SOL

Luana- a Gabriela Silva das Flores

Na senda do novo paradigma!

Em paz com o mar...

Toda a minha escrita está fortemente marcada pelo mar. Não apenas por conta da insularidade e da minha relação com a ilha, que sofreu ao longo dos anos muitas alterações, mas porque toda a escrita das ilhas tem o mar como companhia inseparável.

Para mim, como para todos os florentinos e corvinos, o mar é sempre visto como ganha-pão, como companheiro do nosso dia-a-dia, como perseguição mais ou menos tolerada das nossas vidas. Na realidade, nestas pequenas ilhas, o mar é companheiro indissociável de todas as nossas peregrinações.

Quando era jovem, o mar foi a minha forma de evoluir. Nas Flores ainda nem se pensava em aeroporto e a ilha era escalada pelo navio Ponta Delgada de quinze em quinze dias e por um navio de carga que nos assegurava a subsistência, de mês a mês. Cresci assim e habituei-me a não fazer nenhum drama com esta realidade. Aliás, penso que a alma grande das gentes das Flores paira muito nesta capacidade de “encaixe” daquilo que era então a nossa realidade. Antes disso, muitos florentinos, entre os quais o meu avô paterno, tinham iniciado a aventura da emigração, embarcando em baleeiras, frágeis como cascas de noz, que partiam em direcção ao este dos Estados Unidos ou então, directamente a S. Francisco. Quem ultrapassasse a barreira da Golden Gate podia ficar nas Serras de Nevada pastoreando ovelhas e aguardando um regresso sem data marcada com algumas águia de outro no bolso que haviam de sustentar famílias que aguardavam, com muita fé e muita dignidade, o regresso dos seus entes queridos que só os nossos dias promoveram, com justeza, a heróis anónimos destas ilhas.

Mas na ilha estavam os baleeiros. Aqueles que ao som do foguete, partiam à procura do cetáceo que podia dominá-los. Fonte de vida e de morte, a baleia garantia a um tempo o pão das famílias e a morte mais cruel. Lembro-me de ter assistido a perdas em famílias muito chegadas e tenho memórias da sombra negra que essas perdas provocavam na comunidade. Parece que ainda hoje guardo nos meus ouvidos o bater dos sinos, os gritos de dor, as cortinas cerradas nas janelas e os meses de luto que se arrastavam por demasiado tempo para as crianças que não compreendem o sofrimento dessa forma.

A Fazenda era uma freguesia de baleeiros. Ainda hoje, do nosso pátio, se vê a vigia onde, em meu tempo, o “Dancinha” atirava o foguete. E aqui mesmo ao lado, o José Calcinha era um daqueles que, imediatamente, acorria ao toque. Mas esse era um homem grande e forte e eu ficava sempre na esperança que ele voltaria depois de ter lancetado um cetáceo imenso, daqueles que davam litros e litros de azeite para alumiar as casas em candeias que animavam as noites de tecelagem ou de fiação. Belo tempo. Um tempo se saudosa memória de pessoas que partiram e deixaram tanta saudade…

Mas hoje estou a encontrar-me com o mar. Um encontro especial. Eu e o mar fomos inimigos durante muitos anos. Os anos em que dependi dele. Sem o mar, nunca poderia realizar os meus sonhos (realizei-os?). Sempre fui enjoadiça e viajar de barco era a minha única possibilidade. A ilha não tinha outro meio de transporte. Mas eu enjoava o tempo todo e chegava sempre martirizada ao meu destino. Guardo memórias dolorosíssimas desse tempo. Não havia cais acostável e o Ponta Delgada ficava fora das Lajes como uma ameaça surda à minha integridade física. Chegava por volta das nove da manhã e lançava um apito intrépido, horroroso que partia o meu coração em mil partes. A meio da tarde, a minha mãe organizava as coisas. Já tinha a minha mala feita, o saco e começava a despertar-me para a realidade. Ainda tenho sinto um aperto no peito quando penso nisso. Iam todos ao cais. O mestre José Augusto levava sempre o meu pai a bordo para me ajudar a subir a escada e apresentar-me o camaroteiro. Era sempre um senhor gentil que passava a noite a vigiar o meu sofrimento e me dava água ou fruta que eu voltava a vomitar ao longo de uma noite difícil de descrever.

Foi sempre assim. Algumas vezes foi no Carvalho Araújo que era maior mas o final era sempre dramático. Nunca escapei ao enjoo e á ressaca tremenda que isso me provocava: dois dias sem comer, com tonturas e vómitos. E na época tinha pouco mais de cinquenta quilos.

Nessa época o Funchal atracava na doca do Faial e, no bar do navio, podiam comprar-se umas tabletas de chocolate das Canárias e cigarros estrangeiros. Eu vivia com muitos limites a nível das despesas e da liberdade mas tinha autorização do meu pai para, na companhia do senhor Ernesto Andrade e da D. Antonieta, sua esposa, ir a bordo do Funchal. Bem, eu nem sei explicar a emoção porque, se é verdade que a ideia me fascinava, a subida pela escada do navio, trazia-me á memória magoada o Ponta Delgada e as minhas terríveis viagens entre ilhas. Nunca fui, portanto, feliz, a bordo de nenhum navio muito embora não me faltem episódios tristes noutras embarcações. Como deputado Regional fui a bordo do Henri Poin Carré onde fui recebida com os apitos regimentais. Quem me conhecesse bem perceberia que fiquei calada de boca fechada no decorrer das saudações para, de seguida, rumar à casa de banho para vomitar a refeição anterior. Mais tarde, fui levada a bordo de uma corveta de que era comandante o meu afilhado Mário João Costa Ferreira que, na impossibilidade de vir a terra, mandou um barco buscar-me ao cais das Poças para tomar um chá com ele. Imagine-se como foi o chá depois de ter sido quase levada em braços por uma escada temível para ver um afilhado todo jeitoso que recebeu uma madrinha lívida e assustada. Felizmente fui devolvida a terra pouco depois.

O facto de estar a recordar estes episódios está a fazer-me sentir a sensação de estar a bordo. É interessante que, ainda hoje, se for ao porto e estiver lá uma embarcação pequena a mexer, se ficar muito tempo a olhá-la corro o risco de ficar mal disposta. Mas esta saaga tem uma outra vertente interessante, que é a quantidade de coisas que me aconselharam a fazer para passar bem. Tomar comprimidos de enjomim ou similares é a mais modesta das sugestões. Eu fiz muito mais do que isso: jornais no peito, folhas de couve na barriga, casca de limão no nariz, etc, etc. Nada. Só sofrimento.

Os anos foram passando e, a partir do momento em que conheci o avião, fiquei com o meu problema resolvido. Finalmente podia deslocar-me em paz para onde me apetecesse sem o terror do enjoo. Virei as costas aos cruzeiros, aos iates e às mordomias que pudesse ter no mar e fiz-me aos aviões com coragem. Também cheguei a ter medo de andar de avião mas, com o passar do tempo, passou-me esse receio. Hoje em dia, sinto-me no avião como em casa.

Eu bem sei que estas atitudes não são próprias de uma “mulher das ilhas” mas foi o que foi. Nunca gostei de ser aplaudida nas minhas fífias. Não sou nenhum exemplo nesta área. Como em muitas outras, de resto.

Mas restava-me um outro drama: o Corvo. Ilha vizinha onde tinha amigas e onde gostava de me deslocar mas, como é fácil de perceber, cada vez que lá ia, era mais um tormento. Felizmente que a ilha passou a ter aeroporto e, por muito dura que fosse a viagem de avião eram sempre sete minutos que eu não trocava por nenhum barco.

Da última vez que fui de barco, há cerca de dez anos, a viagem foi tenebrosa. Era Agosto, o mar estava picado e eu cheguei completamente “arrumada”. Tinha ido a pedido das minhas amigas Salomé e Isabel que perceberam quão heróica tinha sido a minha atitude. Cheguei gelada, inerte e sem cor. Alguém me colocou sobre o cais e, a seguir, dentro de uma viatura aquecida pelo sol de Agosto para a reanimação. Como o avião estivesse a chegar, voltei às Flores no Dormier. Quando cheguei ao aeroporto, meu irmão estava à minha espera e eu abracei-o a chorar como se estivesse a voltar da guerra, jurando a todos os santos que nunca mais pisaria um barco.

Os anos passaram-se, a vida deu muitas voltas mas a minha determinação em não voltar a pisar um barco em movimento continuava inabalável. Foi aí que começaram as viagens ao Corvo em semi-rígidos. O Carlos Toste, por quem nutro uma imensa amizade e um carinho muito profundo, sabia da minha vida e dos meus dramas. Ele estava no Corvo no dia em que lá cheguei em mau estado. Prometia-me o Carlos que num dia de bom tempo, eu iria com ele e garantia o sucesso da operação. Mas eu, lá ia enviando todos os meus amigos com o argumento convincente de ter muito que fazer ou de ficar a preparar a refeição seguinte. E nunca ia.

Este ano, deslocou-se às Flores o Onésimo com a esposa e a Aida Baptista. E havia a minha “baixinha”, uma israelita sonhadora e linda que sabe tudo sobre Hatmara ou “arte da transformação”. O Corvo estava nos meus sonhos para eles. E aí, sim, funcionou a minha veia de heroína. Coloquei todas as técnicas que conheço ao meu serviço e aceitei o desafio. Melhor: ninguém soube senão o Carlos. Mais: eu nem fui com o Carlos mas com o Pedro. Já não há lugar para lendas na minha vida e eu não queria ficar com o registo do Carlos na aventura.

Fui duas vezes ao Corvo em menos de uma semana com o mar muito diferente. E adorei. Positivamente. A viagem e o Corvo. Tudo. De tal forma que não excluo a possibilidade de passar uns dias na residencial COMODORO que me pareceu uma aposta de luxo do nosso amigo Rita e da sua maravilhosa família.

Ganhei imenso com esta mudança de atitude. O Corvo está agora muito mais perto e eu estou muito mais acompanhada. Já não preciso fugir para longe para fazer férias porque o Corvo tem tudo, o que têm os lugares mais reputados do mundo para férias especiais: paz, silêncio, uma praia fabulosa e uma segurança sem paralelo.

Tenho muito que agradecer aos meus amigos por me terem incentivado a tomar esta atitude. Não serei concorrente a nenhuma corrida de barcos para o Corvo mas ganhei a certeza que tudo na vida é uma questão de VONTADE E ATITUDE.

Publicação: domingo, 11 de Outubro de 2009 16:35 por Luana

Comentários

# re: Em paz com o mar... @ segunda-feira, 12 de Outubro de 2009 10:49

Luana,

Apreciei ler este excelente artigo.

Comprrendi-o como uma crónica que pouco a pouco,nos vai dando a conhecer a sua relação com o mar,e todos outrs aspectos importantes, para algúem que vive nos Açores.Abre o apetite para uma visita,quanto antes,a essas ilhas maravilhosas.

Parabéns.

Um beijo.

Neno

# re: Em paz com o mar... @ terça-feira, 13 de Outubro de 2009 18:25

Olá caríssima Luaninha,

Mais um post maravilhoso e carregado de memórias. Bem me lembro do Dione, navio específico de correio, especialmente de encomendas do Continente para as Ilhas onde eu ía frequentemente com camiões cheios. Também me lembro do Ponta Delgada e do Funchal por atracarem perto do Dione ou nos intervalos deste levarem igualmente correio que eu igualmente conduzia ao Porto de Lisboa com destino às Ilhas. Assim, antes de conhecer os teus posts já eu tinha ouvido com muita frequência (entre 1975 e 1980)o  cantar dos nomes das localidades dos Açores e Madeira conforme a inscrição e a conferência das malas postais. Acontece que um carteiro que cantava as malas era açoriano e assim me habituei à pronúncia da tua Terra. Às vezes eu repetia o nome das das localidades do destino das malas imitando a pronúncia desse teu conterrâneo (como sinal de amizade e um pouco de brincadeira) e ele sorria, possivelmente porque notava a minha falta de jeito para a pronunciação.

Quanto à tua evolução em relação às embarcações, nunca é tarde para a cura. E não vou dizer mais nada, se não acabo por deixar um outro post que nunca poderia fazer concorrência ao teu.

Parabéns.

bjs

fred

AlfredoRamosAnciaes

# re: Em paz com o mar... @ terça-feira, 13 de Outubro de 2009 19:10

Luana,

Vim ver mais uma vez se já tinha aparecido o comentário acima, ou se o mesmo não estava à altura do teu post. É que demorou mais de meia hora para aparecer.

bj

fred

AlfredoRamosAnciaes

# re: Em paz com o mar... @ terça-feira, 13 de Outubro de 2009 20:24

Luana,

         A algo tão bem narrado, só posso deixar apenas a minha grande admiração. A história veridíca em si, como tudo o que este texto belissímo nos deixa.

Obrigada! E um beijo par si!

LUCINDA

# re: Em paz com o mar... @ terça-feira, 13 de Outubro de 2009 22:20

Continuo com saudades das belas imagens que sempre aqui nos deixou.

O mar é o meio que nos deixa a vontade suprema de sentir o nosso interior.

Cansado

# re: Em paz com o mar... @ terça-feira, 13 de Outubro de 2009 22:58

Olá Luana

Estou como o Cansado, cheia de saudades das tuas magníficas fotografias da ilha.

Beijinhos

OlindaGil

# re: Em paz com o mar... @ quarta-feira, 14 de Outubro de 2009 21:54

Luana,

Para quando uma semana de vindima aqui neste meu alentejo?

O mar e a vinha dois parentes próximos.

Tenho uma conterrânuia sua que veio acompanhar o filho a integrar-se  no Instituto Superior de Educação de Portalegre.Lembrei-me de sí com  uito carinho.

bjs

adri

# re: Em paz com o mar... @ quinta-feira, 15 de Outubro de 2009 7:30

Um relato bem interessante

HelderFraguas

# re: Em paz com o mar... @ terça-feira, 10 de Novembro de 2009 15:29

Olá Luana,

Um texto soberbo (admirável), lúcido, como sempre, só igualável a grandiosidade e beleza da ilha, nas fotografias que não faltam, iriam, talvez, dispersar. Não quero dizer que não tenha saudades de mais olhares, de mais excertos, de mais pedacinhos sobre, e da, ilha. Gosto mesmo muito de ver as fotografias, mas este texto mostra, espelha, muito.

Estou a corrigir uma enorme injustiça. Há muito que não deixo por aqui umas palavras sinceras e sentidas. Há muito que reservo para mim a admiração e o gosto que este espaço me dá, Tugazzar com rosto, o Henrique Caldeira de Aveiro.

Bem-haja!

Tugazzar

# re: Em paz com o mar... @ quarta-feira, 18 de Novembro de 2009 13:41

Adorei ler este texto bem empolgante

HelderFraguas

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