SOL

Luana- a Gabriela Silva das Flores

Na senda do novo paradigma!

As minhas reflexões

Escrever nem sempre é bom. Nalguns dias, os dedos ardem-me e sinto um imenso desconforto com as palavras. Noutros momentos, doem-me os olhos da alma de entrar a direito na vida, nas minhas reflexões de todos os dias. Tenho esta forma negra de olhar a falta de compaixão e a ausência de bom senso. Como se eu própria pudesse ser um exemplo de alguma coisa!

Está uma humidade muito acima do desejável. Penso que é a humidade que os açorianos devem quase tudo: o carácter e o verde. Não se pode ter uma floresta tropical por aí e, ao mesmo tempo, ter um calor de alentejanos! É o que é. Não há causas sem consequências e na natureza isso é fatal. O verde e a água que proliferam por estas ilhas fazendo delas as divas do atlântico, não se compadecem do nosso cansaço! Desta inércia açoriana que nos deixa a todos num “relaxo” gostosíssimo nesta altura do ano que não há quem queira parar em casa!!!! Não há crise que agente um açoriano dentro de casa no mês de Agosto. Ou à porta da tasca ou à porta de casa ou então nas mil esplanadas que existem em cada canto, estamos todos nós até que o sol se ponha e o atlântico envie aquela mornaça nocturna que nos deixa os braços húmidos do prazer da brisa que nos acaricia a pele cansada do bafão húmido de um dia de sol cheio de nuvens caprichosas a ameaçar chuva de vez em quando.

Ontem, as Sete Cidades estavam envoltas num véu de nevoeiro. Aqui e além uma aberta, uma esperança, uma incerteza. O nevoeiro tem esta coisa, este pré-anúncio de mistério. Esconderijo misterioso, o nevoeiro é uma espécie de bola de cristal. Só alguns olhares ousam entrar na mancha baça, sem medo! Ao volante, na noite, o nevoeiro parece ainda mais intrigante. Tudo se agiganta no meio dele. Como se fosse possível praticar crimes de amor e luxúria no anonimato do medo, no coração da ilha envolta num véu de noiva fugida por mar ao casamento indesejado!!!!

Nas Sete Cidade sentem-se prantos e requebros. Alguma coisa especial fez nascer ali duas lagoas tão irmãs e ao mesmo tempo tão diferentes. Dizem que o pranto de dois amantes encheu as duas lagoas com as cores dos seus olhares. Tanto pranto azul! Como azul deve ser o pranto das sereias que se confunde com o mar. O mar também é pranto de navegadores, baba de estranhas sereias e pranto de medo! Mas o mar tem muito mais. No mar há o ronco dos cetáceos, o sibilar dos búzios pequenos e o som rouco dos búzios grandes, daqueles que chamam os peixes para as reuniões. E há sons de ninfas em dia de festa. E há o glu glu dos peixes!!!

Não é minha intenção escrever histórias ara crianças. Até parece. Mas é esta parte de mim que quer sempre voltar a casa que mexe nestas memórias de uma infância que talvez nem tive! Pois, na Fazenda ouvia-se dizer que era perigoso r ao calhau, que lá morriam pessoas num “redemoinho” que fazia junto `pedra e que engolia as pessoas sem deixar rasto. Era no porto da Lomba que fazia esse mar. O mesmo que nos roubou a Eugénia numa tarde de verão que colocou a ilha toda em alvoroço. Recordação macabra desse dia! Toda a gente chorava. Hoje em dia, já ninguém chora. A malta morre de overdose ou de acidente de carro! Ou são mortos. Ou desaparecem sem deixar rasto. Os mais novos fazem um grande teatro mas esquecem depressa. Faz parte da natureza da juventude esquecer depressa! Hoje em dia ninguém quer sofrer. Nem os pais deixam! Os pais de hoje não dão às crianças a oportunidade de experimentarem o sofrimento! Compreende-se! E, no entanto, há crianças fantásticas nos tempos que correm.

Eu tenho uma amiga chamada Mariana que é um encantamento para mim. A Mariana é a filha da Luísa. Mas a grande qualidade é dela, muito dela. A Mariana é uma menina feliz, muito amada e com uma infância absolutamente normal. Tem a amizade da Laura que é uma estrela na Fazenda e em todo o lado por onde passa. A Laura é outra mulher-menina com uma alma muito maior que o corpo que nasceu para nos resgatar a todos! Também ela adora a Mariana que tem no olhar a limpidez do mar da ilha e nas palavras a seriedade de uma menina que acredita em tudo o que deve acreditar. Acredito que nunca lhe mentem e isso sente-se na pureza da sua presença. Ela vai escrever uma história para apresentarmos juntas. Um arranjo orquestral de primeira! Uma aventura que vai ser excelente para ambas, tenho a certeza!

Tenho paixão pelas pessoas da minha terra e por aquelas que, não sendo dela, vivem por ali como se aquilo lhes estivesse nas veias. Há pessoas que contribuíram muito para tornar a ilha especial! Uma delas foi a Mariana do belga! Ela nunca foi conhecida senão assim. Ela não era dela, era do belga. Este ano, soube que partiu. Percebi logo que faltava alguma coisa na ilha. Era a Mariana. Uma mulher com uma sensibilidade superior que tocava harpa, cantava, mugia as ovelhas e fazia queijo, desenhava e criava tshirts, vendia recordações das Flores com design seu e, à noite, era empregada de mesa e dona de um restaurante que não durou muito mas deixou uma marca na gastronomia florentina. Nem fui íntima da Mariana mas sofri muito com a sua partida porque ela tinha uma relação cósmica com a ilha, com as pessoas e com a vida. Era uma mulher sofrida no sorriso e na atitude discreta e silenciosa que mantinha com toda a gente. Falava várias línguas e era um apoio importantíssimo para a comunidade estrangeira nas Flores. A ilha deu-se conta da partida dela. E eu também percebi porque ao passar pela estrada das Lajes e ao fixar a tabuleta do Restaurante do Rei, o meu coração disse-me que já ali não vivia a princesa encantada. Não sei o que aconteceu nem vou nunca perguntar o fim desta história porque das princesas nunca se sabe o fim mas deseja-se sempre que seja o melhor.

Eu podia ficcionar a minha escrita e chamar Maria a todas as mulheres e José a todos os homens. Isso não me afastava dos cânones de uma escrita limpa e espúria. Mas tirava-lhe o que de melhor tem a escrita que é a autenticidade!

por Luana | 3 Comentário(s)

Como atrair tudo o que desejamos

Algumas dicas para colocar-se no ponto de atração:

1. Seja incrivelmente egoísta. Tudo aquilo que aprendeu sobre ser feio ser egoísta, esqueça! Se quer atrair alguma coisa ou situação, vai precisar da sua atenção focalizada em você!

2. Comece a ser irresistível para si mesmo! Como atrair os outros se não consegue nem ser atraente para si?

3. Comece a valorizar tudo simplesmente pela emoção boa que isto causa a você. Os outros vão sentir-se atraídos por sua vibração de valor.

4. Aprenda a ser super discreto, isto é, atento e prudente com os outros. A discrição é irresistivelmente atraente.

5. Evite reagir ao que lhe acontece. Pare, pondere e 'responda' ao que aconteceu. Responder a uma situação é diferente de reagir. A reação é impulsiva, a resposta é pensada, sentida, alinha vibratoriamente e lançada! Vai atrair uma resposta na mesma frequência.

6. Impressione os outros profundamente com o que tem melhor em si. Não se faça de bacana, você tem muita coisa boa para mostrar sem precisar fazer 'tipo'.

7. Jamais se embarace por mostrar suas qualidades e talentos. Fale deles com naturalidade com a pura intenção de mostrar sua capacidade.

8. Esqueça o futuro. Se quer atrair alguma coisa ou situação é para atrair agora, no seu presente momento. Não dá para atrair no mês que vem nem no mês passado, certo?

9. Queira uma vida compensadora para seu prazer e não para se mostrar para os outros. Uma pessoa que ama a própria vida que leva, torna-se muito atraente e sedutora.

10. Ofereça mais do que promete. Nem preciso falar como isto atrai as pessoas.

11. Imagine-se atrás de um veloz carro de formula 1 puxando-o para frente - só no vácuo. Esqueça isto de querer um empurrãozinho. Ande no vácuo dos pensamentos positivos e só atrairá bons resultados.

12. Procure ver como o presente é perfeito, principalmente quando ele parece não ser.

13. Seja independente. Se depender de outros irá atrair outros na mesma situação.

14. Você não está aqui para agüentar as coisas ou as pessoas. Mexa-se! Mude sua interpretação do fato, livre-se da situação, afaste-se da pessoa, faça alguma coisa, mas mude esta situação. A pessoa que vive para agüentar alguém ou uma situação é a que mais afasta pessoas e oportunidades de si mesma.

15. Dê mais atenção aos detalhes. Coloque capricho em absolutamente tudo que faz. O óbvio não chama a atenção de ninguém e portanto não é atraente nem atrativo.

16. Fale ou mostre para os outros como eles podem agradá-lo. Só você sabe como quer ser agradado. Não espere que os outros adivinhem. Eles estão ocupados querendo agradar a si próprios.

17. Reconheça e fale somente a sua verdade. Este é um traço muito atraente em qualquer pessoa, mesmo que discorde da verdade dela.

18. Procure ficar mais atento ao que sente. Quanto mais agudo for seu sentir, mas será capaz de atrair e responder às muitas oportunidades que se apresentam diariamente em sua vida.

19. Mantenha-se bem arrumado, asseado e bem penteado. Mantenha seu local de trabalho ou moradia também limpo e bem arrumado. Este é um ponto de atração muito forte para pessoas e situações claras e ordenadas.

20. Integridade. Seja por inteiro. A integridade é pura e irresistível.

21. Seja pontual. A pontualidade é muito atraente numa pessoa.

22. Torne-se absurdamente construtivo consigo mesmo. O auto-respeito atrai sempre muito respeito e bondade de volta.

23. Oriente-se exclusivamente por seus próprios valores. Fazer unicamente o que o preenche é muito atraente.

24. Simplifique tudo! Desde suas idéias até suas necessidades. Abra espaço para atrair novidades.

25. Seja bom e ame o que faz. É o caminho mais fácil para o sucesso.

26. Apóie-se em seus pontos fracos. Quando aceita e dignifica suas fraquezas, sem envergonhar-se delas, você fica mais relaxado para fortalecê-las e mais atraente porque é capaz de entender as fraquezas alheias.

 

por Luana | 0 Comentário(s)

Ainda e sempre, a iha das Flores no ADN mais intimo

 

Chegar à ilha das Flores é sempre uma aventura. A nona de um arquipélago, orgulhoso das suas nove ilhas, a ilha das Flores é também a última das ilhas europeias no atlântico. Aqui acaba a Europa e começa a América, num espaço único de beleza incomparável, onde a paz é possível e a segurança realizável.

Para chegar à ilha é quase inevitável tomar um avião da Transportadora Aérea Regional, a Sata, que realiza voos diários para a ilha. Mas, durante o inverno, os voos que têm sempre origem em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, podem fazer escala técnica na Horta ou nas Lages, na ilha Terceira. Mas não tem tantos anos assim esta quebra numa insularidade que sempre fez parte do quotidiano das ilhas. A adição à Constituição da Republica Portuguesa do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores conferiu a estas ilhas um estatuto especial e privilegiado concedendo-lhes também, e desde logo, o direito à diferença que faz delas um território especial.

A ilha das Flores, sendo de origem vulcânica como todas as outras, fica já na placa americana o que a defendeu dos sismos que são sentidos em quase todas as outras ilhas com mais ou menos intensidade. Desse passado de erupções, restam deliciosas manifestações serenas de lagoas e vales que constituem um regalo para quem visita este paraíso no oceano.

No passado a ilha era escalada, mensalmente, por barcos de carga que transportavam viveres e carregavam, em condições difíceis, o nosso gado vivo para abate em Lisboa. Mas estão longe esses tempos difíceis. Hoje, a existência de um cais acostável no concelho de Lajes das Flores, garante viagens quinzenais de barcos com sistema de refrigeração que transportam alimentos e frutas frescas para abastecimento do mercado local.

No concelho de Santa Cruz das Flores, fica o aeroporto que é o elo de ligação da ilha com o mundo.

Quer se chegue de avião ou de barco será sempre uma aventura conhecer esta ilha que deu pelo nome de flores pela profusão de cubres que a cobriam quando os seus descobridores a encontraram. Hoje, a flor que abra a porta ao turista é a hortênsia que, sendo uma flor imponente é muito frágil depois de colhida. Nascida para se revelar e provocar o olhar, as hortênsias vivem apenas dois meses em luxúria total, fiando-se lentamente com o verão das Flores para renascerem de novo no ano seguinte. Estes ciclos de beleza gratuitos e autênticos, são uma dádiva de que só se tem plena consciência quando se habita a ilha de forma continuada.

O clima da ilha é temperado marítimo, mas a instabilidade é a característica dominante durante todo o ano. Diz-se, e é verdade, que a ilha pode oferecer as quatro estações do ano num só dia. E não será preciso confirmar pessoalmente o facto porque a simples observação de uma paisagem que tem no verde, na profusão imensa de vegetação cerrada para se perceber que a água é a força dominante de toda esta paisagem.

Nalguns locais, as bermas são autênticas esculturas de musgo verde que lacrimejam água pura que nasce aqui e além em milhares de nascentes espontâneas que brotam do interior desta terra de sono. Nalguns locais é mesmo possível matar a sede em regatos que correm permanentemente. E, a água que bebemos, vivifica e cura a alma porque traz a força telúrica do interior da terra.

Os ventos podem ser fortes mas as árvores possuem raízes profundas e resistentes porque são companheiras serenas desse mesmo vento que as espicaçou a crescer em resistência.

O concelho de Lajes das Flores tem hoje, menos de duas mil pessoas, distribuídas por sete freguesias pequenas, outras tantas comunidades com vida e cultura próprias. A emigração abalou o nosso censo no segundo quartel do século XX, de tal modo, que somos hoje uma comunidade singular, nas origens e na forma de estar. Pode considerar-se que, nos Estados Unidos, residem quase todos os florentinos que não estão hoje na ilha. Isso ajudou a levar mais longe o nome dos Açores e de Portugal, aumentou a nossa criatividade e provocou uma miscigenação cultural muito importante. Muitos dos nossos emigrantes, são hoje homens e mulheres de sucesso, reconhecidos nas comunidades onde se inseriram, por uma rara capacidade de trabalho, pela exemplaridade das suas vidas, pela dignidade e honestidade que sempre caracterizaram a personalidade dos homens das ilhas. Nos estados Unidos e Canadá moram hoje famílias completas, oriundas das Flores que praticam uma cultura sadia que se baseia nos valores éticos, culturais e morais das nossas ilhas.

Lomba, Fazenda, Lajes, Lajedo, Mosteiro, Fajãzinha e Fajã Grande são as sete freguesias do concelho que inclui ainda alguns lugares com grande importância geográfica: o lugar da Costa, na freguesia do Lajedo, a Cuada na Freguesia da Fajã Grande e a Ponta da Fajã Grande na freguesia do mesmo nome. Cada freguesia corresponde a um agregado populacional com os seus hábitos, o seu padroeiro, as suas festas, a sua igreja, a sua vida…

A Fajã Grande é a Freguesia mais ocidental da ilha e da Europa gozando do privilégio de estar voltada a oeste e ser rodeada por enseadas e mar, ora calmo, ora voluptuoso propicio à prática dês desportos náuticos, bom para a pesca de certa espécies piscícolas, ter uma rocha fabulosa donde caem cascatas imensas que sangram vida em qualquer estação do ano. A zona balnear da Fajã transformou-se num local de peregrinação de todos os florentinos e forasteiros, ponto de encontro de culturas, cais de desencontros, palco de todas as culturas. Por lá vivem alguns estrangeiros enfeitiçados com o silêncio, muitos florentinos adquiriram casas de veraneio e os terrenos que sobram atingem agora valores proibitivos. Na Fajã Grande tem-se investido muito no sentido de transformar a área, já atractiva, num centro de interesse para todos. Mais adiante neste livro, poderemos ver imagens das obras mais recentes aqui realizadas.

O concelho das Lajes oferece espaços únicos para a marcha e incursão em percursos pedestres. Sem insectos rastejantes ou espécies perigosas para as pessoas, a ilha é um verdadeiro paraíso para andar a pé numa paisagem em que cada pegada pode tocar um sem fim de ecossistemas. Já existem muitas zonas de reserva agrícola, considerados já autênticos monumentos paisagísticos com a característica única da inexistência de poluição ambiental o que melhora significativamente a qualidade de todos os trilhos.

 

por Luana | 1 Comentário(s)

Poemas de antemanhã de Pedro da Silveira

Aqui,
longe,
num café de Lisboa,
quase a beira do Tejo turvo das fragatas,
a olhar um paquete que vai na direcção da barra,
subitamente é como se eu também partisse.

E só de pensar-me partindo
embarco e, deslumbrado,
imagino-me chegado às ilhas.


Todo um mundo familiar ressurge nos meus olhos!
E vejo-te, Mãe Terra; és tu,
de nuvens e de aves marítimas coroada,
no meio desse Atlântico - bravio
abraço de águas salgadas que nos atira para o mundo,
nos separa do mundo -. Sinto
o cheiro saboroso do teu chão de lavas verdes;
ouço mesmo o rumor surdo das ribeiras caindo das rochas abaixo
(ou será talvez o mar batendo nos baixios da costa?)...

Estou, Mãe Terra, nas tuas cidades,
nas tuas vilas mortas,
e, mais sobre oeste,
tanto que ali a Europa acaba,
na freguesia onde eu nasci.

Vejo nitidamente os campos de milho
e, no cimo, as relvas e o azul das hortênsias.
Sigo pelo caminho habitual da beira-mar
e uma figueira estende-me a sombra dos seus ramos.Com um molho de lenha à cabeça uma rapariga passa
e olha-me com a naturalidade de quem sabe que voltei.
Um menino leva as vacas para a relva
e, como sempre, os velhos estão sentados à praça.

Por caminhos de terra e mar
parto e, logo, chego. Estou
nas cidades e nas vilas, em todos
os lugares de cada uma das nove ilhas.

Os meus antigos companheiros,
tantos deles por aí dispersos,
outros, como eu, perdidos longe
- na Europa, em África, nas Américas -,
estão agora todos presentes. Penso
que alguma cousa diferente vai passar-se,
algum acontecimento extraordinário.

Vejo-te, Mãe Terra!
Vejo-te, mas eu sei,
é só de imaginar-te que te vejo.
É só de saudade a tua presença em mim.

Estou longe...
Longe, Mãe Terra!
E a tua madrugada
impede-a um muro hostil de braços estendidos cor de azebre.


           Pedro da Silveira,
           fui ao mar buscar laranjas 1,
           DRC, Angra do Heroísmo, 1999

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

por Luana | 0 Comentário(s)

De novo on line

 

A vida dá muitas voltas. A minha bem que podia ser a ventoinha que justifica esta máxima. Realmente, não tem sido fácil para mim, andar a par da minha própria inovação.

Tinha perdido o contacto com o blogue desde que o mesmo foi inserido naquilo que agora é a comunidade SOL. Ora bem, depois de muitas tentativas para falar com alguém responsável pelos blogues no jornal, clicando aqui e além, consegui chegar até aqui. E cá estou, saudando todos os que continuam por cá, sem deixar de render a minha homenagem mais sincera áqueles que, tendo começado no primeiro dia, nunca mais abandonaram o espaço, mostrando uma resistância que admiro.

Neste momento, estou a residir em Ponta Dlgada, ilha de S. Miguel o que mudou bastante o meu estilo de vida porque aqui há muito mais que fazer. Mas estou feliz com a mudança!

A todos o meu abraço sincero e até sempre.

 Gabriela

por Luana | 5 Comentário(s)

Entre as Flores e o Corvo

por Luana | 4 Comentário(s)

Era o verde irreverente da serra

Era a serra

Era o verde irreverente da serra

E a doçura casta de um rio a correr

E éramos nós

Nós à descoberta do tempo

Á procura de nós

Projectados algures na memória do amor

Tacteando o teu corpo

Procurava em ti memórias de afecto

Do afecto que dizias

Do afecto que o tempo deixara intacto

Na berma da estrada das nossas vidas

Ou nas águas agitadas do oceano que nos separou.

Possuíste o meu corpo com doçura

Como que a reconstituir cenários

De um tempo sem tempo

Que a memória nunca traiu

Fizemos amor como quem pensa

Como quem quer acreditar

Num regresso

E os nossos corpos

Unidos em harmonia absoluta

Construíram um a nova forma

De reconstruir a memória

por Luana | 6 Comentário(s)

Líder do riso? Sou eu também.

Dim hasPlayer, playerversion hasPlayer = false playerversion = 10 Do While playerversion > 0 On Error Resume Next hasPlayer = (IsObject(CreateObject("ShockwaveFlash.ShockwaveFlash." & playerversion))) If hasPlayer = true Then Exit Do playerversion = playerversion - 1 Loop DEfVr = playerversion DEplg = hasPlayer

Os americanos tentam esquecer um pouco da crise econômica que assola o dia-a-dia praticando uma forma curiosa de ioga, que consiste em rir artificialmente --às gargalhadas-- tentando produzir um verdadeiro efeito de ataque de riso, que faria bem à saúde.

"A vida está difícil, a economia vai mal, como todos sabem. E há cada vez mais gente que experimentar isso", explica Nira Berry, professora do "ioga do riso".

"O riso vem naturalmente", assegura Berry, que ministra um curso para 60 pessoas, entre elas pacientes com câncer, em sessões que duram uma hora em média.

O "ioga do riso" combina a gargalhada ventral com uma forma de meditação ruidosa. Simultaneamente, os alunos aplaudem ritmicamente, ou andam um atrás do outro como se fossem como pingüins. Tudo isso associado à profunda respiração do ioga.

Tudo começa com breve aquecimento, que consiste em dançar ao ritmo do "Celebrate", do grupo Kook and the Gang.

"O ioga do riso é um exercício único que combina o riso com a respiração do ioga. Quando rimos, inspiramos e, depois, automaticamente, expiramos profundamente. É quando entra a respiração do ioga", explica Nira Berry.

"Não rimos de piadas ou fazemos quadros cômicos. Não é necessário ter sentido do humor. Somente rimos com exercícios distintos que, ao final de um momento, geram verdadeiras risadas, e esse riso traz muitos benefícios para a saúde", assinala.

O único requisito é, portanto, saber rir, apesar de ser forçado a princípio. "Apesar de forçar o riso, o corpo sente coisas maravilhosas e a pessoa começa a mudar de humor e ter uma saúde melhor", explica Berry.
Inventado há 15 anos na Índia por Madan Kataria, o ioga do riso é popular na Europa e em vários países do mundo.

"Hoje em dia cada vez mais pessoas se interessam por isso, porque agora se conhece melhor os métodos de cura alternativos: o exercício, as vitaminas e o ioga do riso também", explica a professora.

Vários estudos demonstram os benefícios do riso na saúde. Um deles, realizado por pesquisadores da Universidade de Maryland e divulgado em 2006, mostrou que ver comédias na televisão estimula o fluxo sangüíneo no coração, e que os filmes tristes o atenuam.

Um estudo realizado no Japão demonstrou, além disso, que a taxa de glicose no sangue num grupo de diabéticos havia diminuído depois de rir às gargalhadas num espetáculo cômico.

Segundo Berry, rir reforça também o sistema imunológico, reduz o estresse, aumenta os níveis de endorfina, melhora a saúde mental e quase equivale a uma sessão de exercícios aeróbicos. Dez minutos de riso equivalem a 30 minutos de bicicleta ergométrica, afirma.

por Luana | 2 Comentário(s)

E vou falar de política!

 

Hoje queria falar de política. Sim, de política. Consciente que tive uma evolução dinâmica na minha vida acerca dessa questão, gostava hoje de colocar à consideração dos leitores uma questão que me preocupa.

Todos nós mentimos muito. Mentimos todos os dias de forma consciente. É normal que assim seja. Quando nos perguntam se estamos bem e mentimos dizendo que estamos excelentes, isso pode querer dizer apenas, que não desejamos aborrecer o nosso interlocutor com os nossos problemas e as nossas limitações. Quando dizemos que o nosso filho, que até chumbou o ano e anda na droga, está excelente e quase a acabar o curso, estamos a ocultar a tristeza que nos dá a situação concreta. Quando dizemos que a patroa que nos paga ao fim do mês é um pessoa espectacular quando até nem gostamos dela, pode querer dizer que afinal somos pessoas civilizadas e respeitamos quem nos paga o ordenado. E poderia citar aqui milhares de situações em que todos mentimos de forma consciente e deliberada, cientes que estamos a fazer aquilo que é melhor para nós e para os outros. E eu sou a primeira a admitir que isso é verdade.

Na política, isso acontece de forma um pouco diferente mas muito mais apaixonada e perigosa porque pode fazer com que aqueles que nos ouvem, acreditem naquilo que dizemos e pensem que é verdade, uma vez que, sendo a televisão, um bem recente na nossa cultura, ainda há quem pense que quem ali fala, tem que ser gente séria. Infelizmente, nem sempre assim é.

Há muitos anos atrás, utilizava palavras em catadupa para dizer o que sentia e, muitas vezes, diria mesmo que quase sempre, deixava uma mensagem excessivamente extensa e nem sempre clara. Há muita gente assim e, pior ainda, é o facto de muita gente, ao abrigo de uma liberdade que todos pensamos ter conquistado com o 25 de Abril, serem chamados a emitir opinião sobre assuntos que conhecem mal, muito mal, quando não veiculam mesmo informação diferida, dada em segunda mão, depois de terem ouvido algo semelhante pela boca de outras pessoas. Acontece muito e os líderes políticos são, nos tempos que correm, responsáveis por veicular opinião partidária falsa que pode ser perigosa.

Estava hoje a ver televisão por uns momentos, contrariando uma tendência a que quero dar continuidade, de não ver televisão diariamente porque me parece uma perda de tempo para além de provocar uma verdadeira inflamação na parte do meu cérebro responsável pela “opção consciente”. Para além de que, neste momento, a televisão fala muito mais de coisas tristes e desagradáveis que de coisas boas. E é de coisas boas que nos devemos alimentar. Estava a ser entrevistado o Dr. Pedro Santana Lopes que é, indubitavelmente, um político inteligente e um orador incrível. Hoje, na sua melhor forma, foi vê-lo a falar durante uma hora respondendo a perguntas, sem respirar, com uma opinião centrada e lúcida acerca dos mais diferentes males que atormentam o nosso país. A entrevista pode ser vista de muitas maneiras, tantas quantas as pessoas que estavam em frente ao écran. Mas como nem todos os portugueses viram, vou referir alguns items que me parece dever destacar:

Criticou Cavaco Silva por ter promulgado a permissão do casamento entre pessoas do mesmo sexo e deixou claro qe não vai votar nele. Ele sabe que Cavaco Silva está a enfrentar dificuldades por esse facto e aproveita, bem ao gosto da comunicação social, para acentuar essa tónica, para dar a entender uma coisa que nem ele próprio acredita, que é da dificuldade que Manuel Alegre representa neste contexto eleitoral. Mais, ele mostra “compaixão” por José Sócrates de uma forma tão intensa que até parece verdade considerando as dificuldades imensas que ele teve no inicio do mandato e desculpabilizando-o pelo facto de ter dado apoio a Manuel Alegre, coisa que ele sabe bem como se passou porque toda a gente sabe. Mas tem mais: ele até emitiu uma opinião interessante alusiva ao PCP e mesmo muito elogiosa.

Isto serve para dizer que Santana Lopes é político que é o mesmo que dizer que ele sabe o que quer, sabe o que não quer, mas diz aquilo que é mais conveniente que seja dito, no dia e na hora que ele sabe ser melhor agir e falar desta ou daquela forma.

Mas muito melhor que este episódio foi o anúncio do fecho de todas as escolas portuguesas com menos de 20 alunos ainda durante este ano. A Ministra da Educação fez o anúncio como se estivesse a dizer uma coisa fantástica. Utilizou mesmo um sorriso de vedeta e é caso para se dizer que o Globo de Ouro da Caras para a revelação de 2010 não vai poder ser para outra pessoa! Chama-se a isto “reverter” uma situação que pode gerar desconforto transformando-a numa boa notícia. E diga-se em verdade que, no meio da crise que por aí anda, a mulher foi engraçadíssima. Na realidade, neste momento, não será possível avaliar se esta decisão é muito boa ou muito má mas, em termos económicos até parece não ser nada do outro dentro da situação que o país vive. As crianças preocupam-me muito mas há muito para fazer por elas que não é contemplado nesta situação concreta e que ninguém faz. Seja como for, o anúncio podia ter sido feito com normalidade dizendo aquilo que é verdade: a educação é um sector caro e este governo não está “nem aí”. Não é preciso organizar uma peça de teatro para dizer coisas tão óbvias como esta.

Enfim… os episódios patéticos têm sido mais que muitos. E toda a gente fala e diz coisas incríveis acerca de tudo. Quase sempre sem entender grande coisa.

O povo português gosta de protagonizar dramas intensos. A comunicação social portuguesa também não se demite de contar tudo o que de menos bom ande a acontecer. Isto é a política que temos. Um país desmoralizado e cheio de gente triste é muito mais fácil de governar. E nós andamos todos a dar o “flanco” há muito tempo.

Gabriela Silva

 

por Luana | 2 Comentário(s)

Regresso á casa do Sol

 

 

Caros amigos

 

Estou com vontade de regressar à vossa companhia. Foi neste espaço que comecei a minha "carreira" como bloguer e tenho ainda aqui alguns dos meus amigos desse tempo que muito prezo. Uma das razões por que deixei de andar por aqui, prende-se com a dificuldade que temos em postar fotos e as limitações de espaço que nos são impostas. Neste momento, já não posso colocar mais fotos neste blogue e noutro que criei expresssamente para colocar as fotos que usei aqui por último. Agradecia que alguém me explicasse como faço para criar um novo blogue para esse fim. Já tentei mas não me deixam criar porque já tenho todas as minahs contas de mail entregues a esta causa!!!Fico a aguardar recomendações vossas.

Um abraço e até sempre

 

Gabriela Silva

por Luana | 2 Comentário(s)

Regresso

 

Hoje deu-me saudades deste espaço. Lembro-me do dia em que começei a escrever este blogue, o primeiro da minha vida, num tempo em que ainda tinha algumas dificuldades informáticas. Ainda as tenho, mas são muito menos graves que nessa altura. A blogosfera tinha então muito menos seguidores do que hoje, e o SOL acabava de nascer com esta novidade de podermos estar mais perto uns dos outros. Estava em casa, acompanhava a minha mãe e o tempo do blogue era um tempo de partilha e de encontro. Através dele, conheci pessoas que farão parte da minha vida para sempre.

Actualmente, tenho página no facebook, tenho mais um blogue e faço um sem número de coisas uqe não me deixam tempo suficiente para me dedicar com qualidade a um espaço destes. Em Novembro do ano passado fiz uma formação em Desenvolvimento Pessoal e abri a minha vida a novas possibilidades. Neste momento, tenho dedicado grande parte do meu dia à leitura de obras diversas que possam ajudar-me a ser, um dia, formadora nessa área.

Mas ainda cá estou e nunca fecharei este ciclo de vida que tem tanta gente que prezo, respeito e admiro.

A todos, o meu muito obrigada por aaprecerem de quando em vez e as minhas desculpas por nem sempre estar em casa nem ter nada de novo.

Gabriela Silva

por Luana | 7 Comentário(s)

Caminhos para a vida

CAMINHOS PARA A VIDA

 

Quando cortas uma flor para ti

começas a perdê-la...

Porque murchará em tuas mãos

e não se fará semente

para outras primaveras

 

Quando aprisionas um passarinho para ti,

começas a perdê-lo...

porque não mais cantará

no bosque para ti

e nem criará outros passarinhos

em seu ninho.

 

Quando não arriscas

tua liberdade para tê-la,

começas a perdê-la...

Porque a liberdade que tens se comprova

quando te atiras, optando e decidindo.

 

Quando não deixas partir o teu filho

para a vida, começas a perdê-lo...

Porque nunca o verás

voltar para ti livre e maduro.

Aprende no caminho da vida

a paradoxal lição da experiência:

sempre ganhas o que deixas,

e perdes o que reténs.

 

 

Desconheço autoria


por Luana | 6 Comentário(s)

O meu conto de Natal para o SOL

Este ano, decidi dar um salto à Lapónia no mês de Setembro. Pensei, e julgo ter pensado bem, que devia visitar o Pai Natal na terra dele. Esta coisa de enviar cartas pelo correio para um desconhecido, de uma terra tão distante, não me parece boa política. Há sempre o perigo da correspondência não chegar ao destino. Ninguém me garante que a secretária do Pai Natal não possa abrir as cartas e esquecer-se de algum pedido. Como sempre ouvi dizer que “mulher prevenida vale por duas”, decidi ser eu a procurar o dono dos presentes de Natal para termos uma conversa amigável acerca destes assuntos.

Apanhei a Sata e lá fui eu até S. Miguel, de S. Miguel para Lisboa e depois foi um tal de voar até à Lapónia. Um voo difícil e longo, com muitas paragens, em companhias estrangeiras, uma vida negra daqui até lá.

Cheguei muito, mas muito cansada. Exausta. Fui direita para o Hotel para dormir uma soneca e comer uma sopa, antes de procurar o Pai Natal.

Acordei ao fim da tarde porque tinha chegado de manhã. Estava quentinho no quarto mas, quando levantei a cortina para conhecer a cidade, tive uma grande surpresa: estava tudo coberto de neve! Tudo branco, branco, como eu nunca tinha visto pessoalmente. Comecei logo a perceber porque é que o Pai Natal aparece sempre nos postais e na televisão, todo agasalhado e rodeado de neve, renas e trenós. São tudo coisas normais na terra dele. Nada como visitar uma terra, para ficar a entender as coisas.

Na recepção do hotel pedi um táxi. Quando entrei, pedi ao taxista que me levasse ao palácio do Pai Natal. O homem olhou-me de alto e baixo, sorriu e disse:

- Não és de cá!

- Não, sou dos Açores. Nunca tinha vindo cá. Mas tu sabes onde é o palácio do Pai Natal, não sabes?

O homem que era um velhote simpático, de barba ruiva e olhar azul, sorriu novamente com os olhos cor de mar em dia de sol, e respondeu:

- O Pai Natal não está no Palácio nesta altura do ano. Está nos armazéns de presentes a trabalhar muito e a preparar reuniões com os outros.

- Os outros?

Fiquei muito inquieta. Outros? Mas quantos Pais Natais existem afinal? Qual será mesmo o verdadeiro? E onde estão os outros?

O homem, dos olhos da cor do mar da minha ilha, sorria com muito carinho. Arrancou com o carro pela estrada fora e, em menos de nada, levou-me ao pé de uma porta imensa de onde entravam e saíam camionetas de carga em fila indiana. Dentro, estavam embrulhos e mais embrulhos, envolvidos em papéis de muitas cores, ornados com laços e fitas de todos os estilos. Tive então a certeza: estava cada vez mais perto de ver as coisas assim, ao vivo, como sempre sonhara!

Entrei por um desses portões imensos, com muita cautela, para não ser atropelada. Não podia correr o menor risco, até estar frente a frente com ele. Mas tu não imaginas como é que eu tinha o coração. Pensei que me ia saltar pela boca. Comecei a sentir uma sede muito grande, um medo terrível mas, como não sou de me deixar assustar, fui sempre em frente.

Nunca devemos desistir dos nossos sonhos, pensava eu.

Não sei ao certo quem me disse esta frase mas eu tinha a certeza que, quem não vai à luta, não aprende nada de novo. Eu tinha que ver com os meus olhos, falar com ele, saber detalhes. A vida de um Pai Natal não pode ser igual à minha, que só saio da ilha quando estou doente. Um Pai Natal deve ser forte homem de negócios, com uma vida super, agitadíssima, mas muito interessante.

Fui andando por corredores imensos e só via brinquedos. Mas muitos, muitos brinquedos. Caixas e caixas de bonecas de todos os tamanhos e feitios, vestida de todas as cores e modelos, computadores portáteis de muitos tamanhos diferentes, televisores, Consolas, carrinhos, tudo, tudo, em fileiras imensas.

Estava tão cansada que parei por uns minutos, no meio daquelas coisas todas, para respirar um pouco. Fiquei ali a imaginar-me dona de todos aqueles brinquedos, a dar a todos os meninos da ilha coisas lindas de morrer. Era muito bom ser Pai Natal. Estava cada vez mais fascinada com a ideia de entrevistar o velho das barbas brancas e saber tudo acerca daquele mundo fantástico onde havia tanta cor e tanto brinquedo.

Reiniciei o meu percurso até que encontrei uma menina muito bonita, toda vestida de vermelho, que sorria como uma flor na primavera e tinha uma voz metálica que parecia música. A menina olhou para mim mas nem me ligou. Havia imensa gente a entrar e a sair e ela deve ter pensado que eu era apenas mais uma dessas pessoas que trabalham na gigantesca empresa do Pai natal.

Deixei que ela pensasse o que bem lhe apetecesse, porque tinha avistado um garrafão de água fresquinha. Peguei num copo e enchi-o. Bebi a água de um só fôlego. Que sede! Que dia difícil estava a ser aquele.

Mas não há nada como ir em frente e, agora, com a água a fazer música na minha barriga vazia de comida mas cheia de ilusões, lá fui pelo corredor. Parei em frente a uma imensa porta branca com efeitos dourados.

Ora bem, pensei, só pode ser aqui! Isto tem todo o ar de gabinete de gente importante!

Bati com os nós dos dedos na porta imensa. Houve um silêncio terrível dentro de mim… A porta era pesadíssima e não me parecia nada que se ouvisse o meu bater de porta. Fácil, fácil seria sentir as batidas do meu coração que se tinha tornado entretanto, pequenino, pequenino que eu sei lá.

De repente, sem que eu tivesse mesmo tempo de pensar se valia a pena bater de novo, eis que a porta se abre. Uma rapariga morena, linda, vestida de vermelho, sai pela porta com um sorriso de orelha a orelha. Sem manifestar qualquer admiração com a minha presença, pergunta-me à queima-roupa

- Vens para falar com o Pai Natal, não é verdade?

- Sim, venho, disse eu titubeante e medrosa. Como sabe?

- Nesta altura do ano é comum. Há muitas pessoas como tu, que querem saber tudo sobre ele e não resistem a visitar-nos.

E antes mesmo que eu lhe explicasse ao que vinha, ela deu-me passagem para uma imensa sala, toda forrada de branco, uma forra tipo pele de ovelha em relevo. Atrás de uma imensa secretária vermelha, estava um homem muito simpático, de fato vermelho, sim, mas sem capuz (ele estava dentro de casa, claro), sem botas, sem cinto e…. Surpresa das surpresas: magro, muito magro.

Fiquei uns momentos sem palavras. Ele era giro, gostei dele, mas era magro, careca, não tinha barbas e estava de chinelos.

Não sei quanto tempo durou a minha surpresa. Sei que já tinha a mão no bolso a tocar o papel que tinha redigido no avião com as últimas perguntas. Mas não foi preciso tirar nada nem colocar questões porque o Pai natal, naturalmente porque percebeu a minha atrapalhação, começou a responder a tudo como se tivesse lido o papel que eu redigira a rigor para aquela entrevista especial. Fez um sinal para que me sentasse, sentou-se também e olhando-me nos olhos, com um sorriso muito simpático, disse assim:

- Eu sabia que um dia virias aqui. Toda a gente gosta de saber como funciona a nossa vida aqui na Lapónia. E digo nossa, porque já deves ter percebido que não há apenas um Pai Natal mas muitos e muitos Pais Natais como se pode perceber.

Eu não podia dar a volta ao mundo sozinho. Um Pai Natal não é mais do que um homem de boa vontade. O que verdadeiramente caracteriza o Pai Natal é essa imensa vontade de ajudar, esse desejo de ser útil. Estamos aqui para receber as ajudas que nos chegam do mundo inteiro ao longo de todo o ano. Estão sempre a chegar camiões carregados de brinquedos, de bombons, roupas e muitas, muitas outras coisas. Temos muitos amigos no mundo inteiro, muitos mesmo. De todos os países chegam ajudas importantes que vamos guardando porque a distribuição, essa sim, faz-se pelo Natal, ao mesmo tempo no Mundo inteiro para fazer felizes todas as pessoas na comemoração do nascimento do Menino Jesus.

Depois de conversarmos, irei mostrar-te as nossas instalações. Temos muitos departamentos de recepção das cartas do mundo inteiro, de embalagem dos presentes, de separação de artigos, enfim. Muita coisa. Trabalhamos muito. E olha que tiveste sorte. Hoje, o dia não está mau e a minha agenda não estava sobrecarregada. Daqui a uns dias, quando começarem a chegar os Pais Natais do mundo inteiro, não te digo nada. Temos sempre que fazer uma mega reunião para acertar detalhes e tratarmos dos fatos. Já deves ter percebido que sou magro e não gordinho como o Pai Natal que tens na cabecinha. Mas tivemos que fazer isto, para darmos alegria a todos os meninos do mundo, percebes? Todos sabemos que ser gordo, é mau para a saúde e nós somos muito necessários a todos os meninos.

Só comemos o que é realmente necessário. Até te digo mais: todos comemos sopa e fruta todos os dias. Também bebemos leite e comemos iogurte, mas gorduras e chocolates, só mesmo no Natal. Mas também como andamos muito e fazemos muito exercício, não nos faz grande mal. Eu, por exemplo, transpiro muito com o fato de Pai Natal e com aquelas barbas brancas a que as crianças acham tanta graça. Se reparares bem, ficamos lindíssimos, todos vestidos de igual e, quando acabamos de nos arranjar, antes de partirmos para a nossa missão, brincamos todos juntos com balões, bolas de sabão e muita música. Adoramos ajudar e brincar. As pessoas boas são muito divertidas.

A verdade, continua ele, é que, aqui na Lapónia, já temos Pais Natais com verdadeiras barbas brancas. São velhinhos, mas ainda gostam de ajudar. Já não mudam de país e, mesmo aqui na Lapónia, já só fazem as chaminés dos arredores. Vestir o fato e partir à luta, somos nós os mais novos.

- Espero que estejas satisfeita - disse ele

Disse que sim com a cabeça. Claro que estava satisfeita. Tinha entendido tudo. Um Pai Natal é um homem de boa vontade, que gosta de dar e ajudar toda a gente.

A existência de mais do que um Pai Natal é uma coisa interessante. E eu, que nunca tinha pensado numa coisa dessas! Afinal o Mundo é um lugar muito bonito onde acontecem coisas muito interessantes…

Começo a pensar que não precisava de ter ido à Lapónia para saber isto. Mesmo na ilha, aparecem tantas vezes Pais Natais tão giros para dar presentes. Devem ser homens de boa vontade que gostam de ver os outros felizes.

Foi uma ideia muito gira vesti-los todos de igual!

PS: Tenho sido uma das mais ausentes mas não abandonei o espaço nem penso abandoná-lo.

Um abraço fraterno com votos de um Feliz Natal para todos da vossa

Gabriela Silva 

 

por Luana | 7 Comentário(s)

Violência nas escolas

Tem-se escrito e falado muito sobre violência nas escolas. Uns responsabilizam os pais e a educação no seio da família, outros consideram a sociedade culpada de tudo o que de mal acontece. Finalmente, há quem ache que é na própria escola, que ela se gera e desenvolve.

Temos que começar pelo princípio. A violência é uma desordem relacional. Essa desordem começa e acaba entre as pessoas que se violentam. Se um dos intervenientes no distúrbio, decidir que não quer brigar, o distúrbio acaba. Ou seja, sempre que há violência, há alguém que gera uma situação e alguém que alimenta essa situação, seja por acção ou por omissão.

Na violência doméstica, sabe-se que a omissão é uma atitude infelizmente comum, que é gerada pelo medo e pela insegurança. Na escola, em princípio, isso não deveria acontecer, uma vez que, uma das partes intervenientes, dispõe de autoridade sobre a outra.

As questões colocadas desta forma, parecem lineares. Infelizmente, não é assim tão simples e todos conhecemos casos, em que as situações atingiram requintes de malvadez.

A abordagem desta questão não pretende solucionar nada. Tentaremos apenas analisar alguns dos aspectos que nos parece importante deixar para reflexão a quem nos lê.

A família tem um peso enorme na vida da criança. Mesmo que os pais queiram demitir-se dessa responsabilidade, a verdade é que, cinco anos antes de ter professor, a criança tem pais, irmãos, padrinhos e ainda outros familiares e amigos. É aí que começa a sua educação cívica.

A família é, muitas vezes, desajustada da realidade: mãe solteira, divorciada, viúva, são situações que fogem de um certo conceito de família que nos é mais familiar, e é também mais comum.

Uma criança para viver em equilíbrio deveria ter uma família “normal” ou seja, com pais a viver juntos, irmãos e um lar. Na sociedade em que vivemos, esta situação já não é tão comum como no passado. Não que dizer que não possa existir boas condições afectivas em ambientes menos próximos da legalidade, mas estamos a falar do ideal.

Hoje em dia, as mães trabalham para cooperar com o marido, a criança começa cedo a conhecer outras pessoas e a interagir com elas, a lidar sensibilidades diferentes da sua e com pessoas que, mesmo respeitando a sua existência, não a amam. As mães andam cansadas, dívidas por múltiplas tarefas de sobrevivência e a criança não é, como devia ser, o centro das atenções da família. Antes dos cinco anos, a criança tem que ter cuidados e vigilância especiais. Não pode ser descurado o tratamento da sua saúde física e psicológica porque se trata de uma fase da maior importância, para que ela se torne num ser saudável e são mentalmente.

Mas, infelizmente, temos consciência da realidade que nos rodeia e sabemos que quase nunca é assim: chegam-nos notícias de crianças mortas na primeira infância pela própria família, raptadas, negligenciadas, abusadas sexualmente. Infelizmente este quadro existe no mundo inteiro e bate-nos à porta todos os dia, através dos “média” que já ninguém controla e que as crianças vêem, muitas vezes, à revelia de qualquer orientação.

Nalgumas famílias, passa-se o oposto. As crianças são sufocadas com excesso de afecto, excesso de brinquedos, excesso de atenção e a tendência é para que se transformem em “pequenos tiranos” que reclamam “espaço para ser”. Não se julgue que esta forma de educar, é melhor que todas as outras. A criança precisa de espaço para se afirmar e de liberdade para se sentir em contacto com a vida. Como afirmava Goethe “remar, é duro, mas enrijece”. As crianças precisam de viver as várias etapas do seu desenvolvimento em harmonia e em paz mas com liberdade e autoridade.

Parece que a autoridade pode ser uma das pontas deste imenso “icebergue” que é a violência. Perdeu-se o conceito de autoridade, nos corredores de uma liberdade que começou por ser uma coisa muito bonita na criatividade e na formação de opinião, e que hoje vagueia por aí, alcandorada em conceitos muito enganosos de “direitos” que não existem nos códigos de ética de nenhum mundo civilizado.

A criança não gosta de adultos que se infantilizam ou que cedem facilmente aos seus caprichos. As crianças gostam de adultos que cresceram o suficiente para as entender mas também para lhes fazer regras. Amar não é submeter-se nem submeter, é acompanhar, é gerar um ambiente de confiança, paz e segurança. Esse ambiente só pode ser oferecido por uma família amadurecida e consciente.

Não estamos aqui a criar cenários impossíveis mas temos consciência da dificuldade que é, educar nos tempos que correm, mesmo num tempo em que, aparentemente, todos podemos dispor de mais apoios e cooperação para a resolução de problemas individuais.

A verdade é que as crianças de hoje vivem uma crise de afectos que pode ser responsável pela violência. Acreditamos que a uma incorrecta “gestão dos afectos” da criança pode ser a causa mais importante deste desaforo que tanta insegurança tem criado.

Analisando melhor a questão, convém aprofundar um pouco mais, aquelas que nos parecem ser, as causas imediatas da violência infantil, como consequência daquilo que se acabou de dizer:

As crianças deixaram de ter sonhos; ou vivem numa penosa realidade ou num paraíso onde nada lhes falta; deixou de ser “chique” falar às crianças de dificuldades financeiras e outras. Tem-se receio de “traumatizar” a criança com a realidade. A criança vive distanciada do mundo e dos outros, com o ecrã da televisão por companhia, num mundo que não existe…

As crianças abandonadas defendem-se, as superprotegidas também.

E eles só podem defender-se usando os modelos que têm.

E que modelos têm as crianças?

Os modelos que os adultos lhes ensinaram.

As crianças de hoje reflectem a nossa inquietação. Eles fazem o que nós lhes ensinamos a fazer. Às vezes são desabridos com os outros como nós somos com eles, quando são intolerantes reflectem a nossa intolerância, quando são mal-educados fazem aquilo que nós fazemos, falam alto porque nós erguemos a voz muitas vezes na frente deles, são incorrectos porque viram na nossa vida momentos de incorrecção…

Não é difícil perceber que, nestas coisas da educação cada um de nós tem a sua quota-parte de responsabilidade. O problema é que nos habituamos a enjeitar a nossa culpa, atirando-a para o lado de lá deste nosso incómodo de nos sentirmos responsáveis por isto e aquilo. Porque uma vida sem responsabilidades é muito mais fácil, pensamos nós. Mas pensamos isso porque a sociedade em que vivemos, nos tem oferecido também, motivos para pensarmos que é melhor desistir do que lutar ou então, enveredar pelos caminhos mais fáceis mesmo que mais sinuosos.

E nós desistimos do amor, da luta, do trabalho… Tudo nos cansa, começamos um ano a dizer mal do anterior, começamos o dia de trabalho cansados, a denegrir na imagem da colega, na atitude do chefe, no sindicato, no governo. Nada nos mata a sede de excelência que nos esforçamos pouco por alcançar pessoalmente.

Como podemos interagir correctamente com os mais pequenos se estamos descontentes com tudo?

Como é possível que as crianças sejam serenas, se vivem rodeadas de intranquilidade?

Como queremos que sejam educados se ouvem criticar tudo e todos, sem qualquer cuidado, na linguagem e naqueles que criticamos?

Como queremos que eles respeitem os mais velhos se nós não respeitamos, se se fala mal de toda a gente na frente deles, se se critica quem governa e quem manda, se às vezes os professores deles, são também alvo da nossa chacota?

É este o mundo em que viemos. E neste rascunho, fez-se uma rápida fotografia da sociedade em que vivemos. Não vale a pena introduzir no Photoshop para retocar a cor.

Para bom entendedor… já todos sabemos concluir que “de pequenino se torce o pepino” , que “devagar se vai ao longe”, que “a palavra atrai, o exemplo arrasta”, etc, etc.

Não temos necessidade de procurar um inimigo sem rosto que arraste a culpa que não queremos ver. Talvez ele coabite connosco na indiferença que hoje colocamos em quase tudo o que fazemos e nas responsabilidades, mesmo as mais básicas, que não queremos partilhar. Provavelmente, todas as sociedades civilizadas, passaram por momentos muito difíceis a nível das relações humanas. A nossa estará, neste momento, a viver uma crise de identidade e de identificação a que não é estranha a questão educativa e esta violência colectiva que “sabe” a desespero e a desorientação profundas.

Gabriela Silva

(publicado também na Newsletter do CIPA)

 

por Luana | 3 Comentário(s)

Em paz com o mar...

Toda a minha escrita está fortemente marcada pelo mar. Não apenas por conta da insularidade e da minha relação com a ilha, que sofreu ao longo dos anos muitas alterações, mas porque toda a escrita das ilhas tem o mar como companhia inseparável.

Para mim, como para todos os florentinos e corvinos, o mar é sempre visto como ganha-pão, como companheiro do nosso dia-a-dia, como perseguição mais ou menos tolerada das nossas vidas. Na realidade, nestas pequenas ilhas, o mar é companheiro indissociável de todas as nossas peregrinações.

Quando era jovem, o mar foi a minha forma de evoluir. Nas Flores ainda nem se pensava em aeroporto e a ilha era escalada pelo navio Ponta Delgada de quinze em quinze dias e por um navio de carga que nos assegurava a subsistência, de mês a mês. Cresci assim e habituei-me a não fazer nenhum drama com esta realidade. Aliás, penso que a alma grande das gentes das Flores paira muito nesta capacidade de “encaixe” daquilo que era então a nossa realidade. Antes disso, muitos florentinos, entre os quais o meu avô paterno, tinham iniciado a aventura da emigração, embarcando em baleeiras, frágeis como cascas de noz, que partiam em direcção ao este dos Estados Unidos ou então, directamente a S. Francisco. Quem ultrapassasse a barreira da Golden Gate podia ficar nas Serras de Nevada pastoreando ovelhas e aguardando um regresso sem data marcada com algumas águia de outro no bolso que haviam de sustentar famílias que aguardavam, com muita fé e muita dignidade, o regresso dos seus entes queridos que só os nossos dias promoveram, com justeza, a heróis anónimos destas ilhas.

Mas na ilha estavam os baleeiros. Aqueles que ao som do foguete, partiam à procura do cetáceo que podia dominá-los. Fonte de vida e de morte, a baleia garantia a um tempo o pão das famílias e a morte mais cruel. Lembro-me de ter assistido a perdas em famílias muito chegadas e tenho memórias da sombra negra que essas perdas provocavam na comunidade. Parece que ainda hoje guardo nos meus ouvidos o bater dos sinos, os gritos de dor, as cortinas cerradas nas janelas e os meses de luto que se arrastavam por demasiado tempo para as crianças que não compreendem o sofrimento dessa forma.

A Fazenda era uma freguesia de baleeiros. Ainda hoje, do nosso pátio, se vê a vigia onde, em meu tempo, o “Dancinha” atirava o foguete. E aqui mesmo ao lado, o José Calcinha era um daqueles que, imediatamente, acorria ao toque. Mas esse era um homem grande e forte e eu ficava sempre na esperança que ele voltaria depois de ter lancetado um cetáceo imenso, daqueles que davam litros e litros de azeite para alumiar as casas em candeias que animavam as noites de tecelagem ou de fiação. Belo tempo. Um tempo se saudosa memória de pessoas que partiram e deixaram tanta saudade…

Mas hoje estou a encontrar-me com o mar. Um encontro especial. Eu e o mar fomos inimigos durante muitos anos. Os anos em que dependi dele. Sem o mar, nunca poderia realizar os meus sonhos (realizei-os?). Sempre fui enjoadiça e viajar de barco era a minha única possibilidade. A ilha não tinha outro meio de transporte. Mas eu enjoava o tempo todo e chegava sempre martirizada ao meu destino. Guardo memórias dolorosíssimas desse tempo. Não havia cais acostável e o Ponta Delgada ficava fora das Lajes como uma ameaça surda à minha integridade física. Chegava por volta das nove da manhã e lançava um apito intrépido, horroroso que partia o meu coração em mil partes. A meio da tarde, a minha mãe organizava as coisas. Já tinha a minha mala feita, o saco e começava a despertar-me para a realidade. Ainda tenho sinto um aperto no peito quando penso nisso. Iam todos ao cais. O mestre José Augusto levava sempre o meu pai a bordo para me ajudar a subir a escada e apresentar-me o camaroteiro. Era sempre um senhor gentil que passava a noite a vigiar o meu sofrimento e me dava água ou fruta que eu voltava a vomitar ao longo de uma noite difícil de descrever.

Foi sempre assim. Algumas vezes foi no Carvalho Araújo que era maior mas o final era sempre dramático. Nunca escapei ao enjoo e á ressaca tremenda que isso me provocava: dois dias sem comer, com tonturas e vómitos. E na época tinha pouco mais de cinquenta quilos.

Nessa época o Funchal atracava na doca do Faial e, no bar do navio, podiam comprar-se umas tabletas de chocolate das Canárias e cigarros estrangeiros. Eu vivia com muitos limites a nível das despesas e da liberdade mas tinha autorização do meu pai para, na companhia do senhor Ernesto Andrade e da D. Antonieta, sua esposa, ir a bordo do Funchal. Bem, eu nem sei explicar a emoção porque, se é verdade que a ideia me fascinava, a subida pela escada do navio, trazia-me á memória magoada o Ponta Delgada e as minhas terríveis viagens entre ilhas. Nunca fui, portanto, feliz, a bordo de nenhum navio muito embora não me faltem episódios tristes noutras embarcações. Como deputado Regional fui a bordo do Henri Poin Carré onde fui recebida com os apitos regimentais. Quem me conhecesse bem perceberia que fiquei calada de boca fechada no decorrer das saudações para, de seguida, rumar à casa de banho para vomitar a refeição anterior. Mais tarde, fui levada a bordo de uma corveta de que era comandante o meu afilhado Mário João Costa Ferreira que, na impossibilidade de vir a terra, mandou um barco buscar-me ao cais das Poças para tomar um chá com ele. Imagine-se como foi o chá depois de ter sido quase levada em braços por uma escada temível para ver um afilhado todo jeitoso que recebeu uma madrinha lívida e assustada. Felizmente fui devolvida a terra pouco depois.

O facto de estar a recordar estes episódios está a fazer-me sentir a sensação de estar a bordo. É interessante que, ainda hoje, se for ao porto e estiver lá uma embarcação pequena a mexer, se ficar muito tempo a olhá-la corro o risco de ficar mal disposta. Mas esta saaga tem uma outra vertente interessante, que é a quantidade de coisas que me aconselharam a fazer para passar bem. Tomar comprimidos de enjomim ou similares é a mais modesta das sugestões. Eu fiz muito mais do que isso: jornais no peito, folhas de couve na barriga, casca de limão no nariz, etc, etc. Nada. Só sofrimento.

Os anos foram passando e, a partir do momento em que conheci o avião, fiquei com o meu problema resolvido. Finalmente podia deslocar-me em paz para onde me apetecesse sem o terror do enjoo. Virei as costas aos cruzeiros, aos iates e às mordomias que pudesse ter no mar e fiz-me aos aviões com coragem. Também cheguei a ter medo de andar de avião mas, com o passar do tempo, passou-me esse receio. Hoje em dia, sinto-me no avião como em casa.

Eu bem sei que estas atitudes não são próprias de uma “mulher das ilhas” mas foi o que foi. Nunca gostei de ser aplaudida nas minhas fífias. Não sou nenhum exemplo nesta área. Como em muitas outras, de resto.

Mas restava-me um outro drama: o Corvo. Ilha vizinha onde tinha amigas e onde gostava de me deslocar mas, como é fácil de perceber, cada vez que lá ia, era mais um tormento. Felizmente que a ilha passou a ter aeroporto e, por muito dura que fosse a viagem de avião eram sempre sete minutos que eu não trocava por nenhum barco.

Da última vez que fui de barco, há cerca de dez anos, a viagem foi tenebrosa. Era Agosto, o mar estava picado e eu cheguei completamente “arrumada”. Tinha ido a pedido das minhas amigas Salomé e Isabel que perceberam quão heróica tinha sido a minha atitude. Cheguei gelada, inerte e sem cor. Alguém me colocou sobre o cais e, a seguir, dentro de uma viatura aquecida pelo sol de Agosto para a reanimação. Como o avião estivesse a chegar, voltei às Flores no Dormier. Quando cheguei ao aeroporto, meu irmão estava à minha espera e eu abracei-o a chorar como se estivesse a voltar da guerra, jurando a todos os santos que nunca mais pisaria um barco.

Os anos passaram-se, a vida deu muitas voltas mas a minha determinação em não voltar a pisar um barco em movimento continuava inabalável. Foi aí que começaram as viagens ao Corvo em semi-rígidos. O Carlos Toste, por quem nutro uma imensa amizade e um carinho muito profundo, sabia da minha vida e dos meus dramas. Ele estava no Corvo no dia em que lá cheguei em mau estado. Prometia-me o Carlos que num dia de bom tempo, eu iria com ele e garantia o sucesso da operação. Mas eu, lá ia enviando todos os meus amigos com o argumento convincente de ter muito que fazer ou de ficar a preparar a refeição seguinte. E nunca ia.

Este ano, deslocou-se às Flores o Onésimo com a esposa e a Aida Baptista. E havia a minha “baixinha”, uma israelita sonhadora e linda que sabe tudo sobre Hatmara ou “arte da transformação”. O Corvo estava nos meus sonhos para eles. E aí, sim, funcionou a minha veia de heroína. Coloquei todas as técnicas que conheço ao meu serviço e aceitei o desafio. Melhor: ninguém soube senão o Carlos. Mais: eu nem fui com o Carlos mas com o Pedro. Já não há lugar para lendas na minha vida e eu não queria ficar com o registo do Carlos na aventura.

Fui duas vezes ao Corvo em menos de uma semana com o mar muito diferente. E adorei. Positivamente. A viagem e o Corvo. Tudo. De tal forma que não excluo a possibilidade de passar uns dias na residencial COMODORO que me pareceu uma aposta de luxo do nosso amigo Rita e da sua maravilhosa família.

Ganhei imenso com esta mudança de atitude. O Corvo está agora muito mais perto e eu estou muito mais acompanhada. Já não preciso fugir para longe para fazer férias porque o Corvo tem tudo, o que têm os lugares mais reputados do mundo para férias especiais: paz, silêncio, uma praia fabulosa e uma segurança sem paralelo.

Tenho muito que agradecer aos meus amigos por me terem incentivado a tomar esta atitude. Não serei concorrente a nenhuma corrida de barcos para o Corvo mas ganhei a certeza que tudo na vida é uma questão de VONTADE E ATITUDE.

por Luana | 10 Comentário(s)

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