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“Ó papão vai-te embora, Para cima do telhado
Deixa dormir o menino, Um soninho descansado” (tradicional)
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O papão faz parte do nosso imaginário “versão mórbida”: ele é o homem do saco, a bruxa má, o bicho mau, a côca, enfim, o papão nas suas múltiplas versões:
- “Come a sopa, se não vem o papão”, “se atravessares a estrada sozinha, a bruxa má leva-te”, “se bates no teu irmão, vais parar dentro do saco”!
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Um manancial de ameaças que muitos de nós, como crianças ouvimos e que agora, como “educadores” repetimos, continuando a exercitar, mais ou menos sub-repticiamente, uma faceta sádica, fazendo de conta que não nos cabe a nós, (e sim ao malfadado papão), “tomar conta” e proteger as nossas crianças, em vez de aterrorizá-las, com os nossos “ai que vem, ai que vai”…até que lhes possamos estimular o raciocínio, dando algumas explicações (que se desejam sucintas e simples), ajudando na percepção e formação do seu futuro conceito de causa – efeito.
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Ainda nos podemos arrogar do direito à desculpa da herança cultural, que é a do “mete medo à falta de melhor”, ou digamos, da maldadezinha hereditária, e depois tentar melhorar o que fazemos e como fazemos. Ok, deixa-nos um bocado mal, mas tolera-se, aceita-se.
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Mas a maldade leviana (a incontornável perversidade), é quanto a mim, algo de muito mais grave, e que requer uma detecção, o mais precoce possível e reflexão mais atenta:
Se considerarmos que a maldade assenta numa matriz inconsciente, ainda nos podemos de certa forma consolar, acreditando que a “coisa”, vindo ao consciente, poderá ser resolvida.
Se nos quedarmos passivos, eternizamos a maldade, e estamos a fazer um “encolher de ombros” afectivo muito grave, o que nos pode “degradar” ainda mais, do que se formos portadores da simples “imbecilidade do ignorante”, sendo que assim, abençoados, ainda podemos vir a deter o reino dos céus, sabe Deus como e onde, ai, ai.
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Voltando aos papões:
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Que nome tem o papão, quando um avô diz para o neto: “Está calado senão vou chamar o velho”? Que dizer quando uma mãe diz ao filho: “fica quietinho, se não te portas bem, vais ao hospital” … ou ainda… “vê lá se queres que a senhora enfermeira te dê uma pica? Senta-te aqui”….
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Vejamos:
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O avô é por princípio velho, e ser velho é tão bom quanto a forma como se vive ou se enfrenta essa mesma velhice. Conheço (felizmente para mim, porque me aumenta a esperança de vida) muitos velhos felizes.
Ir ao hospital, pressupõe necessidade de tratamento, e deveria acontecer apenas por causas que suscitem inevitabilidade. Levar “picas”, está dentro dos mesmos pressupostos, ou seja, acontece por uma de duas razões: ou previne ou trata.
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Criar papões destes …. Coloca-nos numa posição qualquer ainda menos boa (porque não há desculpas), que com a dos papões tradicionais, e que urge transformar.
Importante lembrar que a vida, na sua natureza, contém papões e monstros q.b, e que as crianças mais cedo ou mais tarde se confrontam com eles (convém mais tarde), mesmo sem mexermos uma palha com essa intenção.
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Não seria então muito melhor, ficarmos à espera de que sejam elas a contar-nos sobre “eles”, e depois dar-lhes o colo possível?
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Em vez de lhes pormos o papão ao colo?
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