SOL

Ser solidário - ser solitário

    

                           

     

      

Nunca, até “Ser Solidário”, um cantor se expusera desta maneira.

      

Quem assiste mais do que uma vez ao espetáculo vê a cena repetir-se, como um ritual, noite após noite. Num crescendo, a música vai conquistando espaço por entre a plateia, rendida em aplausos. Quase duas horas após o início, já num "estado de aquecimento emocional" (como lhe chamou José Mário Branco), o público exige o regresso do cantor ao palco.

      

É então que ele apresenta o tão ansiado "FMI".

        

     

                                  

          

“Um texto que eu escrevi de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 1979”.

           

Começa irónico, mordaz, a provocar sorrisos de autocomplacência ou assentimento. Mas depressa imprime um pesado silêncio pelo tropel das palavras, o desafio, o insulto.

Partindo de um tema que no discurso musical lembra "Talking Union", de Pete Seeger, José Mário Branco evolui para algo muito próximo das invetivas radicais de Ferré ou da ironia provocatória de Almada Negreiros na "Cena do ódio"Mas vai mais longe: como numa espiral, a raiva acumulada cede lugar ao choro, ao sussurro, ao desencanto. Não pode haver razão para tanto sofrimento, diz, em voz velada, exausto, passada a violenta tempestade de sentimentos contraditórios que o leva a gritar bem alto o seu ódio ao vazio: "Mãe, ó mãe!!/ Eu quero ficar sozinho/ Eu não quero pensar mais./ Mãe, eu quero  morrer, mãe/ Quero... desnascer/ Ir-me embora/ sem sequer ter de me ir embora...”

Mas a esperança subsiste para lá de todas as tempestades do espírito. E o deserto consente a miragem redentora, a vitória da luz sobre as trevas, o "d" de solidário a afastar o "t" de solitário (trocadilho presente na capa do disco e inspirado num conto de Camus) num abrir de braços para um futuro sem tempo, algures no cosmos: “O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram” Assim, “para lá da vida”. “Por sobre a morte”. Para concluir, na simplicidade da paz reencontrada: “Diz lá, valeu a pena a travessia?... Valeu, pois.”

     

Nascido na ressaca do processo de expulsão da Comuna, com retroativos por ter sido expulso do PCP(R) em 1979, o “FMI” surge para José Mário Branco da “necessidade de encontrar um sentido para a vida fora dos clichés ideológicos". E é, tal como a primeira peça do Teatro do Mundo ("A Secreta Família", estreada em Julho de 1979), uma espécie “de vómito” emotivo. “Um texto profundamente confessional e catártico, uma conversa que me é permitida exclusivamente com a gente da minha geração... E na qual as outras gerações (a de antes e a de depois) são só atingidas por tabela” (Expresso, 09-04-1982). Daí que, em 1982, o “FMI” surgisse num disco à parte, em maxi-single, e selado com a seguinte indicação: “Por determinação expressa do autor fica proibida a audição pública, total ou integral, deste disco”.

          

Eu Vim de Longe, eu Vou p’ra Longe (Chulinha)”: composta já no contexto do Teatro do Mundo, em 1979, é uma espécie de retrato pragmático do percurso político do cantor, das suas crenças e desilusões; um dos temas mais retidos à data da edição do LP, em concertos ou na rádio.

             

Nuno Pacheco, «O deserto e a miragem», apresentação do álbum, 1996.

      

      

      

      

      

EU VIM DE LONGE, EU VOU P’RA LONGE (CHULINHA)

Letra e música de José Mário Branco.

        

1.

Quando o avião aqui chegou

Quando o mês de Maio começou

Eu olhei p’ra ti

E então eu entendi

Foi um sonho mau que já passou

Foi um mau bocado que acabou

      

Tinha esta viola numa mão

Uma flor vermelha noutra mão

Tinha um grande amor

Marcado pela dor

E quando a fronteira me abraçou

Foi esta bagagem que encontrou

        

Refrão

        

  Eu vim de longe, de muito longe

  O que eu andei p’raqui chegar

  Eu vou p’ra longe, p’ra muito longe

  Onde nos vamos encontrar

  Com que temos p’ra nos dar

     

E então olhei à minha volta

Vi tanta esperança andar à solta

Que não hesitei

E os hinos que cantei

Foram frutos do meu coração

Feitos de alegria e de paixão

        

Refrão

       

2.

Quando a nossa festa se estragou

E o mês de Novembro se vingou

Eu olhei p’ra ti

E então eu entendi

Foi um indo sonho que acabou

Houve aqui alguém que se enganou

      

Tinha esta viola numa mão

Coisas começadas noutra mão

Tinha um grande amor

Marcado pela dor

E quando a espingarda se virou

Foi p’ra esta força que apontou

      

Refrão

      

E então olhei à minha volta

Vi tanta mentira andar à solta

Que me perguntei

Se os hinos que cantei

Eram só promessas e ilusões

Que nunca passaram de canções

      

Refrão

      

3.

Quando finalmente eu quis saber

Se inda vale a pena tanto q’rer

Eu olhei p’ra ti

E então eu entendi

É um lindo sonho p’ra viver

Quando toda a gente assim quiser

      

Tenho esta viola numa mão

Tenho minha vida noutra mão

Tenho um grande amor

Marcado pela dor

E sempre que Abril aqui passar

Dou-lhe este farnel p’ró ajudar

      

Refrão

      

E agora eu olho à minha volta

Vejo tanta raiva andar à solta

Que já não hesito

E os hinos que repito

São a parte que eu posso prever

Do que a minha gente vai fazer

      

Refrão (final)

      

      

         

      

ORIENTAÇÃO DE LEITURA
     

Em Ser Solidário J.M.B. revela um desencanto relativamente a uma «travessia». Comente a posição do cantor.

Destaque expressões da letra da canção «Eu vim de longe...» que aludam a essa «travessia» e interprete-as.
          

 

                 

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“Poesia útil” e Literatura de resistência

A literatura como arma contra a ditadura e a guerra colonial

  

 A literatura comprometida do século XX. 
 

 Textos e artistas de intervenção da segunda metade do século XX:

                    José Afonso, “A formiga no carreiro

 Sérgio Godinho, “Que força é essa

 Manuel Alegre, “Trova ao vento que passa

 Joaquim Rodrigo, «S.M.»

 Sophia de Mello Breyner Andresen, "25 de Abril" e outros poemas trocados com Jorge de Sena

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O Fascismo em Portugal

Da ditadura militar ao Estado Novo.
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A adoção do modelo fascista italiano.

 A PIDE existiu. E torturou.
 

 Os cortes dos serviços de censura portugueses, durante o Estado Novo. 
 

A Comunicação Social em Portugal no Século XX - Fragmentos para a História de um Servidor de dois Amos

in Panorama da Cultura Portuguesa, Francisco Rui Cádima, Coord: Fernando Pernes, Porto, Afrontamento, 2002.

 

Publicação: 14 Dezembro 11 09:00 por josecarreiro

Comentários

# folha de poesia said on Janeiro 16, 2012 12:22:

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About josecarreiro

José Maria de Aguiar Carreiro (1970) . Página pessoal: http://folhadepoesia.com.sapo.pt ; http://lusofonia.com.sapo.pt