Artistas de circo
Ao fim de tantos milénios de vida sexual, de manuais ilustrados, de romances do Jorge Amado e do Henry Miller, parece que ainda existe alguma confusão nas cabeças masculinas sobre o que é uma boa performance sexual. A confusão tem por base conceitos tão simples como dar e receber – e aqui entenda-se o verbo dar como sinónimo de presentear ou oferecer e não no sentido muito nacional de dar pancada, por exemplo.
Há homens que confundem a sua actuação sexual com momentos circenses, julgando-se grandes artistas. Ora, como já dizia o grande cantor Serafim Saudade, o verdadeiro artista é aquele que aguenta. Existem no entanto várias nuances relativas a esta questão. Não basta aguentar, há que saber manter o nível em tudo – e, já agora, com elegância e discrição.
Tenho ouvido, ao longo dos anos, as descrições mais trocistas e hilariantes por parte das minhas amigas dos chamados ‘performáticos’. Passo a explicar: o ‘performático’ é aquele tipo que está ali para mostrar que é bom, que não dispensa um espelho para se mirar enquanto prova a si próprio que é bom, que no fim pergunta sempre se ele foi bom – e não se foi bom para ela, o que faz toda a diferença – e que não aceita nenhum tipo de sugestões, críticas e conselhos, porque se acha o maior.
Muitas vezes, o ‘performático’ é de facto dotado pela Mãe Natureza no que respeita à anatomia, o que o ajuda a cair no equívoco de que o tamanho resolve tudo. É verdade que o tamanho resolve algumas coisas, mas não resolve falta de jeito, egoísmo, exibicionismo exacerbado e faltas de educação.
E o pior é que nestas como em tantas outras circunstâncias, a boa educação lusa obriga a que as donzelas façam cerimónia e não expliquem ao contorcionista de serviço que não é preciso mudar dez vezes de posição, cuspir fogo, atirar 20 bolas coloridas para o ar ao mesmo tempo ou saltar do trapézio sem rede para que o momento seja excitante e compensador. O sexo não é o Jogo do Ganso onde é preciso superar prova atrás de prova, nem nenhum quizz show onde cada concorrente tem de provar que é mais esperto do que o outro.
Quem quiser os 15 minutos de fama da profecia do Andy, pode sempre recorrer à indústria pornográfica, nacional ou estrangeira, já que para o trabalho em questão nem sequer é preciso falar bem línguas.
Convém não esquecer que palhaços, só no circo. E mesmo assim, apenas para quem gosta.
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