COMO ELREI MANDOU CAPAR HUUM SEU ESCUDEIRO POR QUE DORMIO COM HUUMA MOLHER CASADA
Parecia anunciar-se uma manhã solene aquela
em que descemos de Coimbra a Alcobaça. Depois
monteámos caçámos pelos dias da amizade
meu trovador de grandes ligeirices.
Entre mar e bosque um mar de imagens
nunca arrebatado aos meus ciumentos olhos.
Do abismo um bando de aves cinzentas
solitárias no seu trabalho
o mal inevitável deste país.
Somos como as aves resignadas à solidão
tu, amigo, vigiaste o meu sono
nas costas longínquas do mar Atlântico
entre justas correrias e pecados de espanto.
Amigo, ex-amicus, esqueceste o meu reino sobre o mundo
o tempo que descemos sobre as dunas.
Agora nada reconheces fronteira altíssima e confusa
natural door.
João Miguel Fernandes Jorge, Crónica
Lisboa, Moraes Editores, 1977, p. 40

Em esta sesão vivia com el-rei um bom escudeiro, e para muito, mancebo, e homem de prole, e n'aquelle tempo estremado em assignadas bondades, grande justador e cavalgador, grande monteiro e caçador, luctador e travador de grandes ligeirices, e de todas as manhas que se a bons homens requerem, ‑ chamado por nome Affonso Madeira, ‑ por a qual rasão o el-rei amava muito e lhe fazia bem gradas mercês.
Este escudeiro se veiu a namorar de Catharina Tosse, e mal cuidados os perigos que lhe advir podiam de tal feito, tão ardentemente se lançou a lhe querer bem, que não podia perder d'ella vista e desejo: assim era traspassado do seu amor. Mas, porque lugar e tempo não concorriam para lhe fallar como elle queria, e por ter aso de a requerer ameude de seus deshonestos amores, firmou com o aposentador tão grande amisade que para onde quer que el-rei partia, ora fosse villa ou qualquer aldeia, sempre Affonso Madeira havia de ser aposentado junto, ou muito perto do corregedor. E havia já tempo que durava este aposentamento, sempre cerca um do outro; tendo bom geito e conversação com seu marido, por carecer de toda suspeita.
Affonso Madeira tangia e cantava, afóra sua apostura e manhas boas já recontadas, de guisa que por aso de tal achegamento, com longa affeição e falas ameude, se gerou entre elles tal fructo, que veiu elle a acabamento de seus prolongados desejos. E porque semelhante feito não é da geração das cousas que se muito encobram, houve el-rei de saber parte de toda sua fazenda, e não houve d'ello menos sentido que se ella fora sua mulher ou filha. E como quer que o el-rei muito amasse, mais que se deve aqui de dizer, posta de parte toda bemquerença, mandou-o tomar dentro em sua camara, e mandou-lhe cortar aquelles membros que os homens em mór preço tem: de guisa que não ficou carne até aos ossos, que tudo não fosse corto. E pensaram Affonso Madeira, e guareceu, e engrossou em pernas e corpo, e viveu alguns annos engelhado do rosto e sem barbas, e morreu depois de sua natural morte.
Fernão Lopes, Chronica de el-rei D. Pedro I, Capítulo VIII
«Como elrei mandou capar huum seu escudeiro por que dormio com huuma molher casada»
*
Afonso Madeira (séc. XIV) foi um escudeiro do rei D. Pedro I de Portugal. Segundo a crónica de Fernão Lopes, era favorito do rei. Foi castrado por ter sido apanhado a dormir com Catarina Tosse, mulher casada com Lourenço Gonçalves, o corregedor da corte.
Esta passagem tem sido bastante discutida entre os historiadores portugueses, uma vez que sugere a homossexualidade do monarca.

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José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt