SOL

O meu coração árabe chora por mim!

Quantos de nós, gente instruída, ignoram que Coimbra, Lisboa, Santarém, Évora, Beja, Alcácer, Mértola, Silves, Loulé, Tavira, Faro, ... , foram centros notáveis da civilização árabe peninsular e cenário de relevantes acontecimentos políticos?

Quem sabe que nalgumas destas cidades existiram centros literários e de pensamento?

Quem conhece Ibne Bassame, de Santarém, fonte histórica e biográfica preciosa do mundo mulçumano?

Quem leu os poetas que viveram e amaram neste torrão tal como nós hoje o fazemos?

Quem sabe que o célebre rei-poeta de Sevilha Almutâmide nasceu em Beja?

E que Ibne Baji, um dos maiores filósofos árabes, tem as suas raízes familiares em Beja? E que ficou conhecido pelo nome da sua cidade?

E tantos outros.

A embocadura Mediterrâneo-Atlântico foi uma ponte que uniu o Garbe do Al Andaluz ao norte de África durante a presença árabe. Por ela avançou Tarik em 711 logo seguido por Muça. Gerações dos filhos desta nossa terra, destas nossas cidades foram choradas, durante séculos, da outra banda do mar. 

 

 

 Escrevi isto como recordação permanente

do meu sofrimento.

A minha mão perecerá um dia, mas a grandeza ficará.

Palavras do mestre arquitecto ou canteiro árabe gravadas em arábico junto da axila do transepto, lado leste, da Sé Velha de Coimbra

Esta inscrição encerra para mim um pequena história. Era eu estudante em Coimbra nos finais da década de sessenta, residente na zona da Sé Velha, e um dia vi um grupo de adultos, bem postos, a olharem e comentarem acaloradamente o local da inscrição. Por curiosidade fui ver do que se tratava. E vi-a. Fiquei a saber o seu significado. Era preciso ter olho para a descobrir. Nunca mais me esqueci. Sempre que vou a Coimbra e passo por lá medito um pouco e sofro com o mestre canteiro.

Agora ainda mais.

Há anos que assistia ao cancro da pedra devorar impiedosamente a inscrição da dor e da grandeza do génio do mouro que sobre as ruinas da sua mesquita teve de construir para o conquistador cristão, no local mais sagrado da sua terra, o templo da fé do inimigo.

Já nada resta.

Um povo cujo domínio assentou num poder político, religioso e militar ligado a uma pujante civilização deixou com certeza vínculos bem fortes da sua presença  nestes mais de cinco séculos de autonomia mais os dois séculos e meio na minoria em ficaram, quando finalmente foram por D. Manuel e pelos seus sucessores  obrigados a integrarem-se neste povo que somos.

O meu coração é árabe. Calbi arabi.

Canção popular do século XVI recolhida por Gil Vicente e referida na Comédia de Rubena.

Publicação: quinta-feira, 10 de Julho de 2008 17:00 por JMFC

Comentários

quinta-feira, 10 de Julho de 2008 22:41 by pessoalissimo

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Viva!

É sempre bom reviver o passado e perceber de que massa somos feitos, uma massa que mistura vários ingredientes humanos.

Se um um tal Titan passar por aqui e ler isto dirá que você está a trair a pureza da raça lusitana, nascida e criada de Viriato e provavelmente de uma costela sua, à semelhança da professia biblica.

Essa frase é espantosa pela grandeza e dor que revelam, perante o inimigo cristão.

Abraço

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 13:07 by camionista

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Caro Professor:

Extraordinário e sentido testemunho este que aqui deixa.

"A minha mão perecerá um dia, mas a grandeza ficará."(do canteiro mouro)

"...do mouro que sobre as ruinas da sua mesquita teve de construir ..."

"Um povo cujo domínio assentou num poder político, religioso e militar ligado a uma pujante civilização deixou com certeza vínculos bem fortes da sua presença..."

Cada civilização, ao suceder a outra, arrasou a anterior. Mas as novas fundações assentam sobre os antigos escombros, é preciso não esquecer. Passamos a vida a renegar o passado, ou partes dele, e, contudo, está mesmo sob os nossos pés. Não adianta negar, não adianta ignorar, não adianta silenciar.

Que cada um de nós pergunte:

De que raça é o sangue que corre nas minhas veias?

Um Grande Abraço

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 19:14 by Humana

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá JMFC

O que mais me realçou neste ilucidativo post, foi a 1ª frase: "quantos de nós, gente instruída, ignoram.........."

Se puxarem um pouco pela memória e recordarem o que aprenderam em tempos de escola, saberão que somos uma mistura de povos, de raças, de religiões....

Penso que os portugueses foram-se apurando ficando com o melhor de cada antepassado, gente heróica.

Além das imensas palavras de origem árabe que abundam espalhadas por esse país fora, existem ainda hoje palavras árabes genuínas, sobretudo em nomes de pessoas.  

Eu tenho no meu nome uma dessas palavras, que acabou por ser de uso corrente no passado, muito usada pelos nossos escritores e poetas, e até fadistas mais recentemente. Hoje caíu em desuso, embora conste no dicionário.

Em Marrocos ainda é uma palavra bastante usada.

Muito sentida a inscrição na Sé Velha.

Um bom fim de semana

2 beijinhos,

Mulher

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 21:47 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Fernando:

Na visita que fizemos, quando do último encontro de blogueres na Ericeira, ao Museu e à Arte do barro do célebre artista popular da sua região, teve o ensejo de me mostrar pintado numa parede, chaminé se bem me lembro, um local bem visível, um símbolo tradicional e identificativo do Islão. O crescente e a estrela.

Não admira. Está-se em plena região saloia. Esta região, que já no tempo da mourama era uma fértil região agrícola, com a conquista cristã de Lisboa uma parte da sua população sarracena foi expulsa para a periferia, vindo a engrossá-la. Penso que o termo saloio se refere precisamente aos descendentes destes.

Mas vou aproveitar esta oportunidade para lhe dar conhecimento daquilo que para mim foi uma novidade.

Michel Giacometti recolheu aí na região da Ericeira uma canção popular, em meados do século passado, que ouviu também a ser cantada em aldeias do norte de Marrocos.

Havia um fluxo, nos dois sentidos, em homens de armas e no comércio, no tempo da presença almorávida e almóada. Anteriormente, com os Omíadas o fluxo não teria sido tão significativo pois eles tinham sido sacrificados no Médio Oriente com a chegada dos Abássidas ao poder. Mas foi com a dinastia Omíada peninsular que o Islão atingiu o seu apogeu na Europa. Nas Artes e na tolerância interracial.

Um grande abraço.

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 21:57 by Mendro

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Caro JMFC:

É a mais pura verdade, nós portugueses somos uma enorme variedade de raças e culturas.

Pena é que muitos vestigios dessa fabulosa diversidade cultural se tenham perdido para sempre.

Cpmts e bom fim de semana

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 21:59 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Camionista:

É verdade. Há sempre algo que fica, nem que sejam os escombros.

O apagamento do nosso passado islâmico, quanto a mim, deve-se a duas razões principais.

A tolerância do ocupante islâmico e a intolerância do cruzado cristão.

Claro que houve fanatismo também do lado de lá. Os frades almóadas e a guerra santa.

Essa intolerância veio do exterior da península, era estranha às suas comunidades, fossem elas cristãs ou islâmicas.

Um grande abraço.

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 22:37 by void2

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Caro JMFC,

Muito grato pela lição.

Eu passei por lá, quiçá milhares de vezes, no princípio da década de 60, e nunca tal descobri. Mas prometo que quando por lá passar vou visitar.

O nosso cadinho humano é realmente impressionante.

Porque fui dador de sangue investiguei algumas facetas e descobri que os Homens Portugueses tem uma prevalencia de A Rh - , herança dos Árabes.

Um abraço amigo

a formiga

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 22:41 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Humana:

É esse o meu sentir! É isso o que nos enriquece e nos torna únicos. Essa miscigenação de raças, de culturas e de religiões. Porque nós portugueses refletimos um pouco  tudo isso, em maior ou em menor grau.

A riqueza da diversidade!

Olha, minha querida ribatejana, o nosso prémio Nobel da Literatura teu conterrâneo, SARAMAGO, o seu nome é árabe!

Penso que a Igreja Católica Romana, num primeiro tempo através das suas Ordens religiosas-militares e depois a própria instituição clerical, foi a grande responsável pelo apagamento das nossas raízes islâmicas.

Os nossos primeiros reis usaram largamente uma política de tolerância. Mesmo e principalmente quando a presença islâmica era mais forte no nosso interior e havia ainda o inimigo do outro lado da fronteira.

No foral dado por D. Afonso Henriques em 1170 aos mouros alforriados( libertos )...palavra árabe...,de Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer, a algumas famílias sarracenas foi concedido que continuassem a viver em liberdade nas mesmas terras, podendo reger-se, sob o domínio supremo e protecção do rei português, pelas leis que lhes eram próprias. E nos forais de certas povoações, garantia-se protecção aos moradores e viandantes mouros.

Em finais do século XV havia a residir em Loulé perto de 50 famílias mouras. Quase dois séculos e meio após a sua conquista.

Depois veio a intolerância da Santa Inquisição e os Autos de Fé. A integraçao forçada.

Obrigado.

Beijinhos para ti. Cumprimentos ao Jota.

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 22:44 by maris

# re: O meu coração árabe chora por mim!

oioi...

Trepocei neste blogue pela primeira vez!

Senti-me...burra!

Tanta informação desconhecida!

Eu que morro bem perto de Santarém, dos escalabitanos. Sim sei um pouco de história...mas neste blogue aprendi muita coisa!

jitos

Maris

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 23:09 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Mendro:

Um povo sem passado é um povo morto. Sem referências, sem identidade.

A nossa História de povo e de Estado tem quase mil anos!

Nós, ainda hoje, por nossa incúria, deixamos destruir e desaparecer muitas raízes do nosso passado. Quem der uma volta pelo interior do país encontrará muitos exemplos.

Luxo de tolos e de ignorantes num país rico!

O último post do Camionista, distinguido como o Bloguer da Semana, é disso um exemplo flagrante.

Cumprimentos.

sexta-feira, 11 de Julho de 2008 23:44 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá void2:

No post dizia que "hoje ainda sofro mais" com a  dor que aquele ser humano padeceu e que quis que todos nós não esquecêssemos.

O seu testemunho foi sendo corroído por uma doença terrível, um cancro da pedra, até que morreu.

Eu assisti, impotente, à progressão da doença e à sua morte.

A memória da sua dor ainda prevalecerá na literatura.

Mas não na sua obra! Como era o seu desejo.

Tal o seu sofrimento!

Quando por lá passar, repare na pedra carcomida. Ela distingue-se um pouco do entorno porque tem uma coloração um pouco mais acinzentada.

Repare que até da fachada principal já foram substituidos alguns colunelos. Pelo mesmo motivo uma grande parte da fachada de Santa Cruz. Esta doença é terrível pelos estragos que causa principalmente na pedra calcárea.

Já li algures que, através de estudos efectuados em populações dos dois lados, em termos genéticos, representamos quase uma comunidade rácica com os povos berberes de Marrocos.

Cumprimentos.

sábado, 12 de Julho de 2008 0:01 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Maris:

Todos aprendemos com todos. De certeza que saberá coisas que desconheço.

Já agora que falou em Santarém presumo que saiba que esta palavra é o nome árabe da cidade.

Falou em escalabitana. Este nome dos habitantes de Santarém tem origem no nome da cidade romana, Scallabis.

Foram os mouros, quando da sua ocupação, que lhe alteraram o nome. Daí os habitantes da cidade poderem chamar-se de santarenos ou de escalabitanos.

Há muito na cidade que ainda fala da sua presença.

Ver o lindo vale do Tejo e a lezíria através das Portas do Sol é um espectáculo inolvidável.

As portas do Sol era uma das portas da medina árabe.

A história desta cidade milenar é riquíssima.

Um abraço.

sábado, 12 de Julho de 2008 10:29 by Mendro

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Caro JMFC:

Na minha profissão(Tambem sou camionista) tenho o previlégio de percorrer o país de norte a sul, de este a oeste, e afirmo que temos um país lindissimo, com temas de interesse variadissimos, mas muitas vezes dados ao abandono pelos mais diversos motivos, o que é deveras lamentavel.

cpmts

sábado, 12 de Julho de 2008 11:13 by gomes2000

# re: O meu coração árabe chora por mim!

olá JMFC,

você é um embaixador da cultura. Gostei do post, lembrou-me uma coisa que o pessoalíssimo me disse sobre o não haver raças mas a raça humana. Gostei dos comentários também. Ando a tentar por a leitura por aqui em dia!

Beijinhos, bom fim de semana para vocês

sábado, 12 de Julho de 2008 21:22 by camionista

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Caro Professor:

Uma referência para uma resposta que deu ao Mendro, onde fala da incúria como causa da destruição e desaparecimento de muitos vestígios do nosso passado.

Eu continuaria a acentuar um outro aspecto, presente nos dias que correm, mas também em tempos idos: a destruição sistemática e intencional dos símbolos de culturas ou povos vencidos ou conquistados, que aliás está bem vincado no seu texto acima.

Mas hoje, sim, deverá falar-se mais de incúria.

Pedras velhas não rendem votos. Por isso não se gasta dinheiro com elas.

Apesar das crises, vivemos numa sociedade relativamente abastada. Decerto não seria sacrifício exagerado gastar mais algum dinheiro na preservação do património arqueológico e até, de alguma maneira, tentando reparar os 'arrasamentos' do passado, já que hoje fazemos gala de uma filosofia diferente da desses tempos. Caberia justificá-la pelos actos concretos.

Um Abraço

segunda-feira, 14 de Julho de 2008 12:00 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Mendro:

também eu gosto de viajar pelo meu, pelo nosso país. E conheço bem do que fala. Património de valor inestimável ao abandono e a saque outro.

Lembrei-me agora de Ouguela, no concelho de Campo Maior. Também da linda e histórica Juromenha. Hoje tão abandonada e pequena.

Um dia destes irei falar do seu passado histórico.

E tantos outros casos!

Um abraço.

segunda-feira, 14 de Julho de 2008 12:05 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Gomes 2000:

A gente vem ao blogue quando pode e nos dá prazer, ou não é assim?

Penso que falar e conhecermos o nosso passado deverá ser motivo de orgulho.

Também do que nos apouca, para aprendermos com os erros.

Confrontar diferentes pontos de vista, melhor ainda.

Bem precisamos de nos ancorar no passado para enfrentarmos o presente.

Beijinhos.

segunda-feira, 14 de Julho de 2008 12:12 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Camionista:

Estou completamente de acordo consigo quando refere que é nossa obrigação não mais permitir o apagamento das nossas diferentes raízes históricas.

Já acabou o tempo da História ser a História dos vencedores.

Temos de trazer à luz aquilo que, esquecido, ainda não foi destruido. E divulgá-lo.

Só saíremos enriquecidos. E nos conheceremos melhor.

Um abraço.

terça-feira, 15 de Julho de 2008 1:55 by PSCGF

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá José :))

O nosso coração é arabe ! Além de muitas outra misturas :)  Por isso somos um povo estranho...rs  Penso eu...:)

Gostei de aprender , como sempre :)  Mas ficou-me do texto a tristeza perante o deteorização dos monumentos ...

Algo que foi construido com paixão por tantos quanto dignificaram o nosso patrimonio muitas vezes ficamos tristes perante monumentos que necessitam de urgente intervenção.

Beijinhos

Paula

terça-feira, 15 de Julho de 2008 20:08 by JMFC

# re: O meu coração árabe chora por mim!

Olá Paula:

Sempre fomos pobres(de espírito)com a mania de ricos.

Os ricos não deitam riqueza fora, ao contrário dos pobres.

É isto o que nos tolhe. Não sabermos tirar partido do que temos.

Quando a casa se enche de riqueza, miraculosamente quase sempre, "vivemos à grande e à francesa". Depois...vegetamos.

Olhe este ditado popular saíu-me agora. Vou aproveitar para lhe dizer que quem viveu à grande foram as tropas francesas, mais propriamente o general Jounot, o comandante da 1ª invasão, 1808, que após ter entrado em Lisboa, fez agora 200 anos, para capturar a família real que poucos dias antes fugira para o Brasil, obrigou a cidade a pagar-lhe um tributo multimilionário para ele viver com toda a dignidade de um princípe!

Daí o viver à grande e à francesa.

Também se intitulou rei de Portugal e duque de Abrantes. Título que os seus descendentes franceses actuais ainda ostentam!

Veja lá, pois, que a vaidade e ostentação não são nossos exclusivos!

Beijinhos.

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