Mulheres alfa
Acredito que o facto de ser filha de um biólogo e de uma psicóloga tenha condicionado desde muito cedo a minha forma de observar o mundo.
Quando era miúda não perdia um documentário sobre a vida na selva e foi ainda antes da adolescência que desenvolvi a propensão para observar os humanos e tentar perceber os seus comportamentos. Habituei-me a comparar pessoas a animais, nem sempre de forma pejorativa, embora por vezes não escapassem ao meu afiado e impiedoso sentido crítico. Por exemplo, a minha avó paterna era, sem dúvida, uma leoa, apesar da sua pequena estatura, que facilmente se podia transformar numa serpente, o meu avô paterno era um castor aplicado e trabalhador, e por aí fora.
Ainda hoje a biologia exerce um enorme fascínio sobre mim: gosto de observar nos meus cães os jogos de sedução e de poder que exercem um sobre o outro. Sem querer fantasiar demasiado, parece-me que a minha cadela é um sedutora nata, pois não dispensa uma visita relâmpago aos cães do jardim vizinho de cada vez que apanha o portão aberto, o que muito irrita o meu cão, que lhe rosna e lhe morde as orelhas, obrigando-a a deitar-se debaixo dele. Como boa fêmea ela aceita o castigo, fazendo de morta, enquanto espera que a fúria passe ao macho.
É evidente que isto pode ser fruto da minha imaginação, mas é um facto que ela corre atrás de tudo o que mexe, seja carro, cão ou pessoa, e que ele é do tipo desconfiado, aproximando-se apenas de quem gosta. Ela é sociável, alegre e oferecida, ele é reservado e dado à nostalgia. E como manda a natureza, é ele que comanda as operações no jardim: é o primeiro a dar o sinal de alerta e a patrulhar o portão e ela faz tudo o que ele faz, como uma sombra viva.
Na Natureza, é fácil identificar o macho alfa de um grupo de animais. Porém, entre os humanos, muitas vezes o alfa de uma família é a mulher, embora ela tenha, na maior parte dos casos, a capacidade de convencer o marido de que é ele quem manda. Quando olho à minha volta e observo as mulheres que são claramente do tipo alfa, verifico que optaram por não ter um companheiro a partir de certa idade. Apenas as que souberam – ou quiseram negociar – a partilha do comando continuam casadas. As outras, ou não aguentaram um homem ao lado ou o homem que tinham ao lado não as aguentou. Em conversa com algumas delas para tentar perceber o que aconteceu, a hipótese de eventuais ciúmes por causa de outros homens nem sequer se levanta. O que sobressai sempre é a questão da competição e da guerra de egos. Argumentos como ‘eu ganhava mais do que ele’, ‘ele não aguentava o meu protagonismo’, ‘ele queria fazer de mim uma criada em casa’, ‘ele não perdia uma oportunidade para me tentar ridicularizar ou desvalorizar o meu trabalho’ surgem invariavelmente. Parece-_-me que estas mulheres, umas mais bélicas do que outras, tiveram todas de lutar para ter o seu lugar ao sol dentro de casa depois de o terem conquistado publicamente.
Gabriel García Márquez escreveu que é do aplauso que nasce o amor. Talvez estes homens não tenham sido capazes de admirar as mulheres que pensavam amar. A luz deixa de ser bela quando nos ofusca, estas mulheres brilhavam demais para o que eles eram capazes de suportar. A verdade é que durante uma discussão elas nunca fizeram de mortas, dando-lhes a ilusão do domínio que tanto satisfaz um alfa.