SOL

O homem sem amor

 A minha mulher não olha para mim.

- Mataste-me. Morri devagar, por partes. Primeiro o corpo, e logo de seguida a cabeça...

- Não me avisaste!

Como as árvores de uma floresta que se abatem para construirmos casas, onde habitamos e dormimos, para fazer o papel onde escrevemos cartas de amor que já não se escrevem...   

- Não gosto de ler!

Olho para dentro de mim e não vejo nada, só o resto do que outrora fui. Sou um quadro a óleo com a pintura estalada pelo mau tratamento...

- Odeio pintura!

E tu, a meu lado, aguardando a minha morte, como um abutre à espera do estertor final. Morri devagar, no quarto, deitado na cama onde as estações do ano passam pela janela...

 - Cheiras mal!

O jacarandá que acompanhou a minha vida está em flor, e a minha pele seca e estalada, como as peças de um puzzle sem solução final...

- Só gosto de rosas!

Na mesa de cabeceira tenho um espelho, onde me vejo todos os dias à mesma hora. O espelho que comprei na tua loja favorita, no meu último passeio pela cidade à procura de um fato escuro para o meu velório...

- És horrível, nem com o fato te safas!

Colecciono rostos de pessoas que passam por mim, ignorando o meu estado adiantado de decadência, rostos ausentes, rostos que não se olham nem interrogam, pairam pela cidade morta, como eu há muitos anos...

- Nunca olhaste para mim!

E tu, a meu lado, sorrindo com a aproximação do fim. Já não tenho sonhos, depositei-os em ti, no sorriso em que acreditei desde o início, no qual me prendeste num tempo que nunca existiu...

- Amo-te!

 Canção da semana " Homesick " - Kings of Convenience

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A mulher sem amor

O meu homem não olha para mim.

- Não vês as lágrimas nos meus olhos?

- Não as lambi!

O meu homem não me beija.

- Morde a minha boca!

- Não tem sabor!

O meu homem não me toca.

- Escreve o teu nome no meu corpo!

- Não tenho pincéis!

O meu homem não me ama.

- Ama-me!

- Não sou capaz!

O meu homem morreu.

- Estás morto?

- Morri e não deste por nada!

- Odeio-te!

- Eu amo-te!

Canção da semana: " Canción del Mariachi - Los Lobos "

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O homem com a mão estendida

O homem com a mão estendida está sentado à porta da loja de chocolates. O cabelo branco e sujo rareia na sua cabeça, a pele da cara é seca e chupada, desenhada por cicatrizes uniformes, o nariz  pontiagudo, tem um sinal preto na ponta. A boca sempre aberta, como a de um pássaro a chilrear, deixa ver os dentes amarelos que sobreviveram à passagem do tempo.

O homem está dobrado sobre si mesmo, coberto por restos de uma roupa indecifrável, na forma e na cor. Os pés juntos, quase colados um ao outro, escondem um caderno de capa castanha, polvilhado por nódoas de gordura brilhantes que reluzem como salpicos de tinta à incidência do sol da manhã. Uma mão não se vê. A outra, a direita, está estendida com a palma bem aberta.

No meio das linhas que lhe compõem a mão guarda uma borboleta de asas laranjas e amarelas. As pessoas entram e saem da loja lambendo os lábios molhados de chocolate, indiferentes à sua existência, e ele indiferente a elas; os seus olhos azuis como o mar, onde as mesmas pessoas se perdem nos longos dias de Verão, contemplam a borboleta, num olhar delicado e sem tempo. É tudo o que lhe resta. Uma borboleta na palma da mão.

- O que te diz a borboleta?

- Conta-me histórias!

- Histórias?

- Histórias que viajam com o vento do Norte.

- Eu não oiço nada!

O homem com a mão estendida roda o corpo na minha direcção e sorri, o seu cheiro nauseabundo invade as minhas narinas e entranha-se na minha pele.

- Porque não queres ouvir! Há muito tempo que só te ouves a ti mesmo, aos sons produzidos pelo teu universo.                                                     

É verdade, o tempo tem passado por mim indolente e anárquico, roubando-me à vida. A minha vida não tem sons, cheiros, tactos, resta-me o paladar dos chocolates que eu saboreio todas as segundas-feiras antes de começar a trabalhar na minha sala branca com uma janela quadrada forrada com grades verdes, onde ouço o meu primeiro paciente. O senhor Silva.    

- Doutor, continuo com o mesmo sonho!

- Quero a tua borboleta!

- Não! Procura a tua!

- Doutor, estou em casa, a patroa prepara-me um martini enquanto ligo a televisão para ver a bola, é sempre o mesmo jogo, o Benfica-Porto, o Benfica ganha por 3-1, é o maior, desligo a TV, e encaminho-me para a mesa, é dia de açorda, ó Doutor a açorda da minha Maria não tem igual, devoro-a em três tempos, levanto-me devagar da minha cadeira e beijo a testa da patroa.

Estou no quarto, deitado na cama espero pela minha Maria, hoje é dia, o Glorioso ganhou e comi a melhor açorda do mundo, a patroa entra pelo quarto, e eu ajeito as almofadas vermelhas que comprei na loja do meu clube, ó Doutor são lindas! ‘tá a ver?

Com o emblema impresso, bem, ela deita-se, e eu tunga, ó Doutor! ‘tá a ver! A minha patroa é um amorzinho, faz tudo por mim, sou um homem de sorte. Deus no céu e a minha Maria na terra. Vou dormir, sempre agarradinho à almofada do meu clube e sou atacado por chineses, aparecem de todo lado, e eu sufoco, estão em cima de mim, não consigo fugir, ó Doutor! ‘tá a ver!

- Eu compro a borboleta.                                                     

- Não está à venda! Procura a tua!

O sr. Silva continua a falar, eu ajeito-me na cadeira, nada me pode tocar, acendo um cigarro e, enquanto saboreio a sensação da primeira passa, olho para a borboleta de asas laranjas e amarelas pousada na agenda do consultório em cima das minhas pernas.

Canção da semana " Négatif " - Benjamin Biolay

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O Bailarino

O homem alto e magro, vestido de negro, atravessa a rua em direcção ao miradouro.Tem a cara cortada pelas rugas e uma linha na boca. Os seus sapatos brancos e afunilados batem furiosamente na calçada cinzenta e suja. Arrasta pela mão direita uma boneca de cabelo cor de corvo e olhos negros. Na outra mão um cd portátil com duas pequenas colunas, os olhos sem expressão apontam o banco verde e vazio onde deposita a pequena aparelhagem sonora. Tira o lenço vermelho do bolso das calças, e num único movimento limpa o suor que cai da sua testa. O dia está quente, o calor é insuportável e o ar irrespirável, no entanto há uma promessa a cumprir. Uma última dança na cidade dos marinheiros, um tango. Sentado no banco prepara a boneca, escova-lhe o cabelo com o pente de osso fino, pinta-lhe os olhos, e a boca de bâton cereja. Limpa o pó do vestido vermelho e ajeita os laços dos sapatos negros. A boneca está pronta, o som da milonga del angel insinua-se nos ruídos vindos da rua, a dança começa. As crianças que brincam na rua correm na sua direcção, as senhoras do bairro debruçam-se sobre as janelas imersas naquela música trágica e melancólica, as gaivotas vindas do rio descansam as asas no parapeito do miradouro, os carros que cruzam a rua congelam o seu movimento, os namorados atrasam os seus beijos, as nuvens brancas que vivem no céu azul da cidade unem-se para cobrir o sol, traçando uma linha de luz que trespassa o céu iluminando o homem de olhos vazios que dança com a boneca, uma dança mágica e furiosa, os seus corpos são um só, a milonga viaja pela cidade enfeitiçando os seus habitantes. A música chega ao fim. O homem alto e magro, vestido de negro, cai na calçada, exausto, as batidas fortes do seu coração martelam-lhe o corpo e confundem-se com o som dos aplausos vindos da sua melhor plateia. O bairro do Miradouro. O bairro que o viu nascer.

Canção da semana "Milonga del Angel" Astor Piazzolla

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A Fotografia

Tenho uma fotografia colada ao peito, no meio dos meus pulmões. O esquerdo e o direito, para ouvir o bater da tua respiração. A fotografia do hotel onde os meus olhos dormem nos teus. O enquadramento é simples. Um hotel em cima do mar, uma  varanda sobre a praia sem fim. A praia guarda as tuas pegadas impressas que o mar ciumento insiste em apagar. Desenho a linha dos teus dedos com as minhas mãos e deito-me na areia ainda quente pela tua passagem. O som das ondas a baterem na água adormece o meu corpo. Fecho os olhos como as duas cortinas brancas da janela do quarto. O nosso quarto. O quarto do melhor hotel do mundo, onde a luz vive iluminando o teu corpo. Conservo a areia das tuas pegadas num aquário em cima da mesa de madeira castanha junto à janela. Pinto nas tuas costas a aurora boreal, que roubei no céu da Islândia com a pena de cisne do mar do Norte. Devoro a tua boca, devagar, muito devagar. Sabes a sal. O sabor do sal mistura-se com o cheiro da tinta fresca na tua pele. «Foge comigo no nevoeiro da tarde». Não posso. Amo as chegadas e as partidas.

Canção da semana "MyOblivion" - Tindersticks                                                                                                                        

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Tenho um buraco no coração

Desço a escada de pedra que me leva ao cais, o barco espera por mim, o mesmo barco onde centenas de pessoas regressam a casa. À casa do coração. Não tenho casa, só uma mala velha e gasta onde te guardo e escondo dos outros. Tenho um buraco no coração e um vazio na alma. O barco azul da côr do mar corta a água devagar como o teu primeiro olhar. Abro a mala, retiro-te devagar com as duas mãos e sinto a tua palpitação. Olho para ti uma última vez, é tempo de partires. Lembro-me do tempo em que fazias parte do meu corpo. O tempo em que eramos um todo. Quando o teu olhar pertencia ao meu, quando o tempo não tinha tempo. Demoro a erguer-me do banco de metal velho e sujo. Caminho devagar para a proa do barco, uma mãe prende um filho num longo abraço. A água brilha como um espelho quando abro as mãos e te liberto. Fecho os olhos. Ouço o som do vento e da água, juntos, com o teu. És livre. A viagem chega ao fim, a mãe volta-se devagar, liberta o filho do longo abraço, beija-o, o filho sorri e corre para o cais.

Canção da semana "A Casa" de Rodrigo Leão

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