signo insulado
MÃE ILHA
Limão aceso na meia-noite ilhada,
O relógio na torre da Matriz
Põe o ponteiro na hora atraiçoada
Da ilha que me deram e eu não quis.
Mas, ó de alvos umbrais Ponta Delgada!
Meu prefixo de pastos, a raiz
É de calhau e de onda encabritada:
Um triz de hortênsia e estala-me o verniz.
Atamancada em fama a tosca ilhoa,
Só na praça e no prelo é de Lisboa,
Seu gesto, cãibra de garça interrompida.
No mais, osso campesino e duro
É fervor, é fogo e fé que juro
Ao lume e às flores da Graça recebida.
Natália Correia (1923-1993), Sonetos românticos,
Lisboa, Edições O Jornal, 1990.
Natália Correia (1923-1993), poeta, escritora, natural da ilha de S. Miguel residiu em Lisboa onde faleceu.

SIGNO INSULADO
o sofrimento está dentro da ilha
o sofrimento é da ilha
a ilha está no fundo dum poço
no fundo dum poço sofre uma ilha
o sofrimento está dentro do poço
o sofrimento é do poço
o poço está no fundo da ilha
no fundo da ilha sofre um poço
o poço secou no fundo da ilha
o sofrimento é a secura da ilha
a secura está no fundo dum poço
no fundo dum poço secou uma ilha
o mar está todo por fora da ilha
o mar é quanto não cabe na ilha
o mar é quanto não cabe no poço
no fundo do mar morreu uma ilha
enlouquecer é morrer numa ilha
na ilha morta no fundo do mar
no poço secura por dentro da ilha
no fundo do poço correcto lugar
José Martins Garcia (1941-2003),
Invocação a um poeta e outros poemas
Angra do Heroísmo, Col. Gaivota, 1984
José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, Ilha do Pico, a 17 de Fevereiro de 1941. Professor, ensaísta, escritor e poeta. Faleceu em Ponta Delgada, em 2003.
José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt