útil.

LAGOS: ÀS PORTAS DE UM PORTUGAL DO FATALISMO, DA INJUSTIÇA E DA IMPUNIDADE

Se todos nós nascemos originais e morremos cópias, como alguém disse um dia, são estas – como inúmeras outras – as pequenas coisas que nos dinamizam os espíritos e não se limitam apenas a habitar-nos a memória. São antes uma fonte de inspiração e motivação acrescidas para continuar a manter viva uma lúcida capacidade de indignação perante as sucessivas situações reais que, embora diferentes no tempo, espaço e qualidade, afinal por vezes contiveram e contêm idênticos e tão comuns atributos negativos: da INJUSTIÇA à IMPUNIDADE passando pelas vitórias sobre todos os FATALISMOS.

São aqueles traços vivos, diferentes consoante a percepção pessoal de cada um, que nos podem fazer ser aqui cada vez menos cópias de nós mesmos e cada vez mais originais, seja face à nossa essencial matriz sociológica, seja nas concretizações para que estamos permanentemente convocados pela MATERIALIZAR, como outros o fizeram no passado. Uns mais outros menos, não importa.Cada um à sua medida e na sua dimensão, o que importa é NÃO DESISTIR e OUSAR AGIR SEMPRE !

Porque é perante a necessidade de saber escolher as saídas para a desgraça colectiva em nos tentam objectivamente encurralar que todos estamos confrontados neste raro ano de quase todas as escolhas.

LAGOS, O BARLAVENTO E A HISTÓRIA: SOMOS DOS QUE ESCOLHERAM IR DESCOBRIR

Não é preciso recuar ao Califa Abderrahman e ao seu trabalho na organização desta Zawia, Cidade do Lago… ou do Poço, poço sem fundo em que o despótico centralismo vem de tempos a tempos insistir em nos manter afogados, largando migalhita aqui e ali, para reverente gáudio provinciano das afanosas tribos políticas, como antes aconteceu com as tribos corporativas.

Comecemos antes pela Vela, porque fomos nós, os Portugueses, que inventámos a primeira capaz de navegar contra o vento…E daqui fomos, nessa atitude inspiradora de interiorização bem necessária hoje para quem quiser sobreviver ao autêntico tsunami financeiro que está, apenas e ainda em crescimento descontrolado, a alastrar a todas as áreas e a todo o mundo, com excepção da Antárctida, essa espécie de Atlântida de que muito pouco se fala…

É que podem ter tido origem no pinhal de Leiria as madeiras para os barcos, ou a carne do Norte para mantimentos, na razão original das tão famosas tripas, mas aqui, nesta nossa região do Barlavento do Algarve não ficámos, naquele tempo refundador, ao abrigo confortável de qualquer restelo mental a ver a barcaria partir e a falar – erradamente, como a História constatou – da impossibilidade dessa tão gigantesca empresa que foram os Descobrimentos Portugueses.

Não, aqui se escolheu fixar a produção da empresa, mobilizando a necessária Inteligência disponível, e daqui eram as Pessoas, as conhecidas mas sobretudo as incógnitas, que partiram e voltaram materializando essa inovação de confiar e querer ligar pelo Mar as separadas Terras. Porque raio estatemos condenados a ficar agora parados a lamentar o “Deixa Mamar” televisivo à espera que outros resolvam o que só nós podemos resolver?

LAGOS E O TERRAMOTO DE 1755 DIARIAMENTE RECORDADO POR…UM SINO

Que fique desde já muito clarinho que não há marreco mental nenhum que nos consiga retirar o nosso grandioso e factual contributo histórico. Seja quem fôr e onde possa estar instalado em nosso nome. Nem que seja em Odemira. Por maiores que sejam a estrutural vénia ou o vivaz poderoso. Desse contributo não se podem apenas conservar cartas forais ou fazer desfiles históricos por mais belos que sejam. E são, mas é preciso mais.

Mais do que encenar participadamente esta encruzilhada de tantas culturas distantes no tempo e no espaço, é muito importante fixar documentalmente a memória do dificílimo trânsito de tantas comunidades do/pelo nosso Barlavento junto dos mais jovens, designadamente desde o período em que o terramoto de 1755 nos levou o estatuto e toda uma vida própria de Capital do Algarve e uma das cidades mais importantes da Europa… para Faro, onde qualquer dia até para ir aos mictórios lá teremos que nos fazer à via.

Para aliviar a carga, ainda um dia destes, pensando eu que cada estabelecimento aberto ao público tinha que ter um, perguntei por lá num balcão de café onde eram e obtive a seguinte resposta de uma solícita empregada de cachucho no dedo e no melhor português do Brasil: “Mictóriósss não temosss, só pástèuzinhosss de bácálhauu e tão bein chamuçasss…”. Faro no seu melhor. Aguentei-me, lá pedi uma chamuça e… “oberei”. Que me perdoem a recorrente alusão, mas não é este um dos já raros exercícios espirituais que nos restam hoje? Recomendo-o pelo menos uma vez por dia, e quanto mais cedo melhor, como treino para este tão igualmente raro e inoportuno ano eleitoral. Depois duma dentada inicial, lembrei-me da tribo canibal dos Costas, uns 10 000, que apenas permitiram a miscigenação de um Costa português que a liderou e foram essenciais para correr com os holandeses do Brasil, que fugiram – poucos – aterrorizados, porque os valentes Costas, depois de ganharem as suas batalhas, assavam e comiam os inimigos. Restou aos holandeses vir cá ao nosso Tejo de dois em dois anos com uma frotita ameaçante receber a sua acordada tençazinha de ouro…

Ainda tentei meter conversa com ela elogiando-lhe o anel, perguntei-lhe se era diamante, mas ela deixou-me estarrecido: “Não sinhor, é dji marido mesmo…”. É de momentos destes que um qualquer dia precisa. Reflexão e rara riqueza cultural. Acabei de comer, paguei e lá fui eu à procura da casa-de-banho do centro comercial. Tanto mar…

Estou também a gostar muito de recomendar a quem conheço outro invulgar exercício enriquecedor de qualquer cidadania: a audição dessa espantosa média diária de 607 badaladas do autárquico sino da Igreja de São Sebastião, em Lagos. Ele estar várias vezes acima do máximo legal está, mas faz muito bem ao espírito de tolerância democrática tão necessário nestes dias. E não é que está a virar atracção turística?

Conheço mesmo um casal que já veio de Lisboa, ela prima de uma outra célebre balconista, da Damaia lisbia, só para ouvir o tão celestial chimfrim. Vejam bem que eles costumam ir a Mafra aos concertos de carrilhão, mas quando eu lhes falei que as melhores badaladas nacionais eram as de Lagos ao domingo de manhã, puseram-se à estrada. E gostaram os dois muito. Não foi de carrilhão mas foi de badalo. Eles não ouvem muito bem, mas conseguiram afinar os aparelhos antes do segundo chorrilho e adoraram.

Aliás, também sei de fonte segura que o ministro M. GAGO apreciou devidamente aquela que se está a tornar, conjuntamente com o nosso novo e bom pároco (haja Deus…), numa nóvel atracção turístico-religiosa que apresenta sinergias por demais evidentes com o inaugurado Centro Ciência Viva. Mais concretamente no âmbito da Acústica, esse ramo da Física que estuda os Sons. Se ainda ontem até um gajo que é SURDO que nem uma porta sorriu para mim olhando para o sino, a descer a rua. Como estavam a dar as badaladas do meio-dia só pode ter sido de alegria…

Mas ainda sobre o sino da igreja onde fui baptizado, de resto, de que me serviria ir eu agora incomodar o Ministério Público com as badaladas de um sino se nem um qualquer suporte vídeo pode ser admitido como prova no sistema processual penal em que os nossos insignes magistrados estão obrigados a trabalhar? O que ainda não percebi, e ainda me irão explicar um dia, é para é que servem os sistemas de vigilância electrónica pagos a peso de ouro pelo erário público que se vão instalando por todo o país…como no centro histórico do Porto, por exemplo. Será apenas para se conseguir atingir esse inconcebível objectivo que diz ser o de aumentar a “sensação de segurança”? Será esta assim como, digamos que, eventualmente, uma espécie de segurança? Não há pachorra…

Posto isto, claro que ficamos, como todos os portugueses, ansiosamente à espera de mais medidas para aumentar outras sensações muito importantes, em vez desta espécie de sensação de absorção que quase todos sentem no bolso. Assim de repente, lembro-me de algumas outras espécies de sensações: a sensação de vivermos em democracia e liberdade, a sensação de termos procura turística, a sensação de termos comida à mesa duas vezes por dia, a sensação de estarmos a ser governados por gente competente, rigorosa e desapegada do poder, a sensação de ter trabalho – que emprego é outra conversa – a sensação de termos um aparelho de Estado pequeno, dinâmico e efectivamente controlador, a sensação de termos uma comunicação social livre, a sensação de crescimento económico ou essa basilar sensação de Justiça…

LAGOS E O BARLAVENTO DO ALGARVE

Estava eu a pensar que me faltava um MUDO para este breve apontamento de frutuosa ironia e eis senão quando, ao folhear o CM de segunda-feira 4, me deparo com a surpreendente visita de S. Exª. o Ministro do Ambiente à Vila do Bispo – num domingo…onde é que eu já vi isto? – para anunciar o 4º Polis Litoral, a começar já já já em 2010 e com a duração de 3 anos, 8 a 10 milhões de contos, «para valorizar as áreas balneares, proteger as arribas, criar percursos de visitação, ecovias e ciclovias e ainda melhorar os núcleos populacionais». O homem pode falar pouco, mas lá que anuncia bem anuncia. E como também tem interesses pessoais na nossa sub-região ficamos mais descansados. Ou tudo isto vai mudar para melhor, ou então é mais um episódio do “agora-é-que-é-ismo” cíclico, mesmo em cima das eleições.

Ainda para mais, como «o anúncio de Nunes Correia agradou ao presidente da Câmara de Vila do Bispo, Gilberto Viegas, que reclamara precisamente a necessidade de um Polis para a Costa Vicentina» ou até porque «O ministro não resistiu a comentar que o referido autarca tem “um dedo que adivinha”», nós, os Cidadãos do Triângulo Vicentino ficamos todos ainda mais reforçadamente descansados…

Embora também tenha aproveitado a oportunidade para logo falar sobre “turismo de qualidade” e não tenha falado nadinha nadinha nadinha sobre eólicas. Mas o mais assustador é que nem uma palavrinha saiu sobre os já célebres PIN’s, essa aberração do Direito Administrativo com que o centralismo da capital e dos felizes provincianos que o garantem brindam repetidamente todos os Cidadãos e todo o País.

Sast’fet’ ia eu virar a página quando me chama a atenção mais peixe: «Segundo o governante, o objectivo “é trazer desenvolvimento a uma região cujas populações se sentem muitas vezes abandonadas”. Mas alertou para o facto de as actividades económicas a implementar terem de ser “compatíveis com as exigências do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina”, dado que “não se pode matar a galinha dos ovos de ouro”. A aposta passa, por isso, pelo “turismo de qualidade”.» e «Nunes Correia disse ainda que esta semana será revista a portaria sobre a pesca lúdica no Parque Natural, sendo aliviadas as restrições em vigor desde Fevereiro». Na mesma ocasião o ministro informou ainda que «O Governo vai apresentar no dia 18 de Maio uma nova proposta para a revisão do Plano de Ordenamento do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.»…

Uma região cujas populações se sentem muitas vezes abandonadas? Coitadinhas? Quantas vezes? A que horas? E é quem as abandona ou abandonou que lhes pretende vir agora ensinar a viver na sua própria terra? Não será isto um claro caso que integra o extenso rol do que designa geralmente por demagogia eleitoralista? Quem pensa esta gente que ainda pode enganar? Só se fôr quem, uma vez mais, pensa que lucra com a presença nos poderes públicos ao serviço da “situação“… e de parques naturais então nem vale a pena falar muito.

Continuem a espalhar-se ao comprido que cá estaremos todos um dia para fazer as contas. Se não desaparecerem os registos das pseudo-legalidades…

Nunes Correia realmente empolgou-se com a encomenda. Mas a realidade dos “seus” anúncios é que contêm demasiadas coincidências em mais um episódio “3 em 1″ definitivamente esclarecedor:

1) o anúncio de um Plano de Investimento, simultâneo à

2) alteração do Plano de Ordenamento que o condiciona… e

3) a pouco tempo de mais umas eleições autárquicas e legislativas.

Para já, uma coisa é certa: como o pior CEGO é o que não quer ver, cegos seremos todos os que ainda queiramos insistir em não querer ver a realidade do mais despudorado saque patrimonial, cultural e eleitoral nesta democracia triste, podre, corrupta, falida e ainda impune em que ainda têm a suprema lata de nos vir portas adentro tentar forçar a que nela vegetemos reverencialmente agradecidos.

Como diria um antigo mecânico sobre um velho modelo que não cumpria a sua função, parece-me que as “polis” já estão um poucachinho gastas.

E, já agora, uma sugestão para o Sr. Ministro: é para pedir-lhe o favor de informar S. Exª. o Senhor Presidente do Conselho que tão silenciosamente integra que a Costa Vicentina não é no Sudoeste Alentejano, é no Barlavento do Algarve. Já sei que dirão que sempre assim foi, que a sede sempre foi em Odemira, mas olhe que esta ainda é uma boa oportunidade para desfazer mais um erro organizacional não sufragado pelos titulares do Poder Democrático: os Cidadãos. Ah, e para mandar rever os sistemas anti-fogo e anti-intrusão desse escritóriozeco inútil. Seria uma pena que se perdessem os registos e os documentos de tão cansativo e profícuo trabalho de defesa do nosso património natural que, certamente por fatal coincidência, só começou a ser desgraçadamente delapidado depois dessas invenções que são mais uma espécie de besilhões organizacionais com poderes especiais.

E, olhe, senhor ministro do ambiente, já agora, que abra ou mande abrir as portas do que sempre esteve aberto a todos, há mais de 500 anos… Nem o Salazar, que era danadinho para as contas – apesar de ser de Direito… – se lembrou de cobrar entradas na Fortaleza de Sagres. Certamente as entradas pagas são para implementar o turismo de qualidade…

Outra vergonha que qualquer Cidadão Português sente é o Farol do Cabo de S. Vicente estar fechado.  Há gente que vem do outro lado do mundo e fica à porta a olhar por entre as grades… Um verdadeiro nojo que envergonha qualquer pessoa que tenha vergonha na cara. Se calhar ainda é para abrir lá algum wellness resort PINote ou um restaurante chinês, não?  A bem de um turismo de qualidade?…

De regresso à História das Gentes, acredito que continua a ser pertinente fazer um levantamento sistemático das pessoas, contextos e das vidas que fizeram a História da nossa Cidade e da nossa Região. Há ainda algumas pessoas vivas que tem essas memórias, que urge fixar para o futuro. E existem tantas iniciativas dispersas de muito mérito que urge reunir e divulgar.

Na minha opinião, esse trabalho de restauro da memória deve focar com especial incidência esse nada inocente vazio no ensino escolar português com que, durante tanto tempo, foi esquecida a História do séc. XX no Algarve até aos anos 70. Sem esquecer os mais recuados anos da Revolução Liberal do séc. XIX, com muita memória oral viva ainda no eixo Lagoa/Silves, importa conhecer melhor o que foram os anos da Implantação da República, do Estado Novo, da Guerra Colonial e os anos vizinhos do 25 de Abril de 1974 entre nós. Tal como inventariar e registar os espólios dispersos e, evidentemente, conservar os documentos registados. Estes e todos os outros, mais recentes. Não vá acontecer-lhes o mesmo que aos azulejos e a tantas outras peças patrimoniais por este país fora, ou qualquer outro imprevisto mais quente ou poderoso…

LAGOS HOJE: AMAR A CIDADE É RESPEITAR OS DIREITOS DOS CONCIDADÃOS

Há mais de 2 anos tive a dolorosa oportunidade de mandar gravar na campa de minha Mãe uma citação que me apareceu naqueles momentos tão difíceis: «O Amor é o único sonho que não se sonha». Porque foi a grande lição de vida que dela pude receber e que aqui partilho com todos. Recebi-a eu como tantas outras pessoas que com ela conviveram diariamente no exercício da sua tão generosa profissão de Professora. “Os seus outros filhos e filhas” – como ela dizia sempre com indisfarçável orgulho.

Bem me parece que este raro sentido do Amor realmente faz-se, constrói-se, pratica-se. No seu sentido maior pode fazer-se todos os dias, no respeito completo pelo outro, na palavra amiga, na ajuda ao que menos sabe ou menos pode, ajudando-o a progredir pessoal e profissionalmente mesmo em contextos complicados, como era frequente e nestes tempos está a voltar a ser. Assim como se faz ajudando a levantar-se quem tropeça e cai. Ou avisando, prevenindo sem sobrancerias mas com clareza. Embora o que mais vemos em todo o lado seja o abandono, o abuso do saber em relação ao que menos sabe ou os mais brutais e silenciosos abusos de confiança que desaguam na subversão de tantas realidades e potenciais pessoais sacrificados a tão tristes quão temporários oportunismos pessoais e políticos…

Mas esse Amor também se faz na defesa do que é nosso, sejam postos de trabalho ou patrimónios, pessoais ou colectivos, materiais e imateriais, desempenhados e conquistados honestamente e com continuado esforço ao longo de tantas vidas de luta e trabalho tantas vezes oculto na espuma dos dias mais ou menos negros da nossa vida colectiva. Os quais, ninguém disto tenha dúvidas, estão de novo no horizonte temporal de Portugal, como nos de Lagos e do Algarve.

É em nome desse AMOR e desse RESPEITO pela MEMÓRIA e pelo TRABALHO de todos quantos por cá andaram antes de nós que escrevo estas linhas. A mim, em concreto, possibilitou a este neto de dois honestos carpinteiros não ter que “vender a alma ao diabo”. Sem entrar noutros detalhes, que existem, viabilizou-me um dificílimo regresso às origens (v. link ) recusando-me à incluir-me no extensíssimo rol dos reféns da componente empresarial privada de um sistema corrupto e ainda impune, cujos respectivos “rabos de palha” irão mais cedo ou mais tarde arder, acesos de uma forma ou de outra, mas sempre de modo perigosamente imprevisivel… Porque tudo tem limites.

É que pode enganar-se uma pessoa uma vez, duas pessoas duas vezes, mas não se pode enganar toda a gente o tempo todo! Nem em Portugal, nem no Algarve, nem em Lagos.

(…/…)

José Borba Martins, Lagos

Publicação: sexta-feira, 15 de Maio de 2009 22:05 por JBDlegs

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