SOL

 

.

 

.

“Ó papão vai-te embora, Para cima do telhado

Deixa dormir o menino, Um soninho descansado” (tradicional)

 .

O papão faz parte do nosso imaginário “versão mórbida”: ele é o homem do saco, a bruxa má, o bicho mau, a côca, enfim, o papão nas suas múltiplas versões:

 

- “Come a sopa, se não vem o papão”, “se atravessares a estrada sozinha, a bruxa má leva-te”, “se bates no teu irmão, vais parar dentro do saco”!

.

Um manancial de ameaças que muitos de nós, como crianças ouvimos e que agora, como “educadores” repetimos, continuando a exercitar, mais ou menos sub-repticiamente, uma faceta sádica, fazendo de conta que não nos cabe a nós, (e sim ao malfadado papão), “tomar conta” e proteger as nossas crianças, em vez de aterrorizá-las, com os nossos “ai que vem, ai que vai”…até que lhes possamos estimular o raciocínio, dando algumas explicações (que se desejam sucintas e simples), ajudando na percepção e formação do seu futuro conceito de causa – efeito.

.

Ainda nos podemos arrogar do direito à desculpa da herança cultural, que é a do “mete medo à falta de melhor”, ou digamos, da maldadezinha hereditária, e depois tentar melhorar o que fazemos e como fazemos. Ok, deixa-nos um bocado mal, mas tolera-se, aceita-se.

Mas a maldade leviana (a incontornável perversidade), é quanto a mim, algo de muito mais grave, e que requer uma detecção, o mais precoce possível e reflexão mais atenta:

Se considerarmos que a maldade assenta numa matriz inconsciente, ainda nos podemos de certa forma consolar, acreditando que a “coisa”, vindo ao consciente, poderá ser resolvida.

Se nos quedarmos passivos, eternizamos a maldade, e estamos a fazer um “encolher de ombros” afectivo muito grave, o que nos pode “degradar” ainda mais, do que se formos portadores da simples “imbecilidade do ignorante”, sendo que assim, abençoados, ainda podemos vir a deter o reino dos céus, sabe Deus como e onde, ai, ai.

.

Voltando aos papões:

.  

Que nome tem o papão, quando um avô diz para o neto: “Está calado senão vou chamar o velho”? Que dizer quando uma mãe diz ao filho: “fica quietinho, se não te portas bem, vais ao hospital” … ou ainda… “vê lá se queres que a senhora enfermeira te dê uma pica? Senta-te aqui”….

.

 

.

Vejamos:

 .

O avô é por princípio velho, e ser velho é tão bom quanto a forma como se vive ou se enfrenta essa mesma velhice. Conheço (felizmente para mim, porque me aumenta a esperança de vida) muitos velhos felizes.

Ir ao hospital, pressupõe necessidade de tratamento, e deveria acontecer apenas por causas que suscitem inevitabilidade. Levar “picas”, está dentro dos mesmos pressupostos, ou seja, acontece por uma de duas razões: ou previne ou trata.

.

Criar papões destes …. Coloca-nos numa posição qualquer ainda menos boa (porque não há desculpas), que com a dos papões tradicionais, e que urge transformar.

Importante lembrar que a vida, na sua natureza, contém papões e monstros q.b, e que as crianças mais cedo ou mais tarde se confrontam com eles (convém mais tarde), mesmo sem mexermos uma palha com essa intenção.

Não seria então muito melhor, ficarmos à espera de que sejam elas a contar-nos sobre “eles”, e depois dar-lhes o colo possível?

.

Em vez de lhes pormos o papão ao colo?

.

do céu caiu uma estrela?!?! não!

no deserto nasceu uma flor...

.

 

.

neste caso, ou momento histórico, a flor tem a forma de um homem de nome Obama

amanhã não sei, mas sei que esta noite, no vasto mundo, nasceu uma flor em muitos corações

por hoje, chega-me

 

.

 

Bosch

.

Just in case:

"Pão feito de madeira":

.

“Em tempos de grande escassez, e quando a fome ameaçava, sabia-se preparar uma substância nutritiva, a que se pode dar o nome de pão, a partir de faia e outras madeiras que não contenham aguarrás:

Pegue em madeira verde e corte-a aos pedaços muito pequenos ou em aparas, o que é ainda melhor. Ferva-os três ou quatro vezes, mexendo-os com força enquanto fervem. Seque-os e depois reduza-os a pó, se possível; se não, o mais fino que conseguir. Coza este pó no forno três ou quatro vezes e depois moa-o como faria com o milho. A madeira assim preparada adquire o cheiro e o sabor de farinha de milho. Não leveda sem adição de fermento. O fermento preparado para a farinha de milho é o melhor para usar. Vai originar um pão esponjoso e, quando bem cozido e com uma crosta rija, não é de forma alguma desagradável. Esta espécie de farinha, fervida em água e deixada a descansar, forma uma geleia espessa, forte e trémula, que é muito nutritiva, e em alturas de grande escassez pode ser utilizada em perfeita segurança para preservar a vida.”

.

(texto do “The Emigrant’s Handbook” (1854), que encontrei no “Livro da Sabedoria do Lar” (Vara, Jon; 1997)

Dream

.

VER AQUI

.

Ai, tem a ver connosco, tem:

.

[YouTube:dBJnoMP1Uyc]

.

TRYSmile

(A cena que se segue, é da total responsabilidade dos intervenientes, e relativamente aos feitiços, qualquer semelhança com qualquer realidade, é pura coincidência. A dona do blogue arroga-se do direito ao silêncio.)

.

- Pssst…. Pouco barulho…. Não está ninguém nesta sala … Creio que a podemos usar para fazer o trabalho – disse o velho, abrindo a porta….

.

 

.

- Sim, sim, parece-me bem, é arejado e espaçosa, ali há várias mesas para o material, e não podemos perder tempo que é quase lua cheia…

O velho encolheu os ombros ao comentário sobre a lua, sentou-se numa cadeira de palha e madeira africana, tirou um frasquinho e um livro grande de um saco. Esperou.

A mulher de cabelo cor de fogo, com uma coruja no ombro parecia animada…

.

 

.

Olhou à volta, e em cima de uma das mesas, assentou um saco grande, de onde tirou por ordem:

- 1 Vela negra feita com cera de Rainha e tingida com noite de eclipse;

- 1 Envelope branco comum;

- 1 Garrafinha de plástico comum (no final do feitiço dividir para o contentor amarelo);

- 1 Folha de papiro, deixada em branco por Cleópatra, quando escrevia poemas e não estava inspirada;

- Tinta preta de choco do Lago Ness;

- 325 Ml de água fresca, da Fonte da Ilha das Mandrágoras.

.

Era uma feiticeira muito experiente, prima em 46º grau de Morgana e Merlin, e os seus feitiços infalíveis, mas ainda assim o velho permanecia à distância… Perita na arte de encantar, ia dando explicações de todos os procedimentos, e ele, embora disfarçasse, prestava-lhe atenção.

.

- É um feitiço muito bom, nunca falha, é com ele que afasto pessoas indesejáveis – e continuava – primeiro vou acender a vela, depois pego nesta folha de papiro e escrevo com a tinta negra o nome ou nomes de quem nos queremos livrar.

A seguir o papiro vai para dentro do envelope, e este para dentro da garrafa.

Por fim, encho-a com a água de fonte, e digo o encantamento. É tiro e queda.

.

 

.

Fechou os olhos e viam-se faíscas por todo o lado, o fumo da vela negra deitava uma espécie de fogo de artifício, e o cheiro a enxofre e a cânfora, que saía dos vários frasquinhos e tubos, era muito intenso. As tonalidades do fumo eram iguais ao arco-íris, e o padre pensou que embora um pouco malucas, as feiticeiras são muito criativas na sua maneira de estar na vida.

.

 

.

Aos poucos o ambiente foi encerrando todos os artifícios, e a coruja voltou ao ombro. A feiticeira sentou-se em cima da arca do pão e desafiou:

.

- Então? É a tua vez! Já acabei a minha parte…

O ancião levantou-se então, foi devagar até à parte mais luminosa da sala perto das janelas grandes por onde entrava a luz da noite e do luar, olhou para cima para iniciar a oração…

- Por favor, diz-me o que vais fazer – disse ela.

.

 

.

Ele não gostava nada de explicações, mas também não queria ser antipático e começou:

- Há cerca de 200 anos, O Papa Leão XII publicou esta poderosa oração de exorcismo, para Satanás e os Anjos Rebeldes… Recomenda-se quando há suspeitas de acções demoníacas causadas pela malícia entre os homens, tentações violentas e até tormentas ou outras calamidades. Muito indicada para este caso para o qual fomos chamados.

- E do que precisas?

- Água benta.

Foi então a vez da feiticeira encolher os ombros. Nunca tinha compreendido esta forma minimalista dele tratar os assuntos, mas cada um é que sabe, a liberdade é um bem demasiado precioso, e ela gosta dele como ele é.

- Começa, então.

.

Quando acabaram, foram chamados ao seu chefe que perguntou:

- Deixaram a mensagem bem à vista?

- Sim…

.

Liberdade de expressão é o direito de manifestar opiniões livremente. É um conceito basilar nas democracias modernas. (…) O discurso livre é também apoiado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, especificamente no seu artigo 19, e pelo artigo 10 da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (…) os governos podem (…) limitar formas particulares de expressão, tais como aquelas que promovam o incitamento ao ódio racial, nacional ou religioso ou ainda o apelo à violência contra um indivíduo ou uma comunidade (o que coloca em contradição de legitimidade o próprio conceito desta, visto que não existe liberdade sem a plenitude das livres ideias; o direito mais básico de um ser humano é o de gostar ou não de algo em específico, e algo tão instintivo não pode ser sequer oprimido pelo estado anti-natural de coisas (…) Segundo a legislação internacional, as limitações ao discurso livre devem atender a três condições: ser baseadas na Lei, perseguir um objectivo reconhecido como legítimo, e ser necessárias à realização desse objectivo. Dentre os objectivos considerados legítimos está a protecção dos direitos e da integridade moral de outros (protecção contra a difamação, calúnia ou injúria); a protecção da ordem pública, da segurança nacional, da saúde e do bem comum.”

.

 

.

"Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes " - Sade

E podia ter vindo Freud...

 

Esta sala continua a ser vossa. Entrem quando quiserem, estejam à vontade, há permanentemente bebidas no armário que fica do lado direito do sofá, fofo e de penas. Há bolos e pão no armário da cozinha, saindo à esquerda. Café de saco, cevadas, chás de tudo e mais alguma coisa, especiarias.

No jardim há flores, árvores e plantas várias. Sempre que queiram e vos apetecer, levem sementes ou raízes delas, para acrescentarem os vossos próprios jardins.

Os baloiços são seguros, mesmo para adultos, podem baloiçar à vontade.

Os dias passam mais lentamente desde que os relógios se atrasaram misteriosamente, e as noites caiem um pouco mais tarde por causa do luar permanente.

Venho então ao sabor do vento, das marés, do diz que disse, e do luar.

…….

(para ti):

.

Uma música, uma imagem e uma frase.

.

[YouTube:nZnjP80K4yc]

.

 

.

“Para que a arte possa ser arte, não se lhe exige uma sinceridade absoluta, mas algum tipo de sinceridade. Um homem pode escrever um bom soneto de amor sob duas condições – porque está consumido pelo amor, ou porque está consumido pela arte.

Tem de ser sincero no amor ou na arte; não pode ser ilustre em nenhum deles, ou seja no que for, de outro modo. Pode arder por dentro, sem pensar no soneto que está a escrever; pode arder por fora, sem pensar no amor que está a imaginar. Mas tem de estar a arder algures. De contrário, não conseguirá transcender a sua inferioridade humana.”

Pessoa

Obrigada e boas férias se for o caso

Beijos

Jo

 

“O coração é uma câmara oca com quatro cavidades, um órgão muscular entre os pulmões, no mediastino médio. Aproximadamente dois terços da sua massa, está à esquerda da linha mediana. Ele tem o volume de cerca do tamanho da mão fechada e no Homem normal pesa aproximadamente 300 g tem a forma de um cone invertido, com o ápice voltado para baixo (…) o coração exibe um ciclo rítmico definido de contracção – sístole e de relaxamento – diástole.”

.

Mas se o observarmos mais atentamente, ou com outros olhos, podemos ainda encontrar flores. Ao nível da aurícula do átrio esquerdo:

.

 

.

RoSas VermelhAs

.

No ventrículo direito:

.

.

Margaridas

.

Na aurícula do átrio direito:

.

.

TuLiPaS

.

E no ventrículo esquerdo, as:

.

 

.

(José Varela, Beja, 2006)

PaPoiLaS

.

Se ouvirmos o coração, podemos ouvir o 5º concerto de Mozart para violino, mas também o som do Big Bang, a linguagem amorosa sussurrada, o chilrear de um pássaro ou o palrar de uma criança. O silêncio de uma árvore também está lá. Todos os sons e todos os silêncios do mundo no tamanho do coração.

.

[YouTube:VUNdwiWf2Ro]

.

E se cheirarmos o coração? A que cheira?

Digo que cheira a:

.

 

.

Ou ás vezes, a

.

 

.

E…………. Gosto…. Tem gosto?

SIM! Sabe a …

.

MAR

.

[YouTube:L9ygiHZ2Vvk]

.

Le grand blue –The big blue – Vertigem azul – Luc Besson

.

TACTO

.

 

Adão e Eva – Gustav Klimt

 Já mexeste num coração?

.

E …. Afinal….

.

Quem mexeu no meu coração?

.

“O amor é uma flor tão delicada, que o mais leve toque a pode destruir, tão forte, que nada a impedirá de crescer”Fern Wheeler

.

Quero perguntar-vos: - Na vossa opinião….

.

O que é o amor?

.

Esta sala tem estado sem qualquer adereço, mantém-se à custa do seu próprio espaço, as visitas dos amigos, a minha presença, principalmente a visita dos amigos… é a essência dela.

.

De “fora” não tem vindo ninguém, mas hoje chegou um homem. Não tem bom aspecto: está pálido, emagrecido, várias lesões na pele, parece deprimido. Percebo que vem de outros tempos, que não me é estranho, pergunto-lhe isso mesmo, mas ele diz que não, que faz parte do tempo presente, que o seu nome é Jesus e que está farto de estar “pendurado” à espera do 3º dia.

.

 

.

Fico espantada porque há alguma coisa nele de mágico e verdadeiro, mas rapidamente realizo, que os tempos são difíceis, e a loucura espreita por aí cada vez mais. Penso em ligar para a polícia, mas temo que isso seja demasiado duro para ele, e ligo o 112.

.

 

.

Que não podem fazer nada, que tente contactar a família…que me livre dele porque pode ser perigoso, que chame a policia.

Não chamo.

.

 

.

Se pudesse descrevê-lo poeticamente, diria que os seus olhos são eternos e o sorriso intemporal, que sinto que é verdadeiro, mas “sei” que não pode ser. Vens salvar-me? Pergunto-lhe, não, diz-me ele. Venho trazer a nova boa nova:

.

- Não há 3º dia

.

A ressurreição não é verdade, e não vale a pena ficares à espera.

.

Não?!?

Não, responde ele calmamente.

A vida está aqui, agora. Agora e não ontem, não amanhã, depois, ou no 3º dia.

A vida e a morte num só momento. A dor é o teu 1º lampejo de lucidez.

.

Salva-te a ti mesma, que não tenho tempo a perder com salvações. Estou a braços com o conceito da responsabilidade.

Com a história da salvação só me dei mal. Não salvei ninguém, e ainda fiquei pendurado todo este tempo.

.

 

.

Então e a paixão? O martírio de que se fala? – Isso é a morte, diz ele. São necessários para que a luz não te cegue. Para poderes ver o caminho.

Não te percebo, disse-lhe eu. Pois bem, começou ele a explicar, se fores num túnel muito escuro, precisarás de luz, certo?

Sim, respondo. Mas se pelo contrário fores num túnel de luz precisas de um pouco de escuridão para veres o caminho, de um pouco de sombra…. Luz total cega tanto como escuridão total. Isso não existe, disse-lhe eu. Existe sim, e olhando-me nos olhos, repetiu – existe sim, tu sabes que existe.

.

 

.

Para ti, existe aquilo em que crês. Por exemplo, eu precisei ficar na cruz todo este tempo para finalmente perceber que todo o tempo que estive na cruz, já era o 3º dia. Que a noite antecipa o dia, a ausência antecipa a presença e que o escuro antecipa a luz.

.

Fico sem saber o que dizer, mas concordo com ele, à partida. Sei bem que tem razão. Devaneio um pouco, mas a voz dele rapidamente me chama: - isto é um blogue não é?

É, é um blogue.

E há outras pessoas a ler o que se está a passar?

Sim, há. Não sei se vão gostar muito disto. É melhor ires à tua vida. Não tens família?

- Claro que tenho família, como todos. Mas caí hoje.

É preciso "morrer" para voar.

.

 

.

Tens comprimidos para as dores? Dói-me o corpo todo.

.

Dei-lhe um xarope analgésico e ele foi. Deixou-me um sorriso e um fim. Um fim, não, um começo…

.

[YouTube:SGorhe2RgWg]

.

“Se me procurares, aqui me encontrarás, O meu desejo foi encontrar-te sempre, Encontrar-me-ias mesmo depois de morreres, Queres dizer que vou morrer antes de ti, Sou mais velha, de certeza morrerei primeiro, mas, se acontecesse morreres tu antes de mim, eu continuaria a viver, só para que me pudesses encontrar, E se fores tu a primeira a morrer, Bendito seja quem te trouxe a este mundo quando eu ainda estava nele…”

.

Extraído do livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo” – José Saramago

.

Obrigada, beijos

Jo

.

Porque estou vestida de preto? Porque tem que ser, é só desta vez.

.

 

Arnold Böcklin, Die Totl The Island of Death, 1883

.

Não fiz chá, não há vinho, não tenho bolos. Não há velas. A casa está limpa, o sótão meio arrumado.

Há uma jarra com água fresca. Café de saco.

Não vos levo a mal se não ficarem. Melhores dias virão. Mas tenho gosto que estejam, se quiserem.

Fantasmas e fadas, duendes e elfos saíram bem cedo e ainda não voltaram. Tenho o básico: O texto.

.

 

Gustav Klimt, Death and Life, 1911

.

Num canto da sala está alguém… – quem és? (pergunto) – Olha para mim e responde: – sou uma metáfora. Uma metáfora de quê? – Pergunto eu, – uma metáfora da morte – responde.

Bem….

 A conversa está meia louca e peço-lhe que se sente num dos sofás, o que ela não faz.

- Venho para te ouvir ler o texto.

.

(Como se sabe a morte toma a forma que quer, quando quer levar uma criança, por exemplo, pode tomar a forma da mãe e leva-a cantando-lhe uma canção de embalar, disseram-me.

A que está na minha sala apresenta a forma da Geórgia O’Keefe)

.

 

.

O’Keefe

.

Então, percebo que tenho alguns argumentos, sento-me e com “ela” de olhos postos em mim, leio:

.

Os dias têm vindo a pressionar este sentido, este sentir. Deixo cair mais uma pedra da muralha. E “morro” um pouco mais.

Não há muralha que impeça a vida de entrar, afinal. Ou de sair. A vida simplesmente.

Com pouca conversa, a existência tal como é.

.

Perco um pouco o norte, mas não acho que tenha importância.

Por causa do salto de fé

.

                                           . Desacredito lentamente dos sonhos.

. Estou aqui.

                                                            . Desiludo-me.

Sustento a minha vida naquilo que é mais simples, no que consigo aceitar, conter.

No ar que respiro, no ser, na natureza de ter filhos, no crescimento. No outro. No que fixo na retina. Momentaneamente. Na memória do coração, para sempre.

Na inevitabilidade da morte.

.

 

Caravaggio, The Death of the Virgin, 1605-06 (ou da “nossa” Senhora do “robe”)

.

Na necessidade da vida.

.

Enquanto leio o texto, imagino que sorris, o que no passado não pude ver a maior parte das vezes, afagas-me o cabelo ao de leve.

Recebo o sorriso, e nem precisamos dizer nada, penso que nem há nada que se pudesse dizer, aliás.

Suponho que talvez quisesses fazer uma achega, um ponto da situação, mas não sei. Contigo aprendi a supor em vez de ter a certeza, mas acima de tudo, aprendi a não esperar nada, mas a cultivar a verdadeira esperança. A ser livre, portanto.

.

Por isso sinto e sei, que por muito que me esforce quando ligo as palavras umas às outras, na tentativa de produzir texto, há algo de indizível de facto.

É daí que se nasce. Do coração. De onde acabei por nascer, finalmente.

.

Houve para isso uma morte.

Paz a essa alma impaciente, revoltada, fechada, infeliz, feroz.

Enterra-se o morto. Cai o pano.

.

A despedida

“Toma a tua vida pelo lado leve: já tens a tua conta de sofrimento. Hoje não quero comer nem beber, tenho de preparar-me para a viagem. Partirei ao princípio da tarde para que possas enterrar-me amanhã. Põe ao pescoço os meus amuletos e não os tires por mais de trinta e cinco horas seguidas se queres morrer de velha. Deitei fora as minhas ervas, poções e mezinhas, que não têm préstimo para ninguém. Parto deste mundo como cheguei, sem nada.” (*)

“Ela”, a metáfora da morte, que afinal se tinha sentado no meu sofá, levanta-se e sai.

.

                                                 Cria-se um espaço ou este surge

.

Fico só. Abro a janela e deixo entrar por agora, o ar da noite.

Dentro do meu peito nasce um olá…

.

[YouTube:mHGbA7I5HZY]

.

Não sei quantas mortes há numa vida, mas sei que a morte tem várias faces e surge quantas vezes precisamos de nascer. Até ao fim.

.

Obrigada

(2)Excerto do livro “Os três casamentos de Camilla S.” – Rosa Lobato Faria

.

 

.

Podemos ser ou não ser, passar a vida nessa luta.

Fecha os olhos, descansa um pouco o olhar, e vê para dentro. Observa bem as tuas pálpebras por dentro… desse ponto de vista, só tu as podes ver. Pára então, e

observa-te.

É suave, um olhar sobre as próprias pálpebras.

Se olhares para as tuas pernas, por exemplo, é diferente, começas logo a analisar do ponto de vista do exterior… estão magras, gordas, musculadas, estriadas ou flácidas. Mas as tuas pálpebras não. É um olhar íntimo que podes ter contigo mesmo … um olhar para dentro dos teus olhos. Fica. É perto. É real.

Agora experimenta abri-los, aos olhos.

Vês o mundo? Os outros? O outro? Vês-te no mundo? Sim? És real.

O amor é real. A distância é real.

.

 

.

(Edward Hopper)

.

Senta-te aqui neste pequeno banquinho junto ao rio. Tem muita água hoje, porque choveu, mas corre ligeiramente, sem grandes atropelos.

Vês ali aqueles peixinhos? Há quanto tempo não olhas para os peixinhos dentro do rio? (Ah, ontem! … ainda bem)

Vou pôr uma música, ok? Se puser baixinho, os peixes gostam, e vão ficar por aqui à nossa volta, antes de partir. Vais ver.

.

[YouTube:R66UVTHv1o4]

.

Vou contar-te uma história de uma conversa entre 2 bonecos num quarto de criança – um Coelho e um Cavalo.

Hoje não trago chá. Trago vinho…. Vinho tinto.

Vieram os Madre Deus, o Thomas Moore e o Da Vinci… veio rabugento e contrariado (detesta viajar no tempo), mas veio. Não quis dar autógrafos. Pedi-lhe para desenhar um olhar… deixou um desenho do “olhar mais bonito que conheci”, disse … (estive para lhe dizer que este já está batido, mas não o quis aborrecer):

.

 

.

Perguntei-lhe se queria passar o fim-de-semana, mas disse que não, que tinha que voltar para o sossego da eternidade. E lá foi.

.

“Leonardo Da Vinci coloca uma questão interessante num dos seus cadernos de notas:” “Porque motivo o olhar vê uma coisa com maior clareza nos sonhos do que a imaginação quando estamos acordados?

“ – Uma resposta possível é que os olhos da alma percebem as realidades eternas essenciais ao coração. Quando acordados, a maioria de nós vê apenas com os olhos do corpo, ainda que, com algum esforço da imaginação, fossemos capazes de vislumbrar fragmentos de eternidade nos acontecimentos passageiros mais banais. O sonho ensina-nos a ver através desses outros olhos, os olhos que durante a vigília pertencem ao artista, a cada um de nós enquanto artista”

Thomas Moore – “O Sentido da Alma”

.

 

.

“O que é ser Real?” – perguntou um dia o Coelho, quando se encontravam deitados lado a lado, perto do resguardo da lareira do quarto das crianças (…) será ter coisas dentro de nós e, do lado de fora, o manípulo do mecanismo que o faz funcionar?”

“Ser Real não tem a ver com a forma como és feito – disse o Cavalo – é uma coisa que te acontece. Quando uma criança gosta de ti durante muito, muito tempo, não apenas para brincar, mas porque realmente gosta de ti, então tornas-te Real”

“Isso magoa? – perguntou o Coelho.

“Às vezes – respondeu o Cavalo, porque dizia sempre a verdade – mas quando se é Real, não nos importamos que nos magoem”

“ Acontece assim de repente, como quando se dá corda, ou a pouco a pouco? – interrogou o Coelho.

“Não acontece tudo de uma vez” – disse o Cavalo – vai acontecendo. Demora muito tempo. Por isso não sucede com muita frequência às pessoas que são frágeis, muito nervosas ou que têm que ser tratadas com muito cuidado. Em geral, quando finalmente conseguimos ser reais o nosso pelo já caiu quase todo, de tantos carinhos e afagos que nos fizeram. E os nossos olhos descaem, ficamos muito puídos e com as articulações moles. Mas nada disso é importante, porque a partir da altura em que se é Real não se pode ser feio, excepto aos olhos de quem não compreende”.

- “Suponho que sejas Real” – prosseguiu o Coelho, logo se arrependendo do que disse, por pensar que o Cavalo podia ficar sentido. Mas ele apenas sorriu.

“ O tio do rapaz tornou-me Real” – disse – Isso foi há muitos, muitos anos, mas uma vez que se é Real, nunca mais se deixa de o ser. Dura para sempre”

Margery Williams – “Velveteen Rabbit” (O Coelho de Bélbute)

.

A Meryl Streep conta a história muito bem, aqui

.

Obrigada

Beijos

1 – 5 Bens materiais QUE TIVE NO PASSADO, que já não tenho, e sinto saudades ou nostalgia por eles

.

 

.

·         A casa dos meus avós, onde brinquei e corri e fui feliz

·         Os brinquedos/brincadeiras na quinta dos meus tios, onde acreditei que fazíamos caçadas aos leões e aos tesouros dos piratas, apesar de ser no Ribatejo. E onde ganhei o meu primeiro salário (2$50), por garantir que a burra “Russa”, não parava de puxar a nora.

·         A quinta do Tio Manuel e da Tia Amália, onde o pão era mesmo pão de verdade, e os animais eram todos conhecidos pelos seus nomes.

·         Uma mobília de bonecas de madeira azul completa (quarto, sala e cozinha), que ia buscar ao sotão da minha avó e com a qual passava horas a fio de “sossegadas” brincadeiras.

·         O apartamento com vista para o rio, onde vivi 4 anos e de onde via o brilho que a lua faz na água, e onde sentia o prazer que me dá uma linda paisagem.

.

2 – 5 Bens materiais QUE POSSUO ACTUALMENTE, que mais gosto e sem os quais não consigo viver (por ordem de importância)

.

 

.

·         O meu coração, porque me dá tristezas e alegrias, me dá vida, porque sem ele seria como uma boneca de trapos.

·         A minha casa, porque é nela que me aqueço quando tenho frio, adormeço quando tenho sono, choro quando sinto que perdi. Ganho ânimo.

·         Os meus livros, porque muitas vezes serviram de meus “companheiros” e me deram uma espécie de refúgio quando precisei, embora saiba que tudo o que aprendi com eles, de pouco me serve para ser gente, porque o conhecimento mais importante é aquele que nasce de dentro de nós, que é gerado no fluir da vida.

·         Os meus filmes, por causa do prazer que me dá, estar no sofá enroscada a vê-los. O cinema é mágico.

·         O meu blogue, porque me permite escrever, expor, partilhar e trocar certas ideias e estados de alma com pessoas interessantes, que de outra forma não seria possível e é bom.

.

3 – 5 Bens materiais QUE PENSO ADQUIRIR nos próximos 5 anos

.

 

.

  • Um curso de pintura, onde suponho aprender algumas coisas de que preciso, para tentar reduzir o desperdício de telas.
  • Alguns livros que não me ensinarão nada verdadeiramente importante, mas que ainda me darão o grande prazer da literatura, pura e simplesmente.
  • Alguns filmes, porque estar sozinha nunca mais foi o mesmo desde que os inventaram, e para mim estar “sossegada” a vê-los, será sempre uma grande escolha. São meus auxiliares do sono e do sonho.
  • Umas roupitas novas, porque mesmo que diga que não ligo a isso, estaria a mentir com quantos dentes tenho na boca, e não seria menos “fútil” do que estou a ser agora.
  • “Coisas” que irei adquirir, e que possam contribuir para melhorar de alguma maneira a vida daqueles que amo. Acredito que os bens materiais são algo de muito valioso e importante, incluindo o dinheiro. Sei que “dinheiro” também pode representar afecto.

.

4 – 5 Bens materiais QUE GOSTEI DE OFERECER a 5 pessoas diferentes

.

 

.

  • Uma guitarra preta, linda, de onde saíram melodias muito bonitas.
  • Umas calças de ganga de grávida, que foi um prazer escolher.
  • Uma vela parecida com espuma branca, com carinha de porcelana e que representa uma amiga, quando se junta um abraço.
  • Um desenho a carvão.
  • Um xaile cinza de lã, macio e quente, que serviu para aquecer uma boa mulher.

.

5 – 5 Bens materiais QUE SONHO TER mas que sei que não vou adquirir (ou uma espécie de masoquismo mágico)

.

 

.

·         5 Lâmpadas, cada uma com um génio simpático dentro, e cada génio a dar direito a 3 desejos!!! Qual Euro milhões, qual quê!!!

.

6 – 1 Bem (de qualquer categoria) que VOU DESEJAR A TODOS OS QUE ME ESTÃO A LER

.

 

.

· FELIZ ANO 2008!

.

Gostei do desafio.

Escolho para desafiar: o Pessoalíssimo, o Bluewater,o Bp63, a Nemesis, o Kurioso e a Gomes2000 (Não sei se algum deles já tinha sido escolhido).

.

Dedico este post ao Gattopardo

.

Obrigada

Beijos

(Fiz chá de Natal: maçã, baunilha, canela, gengibre e várias ervas de chá a gosto. Há bolo-rei com frutas frescas. Sirvam-se).

Está cá o Freddie Mercury, mais conhecido por Faruk Bulsara:

.

[YouTube:8vCYkTx_5us]

.

O Natal é a festa das crianças. Concordo. E por isso trago uma prenda para a criança que tens dentro de ti:

Uma história!!!!

“O gigante egoísta” do Óscar Wilde

Boa????

.

.

"Todas as tardes, ao regressar da escola, as crianças ficavam a brincar no jardim do gigante (…) Os pássaros pousavam nos ramos e, com o seu chilrear melodioso, deliciavam as crianças que paravam de brincar para os ouvir.
- Como se está bem aqui! – diziam.
(…) Numa tarde, apareceu o gigante.

.

-Ei! Que estão aqui a fazer? - gritou com voz terrível e as crianças fugiram para a rua. - É o meu jardim! É o meu jardim! - disse. - Fiquem a saber que futuramente não consentirei, que, seja quem for, o pise sem minha autorização.

.
E assim fez. Mandou construir um enorme muro à volta e colocou uma tabuleta a dizer:

.
“PROPRIEDADE PRIVADA.
QUEM ENTRAR SERÁ CASTIGADO.”

.
 Ora, as pobres crianças não tinham outro local para brincar. Tentaram brincar na estrada, mas estava cheia de pó e pedras afiadas e, por isso, não conseguiram.
 .
(…) Veio a Primavera.
Por todo o lado desabrochavam as flores e as aves cantavam. Só no jardim do gigante era ainda Inverno. Os pássaros só cantavam onde existiam crianças, e as árvores esqueciam-se de dar flores. Certa vez uma pequena flor começara a desabrochar, mas, ao ler a tabuleta, enfiara-se de novo pela terra e retomara o seu sono

.
-É muito egoísta. - dizia o Outono.

Por isso naquele lugar era sempre Inverno e o Vento Norte, o Granizo e o Gelo dançavam por entre as árvores

.
Uma manhã o gigante (…) ouviu uma música maravilhosa. Na verdade não passava do canto de um pintassilgo do lado de fora da janela, mas, como há tanto tempo não ouvia uma ave a cantar no seu jardim, parecia-lhe agora a música mais bonita do mundo.

.
(…) As crianças tinham voltado às escondidas ao jardim e subiam às árvores. Os ramos cobriam-se de rebentos e flores (…)

.
Era um espectáculo encantador. Só num local era ainda Inverno. Era o canto mais distante do jardim; ali uma criança, por ser muito pequena, não conseguia subir à árvore, andando à sua volta e chorando amargamente.

.

O coração do gigante ficou gelado
.

Desceu as escadas e abriu o portão sem fazer barulho. Mas, quando as crianças o viram, ficaram cheias de medo e fugiram. Ao jardim voltou de novo o Inverno.
Só o menino mais pequenino não fugiu porque tinha os olhos rasos de lágrimas e não viu chegar o gigante.
Sem fazer barulho, o gigante aproximou-se, pegou nele delicadamente e pousou-o em cima da árvore. Imediatamente a árvore floriu, os passarinhos começaram a cantar e o menino lançou os braços à volta do pescoço do gigante, beijando-o. Quando as outras crianças se aperceberam de que o gigante já não era mau, regressaram e, com elas, a Primavera

.

(…) -Mas onde está o vosso companheiro mais pequenino? - perguntou ele. - O menino que ajudei a subir à árvore?
O gigante gostava muito dele, porque o menino o tinha beijado.
Mas os meninos não sabiam onde vivia e, além disso, nunca o tinham visto antes

.

Um dia, passado muito tempo o gigante viu o menino, que era para ele: “uma visão maravilhosa” (…) correu pela escada abaixo em direcção ao jardim.

.
-Quem foi que te feriu? Diz-me que pegarei na minha espada e castigá-lo-ei – acrescentou ao ver nas mãos e nos pés do menino os sinais de duas chagas.
-Não! - respondeu o menino. - Estas são feridas de amor.
-Quem és tu? - balbuciou o gigante, enquanto uma estranha fraqueza se apoderava dele e o fazia ajoelhar perante o menino.
Este sorria para o gigante:
-Um dia deixaste-me brincar no teu jardim. Hoje irás comigo para o meu jardim que é o Paraíso.
Quando as crianças chegaram, encontraram o gigante morto debaixo da árvore. Estava todo coberto de flores brancas.”

.

Um desejo de Natal:

.

Desejo que deixemos morrer (ainda que aos poucos) os “nossos” gigantes assustadores! Creio que não nos farão falta

.

Assim:

.

[YouTube:WKh0-Xg8i5A]

.

Outro desejo de Natal:

.

Que o tenhas Feliz!

.

Sim, Tu!

.

Dedico este post a todos os homens e mulheres que o leiam.

Beijos

O Desabafo

.

[YouTube:duTBl5JH7pg]

.

- Ouve…. Como te sentirias se te caísse uma chuva de sapos em cima da cabeça?

- Isso não existe, pá.

.

 

.

- Se subires muito alto… acima das correntes quentes, e entrares nas frias, és depois cuspido pela natureza como se fosses chuva, porque quanto mais alto subires durante o furacão, maior será a tua queda.

- Deixa-te de m e r d a s, pá, não me convences com essa cena da chuva de sapos, nem da queda. A vida é ligeira, nada se passa com esse ritmo, a vida é caótica, pá.

.

- Digo-te que não, digo-te que há um propósito e que nada é por acaso. Ainda ontem acreditava na invencibilidade e hoje tremo de medo por causa da perda.

- Mas a vida é assim, mesmo! Que queres fazer? Tens de aceitar, porra!

.

 

...

- E aceito, mas custa-me. Dói não sei bem onde, nem muito bem o quê. Olha, estou de luto. Tenho que passar por isto. Estou bem, deixa lá, não te preocupes.

- Tás bem o caraças. Não te conheço, não? Dizes que estás bem, para manter o registo, mas na verdade definhas como o tal pássaro de que falas, queimado nas cinzas. Deixa lá essas cenas e diverte-te, a vida é boa!

.

- Não estou a definhar e sei que a vida é boa. Quando vivia no caos, tinha uma vida supérflua e leviana, não queria saber do sofrimento, porém, perseguia a morte:

.

 

.

Hoje, acredito em chuvas de sapos, mas também em aves egípcias que renascem das cinzas. Em cada dia, essa esperança renovada, dá-me a medida certa da minha pequena existência. Quanto mais longe estou do ideal, porque mais me afasto, mais sinto a minha própria felicidade, ou seja o que for que é a vida, e a porção de dor que me cabe. Não acredito na vida mágica, mas na magia da vida. E também em magnólias:

.

 

.

- Uma vez li num livro que a “miséria é uma coisa relativa”, pá. Sabes o Irvine Welsh, aquele gajo inglês, que escreve sobre pessoas drogadas, com o cérebro muita marado, e tal?

- Sei.

- Esse gajo escreveu isso num livro dele. E por isso te digo que não vale a pena estares a chatear-te com as coisas. Ele dizia mais ou menos isto: que enquanto te preocupas com o teu mundo, milhões de putos morrem de fome, e milhões de “cabrões” se enchem de dinheiro, vindo dos seus investimentos podres.

.

- Mas não podemos estar sempre a “defender-nos” ou a esconder-nos da nossa vida concreta, relativizando tudo dessa maneira. Isso é uma fuga para a frente. Muitas vezes, ideias boas podem surgir na pequenez de uma vida concreta e na sua imponderabilidade.

.

- És uma seca, pá. Não sabes o que queres. Antes querias controlar tudo, e agora estás parada.

- Sim.

.

[YouTube:AGJh1HgqNoM]

.

A Magnólia é uma flor lindíssima que se dá em qualquer jardim, tem um cheiro forte e bom e diz-se que é biologicamente primitiva

.

Sei bem que é óbvio, mas Flores não são pessoas

obrigada

O Visitante

.

Hoje quando cheguei a casa, entrei na minha sala, aquela que vocês conhecem….

Estava escuro, mas andava alguém por lá com uma lanterna. Não era ninguém daqui…

O homem parecia estar à procura. Fui rapidamente buscar a máquina fotográfica e:

.

 

.

Mr Scrooge!

.

Digo-lhe:

- O que faz aqui, Mr Scrooge? Tento fazer a minha voz mais calma, mas não me sai bem, e está trémula, mas ele parece não notar.

Diz que veio para que nos lembremos da sua história. Explico-lhe que não se pode entrar assim na casa das pessoas, mas reparo que ele está cheio de frio… vem de muito longe, de há séculos atrás, e que a minha conversa sobre invasões domiciliárias, é para ele irrelevante.

Bem… digo-lhe que se sente no sofá à frente da lareira, que entretanto acendo, faço-lhe um chá e dou-lhe umas castanhas, das que ficaram do nosso encontro da semana passada.

Estão já um bocado secas, mas ele não parece importar-se e diz:

.

 - Há muitos anos fui criado por Charles Dickens, que acreditava que o Natal significava um tempo de paz e de bondade das pessoas umas para as outras. O seu livro de Natal, tem um profundo carácter social e mostra a ternura e o realismo próprios de Dickens. Nessa altura, ele quis que o livro fosse acessível, a praticamente toda a gente, e fixou o preço em 5 xelins. Eu era um agiota sovina e fui visitado por 3 espíritos que me mostraram o meu passado, presente e futuro (que iria ser muito doloroso), caso eu não me transformasse.

.

Mas transformei-me. Ora oiça só o que escreveu ele a meu respeito no último parágrafo do livro:

.

(Então tira um livro do seu “saco do passado”, e lê)

.

 

.

“Scrooge excedeu as suas promessas. Fez tudo e infinitamente mais para o pequeno Tim (…). Tornou-se um bom amigo, um bom patrão, um bom homem (…). Alguns riam-se da sua modificação, mas ele deixava-os rir e pouca atenção lhes prestava, porque era suficientemente sensato para saber que nada de bem acontecia sem que as pessoas troçassem, a princípio; e sabendo que esses, de qualquer forma, seriam sempre cegos, pensou igualmente que podiam fazer rugas de tanto rir (…). O seu coração ria e isso era quanto lhe bastava. (…) Dele sempre se disse que sabia como conservar o Natal, se é que alguém possuía essa sabedoria. Que isso possa ser dito de nós, de todos nós!”

 Percebes???

.

 

.

- Acho que percebo, mas não sei se poderei escrever isso lá no blogue. Parece-me muito utópicodisse-lhe eu. Utópico!?!? – O fantasma ficou visivelmente irritado. - Como podes dizer que é utópico? Eu sou o verdadeiro espírito de Natal. Não o Pai Natal, não Jesus. Esses inspiram à adoração, porque são perfeitos, e por isso, são fantasia ou religião.

Mas eu sou o verdadeiro espírito que pode inspirar os homens e mulheres do mundo, porque sou um exemplo humano, porque todos ás vezes são bestiais como eu fui, mas todos se podem transformar como eu fiz!!! Natal significa Transformação!

(scrooge gritava)

.

 – Pronto, pronto – disse eu – escrevo lá isso tudo no meu blogue. Mas aviso-te que não deve servir de grande coisa…

.

- Não te preocupes com isso, faz a tua parte que eu faço a minha. Estas castanhas estão rijas, que nem cornos, mulher! Mas o chá está muito bom.

.

E dito isto, desapareceu. Olho melhor para a noite e oiço um bater de asas.

.

 

.

- Ah! Afinal os espíritos voam

como nós, como as nossas almas, quando amamos

.

fiquei a pensar no Scrooge, no susto que apanhei – e no que ele disse

.

Reflicto:

.

 

.

Dar prendas a quem amamos é bom! Receber prendas também, mas ás vezes parece que o afecto fica reduzido e empacotado num lindo embrulho de Natal. Nos outros dias do ano, andamos a correr, a produzir, a gerir ganhos e custos, crédito – débito, e nos intervalos desta azáfama, damos uns mimos aos filhos, culpamo-nos por estarmos pouco tempo com eles, com os amigos, com o amor.

E a vida vai passando…. Até aos dias de Natal. Nesses dias “felizes”, fazemos e sentimos um pouco do que seria a nossa felicidade de todos os dias. É como se nos “embebedássemos” de sentimentos bons, à força das cores, brilhos, luzes e músicas de Natal espalhadas pelas aldeias, vilas e cidades, e da simpatia que sentimos nas e pelas pessoas com quem nos cruzamos.

.

[YouTube:T2ZlWspxhr8]

.

“Dele sempre se disse que sabia como conservar o Natal, se é que alguém possuía essa sabedoria”

.

Obrigada

.

Excertos do livro “A Christmas Carol and The Chimes” de Charles Dickens (2000) – escrito em 1843/1844 e Imagens do filme “Nightmare Before Christmas” de Tim Burton (em português “O Estranho Mundo de Jack”) - Música Sweet Dreams (Original dos The Eurythmics) - versão de Marilyn Manson

.

 

.

Entrem, entrem! Querem ouvir música ou ficamos em silêncio?

.

 [YouTube:qaMcImrNnOQ]

.

A sala está mais fria por causa do Inverno que finalmente chegou. Mas acendi a lareira e consegui uns 23ºC. Na enorme mesa de carvalho antigo, está uma toalha de renda de algodão branco, que herdei da minha avó. Temos bolinhos de queijo e há castanhas assadas ou cozidas com erva-doce.

Como não tive nada que fazer esta tarde, descasquei-as e voltei a aquecê-las, enrolei-as num pano de linho grosso, feito dum pano de sacristia. Deus(a) está connosco.

Quem quiser que se aconchegue ao seu próprio Deus seja Ele/a quem for.

Para os ateus, há velas de cheiro e pedras semipreciosas com brilhos lindos e intensos. Flores de verdade, várias. Livros de filosofia:

.

 

.

"Todas as coisas (…) esforçam-se em persistir em suas próprias naturezas; e o esforço com o qual uma coisa procura persistir em seu próprio ser, nada mais é do que a verdadeira essência daquela coisa." – Espinosa

.

 

.

Temos, como sempre, chás a gosto, cevadas, cafés, sumos de uva e cidra. Uns graus de álcool na cerveja de malte. Preta!

Pode-se fumar no alpendre. Dentro de casa, não.

.

Vamos assistindo à peça:

.

“Juliet – Yea, noise? – Then I’ll be brief. – O happy dagger! (Snatching Romeo’s dagger.)

 O quê? Barulho?! Então não há tempo a perder. Oh, punhal abençoado! (Agarrando no punhal de Romeu.)

“This is the sheath (stabs herself); there rest, and let me die. (Falls on Romeo’s body, and dies.)”

Eis a tua bainha … (Apunhala-se.) Cria ferrugem no meu peito e deixa-me morrer! (Cai sobre o cadáver de Romeu e expira.)

.

 

.

A cena é dramática, excessivamente romântica e dá que falar como sempre.

O Amor vem de novo à baila.

Como sabem, tenho dificuldade em elaborar acerca de um tema com palavras originais, e por isso, levanto-me do sofá e vou buscar o “Sentido da Alma” do Thomas Moore. E leio um trecho que me faz sentido:

.

 

.

- “O nosso amor pelo amor e as nossas expectativas elevadas de que ele confira plenitude à vida parecem ser uma parte integrante da experiência. O amor parece encerrar a promessa de que as feridas abertas pela vida fecharão e serão saradas. Pouco importa se no passado o amor revelou ser uma fonte de sofrimento e de perturbação, pois ele contém uma componente auto – regeneradora. Tal como as Deusas da Grécia, ele é capaz de recuperar a sua virgindade num banho de esquecimento (…)

Os progressos que fazemos depois de termos sido devastados pelo amor podem resumir-se à disponibilidade para mergulhar de novo nele (…).”

.

 

.

Apesar de ter lido no meu tom de voz normal, todos estavam distraídos pela tranquilidade da casa. O ambiente é descontraído. Continuamos a saborear as bebidas.

.

Está Silêncio.

.

Obrigada

Deixar “Cair a Folha” e NÃO Adoecer

.

 

.

Trago aqui umas coisitas que li há algum tempo e gostei muito. Se as palavras fossem chá, era o que vos oferecia numas chávenas bonitas, com folhas de Outono desenhadas. Sentávamo-nos nos sofás da minha sala, ao final da tarde, quando bate o sol nas janelas grandes, e sem dizermos grande coisa, saboreávamos esse cházinho aromático que fumegava e nos aquecia as mãos. Entrem e estejam à vontade:

.

 

.

“ … Estou pouco habilitado para lhe dar receitas seguras. Aliás, desconfio que alguém o esteja, embora não faltem propostas.”

.

Parar.

.

 

.

Diz ele que tudo aquilo que sabemos vem do presente e do passado, como os hábitos e a cultura. Mas chama a atenção para o facto, de que a nossa vida está virada para o futuro, e ninguém sabe como vai ser o futuro. Que o melhor é irmos treinando a nossa capacidade de invenção.

.

 

.

The Collective Invention. René Magritte

.

“ (…) Embora sejam admissíveis, algumas combinações verdadeiramente patológicas, ter todas as doenças é o mesmo que não ter nenhuma. O importante é que a sua vida seja bem sucedida, você não se queixe e os outros também não se queixem de si (a não ser que seja politico, razão pela qual todos se queixarão).”

.

Diz que o grande problema é quando fazemos o mesmo em todas as circunstâncias.

.

 

.

Deixar cair

.

E que somos basicamente imprevisíveis, mas para conseguirmos viver numa comunidade organizada, temos que ser previsíveis uns para os outros.

.

Reconhece que este é o primeiro paradoxo que nos obriga a desenvolver uma personalidade complexa e consciente.

.

 

.

“O que mais me alarma (…) é a falta de consciência sobre o que se passa”

.

O que (diz ele) nos leva a perder a liberdade de nos modificarmos: continuamos a fazer, em qualquer circunstância, cada vez mais do mesmo.

.

 

.

Outono. Morre. Transforma!!!

.

 

.

Transformation, Anderson Giles

.

Obrigada

.

Com excertos do livro: “Como tornar-se doente mental” – Pio Abreu

More Posts Next page »