Maria Madalena
“Essa experiência me impregnou de uma fantasmagoria católica que eu não consigo abandonar. O castigo, a culpa, o pecado, a elegia da dor, quase como se o sofrimento e martírio fizessem de uma pessoa alguém melhor que Cristo. Isso é uma besteira. Por mais que você estude, viaje, leia, aprenda, você não consegue tirar isso do seu sangue, está impregnado.”
João Paulo Cuenca em entrevista ao jornal i , 15/03/2011

...e lhe regou de lágrimas os pés e os
enxugou com os cabelos da sua cabeça.
Evangelho de S. Lucas.
Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,
De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,
Dentro do peito, abominável cómico!
Morrer tranquilo, - o fastídio da cama.
Ó redenção do mármore anatómico,
Amargura, nudez de seios castos!...
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!
Clepsidra, Camilo Pessanha (1867-1926)
Neste poema há duas linhas melódicas e de sentido: uma corresponde à alegria da libertação e purificação; a outra é de autopunição e culpa. Quer num quer noutro caso, o domínio é o do sagrado.
I
1. A Madalena da Bíblia é a mulher arrependida, redimida de uma vida de pecado.
Atenta no esquema:
1.1. Faz um comentário à duplicidade desta figura.
2. Explica o simbolismo de: lírio, branca flor, moeda fútil, mármore anatómico.
3. Na Bíblia, o gesto de Madalena redimiu-a. Porque que é que o sujeito poético acha que tal gesto foi inútil?
4. O Poeta pretende identificar-se com Madalena. Porquê?
5. Madalena é o principal símbolo em volta do qual todo o poema gravita.
5.1. Explica o seu sentido.
6. O Poeta tenta recuperar Madalena antes do seu arrependimento. Porquê?
7. Qual o sentido global do texto?
http://testesdeportugues.blogspot.com/2010/02/madalena.html
II
1. O que inspira Madalena ao eu?
2. Faça o levantamento das expressões que designam Madalena. (Note a conjugação de contrários).
3. De que forma o sentido de «velha moeda fútil» aproxima Madalena do «coração» do eu?
4. Que verso nos remete para a ideia de que o «coração» aceita as máscaras que lhe são impostas?
5. Como se insere a morte no poema?
6. Só resta ao coração assumir-se. Que verso do último terceto nos dá essa ideia?
http://testesdeportugues.blogspot.com/2010/03/madalena.html
Pode também gostar de:

Madalena – História e Mito, Helena Barbas, Lisboa, Ésquilo Edições e Multimedia, 2008.
Livro resultante da tese de doutoramento “Imagens e sombras de santa maria madalena na literatura e arte portuguesas ‑ a construção de uma personagem: simbolismos e metamorfoses” (Fevereiro de 2003), cujo índice é apresentado a seguir, incluindo um atalho para a respectiva Antologia:
I - Construção de uma personagem: Maria Madalena
1. A invenção de uma hagiografia
1.1 A Legenda Aurea
1.2 O Flos Sanctorum de 1513
2. A constelação dos afectos
2.1 Os evangelhos canónicos
2.2 Contribuições apócrifas
2.3 Heranças bíblicas e pagãs
3. Amplificações heréticas
3.1 O evangelho de Maria Madalena
3.1.1 O andrógino
4. Outras sobrevivências medievais
4.1 Um exemplo do folclore
5. Individualização e identidade
5.1 A biografia imaginária
5.2 A cristalização de uma imagem-tipo
5.2.1 Iconografia e retórica
6. Imagens da imagem
6.1 Do estatismo à acção
6.1.2 Madalena «à icona»
6.1.3 Madalena teatral: de penitente a castelã
6.2 «Oo Magdalena que andaste ao sancto sepulcro»
II - Metamorfoses: do sagrado ao profano
1. A(s) querela(s) da identidade
1.1 O argumento da fidelidade histórica
1.1.2 Repercussões em Portugal
2. Penitência, demanda e lágrimas - I
2.1 Do amor sagrado ao profano
3. O Concílio de Trento
3.1 Madalena e Trento: a atomização da personagem
3.1.1 A pintura - mudanças no corpo e nos gestos
3.1.2 Dos gestos à Vida: a lenda reformada
3.1.3 De castelã às Vaidades do Mundo - do teatro à ópera
3.1.4 Da contemplação à Melancolia: as lágrimas
3.2 O concílio em Portugal
4. Penitência, demanda e lágrimas - II
4.1 Sobrevivências: Madalena grão mestra do amor
4.2 Mísera e mesquinha - Madalena épica
4.2.1 Conversão e lágrimas
4.2.2 Tratado da Maravilhosa Conversão
4.3 «Lágrimas com fezes de pecado» - Os sermões de Vieira
4.4 Madalena lavadeira - as paródias
4.4.1 A paródia aos gestos
4.4.2 O burlesco
4.4.3 A paródia pelas palavras
5. Penitência demanda e lágrimas - III
5.1 Da lenda reformada à literatura edificante
5.2 A fénix da lascívia
6. Madalena mulher fatal
III - Conclusão: O regresso de Madalena no séc. XX
1. Madalena em Portugal: a bruxa branca
2. Madalena Negra e pulverizada
2.1 A reescrita de ecos antigos
Antologia
José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt