Não me reconheço.
O vazio habita o espaço
onde outrora soube quem era.
O acordar é varanda desflorida
de onde contemplo o rio lamacento
realidade em que o sonho se desfaz
e deixa de me pertencer.
Ignoro se o que sinto faz parte de mim
ou já se afogou nas vagas alteradas
do passar do tempo.
Afago o nada no seio estéril de amores
O meu pranto deixou de ter voz
Cinza perdida na poeira do vento.
Procuro-me no denso labirinto do meu viver.

Não lhe bastava existir naquele espaço. Estava despido de tudo o que ela era, de tudo o que trazia dentro de si. Para mais era redutivo e sem flexuosidade. Nunca gostara de linhas rectilíneas e muito menos paralelas. Porquê? Tinha de haver uma razão para tudo? Bem… vejamos… além de sempre ter detestado geometria, não gostava de linhas que nunca convergiam, nunca se tocavam. E que tinha esse facto a ver com espaços? Tudo e nada. Uma vez que podiam ser delimitados ou indefinidos. Claro que há muito se apercebera da realidade transitória dos espaços. Como também de muitas outras realidades. Não que tivesse aprendido isso nos axiomas ou teoremas matemáticos. Mas tal não servia para a confortar e fazer esquecer a sua desconexão com o lugar onde fisicamente se movimentava. Era importante que se entendesse que era apenas a parte física que ali cabia. Como assim? Um corpo sem espírito, simplesmente deixa de ser. Não faz sentido. Como não fazia sentido a sua existência naquele espaço que não lhe pertencia. Seria possível pertencer-se a um espaço? Caramba! Que se lixassem os filósofos e todos os que sabiam sempre as respostas para todas as questões. Que deixassem de a importunar as vozes persuasivas dos que não acreditavam na influência dos espaços. E que não entendiam a falta que lhe fazia sentir-se ligada a um lugar. Sabia por demais que era possível pertencer-se a um espaço e que lugares exerciam um determinado poder sobre ela. Eles que ficassem com as suas convicções. Não lhes pedia para a compreenderem. Sabia ser impossível. Ela não abdicava da sua maneira de sentir do mesmo modo que eles não largavam as suas obstinadas teorias. Era o sentir que a levava a achar-se desligada daquele espaço onde o corpo arranjava maneira de se acomodar. O corpo mas não o espírito. Havia aqueles que, numa empatia falsa, aliciavam-na a ver o espaço por aquilo que valia, destituído de atributos. Convidavam-na mesmo a embarcar num exercício mental para provar que em qualquer espaço poderia ser feliz. Porque a felicidade não depende do lugar. Porque a felicidade se constrói num outro espaço que podemos moldar e dominar. Chamavam-lhe espaço interior. E esse sabia ela que estava tão cheio, tão rico, a transbordar. Mesmo assim continuava a faltar-lhe algo para se sentir completa. A verdade era irrefutável e tão simples afinal. Não pertencia ali nem aquele espaço pertencia a ela.
Ouvia-os já com o pensamento longe. Não estava interessada em lhes dar crédito. Talvez tivesse medo de admitir que falhara na conquista da felicidade. Não. Decidira que não era por isso. Até porque espaço e felicidade são noções ocas. Apenas ganham forma e significado através da consciência de cada indivíduo. Estão sujeitas à interpretação pessoal. Pronto. Também ela era capaz de chegar a conclusões filosóficas.
Contudo, para que valiam se não resolviam a insuficiência daquele espaço? A sua exiguidade era gritante e incomodativa. O que ela queria era existir noutros espaços. De corpo e espírito. Porque o espírito já havia voado para outros lugares ou tinha ficado pelos meandros de espaços que outrora habitara e onde fora feliz. Porque lá tudo convergia e ela pertencia. Queria existir na memória desses lugares e no pensamento dos que tinham ficado na distância. Sabia que era assim. Para já, isso a confortava e bastava.
A minha mãe, mulher
de quase noventa anos, com uma memória prodigiosa e uma desmesurada afeição por
knicknacks, presenteou-me, há dias, com um papelinho amarelecido onde
reconheci, de imediato, uma mensagem, escrita num francês erróneo e datada de
1966. A autora da mesma é a Ana, aquela menina que conheci na Escola Primária,
agora um edifício abandonado e coberto de ervas daninhas, onde há muito
deixaram de se ouvir os gritos estridentes e eufóricos da pequenada, em
correrias loucas, no tempo de recreio, e onde hoje habitam o silêncio e a
desolação.
A Ana continua a ter a personalidade forte e o carácter
intrépido de outrora, opiniosa, sem papas na língua. E foi assim que a
recordei, ao reler, num misto de surpresa e nostalgia, a missiva natalícia que
ela me ofertara quando celebrei 14 anos.
Beaucoup
d’amours foi um dos seus votos. Fico sem perceber se
foi mesmo isso o que ela me desejou ou se a palavra amour, no plural,
teria a ver com a pobreza do seu conhecimento da gramática francesa. Decerto, na
altura, não me detivera a analisar ou a fazer especulações, do mesmo modo que
não questionava o amor porque simplesmente acreditava e isso bastava para me
fazer feliz.
E nesse tempo, em
que exibíamos cabelos artisticamente ripados e uma maquilhagem que nos fazia
parecer mais velhas, conservávamos uma assombrosa inocência, idolatrando heróis
de ficção, como esse que ela desenhou para mim, ilustrando aquela dedicatória,
nesse rectângulo de papel, religiosamente conservado, sem mancha ou dobra.
Aqueles que viveram a sua juventude na década de sessenta decerto se lembrarão
do sabor de ingenuidade e entusiasmo dos seus primeiros anos, que viria a
transformar-se, mais tarde, numa
revolução sexual, sociológica e ideológica. Até o doce lirismo das melodias dos
Beatles acabaria por dar lugar a letras surreais, de uma extravagância
psicodélica.
Todavia eu, nunca
tendo sido fã desse grupo que, de forma invulgar marcou uma geração e ainda
hoje continua a causar furor, nem tão pouco uma entusiasta por expressões de protesto
ou lutas de massas, teria sem dúvida apreciado a figura, desenhada na
perfeição, pela Ana. Eu vivia num mundo de fantasia, protegida da frieza da
realidade, no aconchego do casulo da minha fértil imaginação. Acreditava na
existência real de homens como Simon Templer que, para além de serem
extremamente formosos, carismáticos e sedutores, exalavam magnitude e rectidão,
combatendo injustiças e defendendo os fracos. Quem não se lembra e não se
deixou cativar por esse personagem, mais conhecido pelo nome de O Santo,
com características da arquetípica figura do folclore inglês, Robin Hood? Qem
não se deixou hipnotizar por aquele sorriso magnético e olhar penetrante ainda
que altivo? É claro que me refiro às mulheres do meu tempo. Mulheres que, tal
como as personagens femininas da série televisiva, ficavam irremediavelmente
fascinadas pelo homem que personificava um ideal. Tanto nelas como em mim havia
a recusa de ver o substrato daquela figura, numa ignorância consentida das suas
imperfeições, nem mesmo nos detendo nas sua misteriosa e incerta origem.
E essa forma de
estar e de ver é perpetuada, fruto da carência em acreditar em heróis sem
mácula, exemplo de um ideal que continuamente buscamos.
Pois é! Nem mais. A vida não é senão aquilo que
vamos construindo para nós próprios, a partir das escolhas que fazemos ou não
fazemos. Tudo é afinal o produto dessa escolhas, dessas decisões que tomamos e
com as quais temos de viver, quer queiramos, quer não. A vida não é fácil nem
difícil; não é boa ou má; não é simples ou complicada. Não senhor. A vida não é
nada porque não tem uma existência, independente de nós. Somos nós que lhe
damos forma e conteúdo; somos nós que a criamos e a modificamos à medida das
escolhas que fazemos. Escolhas que não são necessariamente boas ou más porque,
na altura em que as reivindicamos, elas são apenas o que achamos ser a resposta
adequada à nossa busca, o preenchimento certo dos nossos desejos, o culminar
dos nossos sonhos ou simplesmente aquilo que nos parece mais eficaz, num dado
momento.
Também, muitas vezes, são escolhas que nos sentimos forçados a seguir pelo
sentido de moralidade, respeito pelos outros, altruísmo ou ainda por um
sentimento de culpa e de responsabilidade que nos leva ao esquecimento das
nossas volições e necessidades. Essas são as escolhas mais complicadas e
difíceis de assumir porque não são de livre arbítrio ou assim julgamos. Como é
possível uma escolha não ser de livre arbítrio? Se assim não fosse, deixaria de
se chamar escolha e passaria a ser coacção. Somos nós que temos sempre o poder
e o controlo nas nossas mãos, a não ser que as nossas liberdades sejam
restringidas e as nossas vontades aniquiladas por forças externas e
incontroláveis. Só assim ficaremos reduzidos a uma nulidade de iniciativa, à
mercê de uma prepotência que nos tolhe a capacidade de decisão e nos tira a
liberdade.
Mesmo assim, podemos escolher os pensamentos que melhor nos ajudarão a
enfrentar tais ocorrências e, em certos casos, podemos ainda usar a expressão
escrita para dar voz às escolhas que faríamos se pudéssemos tomar as rédeas do
nosso trajecto.
Ainda mais importante são aquelas escolhas que fazemos quando somos
confrontados com situações que abalam as nossas estruturas e nos mostram a
fragilidade e mortalidade de que somos revestidos. Nessas alturas há que
escolher, bem dentro de nós, a atitude mais positiva e que melhor servirá para
encararmos o que quer que seja, sem nos sentirmos totalmente dominados e
vitimizados, reduzidos à impotência e ao fatalismo.
Enquanto tivermos uma mente capaz de discernir e um espírito a animar-nos, as
escolhas são nossas e a maneira como a nossa vida é vivida depende inteiramente
de nós!
De nada nos servirá perguntar: Porquê eu? Porque é que isto me está a acontecer
a mim?
Temos a tendência para esquecer que tudo está interligado e uma acção provoca
sempre uma reacção ou reacções ainda que, muitas das vezes, não as
compreendamos ou tenhamos relutância em as aceitar. Nada surge do nada. Tudo é
o resultado de algo que activamos, num determinado momento das nossas vidas,
segundo as escolhas que fizemos.
Viajo fora e dentro de mim
Nada é como já fora
Pura ilusão!
Busco o instante no lapso
Daquele tempo de então
Trilho passo a passo o conhecido
Sinto mas já não vivo
Ou talvez o viver esteja no que sinto
Na memória do antes vivido
Pois bem real é o meu sentir
Contudo jamais será igual
Apenas se queda na projecção
Do meu faminto anseio de reviver
No qual cabe o outrora e o agora
E ainda o que fica por nascer
Adulterada se perde a emoção.

Procuro-me
Na encruzilhada que me habita
Desconheço-me
Na nulidade do tempo apagado
Persigo-me
No vácuo do amor desfeito.
A noite danosa abate meu querer
Arrefece meus sonhos parados
Deixa rasto de perfídia
No sufoco gélido da escuridão.
Viajo no sabor pútrido do medo
Paralisada de mim a vontade
Perdida no desfalecer dos sentidos
Fraquejo na luta por encontrar-me
Naquele amor que já não renasce
Há muito que foi sepultado.
Quero voltar a sentir o afago
De um corpo ainda que alheio
Mas desespero e não consigo
E a noite esvai-se levando meu desejo.
Se eu fosse quem não sou
Se eu sentisse com exaustão
Se eu conhecesse quem pareço
Se eu soubesse o que sinto
Se eu descobrisse quem sou!

Para além do nome que foi escolhido arbitrariamente e nada terá a ver com aquela que eu sou, embora se queira pensar que um nome revela a personalidade daquele que o usa ou, pelo menos, fornecerá indícios; para além dos genes hereditários que ditarão algumas das minhas características, mas que por si só não explicam a complexidade ou singularidade do meu ser; para além de um corpo que vai mudando de forma e aparência pela minha vontade ou mesmo sem ela; para além de uma mente industriosa que exerce controlo e determina as minhas acções; para além de um temperamento que fazendo parte intrínseca de mim é, por vezes, aleatório e me deixa perplexa; para além das emoções que me invadem e me fazem mudar, vezes sem conta, de rumo; para além da sexualidade que me reveste, do espírito que me anima e do intelecto que me enaltece…. Quem sou eu?
Quem é este eu que me habita, me dá a vitalidade ou me rouba de defesas, me faz brilhar ou me arrasta pelos obscuros meandros da realidade de que faço parte? Quem é este eu que numa simbiose de corpo, alma e mente, faz de mim uma entidade singular e diferente dos milhões de seres que habitam o Universo? Qual a sua essência? Essa essência que se manterá inalterável porventura, ainda que as vivências e experiências modifiquem aquela que eu sou e lhe confiram uma nova visão e filosofia, novos comportamentos e atitudes, novas maneiras de estar. É essa essência que foge aos olhares mais distraídos e as mentes mais supérfluas; essa essência que se perde no labirinto da idiossincrasia, nas complexidades e singularidades, nas tramas e mistérios, nos enigmas e contradições daquela que eu sou e me conferem uma identidade única. E é essa essência que se esconde por vezes de mim mesma, confundindo-me ou exasperando-me. É essa essência que me define e me dá a realidade que eu sou. Ela está na raiz do meu ser, ela é o hipocentro de quem sou, ela é o estrato onde se alicerça o meu EU!
Essa essência é quem eu sou e conhecê-la é um acto de descoberta contínua, de procura laboriosa, de tenacidade inabalável e de uma curiosidade imparável. Essa essência vai-se revelando nas mais díspares e impensáveis ocasiões quando eu sou confrontada com situações ou aqueles acidentes de percurso que me dão oportunidades para questionar o meu verdadeiro eu.
Ora a questão é que me debato, ainda sem compreender se a essência do meu Eu existe desde sempre, independente de mim ou se é construída ao longo deste percurso que é a minha Vida. É claro que estas duas teorias, já exploradas por pensadores e filósofos de renome, ainda vêm criar maior perplexidade numa matéria, já por si, indecifrável. Seja como for, para mim basta o conhecimento que vou recolhendo: esse conhecimento que me leva a saber, aos poucos, quem é este eu que me faz ser quem sou. Este eu que me levou a escrever esta reflexão e é a força motriz de tudo aquilo que penso, faço e digo. Este eu que determina o modo como actuo nas várias facetas que mostro ao mundo. Este eu que me leva a questionar o enigma da minha existência!

Ele acompanha-a nos momentos de solidão
e fá-la recordar aquela que ela fora nos braços dele. Fugaz e passageira foi a
sua presença num outro tempo e espaço mas deixou um rasto no corpo dela que
jamais vibraria com a mesma intensidade e calor; uma chama na alma dela que
cessou de a iluminar.
Ele reacendeu a juventude e a loucura no
seu espírito sedento de paixão. Foram escassos encontros que perduraram na sua
memória apesar do abandono, da ausência e da distância. E talvez mesmo por isso
a lembrança ficou. Lembrança dos odores, dos sentires, dos pequeninos grandes
nadas que pertencem aos amantes e que são indescritíveis. Lembrança das mãos
esguias dele a contornarem-lhe a face; a acariciarem-lhe os seios; a
pressionarem-lhe as nádegas; a descobrirem-lhe o corpo em abandono; a
revolverem-lhe os cabelos. Lembrança da voz dele sussurrada ou excitada.
Lembrança do corpo dele afundado no dela em espamos de delírio. Lembrança das
noites sem sono aninhada nele, inalando o seu perfume e sentindo a macieza doce
da sua pele. Lembrança do arrebatamento que ele provocava nela, quer estivesse
presente ou ausente. Lembrança da boca dele a deixá-la perdida na volúpia dos
seus beijos.
Hoje
ele personifica o que ela deseja que a Vida lhe devolva. E em cada encontro com
um outro homem ela está a analisar e a comparar a sua maneira de sentir. Sem
querer. Quase inconscientemente. Só mais tarde se dá conta. Quando dá pelo
vazio, pelo desânimo, pela nostalgia e tristeza.
Aquele
sentir de outrora nunca foi recuperado.
Existe no ser humano a tendência para
acreditar no pior e sempre que algo de bom acontece, imediatamente se questiona
a sua autenticidade e duração. É como se estivessemos programados para aceitar
tudo o que esteja relacionado com fatalidades,
desastres e qualquer ocorrência nefasta e duvidar da possibilidade de
uma existência livre de infortúnios e negativismo. Continuamente questionamos
se somos merecedores do bem, da felicidade ou do sucesso que nos bafeja e temos
dificuldade em considerar como verdadeiro aquilo que, no nosso entender, é
bom demais para ser verdade!
Onde se inicia esta assunção? Quando tomamos
para nós esta crença que nos monopoliza a consciência e nos condiciona ao ponto
de, muitas vezes, não conseguirmos apreciar devidamente os aspectos positivos
das nossas vidas?
As nossas mentes registam e absorvem dados provenientes de várias
fontes externas, mas aqueles que mais nos marcam e moldam a nossa maneira de
pensar são, sem sombra de dúvida, os que nos são transmitidos, directa ou
indirectamente, pelos reponsáveis pela nossa educação e formação nas várias
etapas do nosso crescimento, aprendizagem e desenvolvimento. É na interacção
com os que nos servem de modelo, nos anos da nossa infância e juventude, que as
nossas mentes se vão impregnando de conceitos que se consolidam mesmo que
careçamos a explicação ou compreensão de alguns deles. E, mais tarde,
apetrechados de mecanismos ganhos pelas vivências e experiências, os que
questionam certas asserções tidas como incontestáveis, enfrentam uma sociedade
saturada desses conceitos que foram passando de geração em geração. Tudo parece
conjurar-se para os dissuadir dos seus intentos em modificar um sistema de
convicções com o qual sempre vivemos e, se ganham a ousadia de refutar ideias
preestabelecidas, têm de estar preparados para a incredulidade e tenacidade de
uma maioria, aos olhos da qual não são mais do que visionários ou idealistas.
E lá estão os que se julgam peritos de um saber antigo e factual e tudo
farão para lhes demonstrar que estão errados. A corroborar estes existe uma
equipa disseminada pelos vários meios de comunicação social que fazem do seu
ofício a divulgação de notícias onde o elemento sensacionalista se fundamenta
na ideia de que as calamidades dominam as nossas existências e os episódios de
boa fortuna não ganham lugar de destaque. Somos continuamente incentivados a
perpetuar a crença de que vivemos num mundo onde somos governados pelo mal e no
qual a bondade ou ocorrências felizes são desacreditadas ou desvalorizadas.
Não será esta mesma mentalidade que nos leva a preferir uma literatura
ou cinematografia em que somos confrontados com situações dramáticas e
violentas? Chegamos mesmo a escarnecer das histórias reais ou fictícias que se
desviam do que consideramos a norma e se temos a chance de encontrar um desses
visionários que desafiam o sistema, usam uma linguagem diferente e evidenciam
um estado constante de felicidade, duvidamos e questionamos a sua veracidade.
Tentava, a todo o custo, afastar o cinismo
que ultimamente me acompanha, na esperança de que algo me salvasse daquela
situação incómoda e tediosa entre fervorosos ou simuladores crentes, durante a
prolongada cerimónia matrimonial a que assistia. Alheia à genuflexão e
repetidos actos de sentar e levantar, incomodada com os ritos sem expressão e
as palavras balbuciadas sem entusiasmo, numa cadência moribunda, fui em busca
de qualquer indício que me movesse e viesse contrariar o meu pensamento errante
e menos crédulo. Fixei-me no casal prestes a encetar uma união de corpos e
almas que deveria perdurar para o resto das suas vidas e não vislumbrei uma
centelha que me distraísse ou animasse.
O noivo repetia
atabalhoadamente as palavras do sacerdote, de olhar estagnado, parecendo
ignorar a presença da mulher a seu lado. O que mais me perturbou foi a ausência
de brilho nos olhares de ambos, do amor que não consegui captar, da emoção que
falhou em tocar-me. Tudo parecia ensaiado e não sentido. Ou talvez fosse o meu
cinismo a toldar-me a visão e a confundir-me os sentimentos.
Mais tarde,
comportando-me como seria esperado em tais ocasiões, fui falsa nos meus
louvores, ao mesmo tempo que resistia a criticar, sem recato, o parco e
insípido banquete que esgotara toda a possibilidade de me manter animada. Não
querendo ser desrespeitosa, quedei-me, sentindo o frio do ar condicionado a
enregelar-me os ossos e o fastio a corroer-me. Ainda me afoitei a dar uma
olhada pela sala na vã ilusão de detectar algum espécime do sexo oposto que me
fizesse salivar e me desse motivos para continuar ali. Foi então que a mãe da
noiva se levantou para fazer um discurso. Isso despertou a minha curiosidade.
Poderia ser o momento mais alto daquele evento. Muitos não saberão mas ela é
uma daquelas mulheres despeitadas que nunca se divorciam ainda que o
ressentimento, a frustração e amargura as mortifiquem e as destruam lentamente.
Fiquei de ouvido em
riste para não perder pitada daquele discurso que prometia estimular o meu espírito.
E não me enganei. As suas palavras reflectiam uma vida de longo, feliz e
abençoado matrimónio, trazendo com elas o incentivo para a filha trilhar o
mesmo caminho de boa fortuna. Que ironia! Não é que me surpreendesse mas fez-me
pensar no despeito das mulheres que ficam casadas sem amor; no despeito das
mulheres que são rejeitadas e abandonadas; no despeito das mulheres que deixam
os maridos à procura de outros que as compreendam, as façam sentir amadas e
lhes dêem o valor que elas merecem. E mesmo quando encontram a felicidade
ambicionada, para muitas, o despeito permanece. Não se conseguem livrar desse
ressentimento que as persegue porque não esquecem o que sentiram no passado.
Contudo, o comportamento delas está longe de espelhar o que lhes vai nas almas
e nos corações, especialmente em ocorrências de carácter social.
Olhei para a noiva
que, pela primeira vez, se mostrava emocionada, ao escutar as palavras da mãe,
e dei por mim a questionar essa emoção. Impotente para saber o que lhe ia no
íntimo, desejei que ela não se tornasse numa dessas mulheres despeitadas e
ainda desejei mais. Desejei que ela não fosse já uma delas.
Foi quando a minha
filha se voltou para mim e disse que não conseguia perceber se havia de facto
amor naquele matrimónio. Pois. Eu também não.

“It
is not good for the man to be alone. I will make a helper suitable for him.”
“And the man said: This is now bone of my bones,
and flesh of my flesh: she shall be called Woman, because she was taken out of
Man.” (Book of Genesis)
No meu despretencioso entender, afastado de qualquer ideologia, seja
ela religiosa ou social, ou ainda de qualquer interpretação erudita de
psicanálise freudiana ou outra, os homens continuam a querer mulheres que lhes
sirvam de ajudantes e apoiantes. E, ao contrário do que muitos possam pensar, o
sexo não se encontra no topo da lista daquilo que eles querem. Talvez mesmo por
causa dessa falsa noção é que não se tem escrito muito acerca do assunto e se
tem dado lugar privilegiado ao querer das mulheres, na maioria dos casos numa
literatura, cinematografia ou média de cariz cínico e jocoso. Isso porque é
também ideia generalizada de que as mulheres – pobres coitadas! – não sabem o
que querem ou continuamente mudam as suas vontades, provocando a confusão e
perplexidade nos espíritos daqueles que as desejam descomplicadas e prontas a
lhes oferecerem serviço e reverência.
O que os homens menos querem é descodificar,
analisar, compreender o que se passa nas mentes femininas. Isso não faz parte
do plano traçado desde o início dos Tempos. (Não nos esqueçamos de que,
segundo o livro do Gênesis, a mulher foi criada para que o homem não se
sentisse só e para o ajudar.)
O que os homens querem é que as mulheres os
compreendam e lhes sirvam de suporte mesmo que eles as ignorem, lhes apaziguem
as dores sem lhes lembrarem as fraquezas, os confortem e não confrontem, lhes
oiçam as queixas e não os admoestem, os enalteçam e engrandeçam os seus egos
ainda que eles falhem ou fracassem. O que os homens querem é um maternal e
desvelado colo onde possam repousar aquelas fragilidades, inseguranças e
carências que escondem do mundo. O que os homens querem é um abraço protector e
um sorriso caloroso a recebê-los depois de um dia desastroso.
Contudo, não é isso que os homens dizem
querer. Cada vez mais os ouvimos dizer que querem mulheres emancipadas,
inteligentes e intrépidas, capazes de emitir opiniões de substância sobre
temáticas de vulto; mulheres que os confrontem e não se mostrem submissas;
mulheres livres de preconceitos ou tabus que se sintam seguras na sua
sexualidade; mulheres de iniciativa e sem pudor que os amem sem idolatria ou
falsidade.
Isso é o que eles dizem mas não é,
pontualmente, o que querem. Muitos só se dão conta deste facto depois de conhecerem
ou coabitarem com mulheres que querem mais do que serem suas ajudantes ou
apoiantes: mulheres que sabem exactamente o que querem e, nesse querer, não
existe espaço para conformismo a um conceito ultrapassado. Elas continuam a
oferecer apoio e ajuda mas querem um diálogo aberto e igualitário. Essas
mulheres jamais apagam ou encobrem as suas individualidades em favor dos
quereres dos homens. A ajuda que essas mulheres lhes trazem reside num
conhecimento mais profundo, tanto de si próprios, como delas, e numa aceitação
e entrega mútua.

É um vazio feito
de pequenos mundos
E no vazio um poço de lodaçal de águas paradas
Onde há muito se afundou o grito do nosso ser
E nesse poço aquele nó … um nó sem laçadas
Que tem nada a ver com as vísceras enfastiadas
É um nó no vazio atulhado daquilo que fomos
E do que ainda não sabemos e porventura somos
É um nó no espaço do vazio do desconhecido
Onde atámos a saudade que não sentimos
É um nó feito do passado que ficou esquecido
Onde amarrámos os amores que repelimos
É um nó que nos lembra o presente não vivido
Onde abafámos os desesperos perdidos
É um nó feito da ânsia calada e do desejo morto
Onde os quereres jazem agora amortecidos
É um nó das culpas que sempre ficaram negadas
Onde as memórias se fizeram dispersas
E o caminho não trilhado de esperanças mudas
É um nó de uma enormidade de pequenos nadas…
Ele
senta-se em frente de mim ou ao meu lado. Tanto faz. É um desconhecido. Ou era.
Talvez nunca tenha sido. Agora não posso evitá-lo. A sua presença é viva, real.
Já não faz parte da construção do meu pensamento, da ideia que tinha acerca
dele. Olho-o e continuo a construir, a elaborar sobre ele. Escuto as suas
palavras, noto as suas expressões, detenho-me nos seus traços e movimentos. Não
paro de julgar o que ele é na realidade. Mas que realidade? A dele ou a minha?
Aquela que eu percebo na minha inaptidão de conhecer quem quer que seja ou a
realidade que ele me quer mostrar? Mas essa talvez não seja a realidade de que
ele é feito. Apenas aquela que ele deseja que os outros vejam. Confusão! Cá
estou eu a analisar. Ele diz que é o meu lado masculino porque, se eu desse
asas ao meu lado feminino, deixar-me-ia levar pelas emoções, com o coração
aberto. Nunca tinha pensado no meu lado masculino. E, de repente, dou-me conta
de que ele tem razão. Fico presa às suas palavras e sigo o seu raciocínio.
Ele
faz-me pensar no meu coração fechado. Estará? Incomoda-me ao mesmo tempo que me
atrai a questão que ele me traz.
Quero sair dali e
refugiar-me no espaço que me protege de estranhos e desconhecidos que me fazem
pensar e duvidar daquela que sou ou julgo ser. Aquele espaço que me aniquila
mas é familiar. Onde eu posso ser quem sou sem máscaras ou subterfúgios. Onde
eu penso conhecer-me sem que outros me digam quem sou. Quero fechar-me nesse
invólucro que tracei à minha volta. Quero repousar e sentir-me segura. Embora saiba
que tudo isso não passa da fabricação da minha mente. Embora saiba que estou a
fugir de mim mesma e daquilo que não quero enfrentar. Um coração fechado? Será
isso porventura...
Tento
desembaraçar-me da pressão dos seus dedos na minha mão fria. Dou por mim a
constatar essa frieza. Num segundo, recordo alguém que se referia às mãos frias
das mulheres como um facto comum. Não que ele tenha conhecido muitas mulheres.
Também ele me obrigou a ver partes de mim que eu tinha relutância em observar.
O que nós deixamos escapar mesmo quando pensamos que estamos a ser cautelosos!
Mas como ser cauteloso acerca do que é desconhecido para nós próprios? Como
esconder aquela parte que nunca quisemos ver ou da qual nos esquecemos?
Brinco
com o pacotinho de açúcar, deixando o meu interlocutor talvez desapontado.
Contudo não desiste, fitando-me com confiança e continuando a falar sobre mim
como se me conhecesse. Irrita-me mas não consigo arredar pé. Ele é como um
espelho que reflecte a imagem de mim que tenho tentado ignorar. Incrível! Ou
talvez seja tudo parte de um jogo e não passe de uma tentativa de me
impressionar. Decerto o seu lado masculino está fantasiando sobre a
possibilidade de uma relação íntima comigo.
Sinto desconforto e a
frieza das minhas mãos é mais pungente. Carência de intimidade foi o que me
trouxe ali. No entanto o medo toma posse de mim, mais uma vez. E ele dá-se
conta do meu medo, mesmo antes de eu o sentir.
O meu lado masculino...
o meu coração fechado... o meu medo... !!
O chá a arrefecer, as
minhas mãos esquivas e frias, o som cadenciado da voz do homem a meu lado e os
pensamentos em corrupio a falarem-me de uma outra mulher que existira em
tempos: uma mulher sem medo, com o coração aberto e um lado feminino que a
levou a lugares nunca imaginados e a deixou vazia a sangrar.
Será que ele também vê
essa mulher?
E vejo-me noutro café,
numa outra cidade, num tempo longínquo e nunca esquecido. Estou em frente de
outro desconhecido, as minhas mãos frias e trémulas aconchegadas nas dele,
lágrimas a turvarem o meu semblante e dor a corroer-me as entranhas. Mas mesmo
assim o meu coração mantivera-se aberto. Até quando?

Chegamos tarde quase sempre
Nem é atraso ou demora
Somos somente tardios.
Sem encontro marcado sem hora
E num constante desfasamento
Essa será a fatalidade
De errarmos no momento…
Chegamos tarde e cansados
Do que éramos quando fomos
Julgando esses que não somos
Diferentes de nós…vã ilusão!
Fecham-nos as almas em arremesso
E a nossa fica mais em turbilhão
Na espera de um recomeço.
Chegamos tarde quase sempre
A culpa não é percebida
Num calar de corações desfeitos
Ignorantes do tempo pontual
O outro como nós está dormente
A probabilidade assim é perdida
Nas tramas da chamada Vida.
Se o soberano bem não existe,
Sua essência é o soberano mal.
Mas o soberano mal não pode existir,
Porque, se existisse,
Todo o bem seria destruído.
Ramon Llull, Proverbis de Ramon, 4.
A polaridade entre o bem e o mal é explicada pela religião em função do
divino. Os maus serão aqueles que agem contra Deus e contra os seus
semelhantes. Se assim é, como serão denominados aqueles que iniciam guerras e
provocam a carnificina dos infiéis, em nome de um Deus que proclamam ser o
verdadeiro e o único? E quem são afinal os infiéis quando o Deus que se venera
e a religião que se segue se diversificam, existindo a crença fundamentada de
que cada uma delas é a autêntica? Os fiéis são, por definição, todos os
sectários de uma doutrina e, segundo esse conceito, não tem qualquer
pertinência o uso do vocábulo infiel para classificar o seguidor de uma outra
religião só porque não é a nossa e, por isso mesmo, se torna inválida.
Como é possível que, em pleno século XXI, haja um representante da Igreja
Católica, em Portugal, a afirmar que o afastamento, esquecimento ou negação de
Deus constituem o “maior drama da humanidade”? Como é possível, na época
conturbada em que vivemos, onde as maiores guerras são as chamadas “guerras santas”,
ignorar que o culto de Deus tem servido para muitos justificarem uma prática
maléfica que instala o caos e dizima populações?
Foi no século XI que os cristãos começaram a empreender expedições que
tinham em vista libertar os lugares santos do poder islâmico e propagar a fé
que seguiam e, segundo eles, era a absoluta. Muitos séculos passados, é o
muçulmano que se revolta contra o mundo ocidental cristão, provocando uma
guerra de terrorismo. E o mundo ocidental responde a esse ataque, encobrindo as
suas verdadeiras motivações com um pseudo e questionável altruísmo. Então não é
que somos nós os bons? Não é que somos nós os detentores da Verdade e do
Conhecimento? Não é que somos nós que sabemos do que precisam esses povos que
vivem na obscuridade de uma crença que os conduzirá, irremediavelmente, às
chamas do Inferno? Não é que nós temos a responsabilidade de lhes mostrar a Luz
e o caminho para a Salvação? Só que eles também pensam o mesmo a nosso
respeito. Eles condenam a nossa maneira de viver e desejam impor a sua. Mas
será assim tão linear esta guerra e divisão que se gerou há muitos séculos e
continua a corroer a humanidade?
Quem são afinal os bons e os maus? De ambos os lados, temos facções que
legitimam os seus actos com base no culto de Deus ou Alá e vêem no antagonismo
às suas ideias e convicções a face do mal. Como se a distinção entre dois
conceitos indefiníveis fosse viável; como se o bem e o mal pudessem existir
separadamente e não fossem afinal complementares e relativos. Como poderíamos
falar de um sem conhecermos o outro? Como poderíamos avaliar um sem termos
experimentado o outro?
Quanto a mim, o maior drama da humanidade reside no facto da sua divisão entre
bons e maus, tendo como base o julgamento sistemático que fazemos dos outros,
em função dos nossos padrões morais e religiosos. O maior drama da humanidade
tem tanto a ver com crentes como ateus, fiéis ou infiéis, qualquer que seja o
lado em que estivermos ou a perspectiva que adoptarmos. O maior drama da
humanidade não é o afastamento ou negação de Deus mas sim o afastamento do
princípio básico de respeito pelo nosso semelhante e a negação dos seus
direitos. O drama que continuamos a perpetuar, apesar da nossa tão falada e
glorificada evolução, centra-se numa atitude e num discurso que se assemelham
àqueles utilizados nas histórias de índios e cowboys que fizeram o deleite de
gerações passadas. A nossa desgraça é não sermos capazes de aceitar a
diversidade do género humano e querermos, a todo o custo, modificar os valores
e crenças daqueles que constantemente rotulamos e menosprezamos apenas porque
não perfilham a nossa visão e filosofia de vida. A religião não serve senão
para mascarar uma desenfreada ambição de poder, quer da parte dos bons, quer da
parte dos maus; quer do lado do ocidente, quer do lado do oriente; quer dos
cristãos, quer dos muçulmanos.