E vou falar de política!
Hoje queria falar de política. Sim, de política. Consciente que tive uma evolução dinâmica na minha vida acerca dessa questão, gostava hoje de colocar à consideração dos leitores uma questão que me preocupa.
Todos nós mentimos muito. Mentimos todos os dias de forma consciente. É normal que assim seja. Quando nos perguntam se estamos bem e mentimos dizendo que estamos excelentes, isso pode querer dizer apenas, que não desejamos aborrecer o nosso interlocutor com os nossos problemas e as nossas limitações. Quando dizemos que o nosso filho, que até chumbou o ano e anda na droga, está excelente e quase a acabar o curso, estamos a ocultar a tristeza que nos dá a situação concreta. Quando dizemos que a patroa que nos paga ao fim do mês é um pessoa espectacular quando até nem gostamos dela, pode querer dizer que afinal somos pessoas civilizadas e respeitamos quem nos paga o ordenado. E poderia citar aqui milhares de situações em que todos mentimos de forma consciente e deliberada, cientes que estamos a fazer aquilo que é melhor para nós e para os outros. E eu sou a primeira a admitir que isso é verdade.
Na política, isso acontece de forma um pouco diferente mas muito mais apaixonada e perigosa porque pode fazer com que aqueles que nos ouvem, acreditem naquilo que dizemos e pensem que é verdade, uma vez que, sendo a televisão, um bem recente na nossa cultura, ainda há quem pense que quem ali fala, tem que ser gente séria. Infelizmente, nem sempre assim é.
Há muitos anos atrás, utilizava palavras em catadupa para dizer o que sentia e, muitas vezes, diria mesmo que quase sempre, deixava uma mensagem excessivamente extensa e nem sempre clara. Há muita gente assim e, pior ainda, é o facto de muita gente, ao abrigo de uma liberdade que todos pensamos ter conquistado com o 25 de Abril, serem chamados a emitir opinião sobre assuntos que conhecem mal, muito mal, quando não veiculam mesmo informação diferida, dada em segunda mão, depois de terem ouvido algo semelhante pela boca de outras pessoas. Acontece muito e os líderes políticos são, nos tempos que correm, responsáveis por veicular opinião partidária falsa que pode ser perigosa.
Estava hoje a ver televisão por uns momentos, contrariando uma tendência a que quero dar continuidade, de não ver televisão diariamente porque me parece uma perda de tempo para além de provocar uma verdadeira inflamação na parte do meu cérebro responsável pela “opção consciente”. Para além de que, neste momento, a televisão fala muito mais de coisas tristes e desagradáveis que de coisas boas. E é de coisas boas que nos devemos alimentar. Estava a ser entrevistado o Dr. Pedro Santana Lopes que é, indubitavelmente, um político inteligente e um orador incrível. Hoje, na sua melhor forma, foi vê-lo a falar durante uma hora respondendo a perguntas, sem respirar, com uma opinião centrada e lúcida acerca dos mais diferentes males que atormentam o nosso país. A entrevista pode ser vista de muitas maneiras, tantas quantas as pessoas que estavam em frente ao écran. Mas como nem todos os portugueses viram, vou referir alguns items que me parece dever destacar:
Criticou Cavaco Silva por ter promulgado a permissão do casamento entre pessoas do mesmo sexo e deixou claro qe não vai votar nele. Ele sabe que Cavaco Silva está a enfrentar dificuldades por esse facto e aproveita, bem ao gosto da comunicação social, para acentuar essa tónica, para dar a entender uma coisa que nem ele próprio acredita, que é da dificuldade que Manuel Alegre representa neste contexto eleitoral. Mais, ele mostra “compaixão” por José Sócrates de uma forma tão intensa que até parece verdade considerando as dificuldades imensas que ele teve no inicio do mandato e desculpabilizando-o pelo facto de ter dado apoio a Manuel Alegre, coisa que ele sabe bem como se passou porque toda a gente sabe. Mas tem mais: ele até emitiu uma opinião interessante alusiva ao PCP e mesmo muito elogiosa.
Isto serve para dizer que Santana Lopes é político que é o mesmo que dizer que ele sabe o que quer, sabe o que não quer, mas diz aquilo que é mais conveniente que seja dito, no dia e na hora que ele sabe ser melhor agir e falar desta ou daquela forma.
Mas muito melhor que este episódio foi o anúncio do fecho de todas as escolas portuguesas com menos de 20 alunos ainda durante este ano. A Ministra da Educação fez o anúncio como se estivesse a dizer uma coisa fantástica. Utilizou mesmo um sorriso de vedeta e é caso para se dizer que o Globo de Ouro da Caras para a revelação de 2010 não vai poder ser para outra pessoa! Chama-se a isto “reverter” uma situação que pode gerar desconforto transformando-a numa boa notícia. E diga-se em verdade que, no meio da crise que por aí anda, a mulher foi engraçadíssima. Na realidade, neste momento, não será possível avaliar se esta decisão é muito boa ou muito má mas, em termos económicos até parece não ser nada do outro dentro da situação que o país vive. As crianças preocupam-me muito mas há muito para fazer por elas que não é contemplado nesta situação concreta e que ninguém faz. Seja como for, o anúncio podia ter sido feito com normalidade dizendo aquilo que é verdade: a educação é um sector caro e este governo não está “nem aí”. Não é preciso organizar uma peça de teatro para dizer coisas tão óbvias como esta.
Enfim… os episódios patéticos têm sido mais que muitos. E toda a gente fala e diz coisas incríveis acerca de tudo. Quase sempre sem entender grande coisa.
O povo português gosta de protagonizar dramas intensos. A comunicação social portuguesa também não se demite de contar tudo o que de menos bom ande a acontecer. Isto é a política que temos. Um país desmoralizado e cheio de gente triste é muito mais fácil de governar. E nós andamos todos a dar o “flanco” há muito tempo.
Gabriela Silva