SOL

Maria Madalena

       

    “Essa experiência me impregnou de uma fantasmagoria católica que eu não consigo abandonar. O castigo, a culpa, o pecado, a elegia da dor, quase como se o sofrimento e martírio fizessem de uma pessoa alguém melhor que Cristo. Isso é uma besteira. Por mais que você estude, viaje, leia, aprenda, você não consegue tirar isso do seu sangue, está impregnado.”
         

João Paulo Cuenca em entrevista ao jornal i , 15/03/2011

                 

                            

                  

            

   

Madalena penitente, versão do Hermitage, sem a cruz sobre as mãos, do escultor italiano Antonio Casanova (1757-1822).

Maria Madalena em êxtase (1606) Caravaggio

     

                     

  

...e lhe regou de lágrimas os pés e os

enxugou com os cabelos da sua cabeça.
        

Evangelho de S. Lucas.

   

          

    

    

Ó Madalena, ó cabelos de rastos,

Lírio poluído, branca flor inútil,

Meu coração, velha moeda fútil,

E sem relevo, os caracteres gastos,

       

De resignar-se torpemente dúctil,

Desespero, nudez de seios castos,

Quem também fosse, ó cabelos de rastos,

Ensanguentado, enxovalhado, inútil,

         

Dentro do peito, abominável cómico!

Morrer tranquilo, - o fastídio da cama.

Ó redenção do mármore anatómico,

           

Amargura, nudez de seios castos!...

Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,

Ó Madalena, ó cabelos de rastos!

     

Clepsidra, Camilo Pessanha (1867-1926)

    

   

    

Neste poema há duas linhas melódicas e de sentido: uma corresponde à alegria da libertação e purificação; a outra é de autopunição e culpa. Quer num quer noutro caso, o domínio é o do sagrado.

     

    

    

I

    

1. A Madalena da Bíblia é a mulher arrependida, redimida de uma vida de pecado.

                     

Atenta no esquema:
   

   

               

1.1. Faz um comentário à duplicidade desta figura.
2. Explica o simbolismo de: lírio, branca flor, moeda fútil, mármore anatómico.
3. Na Bíblia, o gesto de Madalena redimiu-a. Porque que é que o sujeito poético acha que tal gesto foi inútil?
4. O Poeta pretende identificar-se com Madalena. Porquê?
5. Madalena é o principal símbolo em volta do qual todo o poema gravita.
5.1. Explica o seu sentido.
6. O Poeta tenta recuperar Madalena antes do seu arrependimento. Porquê?
7. Qual o sentido global do texto?

    

http://testesdeportugues.blogspot.com/2010/02/madalena.html

    

II

    

1. O que inspira Madalena ao eu?
2. Faça o levantamento das expressões que designam Madalena. (Note a conjugação de contrários).
3. De que forma o sentido de «velha moeda fútil» aproxima Madalena do «coração» do eu?
4. Que verso nos remete para a ideia de que o «coração» aceita as máscaras que lhe são impostas?
5. Como se insere a morte no poema?
6. Só resta ao coração assumir-se. Que verso do último terceto nos dá essa ideia?

    

http://testesdeportugues.blogspot.com/2010/03/madalena.html

    

   

    

    

       

Pode também gostar de:

           

    

                                       

    

     

     

Madalena – História e Mito, Helena Barbas, Lisboa, Ésquilo Edições e Multimedia, 2008.

   

Livro resultante da tese de doutoramentoImagens e sombras de santa maria madalena na literatura e arte portuguesas ‑ a construção de uma personagem: simbolismos e metamorfoses(Fevereiro de 2003), cujo índice é apresentado a seguir, incluindo um atalho para a respectiva Antologia:

    

I - Construção de uma personagem: Maria Madalena

   

    1. A invenção de uma hagiografia  

        1.1  A Legenda Aurea

        1.2  O Flos Sanctorum de 1513

    2. A constelação dos afectos

        2.1  Os evangelhos canónicos

        2.2  Contribuições apócrifas

        2.3  Heranças bíblicas e pagãs

    3. Amplificações heréticas

        3.1  O evangelho de Maria Madalena

              3.1.1  O andrógino

    4. Outras sobrevivências medievais

        4.1  Um exemplo do folclore

    5. Individualização e identidade

        5.1  A biografia imaginária

        5.2  A cristalização de uma imagem-tipo

              5.2.1  Iconografia e retórica

    6. Imagens da imagem

        6.1  Do estatismo à acção

              6.1.2  Madalena «à icona»

              6.1.3  Madalena teatral: de penitente a castelã

        6.2  «Oo Magdalena que andaste ao sancto sepulcro»

   

II - Metamorfoses: do sagrado ao profano

   

    1. A(s) querela(s) da identidade

        1.1  O argumento da fidelidade histórica

              1.1.2  Repercussões em Portugal

    2.  Penitência, demanda e lágrimas - I

          2.1  Do amor sagrado ao profano

    3.  O Concílio de Trento

         3.1  Madalena e Trento: a atomização da personagem

                3.1.1  A pintura - mudanças no corpo e nos gestos

                3.1.2  Dos gestos à Vida: a lenda reformada

                3.1.3  De castelã às Vaidades do Mundo - do teatro à ópera

                3.1.4  Da contemplação à Melancolia: as lágrimas

         3.2  O concílio em Portugal

    4.  Penitência, demanda e lágrimas - II

         4.1  Sobrevivências: Madalena grão mestra do amor

         4.2  Mísera e mesquinha - Madalena épica

               4.2.1  Conversão e lágrimas

               4.2.2  Tratado da Maravilhosa Conversão

         4.3  «Lágrimas com fezes de pecado» - Os sermões de Vieira

         4.4  Madalena lavadeira - as paródias

               4.4.1  A paródia aos gestos

               4.4.2  O burlesco

               4.4.3  A paródia pelas palavras

    5.  Penitência demanda e lágrimas - III

         5.1  Da lenda reformada à literatura edificante

         5.2  A fénix da lascívia

    6.  Madalena mulher fatal

   

III - Conclusão: O regresso de Madalena no séc. XX

     1.  Madalena em Portugal: a bruxa branca

      2.  Madalena Negra e pulverizada

          2.1 A reescrita de ecos antigos

   

Antologia

          

       

Publicação: 31 Março 11 01:00 por josecarreiro

Comentários

# folha de poesia said on Janeiro 16, 2012 12:08:

No poema OLVIDO, do poeta português Camilo Pessanha, a paz da morte aquieta “por fim” o coração, extinguindo o desejo e a saudade.

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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt