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Porque estou vestida de preto? Porque tem que ser, é só desta vez.
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Arnold Böcklin, Die Totl The Island of Death, 1883
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Não fiz chá, não há vinho, não tenho bolos. Não há velas. A casa está limpa, o sótão meio arrumado.
Há uma jarra com água fresca. Café de saco.
Não vos levo a mal se não ficarem. Melhores dias virão. Mas tenho gosto que estejam, se quiserem.
Fantasmas e fadas, duendes e elfos saíram bem cedo e ainda não voltaram. Tenho o básico: O texto.
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Gustav Klimt, Death and Life, 1911
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Num canto da sala está alguém… – quem és? (pergunto) – Olha para mim e responde: – sou uma metáfora. Uma metáfora de quê? – Pergunto eu, – uma metáfora da morte – responde.
Bem….
A conversa está meia louca e peço-lhe que se sente num dos sofás, o que ela não faz.
- Venho para te ouvir ler o texto.
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(Como se sabe a morte toma a forma que quer, quando quer levar uma criança, por exemplo, pode tomar a forma da mãe e leva-a cantando-lhe uma canção de embalar, disseram-me.
A que está na minha sala apresenta a forma da Geórgia O’Keefe)
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O’Keefe
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Então, percebo que tenho alguns argumentos, sento-me e com “ela” de olhos postos em mim, leio:
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Os dias têm vindo a pressionar este sentido, este sentir. Deixo cair mais uma pedra da muralha. E “morro” um pouco mais.
Não há muralha que impeça a vida de entrar, afinal. Ou de sair. A vida simplesmente.
Com pouca conversa, a existência tal como é.
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Perco um pouco o norte, mas não acho que tenha importância.
Por causa do salto de fé
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. Desacredito lentamente dos sonhos.
. Estou aqui.
. Desiludo-me.
Sustento a minha vida naquilo que é mais simples, no que consigo aceitar, conter.
No ar que respiro, no ser, na natureza de ter filhos, no crescimento. No outro. No que fixo na retina. Momentaneamente. Na memória do coração, para sempre.
Na inevitabilidade da morte.
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Caravaggio, The Death of the Virgin, 1605-06 (ou da “nossa” Senhora do “robe”)
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Na necessidade da vida.
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Enquanto leio o texto, imagino que sorris, o que no passado não pude ver a maior parte das vezes, afagas-me o cabelo ao de leve.
Recebo o sorriso, e nem precisamos dizer nada, penso que nem há nada que se pudesse dizer, aliás.
Suponho que talvez quisesses fazer uma achega, um ponto da situação, mas não sei. Contigo aprendi a supor em vez de ter a certeza, mas acima de tudo, aprendi a não esperar nada, mas a cultivar a verdadeira esperança. A ser livre, portanto.
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Por isso sinto e sei, que por muito que me esforce quando ligo as palavras umas às outras, na tentativa de produzir texto, há algo de indizível de facto.
É daí que se nasce. Do coração. De onde acabei por nascer, finalmente.
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Houve para isso uma morte.
Paz a essa alma impaciente, revoltada, fechada, infeliz, feroz.
Enterra-se o morto. Cai o pano.
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A despedida
“Toma a tua vida pelo lado leve: já tens a tua conta de sofrimento. Hoje não quero comer nem beber, tenho de preparar-me para a viagem. Partirei ao princípio da tarde para que possas enterrar-me amanhã. Põe ao pescoço os meus amuletos e não os tires por mais de trinta e cinco horas seguidas se queres morrer de velha. Deitei fora as minhas ervas, poções e mezinhas, que não têm préstimo para ninguém. Parto deste mundo como cheguei, sem nada.” (*)
“Ela”, a metáfora da morte, que afinal se tinha sentado no meu sofá, levanta-se e sai.
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Cria-se um espaço ou este surge
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Fico só. Abro a janela e deixo entrar por agora, o ar da noite.
Dentro do meu peito nasce um olá…
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[YouTube:mHGbA7I5HZY]
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Não sei quantas mortes há numa vida, mas sei que a morte tem várias faces e surge quantas vezes precisamos de nascer. Até ao fim.
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Obrigada
(2) – Excerto do livro “Os três casamentos de Camilla S.” – Rosa Lobato Faria