O homem com a mão estendida está sentado à porta da loja de chocolates. O cabelo branco e sujo rareia na sua cabeça, a pele da cara é seca e chupada, desenhada por cicatrizes uniformes, o nariz pontiagudo, tem um sinal preto na ponta. A boca sempre aberta, como a de um pássaro a chilrear, deixa ver os dentes amarelos que sobreviveram à passagem do tempo.
O homem está dobrado sobre si mesmo, coberto por restos de uma roupa indecifrável, na forma e na cor. Os pés juntos, quase colados um ao outro, escondem um caderno de capa castanha, polvilhado por nódoas de gordura brilhantes que reluzem como salpicos de tinta à incidência do sol da manhã. Uma mão não se vê. A outra, a direita, está estendida com a palma bem aberta.
No meio das linhas que lhe compõem a mão guarda uma borboleta de asas laranjas e amarelas. As pessoas entram e saem da loja lambendo os lábios molhados de chocolate, indiferentes à sua existência, e ele indiferente a elas; os seus olhos azuis como o mar, onde as mesmas pessoas se perdem nos longos dias de Verão, contemplam a borboleta, num olhar delicado e sem tempo. É tudo o que lhe resta. Uma borboleta na palma da mão.
- O que te diz a borboleta?
- Conta-me histórias!
- Histórias?
- Histórias que viajam com o vento do Norte.
- Eu não oiço nada!
O homem com a mão estendida roda o corpo na minha direcção e sorri, o seu cheiro nauseabundo invade as minhas narinas e entranha-se na minha pele.
- Porque não queres ouvir! Há muito tempo que só te ouves a ti mesmo, aos sons produzidos pelo teu universo.
É verdade, o tempo tem passado por mim indolente e anárquico, roubando-me à vida. A minha vida não tem sons, cheiros, tactos, resta-me o paladar dos chocolates que eu saboreio todas as segundas-feiras antes de começar a trabalhar na minha sala branca com uma janela quadrada forrada com grades verdes, onde ouço o meu primeiro paciente. O senhor Silva.
- Doutor, continuo com o mesmo sonho!
- Quero a tua borboleta!
- Não! Procura a tua!
- Doutor, estou em casa, a patroa prepara-me um martini enquanto ligo a televisão para ver a bola, é sempre o mesmo jogo, o Benfica-Porto, o Benfica ganha por 3-1, é o maior, desligo a TV, e encaminho-me para a mesa, é dia de açorda, ó Doutor a açorda da minha Maria não tem igual, devoro-a em três tempos, levanto-me devagar da minha cadeira e beijo a testa da patroa.
Estou no quarto, deitado na cama espero pela minha Maria, hoje é dia, o Glorioso ganhou e comi a melhor açorda do mundo, a patroa entra pelo quarto, e eu ajeito as almofadas vermelhas que comprei na loja do meu clube, ó Doutor são lindas! ‘tá a ver?
Com o emblema impresso, bem, ela deita-se, e eu tunga, ó Doutor! ‘tá a ver! A minha patroa é um amorzinho, faz tudo por mim, sou um homem de sorte. Deus no céu e a minha Maria na terra. Vou dormir, sempre agarradinho à almofada do meu clube e sou atacado por chineses, aparecem de todo lado, e eu sufoco, estão em cima de mim, não consigo fugir, ó Doutor! ‘tá a ver!
- Eu compro a borboleta.
- Não está à venda! Procura a tua!
O sr. Silva continua a falar, eu ajeito-me na cadeira, nada me pode tocar, acendo um cigarro e, enquanto saboreio a sensação da primeira passa, olho para a borboleta de asas laranjas e amarelas pousada na agenda do consultório em cima das minhas pernas.
Canção da semana " Négatif " - Benjamin Biolay