Maionese de gambas
«HOJE vou variar», dizia uma certa menina de um anúncio de televisão que nunca se perdeu na minha memória e que tento localizar, com grande margem de erro, em meados dos anos 90. «Hoje – concluía triunfal – vou fazer maionese de gambas». Já não me lembro se o spot publicitário era a uma maionese, o importante era a conceito. E o conceito era variar, neste caso para melhor. Uma maionese de gambas em alternativa a uma posta de pescada cozida com batata e cenoura tornou-se para mim um símbolo do que pode ser um upgrade numa relação amorosa.
TODOS conhecemos os efeitos nefastos da rotina. Não resisto a citar uma amiga minha, divorciada, quando outra lhe perguntou se não tinha saudades da vida de casada. A minha amiga respondeu com o olhar vago e seráfico: «Sim, aquele senhor que estava sempre a dormitar no sofá e que pagava as contas todas, de facto dava imenso jeito». Há muitos factores que fazem com que um casamento sobreviva, como os filhos, os projectos em comum, a mesma visão da existência, hábitos de vida coincidentes, o bem-estar inerente ao convívio, etc. Um casamento até pode aguentar-se porque dá jeito, mas quando o outro se transforma numa pessoa de família e deixa de ter sex appeal, então é porque a rotina venceu. Ora o sex appeal é um bocado como a escrita: até pode ser uma facilidade nata, mas cresce e evolui como uma dificuldade adquirida. É preciso treino, concentração e dedicação. E não basta manter a linha, ter a depilação em dia e usar saltos altos. É, sobretudo, uma questão de atitude, acima da beleza a para lá do tamanho da cintura. É necessário inovar dentro da própria relação.
Por exemplo, se o caro leitor em vários anos de casado nunca fez uma massagem à sua cara-metade, então saiba que nunca é tarde para a surpreender. Em primeiro lugar, vai perceber que afinal até tem jeito para a coisa e, em segundo, ela vai ficar tão surpreendida que terá vontade de lhe retribuir o gesto com o conceito da maionese de gambas. Se ela anda cansada, leve-a a jantar fora a um restaurante novo do qual toda a gente fala, ou se ela for do estilo mais hippie ou desportivo, convide-a para ir comer um gelado à beira-mar numa noite de Verão. Os pequenos prazeres podem ser, afinal, os maiores. Às vezes, basta uma pequena mudança na rotina, um gesto, uma palavra, para a outra parte mudar o registo e se animar. Porém, é preciso tomar a iniciativa e avançar sem medo.
NUMA RELAÇÃO, há sempre o timoneiro que vai ao leme, mas nem sempre tem de ser o timoneiro a decidir tudo. O mais importante é que estejam os dois em sintonia durante a viagem, para chegar a bom porto, até porque se é uma viagem perpétua que se deseja, há que distribuir esforços e motivações ao longo do tempo. Outra amiga minha diz que um ano de casamento corresponde a um ano canino: sete anos de vida. Um casamento é uma empresa que requer vigilância e manutenção, na qual os critérios de eficiência têm muito mais a ver com a tolerância do que com o rigor e com a alegria do que com a produtividade.
Conseguir fazer uma maionese de gambas de vez em quando é uma boa receita. Na verdade, mais vale comer gambas do que pescada cozida. Além disso, está cientificamente provado que o marisco é um poderoso antidepressivo. E viva a maionese de gambas.