Clássicos para sempre
Nunca percebi o fascínio de praticar actividades lúdicas a dois em locais esdrúxulos, a não ser que a necessidade imperiosa assim o dite. É claro que todos tivemos as nossas aventuras do tempo da adolescência em bancos traseiros de carros, vãos de escadas, barraquinhas de praia, miradouros e WC’s, mas convenhamos que a partir de uma certa idade não há nada que se compare a uma cama.
A cama é espaçosa, é plana, é confortável, é quentinha e é nossa, mesmo que seja a de um hotel. E a cama está num quarto que tem porta, porta esta que pode ser fechada à chave, evitando assim invasões menos desejadas por parte da descendência ou da empregada que precisa de uma assinatura para recepcionar uma carta registada. Sempre fui a favor da cama. Para dormir, para curar gripes, para ler, para tomar o pequeno-almoço ao fim de semana ou durante as férias, e claro, para o resto. E, já agora, se passamos um terço da nossa vida na cama, que seja numa das boas, com um colchão nem demasiado mole que nos ataque as cruzes, nem demasiado duro que nos faça sentir a mulher de um faquir; camas de pregos até podem constituir uma experiência interessante, mas tais ousadias só se recomendam a quem tenha outras tendências mais originais.
Uma boa cama é um clássico que nunca passa de moda: é como o Dean Martin ou o Sinatra. Não digo que o Cincotti não seja bom músico e há duas décadas que aprecio o talento do Harry Connick, Jr., mas o Dean é o Dean e resto é conversa. Basta ouvir um dos seus grande clássicos, Sway, com versos tão extraordinários como bend with me, sway with ease, only you have the magic technique, when we sway I go weak, I can hear the sound of violins long before it begins, sway me smooth, sway me now para ficar logo com vontade de ir dançar com o nosso par, primeiro na vertical e depois na horizontal.
Uma boa cama é como um bom standard americano: nunca envelhece, nunca enjoa, nunca farta e nunca passa de moda. Podemos mudar as capas do edredon, acrescentar mais almofadas, comprar colchas novas ou mesmo renovar-lhe a cabeceira, mas uma cama clássica nunca perde o seu encanto, seja em que língua for. A Amália também cantava lindamente em inglês e o Dean dava cartas sempre que interpretava baladas do seu país de origem. Quem não se lembra da eterna canção Volare?
Voltando ainda ao grande Dean, não resisto a recordar nesta crónica recheada de boa disposição outro verso de um êxito que o celebrizou, Ain’t That a Kick in The Head, quando ele explica how lucky can one guy be quando encontramos quem goste de nós, exemplificado com versos de grande sabedoria, if this is just the beginning, my life’s gonna be beautiful, she’s telling me we’ll be wed, she’s picked out a king size bed, I couldn’t feel any better or I’d be sick.
Ora cá está, uma cama king size, sólida e firme, de preferência com seis pés, para muitas noites de alegria, prazer e risota, não vale mais do que uma de corpo e meio com dois séculos e meio de existência, velha e a ranger por todos os lados? Afinal, se é um terço da nossa vida que está em jogo, ao menos que seja passado o melhor possível.