SOL

António Botto

"Canções e Outros Poemas", António Botto 

      

      

      

Não queiras vê-lo,

Nem perguntes o que eu fiz

Quando há pouco fui olhar-me

Depois de falar contigo

E em que chorei de saudade!

    

Quebrei-o porque não quero

Aceitar a realidade!

      

Não digas, — não vás supor

Que foi uma cobardia,

Ou nervos, ou pessimismo,

Ou uma simples fantasia!...

      

Não, amor: o nosso drama

— O meu!, tem essa tragédia

Da consciência que eu ponho

Sem querer, sem a chamar,

Para ouvir o que eu digo

E para ver o que eu faço...

      

Sou o rastro de um sorriso,

Um gesto do teu cansaço...

Sou a música perdida

De um lamento que foi alma

Na letra de uma cantiga

Cantada por um mendigo

Numa estrada solitária

Onde não passa ninguém!

      

Quebrei-o e fiz muito bem.

      

Quebrei-o como quem parte

A vida que idealizou:

      

— Não posso ver-me qual fui,

Não quero ver-me qual sou.

       

António Botto, Curiosidades Estéticas (1924) poema 24
in Canções e Outros Poemas, Ed. Quasi, 2008

    

     

 

Publicação: 08 Abril 09 07:08 por josecarreiro

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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt