joao miguel figueiredo silva
YES WE WILL
Terça-feira, 11 de Novembro de 2008 18:24
Caro Pedo Camacho, a vitória de Obama é tão-só a vitória da Empresa - tida enquanto missão e virtude - sobre a impresa - tida enquanto referência, já nem valor sequer, em crise inevitável. Também votei Obama. Também ganhei. Também sei que vou ganhar. Também sei como e quanto podemos. Si, podemos. Tal como os injustiçados da América pré-Obama, fui vítima das circunstâncias. Fui compulsivamente, abusivamente, Bushmente afastado, ao cabo de um esforçado decénio em que tudo dei em prol de uma revista que tenho ainda como baluarte de qualidade gráfica e editorial. Arrisquei, como ora se constata o próprio percurso profissional - na defesa acérrima, reiterada e veemente da integridade editorial, formal, conceptual e até comercial de um título, Arquitectura & Construção, que, assim entendia e assim entendo, comporta potencial bastante para se constituir enquanto título charneira da Edimpresa. Para tanto e por tanto não hesitei em enfrentar até quem, de todo alheado do título e das preocupações que lhe seriam inerentes, se aplicou apenas, firmado num movediço deserto de ideias, em extemporâneos e descabidos acenos de puro acinte e desnecessária afirmação do almofadado topo da pirâmide hierárquica. Se a pirâmides, a leituras hieroglíficas, à contemplação de anos idos assim se apela, respeite-se então o presente relato enquanto pedra de Roseta e antes que a lapidação se consume contraponha-se já o que desde já se impõe contrapor. Depois de colaborar nos números iniciais de Arquitectura & Construção e de passar a integrar, há uma década, o quadro da Edimpresa, fui ensaiando a aproximação ao único produto editorial com que me identificava e que me assomava como coerente face à prática jornalística que já carreara até então (crítico de cinema no vespertino Capital, colunista/cronista nos semanários Blitz, Sete e O Independente, Editor-chefe da revista Heróis). Assumindo-me enquanto "jornalista cultural", termo em voga na década de 80 para classificar quem exercia em suportes como o JL, a revista do Expresso ou o Caderno III do Independente (onde colaborei desde o número 1 e assegurei coluna fixa ao longo de vários anos à semelhança de Manuel Graça Dias, João Bénard da Costa, Miguel Esteves Cardoso ou Vasco Pulido Valente), depois do cinema, da música ou da banda desenhada tidos enquanto objectos de análise e convites formais aos exercícios de escrita que me importava ensaiar, a Arquitectura, Bela Arte, configurava assim um corolário natural para o percurso jornalístico que desde 1986 vinha trilhando. Assim sucedeu. Com a saída da editora Dóris Graça Dias, a partir do nº12 de Arquitectura & Construção assumo naturalmente, com a anuência da Directora responsável, a responsabilidade pela orientação e coordenação editorial do título. Consumada, anos volvidos, a saída da Directora, fico responsável único por uma revista, informalmente autónoma, sem outra Direcção que não a que na prática me cabia, função profissionalmente gratificante que, saliente-se, exerci com dedicação absoluta e sacrifício pessoal, função que não raro me obrigou a interpelar directamente os putativos responsáveis pela publicação quando não o próprio Director-Geral arriscando, como ora se verifica, possíveis gestos de incompreensão, função que se saldou, ainda assim, por resultados relevantes nos diversos registos passíveis de aferição - audiências, vendas em banca, publicidade contratada e angariação de assinaturas - e permitiu impor em banca aquela que constituiu, a meu ver, uma dos mais conseguidas publicações no segmento específico e exigente das revistas de Arquitectura. Nunca, escusado seria dizê-lo, em dez anos de exercício profissional, foi minha intenção desrespeitar hierarquias ou desobedecer a chefias directas porquanto, muito simplesmente, nunca fui confrontado, orientado, dirigido ou de alguma forma comandado, nas funções que desempenhei, por hierarquias e chefias directas. Afigura-se-me impossível ser obediente ao inexistente. E sim, é. Sim, assiste-me toda a razão. Yes We Will. JOÃO MIGUEL FIGUEIREDO SILVA