O Desabafo
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- Ouve…. Como te sentirias se te caísse uma chuva de sapos em cima da cabeça?
- Isso não existe, pá.
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- Se subires muito alto… acima das correntes quentes, e entrares nas frias, és depois cuspido pela natureza como se fosses chuva, porque quanto mais alto subires durante o furacão, maior será a tua queda.
- Deixa-te de m e r d a s, pá, não me convences com essa cena da chuva de sapos, nem da queda. A vida é ligeira, nada se passa com esse ritmo, a vida é caótica, pá.
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- Digo-te que não, digo-te que há um propósito e que nada é por acaso. Ainda ontem acreditava na invencibilidade e hoje tremo de medo por causa da perda.
- Mas a vida é assim, mesmo! Que queres fazer? Tens de aceitar, porra!
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- E aceito, mas custa-me. Dói não sei bem onde, nem muito bem o quê. Olha, estou de luto. Tenho que passar por isto. Estou bem, deixa lá, não te preocupes.
- Tás bem o caraças. Não te conheço, não? Dizes que estás bem, para manter o registo, mas na verdade definhas como o tal pássaro de que falas, queimado nas cinzas. Deixa lá essas cenas e diverte-te, a vida é boa!
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- Não estou a definhar e sei que a vida é boa. Quando vivia no caos, tinha uma vida supérflua e leviana, não queria saber do sofrimento, porém, perseguia a morte:
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Hoje, acredito em chuvas de sapos, mas também em aves egípcias que renascem das cinzas. Em cada dia, essa esperança renovada, dá-me a medida certa da minha pequena existência. Quanto mais longe estou do ideal, porque mais me afasto, mais sinto a minha própria felicidade, ou seja o que for que é a vida, e a porção de dor que me cabe. Não acredito na vida mágica, mas na magia da vida. E também em magnólias:
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- Uma vez li num livro que a “miséria é uma coisa relativa”, pá. Sabes o Irvine Welsh, aquele gajo inglês, que escreve sobre pessoas drogadas, com o cérebro muita marado, e tal?
- Sei.
- Esse gajo escreveu isso num livro dele. E por isso te digo que não vale a pena estares a chatear-te com as coisas. Ele dizia mais ou menos isto: que enquanto te preocupas com o teu mundo, milhões de putos morrem de fome, e milhões de “cabrões” se enchem de dinheiro, vindo dos seus investimentos podres.
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- Mas não podemos estar sempre a “defender-nos” ou a esconder-nos da nossa vida concreta, relativizando tudo dessa maneira. Isso é uma fuga para a frente. Muitas vezes, ideias boas podem surgir na pequenez de uma vida concreta e na sua imponderabilidade.
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- És uma seca, pá. Não sabes o que queres. Antes querias controlar tudo, e agora estás parada.
- Sim.
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[YouTube:AGJh1HgqNoM]
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A Magnólia é uma flor lindíssima que se dá em qualquer jardim, tem um cheiro forte e bom e diz-se que é biologicamente primitiva
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Sei bem que é óbvio, mas Flores não são pessoas
obrigada