SOL

BLIMUNDA

         

“BLIMUNDA – um nome habitado pelo som desgarrador do violoncelo.”

         

José Saramago, JL, nº 410 de 1990-15-15.

         

         

                               

         

          

         

Blimunda Sete Luas e Baltasar Sete Sóis apaixonam-se e amam-se.

Conheceram-se no auto-de-fé em que a mãe de Blimunda foi condenada ao degredo.

         

O excerto que se segue é da ópera Blimunda, com libreto do músico italiano Azio Corghi baseado no romance Memorial do Convento.

         

A estreia aconteceu em 1990 no Teatro Alla Scalla de Milão.

         

         

Cena IV (Scarlatti, Sebastiana Maria de Jesus, Baltasar, Blimunda)

Espaço acústico

Espaço imaginário

Espaço real

SCARLATTI

Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária melhor razão. De cada vez que ela olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra.

CASA DE BLIMUNDA

(A janela filtra a vermelha luz do poente, que incide sobre os poucos haveres, entre estes uma esteira para dormir. Ao fundo a porta que Blimunda entrando, deixa aberta, depois acende o lume e põe sobre a trempe uma panela de sopas. Entretanto, na porta, aparece Baltasar que, em silêncio, fixa a mulher.)

         

         

         

         

         

PROJECÇÃO DO ROSTO DE SEBASTIANA MARIA DE JESUS

(Baltasar entra e senta-se. Blimunda oferece-lhe uma tigela de sopas e espera que Baltasar termine para se servir da colher dele, que utiliza para acabar de comer as sopas que sobejavam na panela.)

SEBASTIANA MARIA DE JESUS

— Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu.

         

(desaparece)

(Ficaram os dois sentados, sem falar, depois Blimunda espevita o morrão da candeia e aproxima-se de Baltasar, ainda subjugado pelo olhar dela.)

         

BALTASAR

— Por que foi que perguntasteo meu nome?

         

BLIMUNDA

— Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse.

         

BALTASAR

— Como sabes, se com ela não pudeste falar?

         

BLIMUNDA

— Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê.

         

BALTASAR

— E agora...

         

BLIMUNDA

— Se não tens onde viver melhor, fica aqui.

         

BALTASAR

— Hei-de ir para Mafra, tenho lá família.

         

BLIMUNDA

— Fica, enquanto não fores.

         

BALTASAR

— Por que queres tu que eu fique?

         

BLIMUNDA

— Porque é preciso.

         

BALTASAR

— Não é razão que me convença.

         

BLIMUNDA

— Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar.

         

BALTASAR

— Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto.

         

BLIMUNDA

— Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei.

         

BALTASAR

— Olhaste-me por dentro.

         

BLIMUNDA

— Juro que nunca te olharei por dentro.

         

BALTASAR

— Juras que não o farás e já o fizeste.

         

PROJECÇÃO DO ROSTO DE SEBASTIANA MARIA DE JESUS

         

         

         

         

         

BLIMUNDA

— Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro; o meu dom não é heresia, nem é feitiçaria, os meus olhos são naturais.

         

SEBASTIANA MARIA DE JESUS

— Não há mulher nenhuma que não tenha visões e revelações, e que não ouça vozes, ouvimo-las o dia todo, para isso não é preciso ser feiticeira.

         

(desaparece)

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

BALTASAR

— Mas a tua mãe foi açoitada e degredada por ter visões e revelações, aprendeste com ela.

         

BLIMUNDA

— Não é a mesma coisa, eu só vejo o que está no mundo, não vejo o que é de fora dele, céu ou inferno, não digo rezas, só vejo.

         

BALTASAR

— Os meus olhos não vêem, os meus olhos não conseguem decidir qual seja a cor dos teus olhos, que poder é esse teu de ver os corpos por dentro?

         

BLIMUNDA

— Vejo o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo o que está por baixo da pele, e às vezes mesmo por baixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum, perco o dom quando muda o quarto da lua, mas volta logo a seguir, quem me dera que não o tivesse!

         

BALTASAR

— Porquê?

         

BLIMUNDA

— Porque o que a pele esconde nunca é bom de ver-se.

         

BALTASAR

— Mesmo a alma, já viste a alma?

         

BLIMUNDA

— Nunca a vi.

         

BALTASAR

— Talvez a alma não esteja afinal dentro do corpo.

         

BLIMUNDA

— Não sei, nunca a vi.

         

BALTASAR

— Será porque não se possa ver.

         

BLIMUNDA

— Será.

(Ainda um olhar profundo entre os dois, em silêncio)

         

SCARLATTI

— Que nome é o seu, não foi inspiração divina, não perguntou por sua vontade própria, foi ordem mental que lhe veio da própria mãe, a que tinha visões e revelações, e se, como diz o Santo Ofício, as fingia, não fingiu estas, não, que bem viu e se lhe revelou ser este soldado maneta o homem que haveria de ser de sua filha, e desta maneira os juntou.

         

(Baltasar fecha a porta)

         

BALTASAR

— Se eu ficar, onde durmo?

         

BLIMUNDA

— Comigo.

         

       

       

Blimunda – Ópera em 3 actos

Música: Azio Corghi

Libreto: Azio Corghi, José Saramago

Teatro Nacional de São Carlos em co-produção com o Teaatro Alla Scala de Mirão e o Teatro Regio de Turim.

Lisboa, 15, 16, 17 e 19 de Maio de 1991.

         

         

         

           

         

         

         

Baltasar e Blimunda: a utopia do amor e a fuga aos códigos da época

         

         

         

Blimunda e Baltasar constituem, pela naturalidade das suas relações amorosas, o par oposto ao formado pelo rei e pela rainha.

         

         

Da mesma maneira que o dia e a noite perfazem uma unidade, Sete Sóis e Sete Luas representam a totalidade da união amorosa.

         

         

         

Há muitos modos de juntar um homem e uma mulher, […] fiquem registados apenas dois deles, e o primeiro é estarem ele e ela perto um do outro, nem te sei nem te conheço, num auto-de-fé, da banda de fora, claro está, a ver passar os penitentes, e de repente volta-se a mulher para o homem e pergunta, Que nome é o seu, não foi inspiração divina, não perguntou por sua vontade própria, foi ordem mental que lhe veio da própria mãe […] e desta maneira os juntou.

[…] vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.

[…]

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária melhor razão. Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.

         

Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.

         

Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber E queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

         

Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.

         

Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, E disse, Nunca te olharei por dentro.

         

José Saramago, Memorial do Convento (romance)

Lisboa, Editorial Caminho, 1982

         

         

         

 

      

 

 
Publicação: 28 Novembro 11 09:00 por josecarreiro

Comentários

# folha de poesia said on Dezembro 31, 2011 15:44:

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José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt