SOL

CARTAS A OFÉLIA

  

Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de Maio a 29 de Novembro de 1920 e de 11 de Setembro de 1929 a 11 de Janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.  





 

CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 27 DE ABRIL DE 1920

     

     

Meu Be«be»zinho lindo:

     

Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).

     

Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...

     

Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.

     

Enfim...

     

Amanhã passo  á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?

     

Sempre e muito teu

     

assinatura de Fernando Pessoa

     

     

     

     

CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920

     

     

Bebezinho do Nininho-ninho:

     

Oh!

     

Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!

     

E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.

     

Oh! O Nininho é pequenininho!

     

Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.

     

Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).

     

Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?

     

Jinhos, jinhos e mais jinhos.

     

assinatura de Fernando Pessoa

     

     

     

   

   

   

   

CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929

   

   

Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:

    

Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:

(1) pesar menos gramas,

(2) comer pouco,

(3) não dormir nada,

(4) ter febre,

(5) pensar no indivíduo em questão.

   

Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.

   

Cumprimenta V. Ex. ª

   

Álvaro de Campos

eng. Naval

   

   

   

   

   

   

CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929

   

   

     Terrivel Bébé

   

      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .

assinatura de Fernando Pessoa 



 

Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)






   Cartas de Amor a Ophélia Queiroz  O VIRGEM NEGRA, Mário Cesariny de Vasconcelos

     

     

     

     



    

Intertextualidade

Paródia

    

    

Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,

Sem nada já que me atraia, sem nada que desejar,

Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida

E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

    

A Nini Bèbèzinho

Do Ibi

Dá Òfèli

Bjinho?

    

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio,

Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio.

O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é,

A glória concede e nega, não tem verdades a fé.

    

Não há quem saiba se gosto de ti ou não.

    

Por isso na orla morena da praia calada e só

Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó.

Sonho sem quase jà ser, perco sem nunca ter tido

E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

    

Querida Bèbèzinho:

Ainda fazes muita troça do Nininho? (A. de C.)

    

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,

Não quero nada do acaso senão a brisa na face

Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei

Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

     

Ex.ª Snr.ª. (...)

Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa

Meu particular amigo, encarrega-me de lhe comunicar que

Está V. Ex.ª proibida de:

      

1) Pesar menos gramas

2) Comer pouco

3) Não dormir nada

4) Ter febre

5) Pensar no indivíduo em questão

     

Cumprimenta V. Ex.ª

      

Álvaro de Campos

eng. naval

     

, no silêncio cercado pelo som brusco do mar

Quero dormir socegado, sem nada que desejar.

Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,

Tocado pelo ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

     

O teu Nininho, Bèbè Fera,

É o maior bjinho

De noite ser, e primavera,

E eu estar de olhos fechados.

      

       

       

Mário Cesariny Vasconcelos,

O Virgem Negra, Assírio & Alvim, 1989

    

   



 

 

   

  

  

  

           

FERNANDO PESSOA

              

Fernando Pessoa nos contemporâneos (páginas de intertextualidade):

        Evocações

        Fernando Pessoa, ele mesmo, revisitado

        Cartas a Ofélia

        Mensagem

        Heterónimos

        Alberto Caeiro

        Ricardo Reis

        Álvaro de Campos

        Bernardo Soares

        António Mora e o caso clínico de Fernando Pessoa

                            

Vida e obra de Fernando Pessoa

              

Fernando Pessoa e os ismos da vanguarda

        Paulismo

        Interseccionismo

        Sensacionismo

        Silmutaneismo

        Futurismo

               

Importância da revista Orpheu

             

Fernando Pessoa ele mesmo

        A poesia do Cancioneiro

        Unidade e diversidade em Fernando Pessoa

        O fingimento artístico

        A nostalgia da infância

        A dor de pensar. Tensões ou dicotomias que espelham a sua complexidade interior.

        O simbolismo metafórico

                O simbolismo cósmico do mar

                A mulher

                A emoção ontológica da noite

                

Avalie os seus conhecimentos acerca da vida e obra de Fernando Pessoa ortónimo.

                 

A heteronímia pessoana

       Os conceitos de pseudónimo e heterónimo

       Explicações possíveis da heteronímia

       Exegese em Pessoa: o drama em gente

       O caso clínico de Fernando Pessoa

       Significação dos heterónimos

       Verifique os seus conhecimentos relativamente à criação heteronímica pessoana.

       Sabe identificar as pessoas de Pessoa? 

                     

Heterónimos

       Alberto Caeiro – a poesia das sensações; a poesia da natureza.

       Ricardo Reis – o neopaganismo; o epicurismo e o estoicismo.

       Álvaro de Campos – a vanguarda e o sensacionismo; a abulia e o tédio.

       Bernardo Soares – semi-heterónimo.

                 

Fernando Pessoa, autor da Mensagem

       Contexto político da publicação da Mensagem

       Assunto da Mensagem

       A génese da Mensagem

       O ocultismo na Mensagem

       Estrutura tripartida da Mensagem

       Visão subjetiva/mítica da História de Portugal

       O mito sebastianista

       Fernando Pessoa e o Quinto Império

       O discurso na Mensagem – noção de POESIA ÉPICO-LÍRICA

       Intertextualidade entre Os Lusíadas e a Mensagem

       Plano pessoal dos poetas. Retratos humanos: avisos, reflexões, estados de alma

       Comparação do conceito de heroísmo n’Os Lusíadas e na Mensagem

          

   

Publicação: 05 Novembro 08 06:55 por josecarreiro

Comentários

# cinco dias » E agora para coisas realmente importantes said on Junho 30, 2010 21:17:

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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt