SOL

azorean torpor

    

      

      

    

Um céu de algodão sujo tolda o arquipélago das nove ilhas; o mormaço apaga os contornos do mar e da terra, e, amolecendo os pastos à custa da pele do proprietário e do pastor, dilui e arrasta as vontades, dá a homens e a coisas uma doença quase de alma, a que os ingleses, médicos do bem-estar, puseram uma etiqueta como quem descobre uma planta nova neste mundo seco e velho: — azorean torpor.

      

Vitorino Nemésio, Mau tempo no canal,
Lisboa, Bertrand, 1944 (1ª ed.)

        

       

mormaço nos Açores 

    

     

     

Hoje madruguei em Angra, a velha cidade açoriana ainda adormecida no seu bioco de névoas.

    

Não é o nevoeiro conhecido das nossas latitudes continentais europeias, nem o nevoeiro londrino, envolvente e raso ao solo, que refrange a luz a amarelo e se faz solidário com tudo.

    

É uma massa de vapor de água esparso em véus, que se ajeitam às formas arredondadas dos montes de pedra-pomes e se esparramam aqui e acolá em estratos – ora movediços, ora estáticos - compondo de repente uma espécie de campânula sobre a ilha.

    

Essa tampa de terrina tanto pode abafar-nos por uns dias como durar apenas uma manhã ou uma tarde - ou, ainda, resolver contrair-se e cobrir só um recanto do ambiente, e finalmente dissipar-se, deixando em seu lugar um amplo azul-celeste, cortado a tons de opala, que uma ou outra nuvem leitosa e meio esvaída vem manchar.

       

Vitorino Nemésio, Corsário das Ilhas
Segundo corso (Os moinhos do donatário)
Lisboa, Bertrand, 1956 (1ª ed.)

       

       

Lagoa das Sete Cidades na ilha de São Miguel, Açores. José Carreiro, 18-11-2006

     

          

     

      

SPLEEN

       

Dezembro, dia pluvioso. Vem

Deste céu de burel um spleen mortal

Onde as almas se atolam como alguém

Que caísse num vasto lodaçal.

       

Olho em torno de mim: as cousas mesmas

Têm um ar de desgosto sem remédio...

E as horas vão, morosas como lesmas,

Rastejando por sobre o nosso tédio.

       

O véu cinzento e denso que se espalha

por fora, empanando as perspectivas.

Dir-se-á também que as almas amortalha

E afoga as suas vibrações mais vivas.

       

       

Roberto de Mesquita (Flores, 1871-1923),
Almas Cativas e Poemas Dispersos
Lisboa, Edições Ática, 1973 (1ª ed.)

       

       

       

       

AZOREAN TORPOR    ¯

       

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:

Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas

E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto

Que vê passar na praia as damas enjoadas.

       

A cidade? Esqueci… Um poeta é sempre absorto;

De mais a mais - talvez paragens abandonadas.

O que é certo é que entrei um dia naquele porto

Em que as próprias marés parecem arrestadas.

       

Porque a mais leve luz que se embeba na Barra

Embacia os perfis dos cais e dos navios

Em frente à linha do horizonte que se perde…

       

E um desconsolo, um não-partir paira nos pios

Das gaivotas sem céu que o vento empluma e agarra

Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.

       

Vitorino Nemésio, O bicho harmonioso
Coimbra, Revista de Portugal, 1938 (1ª ed.)

      

     

      

      

     

     

Vitorino Nemésio (Assinatura)

      

      

      

UNIDADE E DIVERSIDADE EM NEMÉSIO

     

Rouxinol e mocho, ou seja, poeta e erudito, assim se confessou Vitorino Nemésio. Não há nenhum escritor português contemporâneo (incluindo Pessoa) com uma tal diversidade. Diversidade de géneros e de tonalidades: a biografia histórica meio ficcionada, o compacto ensaio académico sobre Herculano, as crónicas de imprensa, as viagens distantes e domésticas, as evocações literatas, os contos e novelas, o magnífico Mau Tempo no Canal. E a poesia: metafísica, polémica, surrealista, lúdica, erótica, regionalista, científica. Nemésio é um mundo. A sua erudição colossal e divagante contribuiu para a imagem pública de professor heterodoxo e conversador notável. E a irrequietude poética fez uma obra variada, por vezes difícil, a poesia de alguém que, como ele dizia, se desfaz em linguagem, que vai atrás das palavras, que faz com que as palavras o sigam, seja a palavra o Verbo cristão, a severa filologia, o neologismo científico, os sotaques locais, as surpresas fonéticas.

       

Desta unidade e diversidade nos tem dado conta António Machado Pires, que foi assistente de Nemésio na Faculdade de Letras de Lisboa. "Rouxinol e Mocho" recupera pequenos livros e textos dispersos de temática nemesiana, o que explica algumas repetições. É, no geral, uma boa introdução aos temas essenciais do polígrafo ilhéu.

       

Os textos analisam com algum detalhe a dimensão multifacetada de Nemésio. É um trânsito constante entre "rouxinol" e "mocho", uma escrita feita de história, alusões cultas, jogos verbais, subtil biografismo. Machado Pires interroga em particular o que significa a "açorianidade" de Nemésio. "Mau Tempo no Canal" e "Corsário das Ilhas" são exemplos de como em Nemésio o regionalismo é universalista.

       

No romance de 1944, um dos quatro ou cinco mais importantes do nosso tempo português, convergem as impressões e os saberes de Nemésio acerca das ilhas. O clima, as rochas, o verde, as baleias, o oceano, o isolamento, a estratificação social, a variedade fonética, a força do destino, o "azorean torpor". A ilha como génesis, cosmogonia, nostalgia, arquétipo. Terceirense expatriado, Nemésio encontrou nesse "romance das ilhas" uma âncora em que fundeou a sua extraordinária vastidão de interesses e capacidades. Uno e diverso, Nemésio faz da ilha um motivo central da sua obra: "A sua universalidade é também a do homem que trabalha os símbolos: o mar e a ilha, o eterno e o efémero; o paço e o milhafre, a casa e as asas da imaginação; o rouxinol e o mocho, o poeta e o sábio; as algas, os corais e a concha, os epifenómenos dessa insularidade ao mesmo tempo feérica e fechada na memória de si própria (...)" (pág. 56). Corsário das Ilhas (1956), peregrinação sentimental que deve bastante a As Ilhas Desconhecidas (1926) de Raul Brandão, mostra de novo como o tema ilhéu congrega as preocupações e inclinações de Nemésio, acrescidas de uma certa culpabilidade de filho pródigo, alguém que viveu fora a vida quase toda. A "ilha", em Vitorino Nemésio, é mais que um sítio: é imagem e biografia, motivo e angústia, mocho e rouxinol.

       

Pedro Mexia, http://ipsilon.publico.pt/livros/critica.aspx?id=255811

      

       

           

       

          

      

    

     

     

 

Publicação: 21 Maio 10 09:00 por josecarreiro
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José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt