“De Luís de Camões sabemos pouco, é certo, mas sabemos o suficiente para se não poder fazer dele outro modelo que não seja de singularidade. Pois em que padrão poderia transformar-se um homem que não estudou leis, não teve modo de vida conhecido, não levou nenhuma dama à igreja, não contribuiu para o aumento da população, não pertenceu a qualquer confraria, e cuja vida é capaz de ter sido mesmo das mais desgraçadas que jamais a qualquer português letrado coube em sorte? Camões, se modelo é, convenhamos que é apenas modelo de poesia e de liberdade — e isso basta.”
Eugénio de Andrade, “Quem celebra quem” in Camões, nº1, Agosto de 1980, Ed. Caminho
(Comemorações do 4º Centenário da Morte de Camões)
Na tentativa de desvendar o mistério que envolve a figura de Camões, artistas e admiradores criaram-lhe um rosto, imaginaram-lhe uma biografia e utilizaram Os Lusíadas como símbolo patriótico em momentos de crise nacional. As poucas certezas sobre a sua vida foram sendo amplificadas por fantasias sobre os seus amores, as suas aventuras e a sua miséria. Ora, pelo que nos parece, uma vida de pobreza, vagabundagem, cadeia e desterro é própria de um herói às avessas, aventureiro que usou o seu desembaraço e capacidade criativa para lidar com as mais diversas adversidades. E assim a lenda foi-se construindo.
NAQUELE TEMPO / HISTÓRIAS DE UM AUTOR
história 1 o escritor na prisão
“Camões esteve duas ou três vezes preso, a primeira das quais cerca de nove meses entre 16 de Junho de 1552 e 13 de Março de 1553 por causa de uma rixa no Rossio em que feriu no toutiço o cidadão Gonçalo Borges, encarregado dos arreios do rei. Foi metido no Tronco da cidade de Lisboa, a prisão ignominiosa de masmorras e enxovias que Aquilino Ribeiro admite ter recebido o nome dos cepos com argolas e correntes a que eram amarrados os detidos pelo pescoço e pelos pés. Na biografia em dois volumes que dedicou ao poeta, editados pela Bertrand — Luís de Camões, Fabuloso, Verdadeiro —, Aquilino descreve o Tronco como sendo um casarão “nojento, piolhoso e latrinário ergástulo, tão medonho como os cárceres do Santo Ofício mas incomparavelmente mais reles na escala de indecência”. Dura pena por uma simples rixa, que o poeta mais de uma vez travou na sua boémia pelas ruelas da Lisboa nocturna entre pátios, tavernas e cortesãs. António José Saraiva e Óscar Lopes dão-no como certo nas páginas que lhe dedicam na História da Literatura Portuguesa: “As cartas particulares de Camões mostram-no envolvido em brigas nocturnas entre bandos, com outros fidalgos arruaceiros e com mulheres fáceis do Bairro Alto.” Gonçalo Borges acaba por perdoar-lhe as estocadas e o rei manda libertar o épico pregando-lhe uma multa de 4000 réis e compelindo-o a ir servir para a Índia, para onde parte em 1553, já com o olho direito vazado num combate em Ceuta contra os mouros.
Soldado e funcionário no Oriente, Camões passa uma vida de penúria e aventuras e é de novo preso por ordem do governador Francisco Barreto, não se sabe ao certo se por ter delapidado dinheiros que recebia na sua qualidade de provedor de defuntos se por intrigas aos ouvidos do rei ou se por causa das duas coisas. Certo, certo, lembra Aquilino Ribeiro, é que o que lhe faltava para não ser preso era — coisa corrente na época tanto como hoje — “o prestígio heráldico no nome, amigos poderosos e dedicados, e a mediocridade. Então como hoje triunfavam os medíocres. Só eles têm as qualidades requeridas de insistência e persistência, desvergonha, afabilidade, entendimento oportuno para se tornarem úteis e recomendáveis [...]. Camões, a inferir de certos versos seus, bastante hipertróficos, devia avaliar-se pela medida grande e ver os outros nas justas proporções. Semelhante sentido das perspectivas nunca poderia concorrer para o seu engrandecimento individual. Mesmo quando lisonjeava, desconfiavam dele”. Após dezassete anos de Oriente, Camões volta a Portugal, quotizado por amigos. Pobre e alquebrado, começa em 1571 a sua luta para publicar Os Lusíadas, que salvara de um naufrágio na costa do Camboja apesar de nele ter perdido a companheira chinesa. Em Lisboa tem de submeter o texto aos censores do Santo Ofício, instalados no Mosteiro de S. Domingos, e discuti-lo verso a verso. Consegue imprimir o livro em 1572, meia dúzia de anos antes de morrer numa enxerga miserável alimentado pelas esmolas que o escravo Jau conseguia arranjar. Sobre Os Lusíadas e tudo o resto que entretanto o poeta já escrevera caiu o silêncio da comunidade intelectual do seu tempo, ocupada a elogiar autores que hoje ninguém sabe quem são." (in Cadernos de Literatura, Cristina Duarte, Fátima Rodrigues e Maria de Sousa Tavares, Raiz Editora, 1993)
história 2 LUÍS, O POETA, SALVA A NADO O POEMA

Era uma vez um português de Portugal. O nome Luís há-de bastar toda a nação ouviu falar. Estala a guerra e Portugal chama Luís para embarcar. Na guerra andou a guerrear e perde um olho por Portugal. Livre da morte pôs-se a contar o que sabia de Portugal. Dias e dias grande pensar juntou Luís a recordar. Ficou um livro ao terminar. muito importante para estudar: Ia num barco ia no mar e a tormenta vá d'estalar. Mais do que a vida há-de guardar o barco a pique Luís a nadar. Fora da água um braço no ar na mão o livro | há-de salvar. Nada que nada sempre a nadar livro perdido no alto mar. – Mar ignorante que queres roubar? A minha vida ou este cantar? A vida é minha ta posso dar mas este livro há-de ficar. Estas palavras hão-de durar por minha vida quero jurar. Tira-me as forças podes matar a minha alma sabe voar. Sou português de Portugal depois de morto não vou mudar. Sou português de Portugal acaba a vida e sigo igual. Meu corpo é Terra de Portugal e morto é ilha no alto mar. Há portugueses a navegar por sobre as ondas me hão-de achar. A vida morta | aqui a boiar mas não o livro se há-de molhar. Estas palavras vão alegrar a minha gente de um só pensar. À nossa terra irão parar lá toda a gente há-de gostar. Só uma coisa vão olvidar o seu autor aqui a nadar. É fado nosso é nacional não há portugueses há Portugal. Saudades tenho mil e sem par saudade é vida sem se lograr. A minha vida vai acabar mas estes versos hão-de gravar. O livro é este é este o canto assim se pensa em Portugal. Depois de pronto faltava dar a minha vida para o salvar. Almada Negreiros |
história 3 quem conta um conto…

in Das palavras aos actos, Ed. Asa, 2007
história 4 exigindo o pagamento de uma dívida
Volta a D. António, senhor de Cascais, que prometera a Luís de Camões seis galinhas recheadas por uma cópia que lhe fizera, e lhe mandava, por princípio de paga, meia galinha.
Cinco galinhas e meia
deve o Senhor de Cascais;
e a meia vinha cheia
de apetites para as mais.
Luís de Camões, Rimas, Autos e Cartas
ed. org. por A. J. Costa Pimpão, Porto, Liv. Civilização. 1978.
história 5 …e assim nasceu um poema
Aquele famoso poeta Luís de Camões que, absolutamente falando, foi o Príncipe de todos eles, era nas feições do corpo, alto de estatura, largo de espáduas, de cabelo ruivo, no rosto sardo, e torto nos olhos: era de entendimento agudo, de juízo claro e raro engenho, nas Humanidades visto, na ciência versado, nas armas destro, no ânimo valente, concorreram com ele muitos homens de habilidade, os quais todos, ora em casa de um, ora de outro, passavam alegremente a vida em disputas curiosas, ditos galantes e deleitosa conversação; os poetas davam-se motes e glosavam-nos de repente; os que não o eram [capazes de fazer] julgavam da melhor composição. Ajuntando-se um dia em casa de Luís de Camões para passarem nela uma sesta1 de verão, levantou-se então entre eles uma cantiga que andava nas [bocas das] moças do cântaro e que dizia: «Coifa de beirame / namorou Joane». Disse então um dos da companhia e do número daqueles que não faziam versos que folgaria que a este mote de zombaria os senhores poetas fizessem algumas voltas de siso. Acudiu logo o Camões, tomando a mão dos outros começou dizendo:
Por cousa tão pouca andas namorado amas o toucado e não quem o touca, ando cega, e louca por ti meu Joane e tu pelo beirame. | Amas o vestido és falso amador, tu não vês que amor se pinta despido Tu cego e perdido andas por beirame e eu por ti, Joane. |
e, assim mesmo, lhe foi fazendo outras voltas que andam impressas no livro de suas obras, e em todas elas seguia o mesmo pensamento da cantiga, estranhando ao Joane afeiçoar-se à coifa, e não a quem a trazia na cabeça, o que ouvindo um dos poetas que na casa estavem, por nome António Pinto, disse para o Camões: «Não é de crer que Joane fosse tão tolo como vós o fazeis; o que eu entendo é que:
A coifa caiu
a uns olhos belos,
descobriu cabelos
que Joane viu,
o que descobriu
coifa de beirame
namorou Joane.»
Anedotas portuguesas e memórias biográficas da corte quinhentista,
leitura do texto, introdução, notas e índice por Christopher Lund,
Coimbra, Almedina, 1980 (pp.170-171).
Trata-se de um manuscrito descoberto por Lund, em 1976: cópia, com letra que ao investigador «parece» ser seiscentista, de um outro, cujo núcleo é constituído por 14 anedotas «de indiscutível autoria» de um Ruy Lourenço de Távora «que morreu por Vizo Ruy a India» (em 1576).
Independentemente da verdade do retrato físico e do facto relatado, é um documento importante pelo registo de «modos» da época. (cf. Leituras, Cristina Duarte e Fátima Rodrigues, Raiz Editora, 1997)
1 Sesta: o pino da calma
história 6 uma ceia original
Cinco trovas que Luís de Camões fez na Índia, a certos fidalgos a quem convidara para cear.
A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataíde, entre dous pratos, e dizia assim:
Se não quereis padecer
?a ou duas horas tristes,
sabeis que haveis de fazer?
Volveros por do venistes2
que aqui não há que comer.
E posto que aqui leiais
trovinha que vos enleia,
corrido não estejais;
porque por mais que corrais
não heis-de alcançar a ceia.
A segunda, a D. Francisco d’Almeida:
Heliogábalo3 zombava
das pessoas convidadas,
e de sorte as enganava
que as iguarias que dava
vinham nos pratos pintadas.
Não temais tal travessura,
pois pode já não ser nova;
que a ceia está mui segura
de vos não vir em pintura,
mas há-de vir toda em trova.
[…]
A quinta e derradeira iguaria foi posta a Francisco de Melo e dizia:
De um homem teve o ceptro
da veia maravilhosa,
não foi cousa duvidosa,
que se lhe tornava em metro
o que ia a dizer em prosa.
De mim vos quero apostar
que faça cousas mais novas
de quanto podeis cuidar:
esta ceia, que é manjar,
vos faça na boca em trovas.
Luís de Camões, Rimas, Autos e Cartas
ed. org. por A. J. Costa Pimpão, Porto, Liv. Civilização. 1978.
2 “Volveros por do venistes”: voltar para donde viestes.
3 “Heliogábalo”: imperador de Roma.
LÍRICA CAMONIANA AUTOBIOGRÁFICA
É sobretudo nos poemas de carácter autobiográfico que mais podemos descortinar a pessoa de Camões. O poeta apresenta-se como um ser diferente, perseguido pela má sorte, por um destino cruel. Segundo José Augusto Cardoso Bernardes, “[…] exceptuando algumas redondilhas ou um ou outro raro soneto de teor exclusivamente lúdico ou circunstancial, pode afirmar-se que toda a obra lírica de Camões se centra na evocação de um itinerário pessoal, assinalado pelo Engano e pelo Desengano, pela Carência e pela Culpa, pela amargura do desconcerto e pela aspiração a uma plenitude em que o Amor ocupa, de facto, um lugar subordinante.” (in História Crítica da Literatura Portuguesa II, Ed. Verbo)
Na revista Camões, nOS 2/3 (Ed. Caminho, Set. a Dez. de 1980), editada no âmbito das comemorações do 4º Centenário da Morte de Camões, Baptista-Bastos publicou uma “entrevista” imaginária em que as respostas às perguntas feitas são versos de poemas de Luís de Camões.
A título de exemplo segue-se um pequeno excerto:
— Camões, você parece ser um homem triste.
— Tudo passei; mas tenho tão presente / A grande dor das cousas que passaram / Que as magoadas iras me ensinaram / A não querer já nunca ser contente.
(Do soneto “Erros meus, má fortuna, amor ardente”)
— Pode definir o amor, você, que foi a ele dado?
— Amor é um fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente; / É um contentamento descontente; / É dor que desatina sem doer. / É um não querer mais que bem querer; / É um andar solitário entre a gente.
(Do soneto “Amor é um fogo que arde sem se ver”)
— A sua vida foi, portanto, difícil?
— Em prisões baixas fui um tempo atado, / Vergonhoso castigo de meus erros; / lnda agora arrojando levo os ferros, / Que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado. / Sacrifiquei a vida a meu cuidado, / Que Amor não quer cordeiros nem bezerros; / Vi mágoas, vi misérias, vi desterros, / Parece que estava assi ordenado.
(Do soneto “Em prisões baixas fui um tempo atado”)
— Mas acredita na permanente transformação das coisas, na transformação do Mundo?
— Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o Mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.
(Do soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”)
— No entanto, você, Camões, parece um homem preocupado.
— Tanto de meu estado me acho incerto, / Que em vivo ardor tremendo estou de frio; / Sem causa, juntamente choro e rio; / O mundo todo abarco e nada aperto. / É tudo quanto sinto um desconcerto; / Da alma um fogo me sai, da vista um rio; / Agora espero, agora desconfio, / Agora desvario, agora acerto.
(Do soneto “Tanto de meu estado me acho incerto”)
CAMÕES NA POESIA CONTEMPORÂNEA
Do ponto de vista cultural e artístico, a obra de Camões é um lugar de múltiplos encontros.

Camões na prisão de Goa pintor desconhecido, séc. XVI | Camões em Goa Júlio Pomar, 1916 |
AMOR SOMENTE Manuel Alegre Em cada amor presente o amor ausente (amor como tu querias não havia) que para ti bastava amor somente e sempre em dor amor se consumia. Talvez em ti amor fosse um repente um ver amor no amor que te não via ou talvez um buscar o verso ardente em que sempre o amor se convertia. Tinhas que arder arder de puro ardor arder de fogo frio amor do amor amor já só ideia ou só palavra. Cativo mas tu só libertador fosse princesa ou p uta ou fosse escrava que para ti somente amor bastava. in Com que pena, vinte poemas para Camões, 1992 | HOMENAGEM A CAMÕES Dante Milano Através do imitado sentimento, ao ler-te, quanta vez tenho sentido como é muito maior o amor vivido em acto não, mas só em pensamento. Então invento o que amo e amo o que invento, em coisas sem razão tão comovido que o ar me falta e o respiro comprimido não sei se dá, não sei se tira o alento. Sabor de amor é esse alto respirar, essa angústia em suspiros mal dispersos, Em amor, que importância tem o ar, o ar, cheio de fantásticas acções! Assim, aquele que imitar teus versos, primeiro imite o teu amor, Camões. in Poesias, RJ, Ed. Agir, 1948. |
CAMONIANA Nuno Júdice
Quem és tu, bárbara, que moras
num poema que se estuda nas escolas
e se lê em recitais,
— tu que te limitaste a ser amada
por um poeta que, se calhar, mais
não te deu em troca do amor
do que esse poema que tu, se calhar,
nunca chegaste a ouvir? Quem és,
ó mulher mais real do que esse
poeta que te cantou, e de cuja vida
ninguém sabe nada — a não ser
que te amou, e te deitou nesse
poema em que ainda vives, e respiras,
como no dia em que ele o escreveu
lembrando-se do teu corpo, e dos
teus lábios, e dos dias, ou noites,
que contigo se passaram? Quem és,
mulher real e sonhada que habitas
todos os poemas que esse poema
inspirou, e todos os sonhos que
nessa bárbara encontraram uma imagem
precisa e definitiva? Volta-te
nesses versos, para que te vejamos
o rosto, e diz-nos o teu nome — o nome
autêntico, e não esse que o poeta
inventou para te chamar num poema
que de ti só guarda o segredo;
e adormece, depois, esquecendo
o que de ti disseram, e os comentários
de que foste o pretexto, e as imagens
em que, cada vez mais, foste perdendo
a tua, e única, imagem.
in Um Canto na Espessura do Tempo, 1992

BÁRBORA NÃO José Maria de Aguiar Carreiro
Cantando o poeta em sua escora
levara na fadiga antiga rima.
Ó moço que no leito discorres, cuida,
arde para que sinal torne tua amiga.
Contando que a viu em face distinta,
sua companheira sorriu somente.
Vai com ele na doce peia que mais não
pode viver se sabe. Amor, disse, e apôs
seu nome, sua ventura.
Então a doce morena mordeu o lábio,
mais rica, mais leve na canela.
Porte esguio que a alma aquece.
Com vagar sorriu, deitou olhar e
co’as mãos já humedecidas as escondeu.
Fico grato, concretamente, de seu fastio
ou de seu intento. Calou. Sorriu.
Sorriu somente.
Folha de Poesia, Junho de 2007
SONETO António Gedeão Ao Luís Vaz, recordando o convívio da nossa mocidade Não pode Amor por mais que as falas mude exprimir quanto pesa ou quanto mede. Se acaso a comoção falar concede é tão mesquinho o tom que o desilude. Busca no rosto a cor que mais o ajude, magoado parecer aos olhos pede, pois quando a fala a tudo o mais excede não pode ser Amor com tal virtude. Também eu das palavras me arreceio, também sofro do mal sem saber onde busque a expressão maior do meu anseio. E acaso perde, o Amor que a fala esconde, em verdade, em beleza, em doce enleio? Olha bem os meus olhos, e responde. | E ALEGRE SE FEZ TRISTE Manuel Alegre Aquela clara madrugada que viu lágrimas correrem no teu rosto e alegre se fez triste como se chovesse de repente em pleno agosto. Ela só viu meus dedos nos teus dedos meu nome no teu nome. E demorados viu nossos olhos juntos nos segredos que em silêncio dissemos separados. A clara madrugada em que parti. Só ela viu teu rosto olhando a estrada por onde um automóvel se afastava. E viu que a pátria estava toda em ti. E ouviu dizer-me adeus: essa palavra que fez tão triste a clara madrugada. in O Canto e as Armas, 1967 |
LEONOR António Cabral A Leonor continua descalça, o que sempre lhe deu certa graça. Pelo menos não cheira a chulé e tem nuvem de pó sobre ò pé. Digam lá se as madames do Alvor são tão lindas como esta Leonor Um filhito ranhoso na mão, uma ideia já podre no pão. Meia dúzia de sonhos partidos, a seus pés, como cacos de vidros. Digam lá se as madames do Alvor são tão lindas como esta Leonor. Antologia dos Poemas Durienses, Chaves, Edições Tartaruga, 1999 EPITÁFIO PARA LUÍS DE CAMÕES José Saramago Que sabemos de ti, se só deixaste versos, Que lembrança ficou no mundo que tiveste? Do nascer ao morrer ganhaste os dias todos? Ou perderam-te a vida os versos que fizeste? in Poemas Possíveis, 1966 LÁPIDE Miguel Torga Luís Vaz de Camões. Poeta infortunado e tutelar. Fez o milagre de ressuscitar A Pátria em que nasceu. Quando, vidente, a viu A caminho da negra sepultura, Num poema de amor e de aventura Deu-lhe a vida Perdida. E agora, Nesta segunda hora De vil tristeza, Imortal, É ele ainda a única certeza De Portugal. | POEMA DA AUTO-ESTRADA António Gedeão Voando vai para a praia Leonor na estrada preta. Vai na brasa, de lambreta. Leva calções de pirata, vermelho de alizarina, modelando a coxa fina, de impaciente nervura. como guache lustroso, amarelo de idantreno, blusinha de terileno desfraldada na cintura. Fuge, fuge, Leonoreta: Vai na brasa, de lambreta. Agarrada ao companheiro na volúpia da escapada pincha no banco traseiro em cada volta da estrada. Grita de medo fingido, que o receio não é com ela, mas por amor e cautela abraça-o pela cintura. Vai ditosa e bem segura. Com um rasgão na paisagem corta a lambreta afiada, engole as bermas da estrada e a rumorosa folhagem. Urrando, estremece a terra, bramir de rinoceronte, enfia pelo horizonte como um punhal que se enterra. Tudo foge à sua volta, o céu, as nuvens, as casas, e com os bramidos que solta, lembra um demónio com asas. Na confusão dos sentidos já nem percebe Leonor se o que lhe chega aos ouvidos são ecos de amor perdidos se os rugidos do motor. Fuge, fuge, Leonoreta Vai na brasa, de lambreta. in Máquina de Fogo, 1961 |
CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS Jorge de Sena
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido como meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
iguais a vós de joelhos, porem flores no túmulo.
Assis, 1961
LUÍS VAZ DE CAMÕES Carlos Nejar Não sou um tempo ou uma cidade extinta. Civilizei a língua e foi reposta em cada verso. E à fome, condenaram-me os perversos e alguns dos poderosos. Amei a pátria injustamente cega, como eu, num dos olhos. E não pôde ver-me enquanto vivo. Regressarei a ela com os ossos de meu sonho precavido? E o idioma não passa de um poema salvo da espuma e igual a mim, bebido pelo sol de um país que me desterra. E agora me ergue no Convento dos Jerónimos o túmulo, quando não morri. Não morrerei, não quero mais morrer. Nem sou cativo ou mendigo de uma pátria. Mas da língua que me conhece e espera. E a razão que não me dais, eu crio. Jamais pensei ser pai de tantos filhos. | CAMÕES Gastão Cruz Falam de Camões como falaram os que desconheciam a poesia Produzem cristais baços do passado usam Camões como um nome perdido a poesia não pode ser motivo de júbilo aos que a traem Camões não é um túmulo perdido num passado senil Que não o cite em vão quem desconhece que cita um nome vivo in Camões, Grande Camões, Porto, UNICEPE, 2002 |
CAMÕES E A TENÇA Sophia de Mello Breyner Andresen
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce
Em tua perdição se conjuraram
calúnias desamor inveja ardente
e sempre os inimigos sobejaram
a quem ousou seu ser inteiramente
E aqueles que invocaste não te viram
porque estavam curvados e dobrados
pela paciência cuja mão de cinza
tinha apagado os olhos no seu rosto
Irás ao paço irás pacientemente
pois não te pedem canto mas paciência
Este país te mata lentamente
in Dual, 1972
A LUÍS DE CAMÕES Jorge Luis Borges
Sem lástima e sem ira o tempo arromba As heróicas espadas. Pobre e triste À tua pátria nostálgica voltaste, Ó capitão, para nela morrer E com ela. No mágico deserto Tinha-se a flor de Portugal perdido E o áspero espanhol, antes vencido, Ameaçava o seu costado aberto. Quero saber se aquém da ribeira Última compreendeste humildemente Que tudo o perdido, o Ocidente E o Oriente, o aço e a bandeira, Perduraria (alheio a toda a humana Mutação) na tua Eneida Lusitana. in O Fazedor, 1960 tradução de Miguel Tamen (Difel, 1985) | Sem cólera nem mágoa arromba o tempo As heróicas espadas. Pobre e triste, À nostálgica pátria regrediste Pra com ela morrer nesse momento, O capitão, no mágico deserto. Tinha-se a flor de Portugal perdido E o áspero espanhol, antes vencido, Ameaçava o seu costado aberto. Quero saber se aquém da derradeira Margem compreendeste humildemente Que o império perdido, o Ocidente E o Oriente, o aço e a bandeira, Perduraria (alheio a toda a humana Mudança) em tua Eneida lusitana. tradução de Fernando Pinto do Amaral (Obras Completas II, Ed. Teorema, 1998) |
A CAMÕES Manuel Bandeira Quando n’alma pesar de tua raça a névoa da apagada e vil tristeza, busque ela sempre a glória que não passa, em teu poema de heroísmo e de beleza. Génio purificado na desgraça, tu resumiste em ti toda a grandeza: poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça o amor da grande pátria portuguesa. E enquanto o fero canto ecoar na mente da estirpe que em perigos sublimados plantou a cruz em cada continente, não morrerá sem poetas nem soldados a língua em que cantaste rudemente as armas e os barões assinalados. | CAMÕES Miguel Torga Nem tenho versos, cedro desmedido, da pequena floresta portuguesa ! Nem tenho versos, de tão comovido que fico a olhar de longe tal grandeza. Quem te pode cantar, depois do Canto que deste à pátria, que to não merece? O sol da inspiração que acendo e que levanto chega aos teus pés e como arrefece. Chamar-te génio é justo, mas é pouco. Chamar-te herói, é dar-te um só poder. Poeta dum império que era louco, foste louco a cantar e louco a combater. Sirva, pois, de poema este respeito que te devo e confesso, única nau do sonho insatisfeito que não teve regresso! |
HISTÓRIA, CORAÇÃO, LINGUAGEM Carlos Drummond de Andrade
Dos heróis que cantaste, que restou se não a melodia do teu canto? As armas em ferrugem se desfazem, os barões nos jazigos dizem nada. E teu verso, teu rude e teu suave balanço de consoantes e vogais, teu ritmo de oceano sofreado que os lembra ainda e sempre lembrará. Tu és a história que narraste, não o simples narrador. Ela persiste mais em teu poema que no tempo neutro, universal sepulcro da memória. Bardo, foste os deuses mais as ninfas, as ondas em furor, céus em delírio, astúcias, pragas, guerras e cobiças, lodoso material fundido em ouro. Multissexual germinador de assombros, na folha branca vieste demonstrando e que ao homem, na luta contra o fado, cabe tentar, cabe vencer, perder, e nisto se resume a irresumível humana condição no eterno jogo sem sentido maior que o de jogar. E quando de altos feitos te entedias e voltas ao comum sofrer pedestre do desamado, não te vejo a ti perdido de saudades e desdéns. | Luís, homem estranho, que pelo verbo és, mais que amador, o próprio amor latejante, esquecido, revoltado, submisso, renascente, reflorindo em cem mil corações multiplicado. És a linguagem. Dor particular deixa de existir para fazer-se dor de todos os homens, musical, na voz de órfico acento, peregrina. Que pássaro lascivo se intercala no queixume subtil de tua estrofe e não se sabe mais se é dor, delícia, e espinho, afago, e morte, renascença? Volúpia de gemer, e do gemido destilar a canção consoladora a quantos de consolo careciam e jamais a fariam por si mesmos? (Amaldiçoado dia de nascer que em bênçãos para nós se converteu!) Já tenho uma palavra pré-escrita que tudo exprime quanto em mim se turva. Pelos antigos e pelos vindouros, foste discurso de geral amor. Camões — oh som de vida ressoando em cada tua sílaba fremente de amor e guerra e sonho entrelaçados! in A Paixão Medida, 1980 e Camões, nos 2/3, Set. a Dez. de 1980, Ed. Caminho (Comemorações do 4º Centenário da Morte de Camões) |