SOL

Luana- a Gabriela Silva das Flores

Na senda do novo paradigma!

O meu conto de Natal para o SOL

Este ano, decidi dar um salto à Lapónia no mês de Setembro. Pensei, e julgo ter pensado bem, que devia visitar o Pai Natal na terra dele. Esta coisa de enviar cartas pelo correio para um desconhecido, de uma terra tão distante, não me parece boa política. Há sempre o perigo da correspondência não chegar ao destino. Ninguém me garante que a secretária do Pai Natal não possa abrir as cartas e esquecer-se de algum pedido. Como sempre ouvi dizer que “mulher prevenida vale por duas”, decidi ser eu a procurar o dono dos presentes de Natal para termos uma conversa amigável acerca destes assuntos.

Apanhei a Sata e lá fui eu até S. Miguel, de S. Miguel para Lisboa e depois foi um tal de voar até à Lapónia. Um voo difícil e longo, com muitas paragens, em companhias estrangeiras, uma vida negra daqui até lá.

Cheguei muito, mas muito cansada. Exausta. Fui direita para o Hotel para dormir uma soneca e comer uma sopa, antes de procurar o Pai Natal.

Acordei ao fim da tarde porque tinha chegado de manhã. Estava quentinho no quarto mas, quando levantei a cortina para conhecer a cidade, tive uma grande surpresa: estava tudo coberto de neve! Tudo branco, branco, como eu nunca tinha visto pessoalmente. Comecei logo a perceber porque é que o Pai Natal aparece sempre nos postais e na televisão, todo agasalhado e rodeado de neve, renas e trenós. São tudo coisas normais na terra dele. Nada como visitar uma terra, para ficar a entender as coisas.

Na recepção do hotel pedi um táxi. Quando entrei, pedi ao taxista que me levasse ao palácio do Pai Natal. O homem olhou-me de alto e baixo, sorriu e disse:

- Não és de cá!

- Não, sou dos Açores. Nunca tinha vindo cá. Mas tu sabes onde é o palácio do Pai Natal, não sabes?

O homem que era um velhote simpático, de barba ruiva e olhar azul, sorriu novamente com os olhos cor de mar em dia de sol, e respondeu:

- O Pai Natal não está no Palácio nesta altura do ano. Está nos armazéns de presentes a trabalhar muito e a preparar reuniões com os outros.

- Os outros?

Fiquei muito inquieta. Outros? Mas quantos Pais Natais existem afinal? Qual será mesmo o verdadeiro? E onde estão os outros?

O homem, dos olhos da cor do mar da minha ilha, sorria com muito carinho. Arrancou com o carro pela estrada fora e, em menos de nada, levou-me ao pé de uma porta imensa de onde entravam e saíam camionetas de carga em fila indiana. Dentro, estavam embrulhos e mais embrulhos, envolvidos em papéis de muitas cores, ornados com laços e fitas de todos os estilos. Tive então a certeza: estava cada vez mais perto de ver as coisas assim, ao vivo, como sempre sonhara!

Entrei por um desses portões imensos, com muita cautela, para não ser atropelada. Não podia correr o menor risco, até estar frente a frente com ele. Mas tu não imaginas como é que eu tinha o coração. Pensei que me ia saltar pela boca. Comecei a sentir uma sede muito grande, um medo terrível mas, como não sou de me deixar assustar, fui sempre em frente.

Nunca devemos desistir dos nossos sonhos, pensava eu.

Não sei ao certo quem me disse esta frase mas eu tinha a certeza que, quem não vai à luta, não aprende nada de novo. Eu tinha que ver com os meus olhos, falar com ele, saber detalhes. A vida de um Pai Natal não pode ser igual à minha, que só saio da ilha quando estou doente. Um Pai Natal deve ser forte homem de negócios, com uma vida super, agitadíssima, mas muito interessante.

Fui andando por corredores imensos e só via brinquedos. Mas muitos, muitos brinquedos. Caixas e caixas de bonecas de todos os tamanhos e feitios, vestida de todas as cores e modelos, computadores portáteis de muitos tamanhos diferentes, televisores, Consolas, carrinhos, tudo, tudo, em fileiras imensas.

Estava tão cansada que parei por uns minutos, no meio daquelas coisas todas, para respirar um pouco. Fiquei ali a imaginar-me dona de todos aqueles brinquedos, a dar a todos os meninos da ilha coisas lindas de morrer. Era muito bom ser Pai Natal. Estava cada vez mais fascinada com a ideia de entrevistar o velho das barbas brancas e saber tudo acerca daquele mundo fantástico onde havia tanta cor e tanto brinquedo.

Reiniciei o meu percurso até que encontrei uma menina muito bonita, toda vestida de vermelho, que sorria como uma flor na primavera e tinha uma voz metálica que parecia música. A menina olhou para mim mas nem me ligou. Havia imensa gente a entrar e a sair e ela deve ter pensado que eu era apenas mais uma dessas pessoas que trabalham na gigantesca empresa do Pai natal.

Deixei que ela pensasse o que bem lhe apetecesse, porque tinha avistado um garrafão de água fresquinha. Peguei num copo e enchi-o. Bebi a água de um só fôlego. Que sede! Que dia difícil estava a ser aquele.

Mas não há nada como ir em frente e, agora, com a água a fazer música na minha barriga vazia de comida mas cheia de ilusões, lá fui pelo corredor. Parei em frente a uma imensa porta branca com efeitos dourados.

Ora bem, pensei, só pode ser aqui! Isto tem todo o ar de gabinete de gente importante!

Bati com os nós dos dedos na porta imensa. Houve um silêncio terrível dentro de mim… A porta era pesadíssima e não me parecia nada que se ouvisse o meu bater de porta. Fácil, fácil seria sentir as batidas do meu coração que se tinha tornado entretanto, pequenino, pequenino que eu sei lá.

De repente, sem que eu tivesse mesmo tempo de pensar se valia a pena bater de novo, eis que a porta se abre. Uma rapariga morena, linda, vestida de vermelho, sai pela porta com um sorriso de orelha a orelha. Sem manifestar qualquer admiração com a minha presença, pergunta-me à queima-roupa

- Vens para falar com o Pai Natal, não é verdade?

- Sim, venho, disse eu titubeante e medrosa. Como sabe?

- Nesta altura do ano é comum. Há muitas pessoas como tu, que querem saber tudo sobre ele e não resistem a visitar-nos.

E antes mesmo que eu lhe explicasse ao que vinha, ela deu-me passagem para uma imensa sala, toda forrada de branco, uma forra tipo pele de ovelha em relevo. Atrás de uma imensa secretária vermelha, estava um homem muito simpático, de fato vermelho, sim, mas sem capuz (ele estava dentro de casa, claro), sem botas, sem cinto e…. Surpresa das surpresas: magro, muito magro.

Fiquei uns momentos sem palavras. Ele era giro, gostei dele, mas era magro, careca, não tinha barbas e estava de chinelos.

Não sei quanto tempo durou a minha surpresa. Sei que já tinha a mão no bolso a tocar o papel que tinha redigido no avião com as últimas perguntas. Mas não foi preciso tirar nada nem colocar questões porque o Pai natal, naturalmente porque percebeu a minha atrapalhação, começou a responder a tudo como se tivesse lido o papel que eu redigira a rigor para aquela entrevista especial. Fez um sinal para que me sentasse, sentou-se também e olhando-me nos olhos, com um sorriso muito simpático, disse assim:

- Eu sabia que um dia virias aqui. Toda a gente gosta de saber como funciona a nossa vida aqui na Lapónia. E digo nossa, porque já deves ter percebido que não há apenas um Pai Natal mas muitos e muitos Pais Natais como se pode perceber.

Eu não podia dar a volta ao mundo sozinho. Um Pai Natal não é mais do que um homem de boa vontade. O que verdadeiramente caracteriza o Pai Natal é essa imensa vontade de ajudar, esse desejo de ser útil. Estamos aqui para receber as ajudas que nos chegam do mundo inteiro ao longo de todo o ano. Estão sempre a chegar camiões carregados de brinquedos, de bombons, roupas e muitas, muitas outras coisas. Temos muitos amigos no mundo inteiro, muitos mesmo. De todos os países chegam ajudas importantes que vamos guardando porque a distribuição, essa sim, faz-se pelo Natal, ao mesmo tempo no Mundo inteiro para fazer felizes todas as pessoas na comemoração do nascimento do Menino Jesus.

Depois de conversarmos, irei mostrar-te as nossas instalações. Temos muitos departamentos de recepção das cartas do mundo inteiro, de embalagem dos presentes, de separação de artigos, enfim. Muita coisa. Trabalhamos muito. E olha que tiveste sorte. Hoje, o dia não está mau e a minha agenda não estava sobrecarregada. Daqui a uns dias, quando começarem a chegar os Pais Natais do mundo inteiro, não te digo nada. Temos sempre que fazer uma mega reunião para acertar detalhes e tratarmos dos fatos. Já deves ter percebido que sou magro e não gordinho como o Pai Natal que tens na cabecinha. Mas tivemos que fazer isto, para darmos alegria a todos os meninos do mundo, percebes? Todos sabemos que ser gordo, é mau para a saúde e nós somos muito necessários a todos os meninos.

Só comemos o que é realmente necessário. Até te digo mais: todos comemos sopa e fruta todos os dias. Também bebemos leite e comemos iogurte, mas gorduras e chocolates, só mesmo no Natal. Mas também como andamos muito e fazemos muito exercício, não nos faz grande mal. Eu, por exemplo, transpiro muito com o fato de Pai Natal e com aquelas barbas brancas a que as crianças acham tanta graça. Se reparares bem, ficamos lindíssimos, todos vestidos de igual e, quando acabamos de nos arranjar, antes de partirmos para a nossa missão, brincamos todos juntos com balões, bolas de sabão e muita música. Adoramos ajudar e brincar. As pessoas boas são muito divertidas.

A verdade, continua ele, é que, aqui na Lapónia, já temos Pais Natais com verdadeiras barbas brancas. São velhinhos, mas ainda gostam de ajudar. Já não mudam de país e, mesmo aqui na Lapónia, já só fazem as chaminés dos arredores. Vestir o fato e partir à luta, somos nós os mais novos.

- Espero que estejas satisfeita - disse ele

Disse que sim com a cabeça. Claro que estava satisfeita. Tinha entendido tudo. Um Pai Natal é um homem de boa vontade, que gosta de dar e ajudar toda a gente.

A existência de mais do que um Pai Natal é uma coisa interessante. E eu, que nunca tinha pensado numa coisa dessas! Afinal o Mundo é um lugar muito bonito onde acontecem coisas muito interessantes…

Começo a pensar que não precisava de ter ido à Lapónia para saber isto. Mesmo na ilha, aparecem tantas vezes Pais Natais tão giros para dar presentes. Devem ser homens de boa vontade que gostam de ver os outros felizes.

Foi uma ideia muito gira vesti-los todos de igual!

PS: Tenho sido uma das mais ausentes mas não abandonei o espaço nem penso abandoná-lo.

Um abraço fraterno com votos de um Feliz Natal para todos da vossa

Gabriela Silva 

 

Publicação: sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009 22:13 por Luana

Comentários

# re: O meu conto de Natal para o SOL @ sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009 23:08

Luana,

Como sempre ler-te é ficar aqui a saborear cada palavra, cada sentido.

O sonho mora tão perto e por vezes não nos apercebemos de tal. Que todos os contos do teu Pai Natal se concretizem na humanidade.

Mesmo distanciada, continuas a fazer parte desta comunidade que te acarinha,

Um Santo Natal...com tudo de bom.

bjs

Eduarda

Meduarda

# re: O meu conto de Natal para o SOL @ sábado, 19 de Dezembro de 2009 0:45

Querida Luana

Os teus posts sempre me deliciaram.

Fazes muita falta por cá, não nos deixes sem as tuas palavras por tanto tempo.

Beijinhos

OlindaGil

# re: O meu conto de Natal para o SOL @ sábado, 19 de Dezembro de 2009 1:03

Bem-vinda amiga Luana.

Façamos de nossa vida uma extensão da noite de Natal,

renascendo continuamente em amor e fraternidade.

Natal, noite de alegria, Canções, festejos, bonança.

Que o teu coração floresça Em amor e esperança!

Festas Felizes

Bjs

Talina

Talina

# re: O meu conto de Natal para o SOL @ sábado, 19 de Dezembro de 2009 1:48

Gabriela,

Gostei muito do teu conto, principalmente porque fala daquelas coisas que o mundo precisa em abundância, como por exemplo, a "boa vontade" essa frase que trás a paz consigo em qualquer circunstância ou época.

Também gostei de uma boa coincidência, saber que temos amigos comuns,como por exemplo, a família Batalha.Como sou um pouco descuidada nas minhas rondas pelos blogues só agora estou a dar os beijinhos que eles deixaram para ti.

Desejo que estejas bem disposta e que tenhas um Natal com muita Paz e tranquilidade.

Beijos,

Daniela

portocego

# re: O meu conto de Natal para o SOL @ quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009 16:58

Adorei o conto!...

Votos de um Feliz Natal e um Ano Novo com tudo de bom na Sua vida e na vida de todos os que ama.

Boas Festas!

João

joaocarreira

# re: O meu conto de Natal para o SOL @ quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009 2:22

Obrigado por não abandonares o espaço. Obrigado, Mãe Natal, pela partilha, que muito apreciei.

Com muita estima, bom ano de 2010!

Tugazzar

# re: O meu conto de Natal para o SOL @ sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010 0:53

Olá Luana,

Já com muito atraso mas cá estou eu a apreciar o teu belo conto.

Espero que tenhas passado boas e merecidas férias pelas Europas a fora.

bjs

fred

AlfredoRamosAnciaes

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