Memória Consentida. Temas e motivos poéticos:
intimismo; procura de identidade; amor-melancolia;
erotismos e afectos; simbologias (homens e natureza);
meditação do lugar; consciência da escrita estética.
O texto que agora se apresenta articula os aspectos relevantes sobre o fenómeno da escrita em Rui Knopfli, numa atitude de cooperação, ou, se quisermos, de declaração, possível, da sua presença.
Sobre um poeta que assume o fingimento e o jogo da criação poética resulta, porventura, uma leitura analítica que não exclui uma subjectividade, isto é dizer, que solicita um encontro fecundo de fruição, próprio de uma escrita crítica e dialogante tão ao sabor de Knopfli.
O “respirar” poético
e a escrita como um labor oficinal.
Rui Knopfli trata poeticamente o duplo processo de insuflação poética e de fixação na matriz, ora queixando-se que «perdeu um verso largo, / enxuto e musical» ora reconhecendo que a poesia é também um ofício:
[…] Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso.
(p. 199)
Metaforicamente arisco e difícil – domesticável, domesticado?
Quando o poeta vê no verso que escreveu o seu «retrato moral», exposto involuntariamente (cf. «Amor das palavras», p. 41) é porque, de algum modo, o acto de escrita o ultrapassou. As palavras, escreve,
«juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.»
Ao «Aprendiz na Oficina da Poesia» (p. 108), aconselha a tomar uma atitude expectante, sem nada de buscas ansiosas, sem violentações rítmicas e rimáticas. Se o aprendiz esperar que as palavras germinem em si, então, cairão «maduras», qual um fruto, e «prenhes de significado». Contudo, se «o dito tempo exceder o tempo / que se achou ser justo esperar» – sugere o poeta em «Ars Poética 63», p. 183 – então, deve arriscar por começar.
Em «Ofício Novo» (p. 110), a poesia anima-se, agindo por si própria: «abre os olhos», cansa-se de um mundo de «sonho» e «refaz-se». Com ela, o poeta também.
Não é de agora a enunciação do duplo fenómeno da escrita. Já António Ferreira, no século XVI, defendia que o tempo favorece o espírito crítico e o possível retoque do texto escrito(1).
A reedição, num só volume, de obras publicadas ao longo de vinte anos deu a Knopfli a oportunidade de usar, sobre o corpus textual, a lima do poeta. Face à intenção de excluir textos que se lhe «afiguravam de qualidade inferior», solicitou um parecer sobre o critério seguido a Eugénio Lisboa que se pronunciou «em favor de que se mantivessem alguns textos previamente suprimidos porque entendia, no caso vertente, que aos juízos qualitativos se deveriam sobrepor os que concorressem para a delimitação do espaço geográfico, temporal e espiritual». Esta nota do autor, que antecede a colectânea, justifica, a meu ver, o título, Memória Consentida.
Documento disponível no sítio: Projecto Vercial (base de dados online sobre Literatura Portuguesa).