CANCIONEIRO POPULAR: «As meninas todas, três Marias»
Cantigas, conforme a própria palavra indica, são composições poéticas destinadas a ser cantadas. E não só cantadas: frequentemente apresentam carácter coreográfico. Poesia, música e dança populares associam-se e valorizam-se nessa ligação. |
Esta definição de cantiga popular consta num interessante volume da colecção “Biblioteca Breve" editada pelo Instituto de Cultura Portuguesa, em 1978, e graciosamente disponibilizado online pelo Instituto Camões, uma vez que essa edição se encontra esgotada. O livro tem por título O cancioneiro popular em Portugal e a autora é Maria Arminda Zaluar Nunes.
No final deste post, apresento uma pequena antologia de cantigas populares que provavelmente alguma vez terão ouvido.

Por agora, proponho uma iniciação neste género da literatura popular, através da leitura da seguinte cantiga (que não é tão simples quanto parece, pois parte do seu significado encontra-se oculto):
As meninas todas, três Marias, Foram-se a colher andrinas. As meninas todas, três Joanas, Foram-se a colher maçanas. Quando lá chigaram, acharam-nas colhidas. Quando lá chigaram, acharam-nas talhadas. |
A cantiga popular “As meninas todas, três Marias” foi recolhida em Parada de Infanções, no concelho de Bragança, por volta de 1932. Esta versão pressupõe outras não recolhidas. Resulta de uma condensação de muitos séculos, pois sabe-se que a cantiga já existia entre os séculos XV e XVI.
Enveredando pelos caminhos da intertextualidade histórica, associamo-la a uma cantiga de amigo paralelística dos séculos XII-XIII quer por causa da rima toante em «i» alternando com a toante em «a» (exemplos da época trovadoresca: “Bailemos agora, por Deus, ai velidas”, “Bailemos agora, por Deus, ai loadas”; “Bailemos nós já todas três, ai amigas”, “Bailemos nós já todas três, ai irmanas”) quer pelo uso das palavras “andrina”, “maçana” e até “talhada”, marcas linguísticas igualmente arcaicas.
Portanto, trata-se de uma cantiga que tem a marca da tradição, isto é, do trabalho do tempo sobre os textos, daí a existência de reminiscências a nível da expressão e do conteúdo.
É uma cantiga cujo ritmo se adequa ao trabalho do campo.


Um aspecto característico da literatura oral tradicional é a economia de meios expressivos, ficando a cargo do auditor/leitor preencher, com dados da sua competência narrativa, o que não fica dito: a condição das personagens, a situação e o espaço. Para não ficarmos por uma mera leitura de superfície, esclareço desde já que é útil ao neófito habituar-se à decifração de simbolismos vários.
Atentem na rima interna: “meninas”/”Marias”. No contexto, a palavra “meninas”, sem vogais abertas e com algum valor de diminutivo, tem conotação de naturalidade e graciosidade, o que até está de acordo com a condição jovial das personagens.
Quanto à numerologia tradicional, é sintomático que ocorra a referência ao número «três» que, no contexto, simboliza a pureza virginal das meninas.
“As meninas todas, três Marias” é um texto que envolve uma juventude num mundo perfeito. As meninas certamente vêm da casa paterna, entendida como um espaço de protecção. Além do mais, elas iam para um recinto de perfeição, pois a “maçã” e a “andrina” são frutos de árvores de cultivo e não frutos silvestres.
No entanto, é pelo caminho que podem ocorrer perigos vários – lembremo-nos, por exemplo, da menina do capuchinho vermelho que foi tentada pelo lobo mau quando saiu da protecção da casa materna e ia a caminho da casa da avó. Quando o espaço é aberto, livre, descampado, então passa a ser interpretado como um espaço de condenação, símbolo da tentação e do perigo. Ora, a expressão textual “Foram-se a colher” é diferente da simples perifrástica “foram colher”. Na expressão «Foram-se a colher» há todo um dinamismo centrado no caminho percorrido. Subentende-se que algo ocorre nesse percurso aberto que as meninas fazem, daí sermos surpreendidos com o final da cantiga. A verdade é que é inerente aos grandes símbolos terem uma dupla vertente: por exemplo, os elementos da Natureza (água, terra, fogo e ar) tanto podem ser benéficos como podem causar estragos. Nesta ordem de sentido, cidras, avelãs, andrinas (ameixas brancas) e maçanas são também símbolos do amor sensual (da pulsão erótica). Logo, o acto de colher andrinas tem a ver com o mundo do amor. Note-se, ainda, que colher frutos (tal como se vai colher flores) é um motivo tópico do carpe diem: aproveita este momento que passa para te dedicares ao prazer.
O sentido do texto faz-se pela sua globalidade. Desvendemos, então, o sentido profundo (oculto) desta cantiga popular: as donzelas, moças casadoiras, como é da tradição popular, caminham em direcção a um pomar com o propósito de colher ameixas e maçãs. Entenda-se o simbolismo: com o propósito de colher o amor; procuram os namorados, o desejo terrestre. Parece que terão conseguido o seu intento durante a caminhada, porque, quando chegaram ao espaço final, a acção de significação erótica estava já realizada – como se depreende pelo facto de as maçãs estarem talhadas (a maçã é o fruto do bem e do mal: inteiro é símbolo do bem e da eternidade; mas, uma vez beliscado, num quase acto prometeico, passa a ser símbolo do mal).
José Maria de Aguiar Carreiro


NUMEROLOGIA TRADICIONAL
NOTA EXPLICATIVA
TRÊS – é o número do triângulo; da unidade perfeita; dos três reinos; da santíssima trindade; das três virtudes: Fé, Esperança e Caridade.
SETE – é o número da globalidade. É representado por dois triângulos sobrepostos, porque é dado pelo centro dos dois triângulos unidos:

Sete é o número dos dias da semana e da criação do mundo. É o tempo da globalidade, o tempo que levou uma obra a elaborar.
O Dicionário dos Símbolos (J. Chevalier e A. Gheerbrant, Lisboa, Teorema, 1994) informa que o «sete indica o sentido de uma mudança depois de um ciclo concluído e de uma renovação positiva».
«Nos contos e nas lendas, este número exprime os sete estados da matéria, os sete graus da consciência, as sete etapas da evolução:
1. consciência do corpo físico: desejos satisfeitos de forma elementar e brutal;
2. consciência da inteligência da emoção: as pulsões complexificam-se com o sentimento e a imaginação;
3. consciência da inteligência: o sujeito classifica, ordena, raciocina;
4. consciência da intuição: as relações com o inconsciente são percebidas;
5. consciência da espiritualidade: desprendimento da vida material;
6. consciência da vontade: que faz com que o saber passe para a acção;
7. consciência da vida: que dirige toda a actividade para a vida eterna e para a salvação.»

Esta é a reprodução de um desenho rascunhado por Anna Kingsford mostrando as sete Estações, Estados, ou Actos da Alma Humana, incluindo o Triângulo Inferior do Hexagrama Sagrado ou “Selo de Salomão,” e representando a evolução interior dessa Alma (in O Credo do Cristianismo e outras Palestras e Ensaios sobre Cristianismo Esotérico, 1916, Anna Bonus Kingsford e Edward Maitland, Editado por Samuel Hopgood Hart, John M. Watkins, Londres)
O autor mação Albert Mackey escreveu sobre a conotação sexual deste hexagrama. "O triângulo que aponta para baixo é o símbolo feminino que corresponde ao Yoni e o triângulo que aponta para cima é o Linga, o símbolo masculino... Quando os dois triângulos estão entrelaçados, representam a união das forças activa e passiva na natureza; representam os elementos masculino e feminino." (Mackey, The Symbolism of Freemasonry, 1869, pg 195, 219, 361; também Albert Pike, Morals and Dogma, 1871, pg 13; também Wes Cook, editor, Did You Know? Vignettes in Masonry from the Royal Arch Mason Magazine, Missouri Lodge for Research, 1965, pg 132)
Para o mação, os triângulos entrelaçados do hexagrama representam uma relação sexual.


CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS
ANTOLOGIA
AMORES
Trago o sentido perdido Desde o dia em que te vi: Se durmo, sonho contigo, Se acordo, só penso em ti. Apalpei meu lado esquerdo Não achei meu coração, De repente me lembrei Que estava na tua mão. À tua porta, menina, ‘stá um fio de algodão; Todos passam, não se prendem, Só eu fiquei na prisão! Tenho cravos, tenho rosas, Manjericões a nascer; Tenho-te tanto amor Que to não posso dizer! Maria, minha Maria. Maria, meu ai-Jesus, No dia que te não vejo Nem a candeia dá luz! Triste sou, triste me vejo Sem a tua companhia, Tão triste, que nem me lembro Se alegre fui algum dia. À oliveira da serra O vento leva a felor Só a mim ninguém me leva Para o pé do meu amor! Quando vou à sua rua E não vejo o meu amor, E como se fora ao Céu Sem ver a Nosso Senhor. Tenho dentro do meu peito Um cravo branco dourado, Salpicado de águas tristes, Que por ti tenho chorado. A folha da oliveira Em chegando ao lume estala; Assim é meu coração Quando contigo não fala. Menina, que está à janela, Com a sua mão no rosto, Quem me dera ser a causa Das penas do seu desgosto! Aperta-me a minha mão, Que é um sinal encoberto; Antes que o mundo murmure Ninguém o sabe de certo. |

1 — Ó Laurinda, ó Laurindinha, Tua mãe ‘stá-te a chamar. — Eu bem sei o que ela quer: Não me deixa namorar. 2 Não me deixa namorar, Ela também namorou. Minha mãe já se não lembra Do tempo que já passou. 3 Do tempo que já passou, Do tempo que já lá vai, Minha mãe já se não lembra Que namorou com meu pai. Embora tua mãe não queira E teu pai diga que não, Havemos de ir à Igreja Dar as mãos como os mais dão. À cor do verde é ‘sperança, Esperança tenho em Deus Dum dia ver os meus braços Entrelaçados nos teus. Oh quem fosse tão ditoso Como o linho que fiais! Quem levasse tantos beijos, Como vós no linho dais! Eu venho da romaria Da Senhora d’Alcachopa; Agora venho santinho, Dá-me um beijo, ó cachopa! Por prenda de romaria Uma cruz de oiro quiseste, Dei-te a minha alma, Maria, Mas nunca ao peito a trouxeste. Não te dei cravo nem rosa, Dei-te um lencinho bordado; Numa ponta tinha a Lua E na outra o Sol pintado. Não me atires com pedrinhas Que estou a lavar a loiça, Atira-me com beijinhos, Com que minha mãe não oiça. Tenho sede, amor, dá-me água, Não ma dês pela tijela, Dá-ma pela tua boca, Que eu não tenho nojo dela. Esse teu peito, menina, É um casal de pombinhas Deixa-me ir lá com a mão Para ver se tem asinhas Ó Rosa, ó minha Rosa, Deus te faça uma santinha, Os anjos do Céu te tragam Da tua cama p’rà minha! Eu hei-de ir à tua rua, Saltar à tua janela, Para ver a tua cama, Se cabemos ambos nela. Fiz a cama na amoreira, A travesseira no chão. A cama sem rapariga E como o caldo sem pão! Ó luar da meia-noite, Não venhas cá ao serão: Qu’isto de quem tem amores Quer escuro e luar não. Ó coração, que dois amas, Contigo tenho má fé. Não quero amor partido, Que o meu inteiro é. Tu pediste-me a meu pai Sem saber se quero eu: Em tudo meu pai governa, Só nisso governo eu. Esta noite à meia-noite Ouvi cantar e chorei: Cuidei que era o meu amor, Ai, Jesus, que me enganei! Quero cantar, mas não posso: Falta-me a respiração, Falta-me a luz dos teus olhos, Amor do meu coração! |
LOAS EM CASAMENTO*
Fostes hoje à igreja, Minha salvinha de prata, Fostes dar um nó tão cego, Que só a morte o desata. Não quisestes por mais tempo Ficar onde estavas bem, Regalada e mimosa À sombra da tua mãe. Oh que lindo sacramento Fizeram estes senhores! Deus no Céu lhe bote as bênçãos E nós cá na terra as flores. Dá-me cá esse adufe Qu’eu o farei retinir: As meninas desta terra Eu as farei aqui vir. Essa rosa, senhor noivo, Inda ontem era botão; Trate dela como sua, Meta-a no seu coração! |
* Pedro Fernandes Tomás — Velhas Canções e Romances Populares Portugueses, p. 168. Nota do colector: Canção entoada pelos convidados quando acompanham, depois da cerimónia do casamento, os noivos a casa. Vulgar, principalmente, na Beira Baixa.
O TRABALHO
Nunca eu fui cantador Nem aos descantes chamado; Filho dum trabalhador, Trabalhos me têm matado. A vida que eu te dou Já tu podes ir sabendo: Tu trabalhas, eu trabalho, Assim hemos de ir vivendo. Meu amor é lavrador, Lavra terras na feteira, O arado com que lavra É de pau de laranjeira. Tenho vida de ganhão, Não te posso assistir: De dia ganho o meu pão, De noite quero dormir. Toda a vida fui pastor, Toda a vida guardei gado, Tenho uma chaga no peito De me encostar ao cajado. Oh, que grande calma cai, Eu à sombra estou suando! Que fará o meu amor Naquele campo ceifando! Meu amor é barreneiro, * Trabalha na contramina. Quando me virão dizer: — Caiu-lhe a barreira em cima! Pedreiros cheiram à pedra, Carpinteiros à madeira, Cada qual tem seu afício: Eu também sou lavadeira. Meu coletinho de linho Não mo deu nenhum vadio; Bem mo custou a ganhar Naquelas pedras do rio! Costureira, apaga a luz, Apaga-a, vai-te deitar; Já passa da meia-noite, São horas de descansar. Indas que sou pequena, Sou mulher de minha casa, Para chegar à masseira Ponho-me em cima da rasa. Varejai, varejadores, Apanhai, apanhadeiras, Apanhai bolinhas de oiro Que caem das oliveiras. A vida do pescador É uma vida arrastada: Toda a semana no mar Em cima da água salgada! Eu deitei a rede ao mar, A fita da mesma linha, Para apanhar a fataça E juntamente a tainha. A sorte do marinheiro É de todas a mais dura: Anda sempre a trabalhar Em cima da sepultura. As ondas do mar lá fora De bravas são amarelas, Ai da mãe que tem um filho Para andar em cima delas! Embarquei-me no mar largo, Já perdi vistas à terra, Já não vejo senão céu, Água e vento que me leva. Nossa Senhora da Ajuda, Que aí ‘stais no vosso altar, Ajudai os pescadores Que andam nas águas do mar! |
* Barreneiro = Mineiro
MUSA IRÓNICA
Quem tem amores não dorme Nem de noite nem de dia, Dá tantas voltas na cama Como o peixe na água fria. Eu cá sou um bom rapaz, Mesmo nada interesseiro: Da moça quero eu amor E do pai quero dinheiro. Menina, case comigo, Que eu sou rico e abonado: Tenho um curral sem ovelhas E uma casa sem telhado. Menina, venha comigo Não tenha medo à fome; O meu pai tem uma «quinta», * Que sustenta a quem não come. Quando é dia brilha o Sol, De noite alumia a Lua; Quando o Sol brilhar de noite, Podes crer que serei tua. O amor dos homens É como o fermento: Ao fim de oito dias Já ‘stá bolorento. Candeeiro de três luzes Alumia quatro cantos; Mal empregada menina, Ser namorada de tantos! Cada vez que eu considero, Digo mal à minha vida: Tenho roupa, tenho cama. Só me falta a rapariga. Eu queria-me casar, Mas não tenho quem me queira; Já tinha de ser domingo, Ficou p’ra dia de feira. Cala-te, meu papa-açorda, Meu alimpa barranhões, ** Já te foram convidar P’rò refugo dos ganhões. O meu amor é da serra Da serra do Caramulo, Ele vem por i abaixo Caldeado no enxurro. O meu amor é dos altos, Hei-de mandá-lo serrar: Fica-me um amor bem feito E lenha para eu queimar. |
* A quinta-feira.
* * Alguidares onde comem os ganhões.
José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt