As minhas reflexões
Escrever nem sempre é bom.
Nalguns dias, os dedos ardem-me e sinto um imenso desconforto com as palavras.
Noutros momentos, doem-me os olhos da alma de entrar a direito na vida, nas
minhas reflexões de todos os dias. Tenho esta forma negra de olhar a falta de
compaixão e a ausência de bom senso. Como se eu própria pudesse ser um exemplo
de alguma coisa!
Está uma humidade muito acima do
desejável. Penso que é a humidade que os açorianos devem quase tudo: o carácter
e o verde. Não se pode ter uma floresta tropical por aí e, ao mesmo tempo, ter
um calor de alentejanos! É o que é. Não há causas sem consequências e na
natureza isso é fatal. O verde e a água que proliferam por estas ilhas fazendo
delas as divas do atlântico, não se compadecem do nosso cansaço! Desta inércia
açoriana que nos deixa a todos num “relaxo” gostosíssimo nesta altura do ano
que não há quem queira parar em casa!!!! Não há crise que agente um açoriano
dentro de casa no mês de Agosto. Ou à porta da tasca ou à porta de casa ou
então nas mil esplanadas que existem em cada canto, estamos todos nós até que o
sol se ponha e o atlântico envie aquela mornaça nocturna que nos deixa os
braços húmidos do prazer da brisa que nos acaricia a pele cansada do bafão
húmido de um dia de sol cheio de nuvens caprichosas a ameaçar chuva de vez em
quando.
Ontem, as Sete Cidades estavam
envoltas num véu de nevoeiro. Aqui e além uma aberta, uma esperança, uma
incerteza. O nevoeiro tem esta coisa, este pré-anúncio de mistério. Esconderijo
misterioso, o nevoeiro é uma espécie de bola de cristal. Só alguns olhares
ousam entrar na mancha baça, sem medo! Ao volante, na noite, o nevoeiro parece
ainda mais intrigante. Tudo se agiganta no meio dele. Como se fosse possível
praticar crimes de amor e luxúria no anonimato do medo, no coração da ilha
envolta num véu de noiva fugida por mar ao casamento indesejado!!!!
Nas Sete Cidade sentem-se prantos
e requebros. Alguma coisa especial fez nascer ali duas lagoas tão irmãs e ao
mesmo tempo tão diferentes. Dizem que o pranto de dois amantes encheu as duas
lagoas com as cores dos seus olhares. Tanto pranto azul! Como azul deve ser o
pranto das sereias que se confunde com o mar. O mar também é pranto de
navegadores, baba de estranhas sereias e pranto de medo! Mas o mar tem muito
mais. No mar há o ronco dos cetáceos, o sibilar dos búzios pequenos e o som
rouco dos búzios grandes, daqueles que chamam os peixes para as reuniões. E há
sons de ninfas em dia de festa. E há o glu glu dos peixes!!!
Não é minha intenção escrever
histórias ara crianças. Até parece. Mas é esta parte de mim que quer sempre
voltar a casa que mexe nestas memórias de uma infância que talvez nem tive!
Pois, na Fazenda ouvia-se dizer que era perigoso r ao calhau, que lá morriam
pessoas num “redemoinho” que fazia junto `pedra e que engolia as pessoas sem
deixar rasto. Era no porto da Lomba que fazia esse mar. O mesmo que nos roubou
a Eugénia numa tarde de verão que colocou a ilha toda em alvoroço. Recordação
macabra desse dia! Toda a gente chorava. Hoje em dia, já ninguém chora. A malta
morre de overdose ou de acidente de carro! Ou são mortos. Ou desaparecem sem
deixar rasto. Os mais novos fazem um grande teatro mas esquecem depressa. Faz
parte da natureza da juventude esquecer depressa! Hoje em dia ninguém quer
sofrer. Nem os pais deixam! Os pais de hoje não dão às crianças a oportunidade
de experimentarem o sofrimento! Compreende-se! E, no entanto, há crianças
fantásticas nos tempos que correm.
Eu tenho uma amiga chamada
Mariana que é um encantamento para mim. A Mariana é a filha da Luísa. Mas a
grande qualidade é dela, muito dela. A Mariana é uma menina feliz, muito amada
e com uma infância absolutamente normal. Tem a amizade da Laura que é uma
estrela na Fazenda e em todo o lado por onde passa. A Laura é outra mulher-menina
com uma alma muito maior que o corpo que nasceu para nos resgatar a todos!
Também ela adora a Mariana que tem no olhar a limpidez do mar da ilha e nas
palavras a seriedade de uma menina que acredita em tudo o que deve acreditar.
Acredito que nunca lhe mentem e isso sente-se na pureza da sua presença. Ela
vai escrever uma história para apresentarmos juntas. Um arranjo orquestral de
primeira! Uma aventura que vai ser excelente para ambas, tenho a certeza!
Tenho paixão pelas pessoas da
minha terra e por aquelas que, não sendo dela, vivem por ali como se aquilo
lhes estivesse nas veias. Há pessoas que contribuíram muito para tornar a ilha
especial! Uma delas foi a Mariana do belga! Ela nunca foi conhecida senão
assim. Ela não era dela, era do belga. Este ano, soube que partiu. Percebi logo
que faltava alguma coisa na ilha. Era a Mariana. Uma mulher com uma
sensibilidade superior que tocava harpa, cantava, mugia as ovelhas e fazia
queijo, desenhava e criava tshirts, vendia recordações das Flores com design
seu e, à noite, era empregada de mesa e dona de um restaurante que não durou
muito mas deixou uma marca na gastronomia florentina. Nem fui íntima da Mariana
mas sofri muito com a sua partida porque ela tinha uma relação cósmica com a
ilha, com as pessoas e com a vida. Era uma mulher sofrida no sorriso e na
atitude discreta e silenciosa que mantinha com toda a gente. Falava várias
línguas e era um apoio importantíssimo para a comunidade estrangeira nas
Flores. A ilha deu-se conta da partida dela. E eu também percebi porque ao
passar pela estrada das Lajes e ao fixar a tabuleta do Restaurante do Rei, o
meu coração disse-me que já ali não vivia a princesa encantada. Não sei o que
aconteceu nem vou nunca perguntar o fim desta história porque das princesas
nunca se sabe o fim mas deseja-se sempre que seja o melhor.
Eu
podia ficcionar a minha escrita e chamar Maria a todas as mulheres e José a
todos os homens. Isso não me afastava dos cânones de uma escrita limpa e
espúria. Mas tirava-lhe o que de melhor tem a escrita que é a autenticidade!