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Esta sala tem estado sem qualquer adereço, mantém-se à custa do seu próprio espaço, as visitas dos amigos, a minha presença, principalmente a visita dos amigos… é a essência dela.

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De “fora” não tem vindo ninguém, mas hoje chegou um homem. Não tem bom aspecto: está pálido, emagrecido, várias lesões na pele, parece deprimido. Percebo que vem de outros tempos, que não me é estranho, pergunto-lhe isso mesmo, mas ele diz que não, que faz parte do tempo presente, que o seu nome é Jesus e que está farto de estar “pendurado” à espera do 3º dia.

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Fico espantada porque há alguma coisa nele de mágico e verdadeiro, mas rapidamente realizo, que os tempos são difíceis, e a loucura espreita por aí cada vez mais. Penso em ligar para a polícia, mas temo que isso seja demasiado duro para ele, e ligo o 112.

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Que não podem fazer nada, que tente contactar a família…que me livre dele porque pode ser perigoso, que chame a policia.

Não chamo.

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Se pudesse descrevê-lo poeticamente, diria que os seus olhos são eternos e o sorriso intemporal, que sinto que é verdadeiro, mas “sei” que não pode ser. Vens salvar-me? Pergunto-lhe, não, diz-me ele. Venho trazer a nova boa nova:

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- Não há 3º dia

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A ressurreição não é verdade, e não vale a pena ficares à espera.

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Não?!?

Não, responde ele calmamente.

A vida está aqui, agora. Agora e não ontem, não amanhã, depois, ou no 3º dia.

A vida e a morte num só momento. A dor é o teu 1º lampejo de lucidez.

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Salva-te a ti mesma, que não tenho tempo a perder com salvações. Estou a braços com o conceito da responsabilidade.

Com a história da salvação só me dei mal. Não salvei ninguém, e ainda fiquei pendurado todo este tempo.

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Então e a paixão? O martírio de que se fala? – Isso é a morte, diz ele. São necessários para que a luz não te cegue. Para poderes ver o caminho.

Não te percebo, disse-lhe eu. Pois bem, começou ele a explicar, se fores num túnel muito escuro, precisarás de luz, certo?

Sim, respondo. Mas se pelo contrário fores num túnel de luz precisas de um pouco de escuridão para veres o caminho, de um pouco de sombra…. Luz total cega tanto como escuridão total. Isso não existe, disse-lhe eu. Existe sim, e olhando-me nos olhos, repetiu – existe sim, tu sabes que existe.

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Para ti, existe aquilo em que crês. Por exemplo, eu precisei ficar na cruz todo este tempo para finalmente perceber que todo o tempo que estive na cruz, já era o 3º dia. Que a noite antecipa o dia, a ausência antecipa a presença e que o escuro antecipa a luz.

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Fico sem saber o que dizer, mas concordo com ele, à partida. Sei bem que tem razão. Devaneio um pouco, mas a voz dele rapidamente me chama: - isto é um blogue não é?

É, é um blogue.

E há outras pessoas a ler o que se está a passar?

Sim, há. Não sei se vão gostar muito disto. É melhor ires à tua vida. Não tens família?

- Claro que tenho família, como todos. Mas caí hoje.

É preciso "morrer" para voar.

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Tens comprimidos para as dores? Dói-me o corpo todo.

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Dei-lhe um xarope analgésico e ele foi. Deixou-me um sorriso e um fim. Um fim, não, um começo…

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[YouTube:SGorhe2RgWg]

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“Se me procurares, aqui me encontrarás, O meu desejo foi encontrar-te sempre, Encontrar-me-ias mesmo depois de morreres, Queres dizer que vou morrer antes de ti, Sou mais velha, de certeza morrerei primeiro, mas, se acontecesse morreres tu antes de mim, eu continuaria a viver, só para que me pudesses encontrar, E se fores tu a primeira a morrer, Bendito seja quem te trouxe a este mundo quando eu ainda estava nele…”

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Extraído do livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo” – José Saramago

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Obrigada, beijos

Jo