SOL

ILHÍADA

ILHÍADA, Vasco Pereira da Costa

Vasco Pereira da Costa (1948)
professor, poeta, pintor, natural de Angra do Heroísmo reside em Coimbra.

  

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CORO DOS VELHOS DO CORVO

    

Num rochedo fomos gerados pelo amor

da solidão. Nascemos do mar e da pedra.

Meninos brincámos ao tempo o único

brinquedo que nossos avós forjaram

na navalha das noites aluadas.

Éramos a chuva que inundava

nossos pés sem caminhos de andar.

Éramos o vento em correria na vertente

do pico que nos vencia.

Éramos o sol aquecendo nossa pele

de sal ardente e maresia.

Alguns tiveram um barco no silêncio

da viagem para oeste apetecida

e disseram haver e ser atalhos

sem fim e terras sem mar.

Mas ficámos presos ao verde

que atapeta nosso rochedo

e nosso sonho na partida adiada.

    

Anediámos os úberes das vacas

os seios de uma mulher

os flancos das ove1has.

Apetecemos os pêlos das raízes

o orvalho dos lábios a doçura

das ervas nas manhãs brandas.

Falámos amor num só dia

e calámos. A nossa raiva

num instante emudecida.

Os nossos gestos desperdiçados

numa hora. Depois voltámos

a olhar o mar e éramos

homens no limite da vida.

Revolvemos o caldeirão plantámos

o milho e a novidade soubemos

curar o queijo erguer labaredas

na pá do forno na paz da cozinha.

Criamos filhos no embalo

dos dedos no arame da viola

no baloiço da onda na voz

da mulher que os parira. Que também

eles tinham sido gerados

pela solidão do mar e da pedra.

    

Um dia demos as mãos

subimos ao pico da ilha.

Aos filhos revelámos a cratera

a lagoa com ilhotas figurando outras

terras de só ter o mar.

Dissemos os verdes diferentes

de ver a chuva o vento o sol.

Apontámos a distinção do céu

e das águas confundidas.

E mostramos um barco para oeste

no murmúrio da viagem incitada.

    

Ficámos. À navalha raspamos

o tempo para os netos que não temos.

Tropeçamos nos carreiros os passos

que não se dão. Contamos nos degraus

da igreja as palavras ditas

da dita de quem partiu. Desenhamos

no terreiro traços do que calamos

? a única coisa que temos.

E mais a ilha. Cá estamos.

      

Vasco Pereira da Costa, Ilhíada

Angra do Heroísmo, SREC, 1981, pp. 29-32

    

    

Publicação: 17 Fevereiro 10 09:00 por josecarreiro

Comentários

# Meduarda said on Fevereiro 17, 2010 10:47:

José,

Que bem sentir estas palavras! Descreveu l~de formea simples mas forte a vida ds crianças nos açores.

Eram soloidão mas conseguiram sobreviver a tudo.

Os meus parabéns por este post tão ico em tudo!

bj

Eduarda

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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt