Violência nas escolas
Tem-se escrito e falado muito sobre violência nas escolas. Uns responsabilizam os pais e a educação no seio da família, outros consideram a sociedade culpada de tudo o que de mal acontece. Finalmente, há quem ache que é na própria escola, que ela se gera e desenvolve.
Temos que começar pelo princípio. A violência é uma desordem relacional. Essa desordem começa e acaba entre as pessoas que se violentam. Se um dos intervenientes no distúrbio, decidir que não quer brigar, o distúrbio acaba. Ou seja, sempre que há violência, há alguém que gera uma situação e alguém que alimenta essa situação, seja por acção ou por omissão.
Na violência doméstica, sabe-se que a omissão é uma atitude infelizmente comum, que é gerada pelo medo e pela insegurança. Na escola, em princípio, isso não deveria acontecer, uma vez que, uma das partes intervenientes, dispõe de autoridade sobre a outra.
As questões colocadas desta forma, parecem lineares. Infelizmente, não é assim tão simples e todos conhecemos casos, em que as situações atingiram requintes de malvadez.
A abordagem desta questão não pretende solucionar nada. Tentaremos apenas analisar alguns dos aspectos que nos parece importante deixar para reflexão a quem nos lê.
A família tem um peso enorme na vida da criança. Mesmo que os pais queiram demitir-se dessa responsabilidade, a verdade é que, cinco anos antes de ter professor, a criança tem pais, irmãos, padrinhos e ainda outros familiares e amigos. É aí que começa a sua educação cívica.
A família é, muitas vezes, desajustada da realidade: mãe solteira, divorciada, viúva, são situações que fogem de um certo conceito de família que nos é mais familiar, e é também mais comum.
Uma criança para viver em equilíbrio deveria ter uma família “normal” ou seja, com pais a viver juntos, irmãos e um lar. Na sociedade em que vivemos, esta situação já não é tão comum como no passado. Não que dizer que não possa existir boas condições afectivas em ambientes menos próximos da legalidade, mas estamos a falar do ideal.
Hoje em dia, as mães trabalham para cooperar com o marido, a criança começa cedo a conhecer outras pessoas e a interagir com elas, a lidar sensibilidades diferentes da sua e com pessoas que, mesmo respeitando a sua existência, não a amam. As mães andam cansadas, dívidas por múltiplas tarefas de sobrevivência e a criança não é, como devia ser, o centro das atenções da família. Antes dos cinco anos, a criança tem que ter cuidados e vigilância especiais. Não pode ser descurado o tratamento da sua saúde física e psicológica porque se trata de uma fase da maior importância, para que ela se torne num ser saudável e são mentalmente.
Mas, infelizmente, temos consciência da realidade que nos rodeia e sabemos que quase nunca é assim: chegam-nos notícias de crianças mortas na primeira infância pela própria família, raptadas, negligenciadas, abusadas sexualmente. Infelizmente este quadro existe no mundo inteiro e bate-nos à porta todos os dia, através dos “média” que já ninguém controla e que as crianças vêem, muitas vezes, à revelia de qualquer orientação.
Nalgumas famílias, passa-se o oposto. As crianças são sufocadas com excesso de afecto, excesso de brinquedos, excesso de atenção e a tendência é para que se transformem em “pequenos tiranos” que reclamam “espaço para ser”. Não se julgue que esta forma de educar, é melhor que todas as outras. A criança precisa de espaço para se afirmar e de liberdade para se sentir em contacto com a vida. Como afirmava Goethe “remar, é duro, mas enrijece”. As crianças precisam de viver as várias etapas do seu desenvolvimento em harmonia e em paz mas com liberdade e autoridade.
Parece que a autoridade pode ser uma das pontas deste imenso “icebergue” que é a violência. Perdeu-se o conceito de autoridade, nos corredores de uma liberdade que começou por ser uma coisa muito bonita na criatividade e na formação de opinião, e que hoje vagueia por aí, alcandorada em conceitos muito enganosos de “direitos” que não existem nos códigos de ética de nenhum mundo civilizado.
A criança não gosta de adultos que se infantilizam ou que cedem facilmente aos seus caprichos. As crianças gostam de adultos que cresceram o suficiente para as entender mas também para lhes fazer regras. Amar não é submeter-se nem submeter, é acompanhar, é gerar um ambiente de confiança, paz e segurança. Esse ambiente só pode ser oferecido por uma família amadurecida e consciente.
Não estamos aqui a criar cenários impossíveis mas temos consciência da dificuldade que é, educar nos tempos que correm, mesmo num tempo em que, aparentemente, todos podemos dispor de mais apoios e cooperação para a resolução de problemas individuais.
A verdade é que as crianças de hoje vivem uma crise de afectos que pode ser responsável pela violência. Acreditamos que a uma incorrecta “gestão dos afectos” da criança pode ser a causa mais importante deste desaforo que tanta insegurança tem criado.
Analisando melhor a questão, convém aprofundar um pouco mais, aquelas que nos parecem ser, as causas imediatas da violência infantil, como consequência daquilo que se acabou de dizer:
As crianças deixaram de ter sonhos; ou vivem numa penosa realidade ou num paraíso onde nada lhes falta; deixou de ser “chique” falar às crianças de dificuldades financeiras e outras. Tem-se receio de “traumatizar” a criança com a realidade. A criança vive distanciada do mundo e dos outros, com o ecrã da televisão por companhia, num mundo que não existe…
As crianças abandonadas defendem-se, as superprotegidas também.
E eles só podem defender-se usando os modelos que têm.
E que modelos têm as crianças?
Os modelos que os adultos lhes ensinaram.
As crianças de hoje reflectem a nossa inquietação. Eles fazem o que nós lhes ensinamos a fazer. Às vezes são desabridos com os outros como nós somos com eles, quando são intolerantes reflectem a nossa intolerância, quando são mal-educados fazem aquilo que nós fazemos, falam alto porque nós erguemos a voz muitas vezes na frente deles, são incorrectos porque viram na nossa vida momentos de incorrecção…
Não é difícil perceber que, nestas coisas da educação cada um de nós tem a sua quota-parte de responsabilidade. O problema é que nos habituamos a enjeitar a nossa culpa, atirando-a para o lado de lá deste nosso incómodo de nos sentirmos responsáveis por isto e aquilo. Porque uma vida sem responsabilidades é muito mais fácil, pensamos nós. Mas pensamos isso porque a sociedade em que vivemos, nos tem oferecido também, motivos para pensarmos que é melhor desistir do que lutar ou então, enveredar pelos caminhos mais fáceis mesmo que mais sinuosos.
E nós desistimos do amor, da luta, do trabalho… Tudo nos cansa, começamos um ano a dizer mal do anterior, começamos o dia de trabalho cansados, a denegrir na imagem da colega, na atitude do chefe, no sindicato, no governo. Nada nos mata a sede de excelência que nos esforçamos pouco por alcançar pessoalmente.
Como podemos interagir correctamente com os mais pequenos se estamos descontentes com tudo?
Como é possível que as crianças sejam serenas, se vivem rodeadas de intranquilidade?
Como queremos que sejam educados se ouvem criticar tudo e todos, sem qualquer cuidado, na linguagem e naqueles que criticamos?
Como queremos que eles respeitem os mais velhos se nós não respeitamos, se se fala mal de toda a gente na frente deles, se se critica quem governa e quem manda, se às vezes os professores deles, são também alvo da nossa chacota?
É este o mundo em que viemos. E neste rascunho, fez-se uma rápida fotografia da sociedade em que vivemos. Não vale a pena introduzir no Photoshop para retocar a cor.
Para bom entendedor… já todos sabemos concluir que “de pequenino se torce o pepino” , que “devagar se vai ao longe”, que “a palavra atrai, o exemplo arrasta”, etc, etc.
Não temos necessidade de procurar um inimigo sem rosto que arraste a culpa que não queremos ver. Talvez ele coabite connosco na indiferença que hoje colocamos em quase tudo o que fazemos e nas responsabilidades, mesmo as mais básicas, que não queremos partilhar. Provavelmente, todas as sociedades civilizadas, passaram por momentos muito difíceis a nível das relações humanas. A nossa estará, neste momento, a viver uma crise de identidade e de identificação a que não é estranha a questão educativa e esta violência colectiva que “sabe” a desespero e a desorientação profundas.
Gabriela Silva
(publicado também na Newsletter do CIPA)