SOL

TROVA AO VENTO QUE PASSA

 

 

                           http://www.youtube.com/watch?v=T0JuEY_MHGI

       

       

Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.

    

Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.

   

Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém diz.

   

Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que morro por meu país.

   

Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio -- é tudo o que tem

quem vive na servidão.

   

Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.

   

E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.

   

Vi minha pátria na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre de ficar.

   

Vi navios a partir

(minha pátria à flor das águas)

vi minha pátria florir

(verdes folhas verdes mágoas).

   

Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome.

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.

   

E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste.

Vi minha pátria parada

à beira de um rio triste.

   

Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.

   

E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.

   

Quatro folhas tem o trevo

liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

aqueles pra quem eu escrevo.

   

Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.

   

Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.

   

Manuel Alegre,

Praça da Canção, 1965.

         

         

         

           

1.      Explique qual o significado simbólico do «vento» (1ª estrofe).

2.      Identifique a figura de estilo presente na primeira estrofe. Justifique.

3.      Substitua o vocábulo «notícias» (1ª estrofe) pelo sinónimo que melhor se ajuste ao sentido do  texto.

4.      Caracterize o estado psicológico do poeta e exemplifique com expressões do texto.

5.      A partir do que leu do poema e tendo em atenção a sua data de publicação, identifique e caracterize a época a que se reporta o poeta.

6.      «Não sabem ler é verdade / Aqueles pra quem eu escrevo.» (14ª estrofe)

Quem são «aqueles» para quem escreve o poeta?

7.      Pelo que sabe do período em causa, diga como é que se resolveu o problema de fazer chegar estes versos «àqueles» analfabetos.

8.      Demonstre que nas duas últimas estrofes Manuel Alegre explicita qual a função e a necessidade  do poeta em comunicar.

        

                 

*

                      

“Poesia útil” e Literatura de resistência

A literatura como arma contra a ditadura e a guerra colonial

  

 A literatura comprometida do século XX. 
 

 Textos e artistas de intervenção da segunda metade do século XX:

                    José Afonso, “A formiga no carreiro

 Sérgio Godinho, “Que força é essa

 Manuel Alegre, “Trova ao vento que passa

 Joaquim Rodrigo, «S.M.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen, "25 de Abril" e outros poemas trocados com Jorge de Sena

 José Mário Branco, “Eu vim de longe, eu vou p’ra longe

  

O Fascismo em Portugal

Da ditadura militar ao Estado Novo.
A construção do Estado Novo, um estado antiliberal, conservador, nacionalista, corporativo, autoritário e colonial.
A adoção do modelo fascista italiano.

 A PIDE existiu. E torturou.
 

 Os cortes dos serviços de censura portugueses, durante o Estado Novo. 
 

A Comunicação Social em Portugal no Século XX - Fragmentos para a História de um Servidor de dois Amos

in Panorama da Cultura Portuguesa, Francisco Rui Cádima, Coord: Fernando Pernes, Porto, Afrontamento, 2002.

Publicação: 10 Dezembro 11 09:00 por josecarreiro

Comentários

# folha de poesia : A formiga no carreiro said on Abril 13, 2012 16:20:

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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt