A PAPISA

The Benefits Supervisor
Lucien Freud
O
Independente foi um jornal semanário português, fundado em 1988. O seu
primeiro número foi publicado a 20 de Maio de 1988 e o último no dia 1
de Setembro de 2006. O seu primeiro director foi Miguel Esteves
Cardoso, coadjuvado por Paulo Portas (que viria a ser o segundo
director) e por Manuel Falcão. Uma lufada de ar fresco que revolucionou
o jornalismo português, foi um contraponto conservador e elitista (mas
simultaneamente libertário e culto) à imprensa esquerdista que
prevalecia na época. Teve como colaboradores gente como Vasco Pulido
Valente, António Barreto, João Bénard da Costa, Maria Filomena Mónica,
Agustina Bessa Luís, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel
Magalhães, M.S, Lourenço, Maria Afonso Sancho, Leonardo Ferraz de
Carvalho, Pedro Ayres Magalhães, Manuel Graça Dias, Nuno Saraiva, Júlio
Pinto, João Miguel Figueiredo Silva, Vasco Pulido Valente, Paulo
Nogueira, Rui Vieira Nery e Edgar Pera. Atribuiu uma enorme importância
à fotografia, contando com o trabalho de fotógrafos importantes como
Inês Gonçalves, Daniel Blaufuks e Augusto Alves da Silva. Enquanto
Portas e Helena Sanches Osório faziam estremecer os alicerces do
governo cavaquista, com a denúncia semanal e impiedosa de escândalos
políticos, Esteves Cardoso no destacável "Vida" ocupava-se da parte
cultural, onde continuava a escrever crónicas e textos de superior
qualidade. Fazendo dupla com Paulo Portas entrevistou algumas das
figuras mais marcantes da política e cultura portuguesa.

O INDEPENDENTE
Consolo Remoto
1990
JOÃO MIGUEL FIGUEIREDO SILVA
A PAPISA
"Na
vida real, Keaton acredita em Deus. Mas também acredita que o rádio
funciona porque há criaturinhas dentro dele" - Woody Allen, Esquire
Ainda
novo, em termos de Igreja sou um cristão-velho. Renegando o Vaticano
II, rechaçando aos gritos de "Mata-frades!"jesuítas e luteranos, para
mim a Igreja, no seu "modus operandi", devia ir recuando pelo menos
até‚ aos idos de 800-857 D.C. Quanto mais bafio mais santidade no bafo.
A
essa saudosa calenda, há mais de mil anos, remonta o último pontificado
literalmente "cheio de graça" da história da Igreja, o pontificado da
proscrita Papisa Joana. A Papisa Joana reinou sob o cognome peludo de
João VIII. Fazendo-se passar por homem conseguiu o santo assento de
Pedro e Paulo sem que em Roma alguém suspeitasse que sob a soturna
sotaina se amochavam os “seios nus de sua Sereníssima Majestade" e só
se perdeu quando se perdeu de amores por um certo Lambert de Saxe,
embaixador em Roma. Tomou-o por amante, engravidou, passou a trajar uns
folgados paramentos da Prénatal para disfarçar a silhueta leitosa e
barrigudinha à la Senhora do Ó e, para cúmulo da desgraça, o seu
relógio biológico escolheu as cerimónias de um Domingo de Aflitos e
fê-la parir em público. Aí já de pouco lhe serviu enfrentar a cólera de
Roma propondo toda sonsa, toda à toa:"Milagre! Milagre! Não estava nada
à espera de tal presente uterino!! É a primeira vez que a um Papa
aparece pessoalmente o Deus-menino!".
Era tarde. O Vaticano, mais
vermelho no rubor que as barretinas meio-tijelas dos Cardeais, fora
testemunha ocular de que o Papa João VIII não era papá, era mamã. Pai,
putativo, do puto da Papisa, só mesmo esse tal co-autor do filho com
nome de trocadilho: "Lambert de Saxe"! Lambert! "De Saxe"!"Si non é
vero é ben trovatto".Se se quisesse encontrar o mais antipático nome
para a besta humana duvido que 666 (digo 666 porque é o número
apocalíptico da cabala mística) carmelitas descalças juntas em
"brain-storm" conseguissem aviar um nome pior que Lambert de Saxe, nome
mais malquisto, nome com mais ar de nome verdadeiro do pseudónimo do
Anti-Cristo. Lambert de Saxe!
Em parêntesis, digam lá que Lambert de
Saxe não parece nome de saxofonista tarado que bate a Praça da Alegria,
a soprar às garinas londrinas uns convites acalorados para "play Sax"
no Hot Club, digam lá que não faz lembrar cena de um Bocaccio jazzy,
quase dá para ver o gatão a tratar por "Joaninha" a Joana que se
enfronhou no seu"Saxe appeal" e numas fronhas ronhosas numa Quinta do
Lambert!...
A mesma delambida Quinta do Lambert!, já agora, agora
olha, onde, não por acaso, a escassos metros desses vales de lençóis,
vemos instalado o jornal "Público", jornal "Público" esse onde quase
juraria estar a ver, chamada a manchete, uma entrevista exclusiva com o
anti-clerical e aziago Saramago autor do "Evangelho" onde o satânico
escritor revelasse: "o meu próximo best-seller na Caminho vai ser ainda
mais "hard-cover", vai ter por tema o pontificado maldito da Papisa
Joana e já tem t¡tulo, é uma "trouvaille" jocosa, vou chamar-lhe:
"Lambert de Saxe, Come A Papa-Joana!"...
Até estava capaz de
reproduzir um excerto da entrevista com o blasfemo: Do ""Público"
retorquia o entrevistador:"Roma, Vaticano, portanto, José Saramago,
como pano de fundo do seu próximo romance...O que me traz ao espírito a
frase de Resnais,"La Vie Est Un Roman"...Quer comentar, José Saramago?";
Resposta
de Saramago:"bom, assim de repente, essa coisa do "La Vie Est Un
Roman", só me lembra aquele francês semi-nu com compleição de compota
que estava sempre a dizer "Ils sont fous ces romans!"
Público:"E a quem se referia esse crítico literário, aos "romans" de Duras, de Robbe-Grillet, ao "Marienbad"?;
Já
há muito tempo que me deixei disso de ser intelectual. Longe de mim
desejar uma RTP reduzida a sugestões de leituras de Luísa Mellid Franco
e ao TV Artes. Se algum dia escrevesse um romance, em vez de "La Vie
Est Un Roman" talvez lhe chamasse "A Vida É Um Romano".Nunca iria à
Feira de Frankfurt. Mesmo que fosse para colecta de "royalties",decerto
não ligaria aquelas tertúlias que conheço dos "scoops" da revista
"Ler",evitaria o IPPL e qualquer pavilhãozito de um Instituto da
Leitura italiano, mesmo que em vez de tijolos fosse construído à base
de lombadas da enciclopédia Einaudi, tivesse umas janelas com cortinas
e vasinhos com micro-cactos que na realidade escondessem dois ecrãs de
diaporama onde fossem projectadas imagens holográficas da silhueta
hitchcockiana de Umberto Eco a bater à maquina ou de Alberto Moravia de
nariz esborrachado no vidro, a meditar no que teria sido a Itália se
Rómulo em vez de ter por "nanny" a loba romana tivesse tido o efusivo
tórax de Sophia Loren.
Ligaria, quando muito, por mor do trocadilho,
se no pavilhão me chegasse um jingle em fundo com marcação de
tarantella e letra de Tabuchi com o refrão-slogan :"Par Definition, les
Romans Sont Les Italiens". E ligaria sobretudo se visse que por ali
andava, como andou na campanha eleitoral italiana, a neta do Mussolini,
completamente passada, a imitar um Airbus-32O de asas abertas em
saudação e a tentar convencer as pessoas que a doutrina política do
futuro seria a que ela designaria por "aviação civil neo-nazi", sigla
Lufhtwaffe, visando a
tomada do mundo, diria a auto-alcunhada "Dulce
Fria," pela proliferação nos céus de quadrimotores italianos tipo praga
de gafanhotos mas com saltaricos azurros e com pilotos, obedecendo
todos à divisa absoluta deste regime
aerotransportado (para quem o problema da Alemanha foi o ter
apostado
no comboio, no "Reich-do-chão") divisa essa que seria, como não podia
deixar de ser "Heil-Italia!".Ligaria ainda mais se a enfrentar a
Mussolini se encontrasse no pavilhão a radical Cicciolina do "Partido
Do Amor" a mandá-la “Fuher"... Mais do que livros, versalhada, acho que
não poderia encontrar melhor animação para uma feira do livro do que
duas fulanas à traulitada...Serei talvez um tanto "hooligan".Pão, pão.
Papo seco. Cerebralmente oco. Paladino do mau gosto. Não quero ler. Não
pretendo escrever romances. Vejo demasiada TV. Os intelectuais
afugentam-me. Frágil, tenho compleição de compota. Sou um idiota. Não
tenho saber nem ciência. Não sou homem não sou nada. Sou um índice de
audiência.
Público- Se bem o entendo, depois do "Evangelho Segundo
Jesus Cristo" do José Saramago ter avançado para a metade
anglo-saxónica da Galáxia de Gutemberg, o mundo do livro em
"paperback",o Rushdie, os "Satanic Verses",as livrarias protestantes do
Ulster onde estas edições são um estouro, o José Saramago atira-se
agora ao best-seller italiano, à Rebolona, ao Ciociara, ao Umberto Eco?
Tenho
medo de Virginia Woolf. Tenho medo do intelectual em geral e do
romancista em particular. Não sei se sabem que o Umberto Eco foi
internado de urgência no Natal passado. Os médicos desesperaram, o
homem a esticar os tacões e eles com o TAC sem saber se o Eco sincopava
ou peva, e afinal foi-se-a-ver e o tipo tinha simplesmente comido em
excesso. Por ser alarve, as larvas o iam comer. Era um suicídio à Peter
Greenway. O Cozinheiro,o Escritor,a Comida, um monte dela. Quando penso
nisso, a veia literária fica-me sem pinga. Se eu começasse a concorrer
com esse bufão do Umberto Eco, ele ainda me convidava para almoçar. Já
viram o perigo, eu a estrebuchar nas traseiras do "Ristorante",
vitimado por uma overdose de Parmesan ralado, a minha extremosa esposa
a suster-me a cabeça tipo aquela cena da Dama e do Vagabundo, o beijo
da morte, o baton dela a saber a ketchup, a minha linda a sussurrar
"Estás por um fio..." e eu a largar para a posteridade o meu último
suspiro "não é um fio, filha, é pasta consistente, é spaghetti, se os
médicos não souberem o grande Marco Bellini saberá do que eu morri,
arriverdecci".
Não, não ousaria desafiar Umberto Eco no seu terreno.
Se alguma ideia algum dia tivesse, a minha ideia seria mais avacalhar,
ser um bocado Luiz Pacheco tardo-barroco, fazer qualquer coisa ao nível
dos peitorais de lycra da Claudia Cardinale e das bochechas de Chianti
do Ugo Tognazzi, pegar num romance mas num romance secreto, mas
pegar-lhe pelo lado mais primário, burlesco, Berlusconni, burlão, pior
que um "fumetti" da Vampirella ou que as histórias de sexo explícito
com o homem invisível das ordinarices "Art Deco" de Milo Manara,
rebolão e licencioso escrever um testamento erógeno concorrente ao
género do Octave Mirbeau e do Bunuel de "Diario de Uma Criada De
Quarto", vendê-lo com uma capa Valentina desenhada por Guido Crepax,
mostrando, sei lá, sob o titulo "Minha lã, meu amor”, assim de repente,
talvez a história de uma alcatifa que se apaixonou pelo sumo pontífice
que a beijou, o homem de branco acocorado voluptuosamente na carpete de
um aeroporto, beijocando sofregamente a passadeira vermelha do
protocolo, e esta por sua vez toda a encostar-se com sinuosos requebros
de sereia nos seus quadris de Karpex aos beiços da ordenança e cantando
para um salivoso balão estilo BD o rifão beijoqueiro, a imitar o papa
que também beija o chão que pisa:"me xinga de cabra/me come com paella,
me chama de sua ovelha/me esquece enquanto carpete, me mete, me dá
tantos beijinhos como se desembarcasses a primeira vez no Tibete, me
papa, me leva ao tapete ...".
Agora a sério. A Papisa Joana caiu em
desgraça nas circunstâncias referidas, e o seu dossier faz agora
companhia nas solitárias do Vaticano ao 3º segredo e aos extractos do
Banco Ambrosiano. A Igreja desmente a própria existência da senhora. Do
Contra, reza a lenda que a partir dessa data o concílio de prelados que
masca fumo branco e promove a eleição de cada novo Santo Padre ter
passado a arcar com a tarefa acrescida de verificar a indispensável
masculinidade dos candidatos antes da entronização. O eleito
sentar-se-ia então numa cadeira de design apropriado, oca nos
fundilhos, a chamada "stercoraria"e os cardeais desfilariam ante o bidé
protocolar, esgueirando à vez a mão até à vergonha exposta do
pretendente após o que inteirados os cardeais profeririam a confirmação
sacramental: :”Testículos habet et bene pendentes!"
Talvez não tivesse sido de todo má ideia exumar este másculo ritual no concurso para a atribuição dos canais privados...
Como
também seria curioso indagar da receptividade da futura TV da Igreja a
um projecto de seriado, porque não intitulado como propunha o meu
"ghost writer " Saramago "Lambert Saxe, comi a papa Joana", romanceando
a história fantástica da sacerdotisa maria-rapaz, a "Yentl" papiza....
Acho
muito saudável que há 1000 anos a Igreja apostólica romana ainda
emperrasse ao ponto de se sujeitar a uma gaffe destas. O pior é que a
partir daí prevaleceu a Igreja varonil, Santana mas agreste, que viria
a redundar na Inquisição e na dantesca queimada de Frei de Torquemada.
E o arrependimento manifesto nas concordatas e nas cordatas novas
encíclicas que nos últimos decénios emanaram do Vaticano, deram como
resultado uma ainda mais lastimável Igreja sem papizas, sem testículos
e sem "stercoraria", sem latim, sem cabeção e sotaina mas com pull-over
da Manutenção militar e écharpe de escuteiro, sem as inflexibilidades
das grandezas góticas e com os carrilhões substituídos por
Yamaha-Porta-Sound com desenhos da Fada Sininho e o hino da alegria
pré-gravado na voz espiritual de Nana Mouscoury, sem obsoletas
Renúncias a Satanás-sim renuncio nos baptismos mas com paramentos
Benetton, guitarras eléctricas a fazer serenatas místicas às sorores de
Grão Vasco do altar-mor, às capelas de ossos e à Agência Magno, sem
mensagem mas com mensageiras modernaças, uma Rádio e uma TV.
A
verdade é que com a Igreja pé-de-salsa de pochette e vitrais
Multiópticas que é a da Renascença e é a que se projecta no futuro
canal, antevista em lengalengas de salão do género "Palavra Puxa
Palavra" ou no neo-realismo diocesano dos temas choque do "7Ox7", eu
não posso. E não posso crer que lhe tenha sido concedido o alvará. É
como se a seita "Moon" tivesse pedido a lua e a tivesse conseguido. A
Igreja da TVI‚ a igreja envergonhada dos vendilhões e dos tentilhões do
Coro é a síntese impossível da palavra da salvação, do entretenimento,
do pecado e da expiação nos sustos e nos tustos. É o "Excelsis Deo" com
patrocínio Excel.
Mal por mal antes a Igreja ainda fosse
fundamentalista, ortodoxa, espalha-brasas como a do Santo Ofício. O
Cardeal Patriarca D. António Ribeiro formularia diariamente para as
câmaras homilias com 8 horas de duração
sobre o cisma teológico em torno do hermafroditismo exterior
do anjo exterminador, não absolveria ninguém nem se faria aos
níqueis, mas pelo menos teria a pureza original dos cristãos legítimos, que vingaram e salvaram não dispondo de cabines de
som
nem de fotogramas votivos da guedelhuda cirrose de Michael Landon, o
arlequim superstar que antes de haver TVI já fazia séries de TVI. Ao
menos, a Igreja fundamentalista "Testiculos Habet". Habea Corpus.
A
Igreja actual, a Igreja que é inspiração da TVI, nem é masculina,
românica, cabeçuda e enquilosada como o Muro das Lamentações, nem se
atreve a ser feminina, amorosa, despassarada, humana como chegou a ser
a efémera capelinha da Papisa Joana .O que é esta Igreja que ganhou a
TVI? Como os anjos e o Michael Jackson tem um sexo discutível. Como
comentariam os Baden Powell da francesa La 5 nos seus fogos de campo é
"portugais" e "toujours gais".É nova rica. É moralista com conta na
CGD. É como aqueles santinhos com o Papa Carol de pôr no tablier. É um
bocado polaca e um bocado placa.
Para mim, decididamente não merecia
um canal de TV. Isto merecia ser dito. Mas neste ponto o desmérito não
é tanto da Igreja como do poder que lha outorgou. O poder é que não
passou o teste do "stercoraria".O poder até coraria, se alguém lhe
passasse a mão. Não houve naqueles assentos assuntos pendentes. Não
houve testículos nem questiúnculas nem litígio. Maternalmente, a
montanha pariu um Toppo Giggio.
JOÃO MIGUEL FIGUEIREDO SILVA