Através da imagem inicial do poema, somos levados a acompanhar o percurso de descida que o “olvido” faz até ao coração, como se de matéria tratasse. Ao colocar o sujeito da frase em último lugar, antepondo-lhe o verbo ”descer” e alargando-o com a locução adverbial “por fim”, provoca-se no leitor uma certa expectativa.
Eis que, finalmente, chega o esquecimento, o repouso. “Irrevocável. Absoluto.” Dois termos, cada qual constituindo uma frase exata. Aceita-se aquela descida sem ripostar. Aliás, a repetição do advérbio “por fim” (verso 1) e “enfim” (verso 7) autoriza-nos a afirmar que a morte já era ansiada pelo sujeito poético. O “olvido” é aqui metáfora da morte.
A atmosfera envolvente, “grave como o véu de luto”, é intensa, sendo desse mesmo modo recriada pela materialidade dos versos, principalmente quando se satura a primeira quadra do soneto com os termos mórbidos “luto”, “caixão” e, até, “corpo”. Obviamente, um corpo já cadáver, assim visto pelo poeta ao indicar-lhe eufemisticamente o lugar de repouso mediante o uso do verbo “dormir” nesta e na quadra seguinte. Sente-se como que uma necessidade em assegurar o aniquilamento total do corpo, sede de sentimentos e pensamentos. Por isso, ainda nos dois primeiros versos da segunda estrofe, o poeta parece comprazer-se em caracterizar “as feições” daquele corpo moribundo que finalmente atingiu o estado de serenidade tão contrário às movimentações intrínsecas do mesmo corpo em vida, sendo estas designadas no poema pelas palavras “desejo” e “saudade”.
O poema provoca-nos, assim, duas impressões: por um lado, a de que estamos perante alguém que descansa em paz; por outro lado, o poeta desdobra-se e dirige ao seu corpo em vida, transmitindo-nos a sensação de inquietação.
A partir do último verso da segunda quadra e nos dois tercetos seguintes, o poeta, dirigindo-se ainda ao corpo, convoca momentos seus em vida que não são eufóricos nem de prazer. O último terceto demonstra bem essa displicência levada ao extremo, visível no verbo “desvairar” e nos substantivos “terror”, “suor” e “inquietação” que, por sua vez, contaminam negativamente os verbos de movimento “andar”, “fugir” e “correr”.
Um corpo que em vida tinha uma ação nefasta sobre os objetos que tocava e modelava:
“Viça uma flor…
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…”
Quanto ao “barro” que havia modelado, “em quimera”, o mesmo se lhe quebrou nas mãos. Reconhecemos nesta alusão a imagem bíblica arquetípica da criação, aqui invocada talvez como metáfora da criação artística do próprio poeta. Em estado de quimera, diz ele. Em estado de devaneio amoroso? De qualquer modo, este estado visionário é o motor do ato impetuoso de modelar o barro, as palavras, a escrita...
Enfim, o exercício de recordar de que é constituído este poema não parece ser feliz para o poeta, pelo facto de os objetos de desejo e saudade serem, respetivamente, “coisas não logradas ou perdidas”, isto é decetivas. E assim se justifica, na segunda estrofe, a qualificação da “serenidade” da morte como imortal. A paz da morte aquieta “por fim” o coração, extinguindo o desejo e a saudade.
José Carreiro.
http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2012/01/14/Olvido.aspx
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