Após uma manhã agitada, sentei-me aqui a ler alguns blogs do Sol… Naquela dormência de corpo e espírito que nos torna lassa a vontade, ecoou , num gemido desgarrado, o som do xilofone soprano do videoporteiro. Levantei-me, carreguei no botão do ecrã e vim uma moça jovem, com uns brincos enormes, de nariz quase esborrachado contra o visor. Vi que vinha acompanhada de uma senhora de uns 70 anos. Queria dar-me uma palavrinha..e tal..Qual o assunto, quis eu saber. Enrolou, enrolou e quando se apercebeu que eu não iria sair da minha bolha, informou-me que era Jeová e que gostaria de deixar uns papéis na minha caixa de correio. Acedi. Antes de se despedir , aproximou ainda mais o rosto, e lançou-me esta pergunta: Quer conhecer a “Verdade”?
Destaquei a palavra entre aspas e usei letra maiúscula porque deduzi que esta verdade seria uma muito especial que possivelmente nada teria que ver com a minha. Por norma respeito as verdades dos outros, leia-se fé, credo, religião, política, opção sexual e por ai a fora, desde que as mesmas não me tentem formatar ou atentar contra os meus valores, princípios, que fui sedimentando ao longo de algumas décadas mas sempre na busca de melhorar a minha efémera passagem pela terra.
Vem isto a propósito de certas opiniões tentarem menosprezar as crenças de outras pessoas, usando armas ainda mais vis do que aquelas de que acusam outros de usar. Lê-se e pasma-se.
Haverá uma grande diferença entre certos dogmas agressivos e a acção dos nazis que marcaram as habitações dos judeus com uma cruz ou ainda a morte na fogueira de Galileu Galilei, a mando de uma Roma omnisciente?
Cada um terá a sua verdade, cada um terá a “sua”fé, ou não, na existência de um ser supremo invisível, seja deus ou que tenha outra designação. A fé é invisível, a fé é um sentimento solitário, recolhido.
Destaco, com muita admiração e respeito, uma figura de Roma que procurou incutir a fé pela razão. Um homem admirável, o Papa João Paulo II, que teve a suprema humildade de pedir desculpas à Humanidade pelos erros do Vaticano em relação a outras religiões e não só: cruzadas em nome da evangelização, Inquisição, perseguição de cientistas – Galileu Galilei, por exemplo. Lamentou a cumplicidade da igreja romana na perseguição e massacre de negros e de índios, ainda na Alemanha nazi.
Joaõ Paulo II pôs a nu algumas grandes "verdades" de uma igreja autofágica.
Infelizmente o nosso país também terá o exemplo de uma igreja que ungiu e benzeu todas as atrocidades levadas a cabo pela ditadura de Salazar.
Bento XVI, lamentavelmente, é feito de outra massa.
Cada um que respeite a vontade do outro e mais importante do que andar a tactear a vida do além, será melhor olharmos à nossa volta, tentar realizarmo-nos e ajudar os outros a realizarem-se.
A vida, esta, a de hoje, é a dádiva mais certa que temos, saibamos aproveitá-la.