O Sexo, a cidade e os clichés
Charlotte, Miranda, Samantha, Carrie e o inefável Mr. Big regressaram ao grande ecrã para cumprir a parte II de Sexo e a Cidade, o filme. Exageros de guarda-roupa aparte, voltei a encontrar as quatro amigas que tanto fizeram pelo pós-feminismo e pela solidariedade possível entre as mulheres em boa forma, embora já com as rugas e as olheiras dos 40.
Passaram 12 anos desde que a primeira temporada estreou, num tempo em que nenhuma das quatro era rica, sofisticada e casada. Agora, apenas uma resistiu a esse monstro/mito/pilar da sociedade americana que é o casamento. A única solteira do grupo combate furiosamente a menopausa e escolhe vestidos que são mais adequados a mulheres com um terço da sua idade. Samantha continua magra e provocadora, sem falhar o alvo quando seduz. Já as outras travam uma luta bem mais complexa, a de gerir cada uma o seu casamento. Charlotte e Miranda estão com as crianças pelos cabelos, enquanto Carrie vê o romantismo ser roubado por um LCD no quarto. Para onde vai o romantismo depois do casamento, questiona-se Carrie. Como evitar o terror provocado por uma babysitter nova, bela e bem apetrechada, atormenta-se Charlotte. Como conciliar a vida familiar com uma carreira, interroga-se Miranda.
Os fantasmas da vida de casada desfilam como numa passagem de modelos. Porém, o mais interessante é que estas personagens, altamente estereotipadas, mantêm-se fiéis à sua natureza: Carrie continua a pôr tudo em causa, Charlotte continua a ser a boazinha insegura, Miranda mantém a sua pose cáustica e eficiente e Samantha conserva o espírito aventureiro e sedutor. Ou seja, elas estão iguais e si mesmas, da mesma forma que nós, personagens da vida real, também mudamos muito pouco.
Podemos amadurecer, podemos aprender a fazer escolhas acertadas, podemos até desenvolver mecanismos de defesa contra os nossas fraquezas, mas a nossa natureza irá sempre prevalecer. Talvez por isso os estereótipos do filme sejam tão simpáticos para as mulheres e tão irritantes para os homens. É que nós somos mesmo assim: insatisfeitas, inseguras, angustiadas e sedutoras.
Ao longo de quase quatro anos de vida desta coluna tenho defendido a previsibilidade nos homens e imprevisibilidade nas mulheres, mas hoje estou aqui para dar a mão à palmatória e reconhecer que nós também somos muito parecidas e algo previsíveis: todas tememos o efeito devastador da rotina instalada, todas invejamos secretamente a pele luminosa de uma babysitter com metade da nossa idade, muitas de nós se angustiam em conciliar o trabalho com a casa e, em algum momento, já todas desejámos ser livres e inconsequentes. Todas acabamos por ter, quer o admitamos ou não, traços de cada uma das quatro, pela simples razão de que somos mulheres.
A parada de clichés a que se assiste no filme é boa por isso mesmo, por assumir que os clichés fazem parte da nossa vida. Mais vale ser um cliché do que uma aberração. E para a maior parte das mulheres, mais vale ter uma relação estável que nos dê trabalho do que uma existência emocional errante. É como ir à Feira Popular; andar na montanha russa pode ser muito excitante, mas se fossemos obrigados a dar uma volta todos os dias, dava-nos cabo dos nervos e da saúde.