SOL

Mulheres de Abril | A República das Mulheres

           

A República das Mulheres I 

        

         

COMUNICAÇÃO

         

Tudo chegava pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia. Os esbirros amordaçavam a luz. Com as mãos mergulhadas nas estrelas que escondia nos bolsos o poeta assobiava uma pátria de brancura e paz. E deu flor: um poema para ensinar risadas de camélias aos animais do medo. O poema foi arrastado para a treva onde os estranguladores das palavras constroem o silêncio da sala de espelhos onde o tirano se masturba. O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados.

     

Uma vez exalado o grito de libertação que fez entrar a Cidade no exercício dos seus timbales o poema pediu ao poeta que lhe arrancasse as folhas mais ressequidas e em seu lugar pusesse as gotas de água do canto que quer correr para a vida. E o poeta fez a vontade ao poema que queria cantar. E aqui e além o corrigiu dotando-o da actualidade que as máquinas do inferno lhe roubaram.

          

Natália Correia, 1959
in O Sol nas Noites e o Luar dos Dias I
s/l, Círculo de Leitores, 1993, p. 229.

         

              

A República das Mulheres I (ciclo de conferências, 2011) 

              

              

    

PRANTO PELO DIA DE HOJE

        

Nunca choraremos bastante quando vemos

O gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quando vemos

Que quem ousa lutar é destruído

Por trocas por insídias por venenos

E por outras maneiras que sabemos

Tão sábias tão subtis e tão peritas

Que nem podem sequer ser bem descritas.

         

Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto, 1962

       

        

          

BASTA

        

Basta.

– digo –

que se faça

do corpo da mulher:

      

a praça – a casa

a taça

         

A ÁGUA

           

Com que se mata

a sede

do vício e da desgraça

             

Maria Teresa Horta, Mulheres de Abril
Lisboa, Ed. Caminho, 1977.

         

           

Publicação: 27 Fevereiro 11 11:30 por josecarreiro
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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt