SOL

António Franco Alexandre lido por Óscar Lopes

   

POEMA INICIAL DE VISITAÇÃO

  

suponha que desprende desaprende

que só de si depende separar-se

em esse início a boca desatenta

em mudo ouvido

suponha que me inventa

  

o liminar deserto desenhando

num princípio de breves acidentes

suponham que conheço a sua terra

o aroma irrespirável dos teares

o azeite da ira e

suponham que os invento

  

suponha que nasci no mississipi

aprendi a falar no vão do vento

os lábios dos navios já não entendem

o amor às idades muito

lentas

suponho que o invento

  

suponha que o início não começa

suponha que o princípio não limita

as palavras são duros tornozelos

o sol ruiu nos vidros deslavados

quase ninguém ou nada

o mergulho da tarde inventa.

  

eu simplesmente ardi fui o retrato

das suas mãos que tecem pesadelos

na margem que deixaram

as migrações do vento

  

o meu país tem dormições abertas

o público dos seus

doces tormentos

eu simplesmente ouvi a luz dos ventos

  

António Franco Alexandre, Gota de Água, 1983.

  

  

   

Óscar Lopes (in Cifras do Tempo, Ed. Caminho, 1990) aponta sete graus, não de exacta sucessão, mas de faseamento numa leitura deste poema:

  

1.      fruição de lúdicas recorrências de rimas internas ou finais, ressonâncias, assonâncias (desaprende, inventa), paranomásias (desprende, desaprende), aliterações (que só de si depende separar-se), de estribilhos modulados (supunha, supunham, suponho), etc.;

  

2.      observação de imagens ou metáforas surpreendentes (o mundo ouvido, o azeite da ira, vão do vento, lábios dos navios, palavras-tornozelos, dormições abertas, etc.);

  

3.      saliência de incidências aleatórias: nasci no mississipi; amor às idades muito / lentas; ardi fui o retrato; o sol ruiu nos vidros deslavados; luz dos ventos; etc.;

  

4.      percepção de modulações básicas nos verbos supor e inventar, frequentemente excitando o principal nervo do poema: a injunção/constatação de supor e ser suposto, de inventar e ser inventado, se supor que se inventa (por que não também inventar que se supõe?), ora na activa ora na passiva, com oscilação quanto a haver ou não alocutário;

  

5.      sugestão pervasiva de desprendimento pensante ou imaginante quanto a ser emissor, destinatário, meio ou mensagem do poema, quanto ao início ou duração, limitação ou ilimitação, presente ou pretérito, acção ( de si depende) ou passividade;

  

6.      globalmente, pouco mais pode compreender-se do que isto: um poema que sugere a perfeita gratuidade do dizer poético (boca atenta / em mudo ouvido; quase ninguém ou nada / o mergulho da tarde nos inventa; dormições abertas); um país onde quase ninguém diz e nada é dito, ou ouvido, ou percebido, mas esse quase ninguém ou nada está na base de uma asserção eventualmente personificável ou apreensível; há evidentes sugestões de uma fase do dia: o mergulho da tarde;

  

7.      impressão provisoriamente final: uma poesia do subliminar, mas de um subliminar que todavia acede à palavra, como configuração semi-inteligível e todavia flagrante.

  

  

Publicação: 21 Agosto 08 09:00 por josecarreiro

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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt