SOL

Jovens mas pouco

A RTP1 estreou esta semana um novo programa de debate político: Corredor do Poder. A jornalista Sandra Sousa é a moderadora e o painel de comentadores composto por Marcos Perestrello, socialista; Marco António Costa, social-democrata; Margarida Botelho, comunista; Ana Drago, bloquista; e Nuno Melo, deputado pelo CDS. Todos são relativamente jovens e dizem estar no programa a título individual e não como representantes dos seus partidos. Esperava-se, por isso, um debate diferente, menos cinzento, menos institucional e menos repetitivo do que as sessões parlamentares. Nada disso. Apesar de relativamente novos, os cinco ilustres políticos não conseguem desligar-se do discurso formatado de cada partido. Nesse sentido, no Corredor houve mais do mesmo.

O cenário – os cinco dispostos quase em fila – e a jornalista em frente de todos, não favorece o diálogo. Um grupo de cinco amigos quando vai almoçar para conviver certamente não reserva o balcão do restaurante, mas sim uma mesa redonda. Nos raros momentos em que houve troca de ideias, os convidados tiveram que rodar corpo e cabeça adoptando uma postura pouco cómoda e pouco telegénica.

Sandra Sousa esteve bem. Incisiva, preparada, discreta e procurando sempre centrar a discussão nos temas essenciais.

Outro ponto positivo é o facto de o formato ser flexível e prever a presença de convidados que ajudem a debater determinado assunto sempre que isso se justifique. Bom seria também – algo que não aconteceu no programa de estreia dedicado à Educação – que no arranque de cada emissão houvesse uma peça jornalística que enquadrasse o tema e dotasse os telespectadores de chaves de leitura.

É a Hungria, estúpida

Na versão norte-americana do concurso Sabe Mais do que um Miúdo de 10 Anos, aconteceu um hilariante momento de televisão. Hilariante e ao mesmo tempo preocupante, pois mostra uma das facetas mais negras dos EUA: o umbiguismo e a falta de noção do resto do mundo. A pergunta nem era extremamente difícil: ‘De que país europeu Budapeste é a capital?’. A concorrente, uma ex-participante do American Idol (Ídolos, na SIC), ficou estupefacta com semelhante questão e exclamou: «Eu pensava que a Europa era um país...». O descalabro continuou. Deduziu que em princípio se falava francês em Budapeste, mas tinha dúvidas de que França fosse um país... Decidiu – pelo menos um laivo de esperteza – copiar a resposta. Teve sorte que o miúdo sabia, mas confessou que nunca tinha ouvido falar de um país chamado Hungary, apenas de Turkey (Turquia) – hungry em inglês significa fome e turkey significa peru. É possível ver o vídeo em: www.youtube.com/watch?v=juOQhTuzDQ0

Na mesma linha também merece ser visto um outro vídeo: Are Americans Stupid? (www.youtube.com/watch?v=S3X1K93ff5I). Segundo se percebe, um repórter de um site humorístico (entretanto desactivado) da ABC vai para a rua fazer algumas perguntas de cultura geral aos seus fellow americans. Ninguém consegue dizer um país começado por ‘U’, apesar de viverem nos United States of America. Há quem arrisque Yugoslavia e até Utah. Outras pérolas: ‘israelismo’ é a religião dos israelitas; Fidel Castro é um cantor; Tony Blair é um skater; Kofi Annan talvez seja uma bebida com café (coffee); Alemanha é um dos países do Eixo do Mal; uma mesquita (mosque) é um animal; já houve três guerras mundiais e Hiroshima e Nagasaki são dois lutadores de sumo... Talvez nestas respostas resida o segredo da reeleição de Bush.

Na net algo de novo

Tomás, natural de Lagos e estudante de Psicologia, mete um anúncio na net à procura de companheiros para partilhar casa no Bairro Alto, em Lisboa. Matilde, do Porto, e Patrícia, de Viseu, também estudantes universitárias (Comunicação Social e Moda), respondem. Os três vão morar juntos numa casa com dois quartos. T2 Para 3 é o nome da primeira série portuguesa produzida exclusivamente para a internet. A produtora é a beActive (a mesma de Diário de Sofia) e os episódios, com uma duração de entre dois e quatro minutos, são distribuídos pelo Sapo (http://t2para3.sapo.pt/). Dos 13 capítulos lançados até agora, o mais visto foi o quarto, com mais de 28 mil visitas.

Com as limitações óbvias em termos narrativos impostas pela curta duração dos episódios, T2 Para 3 não deixa de ser uma proposta interessante em termos de ficção. As personagens estão bem construídas e os mini-argumentos de cada episódio retratam de forma eficaz o dia-a--dia de um grupo de estudantes universitários que partilham casa: estudo, exames, festas, copos, namorados, renda para pagar, pais. As prestações dos actores que interpretam as três personagens principais – Rita Lacerda, Maria Botelho Moniz e Tomás do Vale Quaresma – merecem também nota positiva pela naturalidade.

Outro aspecto interessante é o site que serve de apoio à série. Nele é possível encontrar blogues das personagens que complementam o que se passa em cada episódio e alguns extras para os espectadores mais interessados.

PS – A partir de segunda-feira, a manhã informativa da SIC Notícias é emitida em simultâneo na SIC, acabando o SIC Kids. Parece uma decisão sem nexo. Até agora RTP1 e TVI davam informação matinal e a SIC atacava outro público. Agora são três cães a um osso.

Boa dose se sangue

Robin Hood roubava aos ricos para dar aos pobres. Dexter Morgan mata os assassinos para deixar o mundo um sítio mais puro. É um agente da Polícia de Miami que nas horas mortas se transforma num serial killer com um forte código moral e ético. Este é o ponto de partida de Dexter, a série que se estreou na RTP2 na última quarta-feira. Interpretado por Michael C. Hall (o David Fisher de Sete Palmos de Terra), Dexter é um homem desprovido de qualquer tipo de sentimento, incapaz de amar. Desde criança que sente o impulso de matar e aprendeu com o pai adoptivo a canalizar esse impulso sanguinário para castigar aqueles que «merecem».

Dexter não pretende ser maniqueísta, muito pelo contrário. Pretende desafiar e questionar os códigos morais. Devem os assassinos ser ou não castigados por um serial killer que procura fazer justiça e que ainda por cima tem um ar de tipo porreiro? Foi ou não um acto de amor a forma como o pai de Dexter lhe mostrou que ele poderia fazer o ‘bem’ através da morte?

No primeiro episódio, através de vários flashbacks para a infância e adolescência de Dexter, ficamos a saber que pode ser que algo lhe tenha acontecido, ainda muito novo, que o tornou um predador humano. Até nesse aspecto Dexter não é moralista, ou pelo menos pretende deixar no espectador a célebre questão existencialista e muitas vezes política: nasce-se criminoso – é impossível deixar de o pensar quando percebemos que Dexter, enquanto criança, matava cães pelo simples prazer de matar – ou é a sociedade que cria os criminosos?

Feitas as contas, Dexter tem tudo para se tornar uma série de culto em Portugal como já o é nos EUA. Arrepia e tem as doses certas de sangue, mistério e dramas humanos, misturadas com uma excelente realização e boas prestações dos actores.

Diz que não é uma espécie de notícia

Ricardo Araújo Pereira gravou para as Produções Fictícias (http://pftv.sapo.pt/) um sketch brilhante, em que faz humor com o insólito telefonema divulgado na semana passada entre o INEM e os bombeiros. A SIC decidiu aproveitá-lo e emitiu-o na quarta-feira durante o Jornal da Noite. Por muito genial que seja o trabalho do humorista não faz sentido que figure no alinhamento de um noticiário. Ainda que muito distante e a um nível completamente diferente, a opção fez lembrar os tempos em que os concorrentes do Big Brother e os seus familiares eram entrevistados no Jornal Nacional da TVI. Informação é uma coisa. Entretenimento é outra. Não é bom misturar as águas. Um sketch de um humorista não é notícia, nem sequer uma espécie de notícia, por muito que se queira fazer o jeito.

Terminados o Jornal Nacional e o Jornal da Noite, TVI e SIC deixam-nos escolher entre o humor sem graça e as graças sem piada, entre as graçolas parvas e as piadolas estúpidas, entre a imbecilidade e a palermice imbecil. Os Batanetes e Os Malucos do Riso, infelizmente, equivalem-se na mediocridade. Custa dizer, mas era preferível mais uma horita de novelas.

A meia-final da Taça da Liga entre o Vitória de Setúbal e o Beira-Mar, visto ao vivo por 1500 almas, teve honras de transmissão em directo na RTP1. Por vezes o futebol é serviço público, neste caso não é. Até pode servir para dar audiências – foi visto por cerca de 800 mil espectadores, o que não é bom nem mau – mas não deve ocupar o horário nobre do canal do Estado. Era preferível fazer um magazine desportivo semanal.

O ?seu? Malato

Há tempos recebi uma carta da D. Idalina, de 91 anos, residente no Porto. «Sou fã incondicional do Malato sobre quem um dia o senhor escreveu no jornal SOL. Disse que era um apresentador de qualidade, sabedor, seguro… Deixou de aparecer na televisão. Estou triste e sinto saudades da sua presença, da sua simpatia, das suas gargalhadas. Desejo que esta ausência não seja sinónimo de falta de saúde e que tenha passado a trabalhar noutra estação. Onde o poderei ouvir?» escrevia.

Malato regressou ontem aos ecrãs da RTP1 com o seu talk show: Sexta à Noite. A D. Idalina pode, de novo, todas as semanas, encontrar-se com o ‘seu’ Malato. Matar saudades. Partilhar o serão. Rir com os seus disparates. Passar o tempo depois de tanto tempo que já viveu. A carta que enviou, escrita numa caligrafia de antigamente, minuciosamente desenhada, mostra a importância que as figuras públicas, nomeadamente os apresentadores de televisão têm na vida de muita gente. Fazem parte da família. Entram pelas casas adentro. Sentam-se no sofá. Petiscam do jantar.

Isso também é serviço público. O serviço público não passa apenas por elevados programas culturais, fastidiosos documentários históricos ou acutilantes – se ao menos o fossem na maioria das vezes – entrevistas e debates políticos. Desde que exista bom senso e bom gosto, o serviço público pode fazer-se numa gargalhada durante um concurso. Pode concretizar-se num piscar de olhos durante um talk show.

O comunicador José Carlos Malato – e outros, os bons – são parte integrante desse abstracto conceito: serviço público.

E se um estranho...

O ponto de partida é original: todas as pessoas do planeta estão ligadas entre si por uma cadeia de seis graus, o que significa que podemos estar prestes a tropeçar em alguém que sempre nos foi estranho mas de quem sempre fomos próximos. Podia ser um livro de Paul Auster, mas trata-se de uma série de televisão. Six Degrees, produzida por J.J. Abrams (Lost), estreou-se segunda-feira na RTP2. A partir desta ideia vamos assistindo ao desenrolar de vários plots e subplots e percebendo de que forma as personagens estão ligadas entre si.

O enredo principal, a avaliar pelo primeiros episódios, gira em torno de Carlos (Jay Hernandez), um advogado em início de carreira. Mas dificilmente se pode falar em personagens secundárias. Todas as histórias têm praticamente o mesmo nível de importância. E se esse pode ser um trunfo de Six Degrees – tornando a narrativa apelativa através de vários subenredos –, também se pode transformar no seu calcanhar de Aquiles – não explorando devidamente nenhuma dessas histórias.

Infelizmente, no final do primeiro episódio já é óbvia e transparente a forma como as personagens estão interligadas – a tal cadeia de seis graus. Seria muito mais interessante que esse vector fosse sendo revelado aos poucos e obrigando o espectador a fazer conjecturas, um pouco como acontece com Babel – filme de Alejandro González Iñárritu, com Brad Pitt e Cate Blanchet.

Em termos de realização e de estética nada de novo, o que não quer dizer que não estejamos perante um trabalho competente. As primeiras impressões dos actores são positivas. Para já, neste particular, o destaque vai para Erika Christensen, que interpreta Mae.

Desejos para 2008

Que a SIC encontre o seu espaço e volte a ser uma estação capaz de marcar a diferença. Nuno Santos saberá – assim se espera – exterminar as ‘florititas’ e as ‘chiquibelas’ e criar uma grelha de programas à prova de disparates ‘penim-escos’.

Que os noticiários da noite se tornem mais curtos e que se acabem com as reportagens de 15 minutos sobre os cinco dias seguintes do prédio em Setúbal onde houve uma explosão sem vítimas. É preciso expurgar a informação das 20h00 deste tipo de peças em que se entrevista metade de uma aldeia para saber a opinião dos habitantes sobre o aumento do pão. Os ‘telejornais’ – perdoem-me a SIC e a TVI por esta designação mas aquele utensílio para fazer a barba também se chamará sempre gillette – devem ser espaços nobres de informação, enquadramento, análise e entrevista e não tablóides com imagem e directos injustificados.

Que as privadas deixem de emitir telenovelas entre as 21h30 e a meia-noite, deixando algum espaço em horário nobre para cinema de qualidade e outras propostas.

Que a RTP1 mantenha o rumo traçado e, limando algumas arestas, continue a fazer serviço público.

Que se aumente o espaço das ‘televendas’ durante a madrugada. Os mikes e os melgas desta vida são preferíveis a palhaçadas como Quando o Telefone Toca ou Toca a Ganhar. Ou então que regresse a saudosa mira técnica.

Que a TVI reformule o espaço dominical dedicado ao futebol nacional. Aquele programa tripartido – a jornada, os casos e o fórum – que começa, acaba, volta a começar e acaba outra vez e ainda começa e acaba de novo – não lembra a ninguém.

A televisão em 2007

OS MELHORES

A figura 

Nuno Santos O ainda director de programas da RTP e futuro director de programas da SIC é claramente a figura do ano televisivo. Conseguiu devolver o segundo lugar nas audiências ao canal do Estado – algo que lhe escapava há sete anos – e regressa a Carnaxide pela porta grande e na pele de D. Sebastião.

Almerindo Marques Terminou o mandato na RTP depois de reestruturar toda a empresa. Saiu por cima.

Luís Marinho Foi promovido para a administração depois de o Telejornal liderar durante todo o ano.

José Eduardo Moniz  Mais uma vez a TVI foi imbatível no campeonato das audiências.

Fátima Lopes É talvez o principal rosto da SIC neste momento e foi senhora das manhãs durante o ano.

OS PIORES

Francisco Penim Substituiu Manuel Fonseca em 2005 e disse que seria líder em 2007. Faltou ao prometido, conseguiu perder o segundo lugar para a RTP1 e foi substituído por Nuno Santos. Cometeu demasiados erros e deixou fugir os Gato Fedorento, o maior fenómeno televisivo dos últimos tempos. Com mais meios, teve resultados muito piores do que o seu antecessor.

Teresa Guilherme A ficção por si produzida continua a não convencer. Nem arranhou a TVI.

Herman José  O Hora H, apesar de  alguns excelentes momentos de humor, fracassou. O horário não ajudou.

Emídio Rangel Mudanças na SIC e na RTP e Rangel continua fora do mercado. O seu tempo já passou?

Augusto Santos Silva Convidou Almerindo para continuar mas foi ultrapassado pelo colega Mário Lino.

OS MELHORES

O PROGRAMA

Conta-me Como Foi (RTP1) Falando de televisão, é de longe a melhor proposta de ficção portuguesa nos últimos tempos e muito provavelmente uma das melhores de sempre. Consegue funcionar como um grande programa de entretenimento ao mesmo tempo que tem uma faceta formativa extraordinária.~

A Guerra Colonial (RTP1) Fantástico o trabalho de Joaquim Furtado. Um documento histórico valioso.

Prós e Contras (RTP1)  Reconfirmou-se como o verdadeiro espaço de debate da televisão portuguesa.

Diz que é uma Espécie de Magazine (RTP1) Um fenómeno quase sociológico. Um dos marcos de 2007.

Ilha dos Amores (TVI) Muito bem produzida, liderou as audiências e foi a menina dos olhos de Queluz.

OS PIORES

Chiquititas (SIC) Depois de Floribella, a dupla Francisco Penim e Teresa Guilherme voltou a tentar infantilizar o horário-nobre da SIC com mais uma proposta cheia de cores berrantes e gritos estridentes. Novo fracasso. Apostas deste género são trunfos para a TVI e doces na mesa de José Eduardo Moniz.

Floribella (SIC) Luciana Abreu perdeu a magia. A coisa deixou de ser fenómeno e hoje é apenas patética.

Toca a Ganhar (TVI) e Quando o Telefone Toca (SIC) As duas maiores aberrações da televisão portuguesa. Feliz quem nunca viu estes dois concursos que as privadas emitem de madrugada. Algo mais estúpido é verdadeiramente impossível.

A Ganhar é que a Gente se Entende (SIC)  Fernando Rocha no seu pior. Mandem-no para o faroeste.

Caro Nuno Santos

Dizem que não se deve voltar a uma casa onde já se foi feliz – frase que considero um perfeito disparate. Estúpido seria voltar a uma casa onde se foi infeliz. Adiante... Caro Nuno, regressas a Carnaxide para limpar a casa, corrigir os disparates que por lá se fizeram nos últimos tempos e devolver identidade a um canal que a perdeu.

Não sei qual é o teu projecto e tu saberás melhor do que ninguém os ingredientes certos para cozinhar uma grelha de programas competitiva sem ser popularucha e livre de todas as ‘florititas’ e ‘chiquibelas’ deste mundo.

A tarefa que tens pela frente não é fácil. Se apostas em telenovelas portuguesas dificilmente ganharás à TVI. O mesmo se passa com os reality shows. Também não podes apostar demasiado em informação porque entras no espaço da SIC Notícias. E para fazer serviço público existe a RTP1 que tem os trunfos que tu próprio lhe deste. O que fazer? Aqui ficam algumas sugestões que permitiriam à SIC diferenciar-se e criar um espaço próprio:

Reforçar a aposta na ficção brasileira e parar de adaptar maus produtos de outros países sul--americanos

Posicionar a SIC como a estação com as melhores séries e o melhor cinema

Deixar de lado a aposta nas telenovelas portuguesas e ressuscitar os telefilmes

Recuperar Herman José e potenciar Fátima Lopes, os dois mais carismáticos comunicadores da estação

Roubar o futebol à TVI, algo que Francisco Penim prometeu, tentou e não conseguiu

Nuno contra Nuno

Regressando à SIC, Nuno Santos irá travar uma dura batalha contra si próprio. Neste momento, olhando para as audiências, o principal adversário do canal de Carnaxide é a RTP1. O novo director de programas do canal de Balsemão terá de apanhar os cacos deixados por Penim e vencer a batalha contra a estação que ajudou a recuperar nos últimos cinco anos. Hoje, a RTP1 é um canal sólido, que fez as pazes com os espectadores, cresceu em audiências e oferece programação de qualidade ao mesmo tempo que consegue fazer serviço público. O espaço de crescimento da SIC está limitado pela consistência do canal público. Culpa de quem? Em grande parte de Nuno Santos.

O sucesso de uma televisão depende em grande parte das suas caras. A SIC, neste momento, é quase um deserto em termos de comunicadores carismáticos. As mais honrosas excepções talvez sejam Fátima Lopes e Herman José. Hoje, alguns dos melhores apresentadores do país e dos que maior empatia conseguem criar com o público estão na RTP1. Jorge Gabriel, José Carlos Malato, Catarina Furtado, Sílvia Alberto e Fernando Mendes, são apenas alguns exemplos. A estes somam-se quatro verdadeiros trunfos: Ricardo, Zé, Miguel e Tiago: os Gato Fedorento. Quem é o principal responsável pelo vazio de caras da SIC e pela acumulação de grandes nomes na RTP1? Nuno Santos.

O primeiro grande desafio de Nuno será ser melhor do que ele próprio e depois conseguir devolver uma identidade à SIC, que neste momento é uma estação incaracterística. Não será fácil, mas Balsemão fez a escolha certa. Pelo que já mostrou, se alguém pode recolocar Carnaxide na liderança, esse alguém é Nuno Santos. Regressa à casa onde habitou no passado para preparar o futuro.

Acne and the city

Gossio Girl, série que se estreou no AXN na segunda-feira, conta já com dois meses de emissão nos Estados Unidos e é um dos fenómenos televisivos da nova temporada. A coisa não é mal feita, mas é mais do mesmo. Nada traz de novo relativamente às incontáveis séries sobre e destinadas ao mundo adolescente que já foram feitas, transmitidas e repetidas.

É uma espécie de sex-and-the-city-for-teenagers. Retrata o mesmo mundo fútil da alta sociedade nova-iorquina e as rocambolescas cambalhotas amorosas das personagens. A única diferença é que estas têm acne debaixo da maquilhagem e muitas ainda são virgens. Ao enredo não falta, como não podia deixar de ser numa típica produção norte-americana, a família de classe média, que vive em Brooklyn e que choca com a burguesia nobre de Manhattan. Nesse particular o cliché de sempre: os poderosos têm poucos valores e os remediados um coração de ouro. É nesse contexto que surge um dos plots principais. Serena van der Woodsen, a protagonista – que dormiu com o namorado da melhor amiga, passou um ano fora da cidade a estudar num colégio interno e voltou uma pessoa melhor – envolve-se com Dan Humphrey, o adolescente de Brooklyn, que não pertence ao mundo da alta sociedade, que não é fútil e que destila qualidades morais e humanas.

Como é hábito neste tipo de séries, todos os actores parecem saídos de uma produção de moda ou de um concurso de beleza, o que não significa que não haja boas prestações. Feitas as contas, Gossip Girl, produzida por Josh Schwartz (The O.C.), é um bom produto de entretenimento e, apesar de cliché no argumento, não deixa de ter qualidade em termos técnicos. De zero a dez? Talvez um cinco.

A janela da cozinha

No passado domingo, durante o Telejornal, José Rodrigues dos Santos passou a emissão para o Hospital Garcia de Orta, em Almada. A jornalista que lá se encontrava tinha a missão de perceber se o frio, que finalmente chegara interrompendo o cálido Outono, contribuira para uma corrida às urgências de pacientes vítimas de gripes e constipações. Em directo, a repórter lá explicou que não. Que nada havia de anormal. Então para quê a peça? Aqui está o paradigma da não-notícia. E mesmo que tivesse havido uma corrida às urgências justificava-se um directo da porta do hospital? Talvez. É que dá muito mais trabalho fazer peças que impliquem reportagem, edição, montagem e sonorização.

Quinta-feira, ao final da tarde, um prédio em Setúbal estremeceu com uma explosão provocada por problemas relacionados com a instalação do gás. Na sexta-feira de manhã, em directo para o Bom Dia, Portugal, uma repórter da RTP1 estava no local para fazer o ponto da situação. Depois de relatar os acontecimentos, decidiu entrevistar dois moradores do referido prédio. Eles lá explicaram que habitavam no nono andar, «na janela com as cortinas amarelas». A câmara fez zoom e a jornalista perguntou que parte da casa era aquela. «É o salão», respondeu o homem do casal. Não fosse esta uma informação totalmente desnecessária, a repórter perguntou ainda: «E a janela ao lado?». «É a cozinha». Depois deste momento de verdadeira informação o país ficou muito mais esclarecido. Confesso, contudo, que fiquei curioso para saber se a casa-de-banho era interior e se o quarto de dormir dava para aquele ou para o outro lado da casa.

Joan e Deus

Uma família. O pai é chefe de polícia. A mãe é funcionária na escola onde estudam dois dos seus filhos. O mais novo é um nerd apaixonado por química, o mais velho ficou tetraplégico num acidente e Joan, a do meio, fala com Deus. Este é o ponto de partida de A Missão de Joana – infeliz tradução para português de Joan of Arcadia, que faz perder a subtil ligação inspiracional com Joana D’Arc – série que se estreia hoje na RTP1 às 15h30.

Deus aparece a uma adolescente e utiliza-a como seu instrumento. Um plot suficientemente fantástico para afastar muitos espectadores. No entanto, mesmo para alguém religiosamente ateu – como gosto de me definir –, Joan of Arcadia é uma agradável surpresa. Não é um fórmula 1, mas é um utilitário competente e confortável que proporciona bons momentos na cidade – leia-se no sofá.

O risco de excessiva religiosidade não se confirma. Joan of Arcadia é uma série com humor e que, mesmo sendo moralista, não tresanda a valores impregnados de preconceitos. Deus, apesar de aparecer como omnisciente e criador do Universo, pode apenas ser visto como uma alegoria da consciência moral – que não depende de Deus – ou da célebre «mão invisível», de Adam Smith, ‘entidades’ que nada têm de sobrenatural.

A missão de Joana merece um seis numa escala de zero a dez e Amber Tamblyn, no papel de Joan, é bastante convincente. Aos ateus com menos jogo de cintura que considerem a série um desperdício de tempo, aconselho, como alternativa à TV, o extraordinário livro A Desilusão de Deus do biólogo Richard Dawkins. Uma obra que ataca a religião de forma tão feroz que torna o seu autor no cliente mais desejado desse Inferno que não existe.

O valor de Maddie

Na sexta-feira, dia 2 de Novembro, a reportagem que a RTP1 emitiu sobre o caso Madeleine McCann, seis meses depois do desaparecimento da criança inglesa, foi o terceiro programa mais visto do dia – atrás de Ilha dos Amores e do Telejornal. Conseguiu um share 34,9% e uma audiência superior a 1 250 000 espectadores e foi o programa mais visto do dia entre os indivíduos da classe A e B.

Nada a apontar ao trabalho de Sandra Felgueiras, que aliás tem sido excelente ao longo dos últimos seis meses na cobertura do caso. Mais uma vez mostrou-se moderada, tranquila e objectiva. A questão é outra. Faz sentido um especial de informação sobre Maddie no canal de serviço público quando nada mais há a acrescentar ao caso? Sinceramente acredito que não. Afinal – por muito chocante que isto possa parecer – Maddie é ‘apenas’ mais uma criança que desapareceu. Mas as audiências parecem desmentir esta tese. As audiências e não só. Gordon Brown, actual primeiro-ministro britânico, chegou a reunir com José Sócrates – e isso está patente na reportagem da RTP1 – para falar sobre a filha de Kate e Gerry.

O que é importante neste caso – esse teria sido um trabalho mais interessante – não é a história em si, mas tudo o que girou e ainda gira à sua volta. O que gerou este fenómeno? A Polícia Judiciária falhou? Temos ou não cães treinados para ajudar neste tipo de crimes? Que diferenças de método existem entre os investigadores portugueses e ingleses? O segredo de justiça é de facto uma arma para a investigação ou é prejudicial porque aumenta a contra-informação? De outra forma Maddie não me parece assim tão importante. Sandra Felgueiras esteve bem, mas talvez lhe tenham pedido o trabalho errado.

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