Pontos de vista
Era uma vez uma empresa portuguesa na qual foi necessário fazer uma reestruturação, o que em bom português implica uma redução de pessoal.
Era uma vez um departamento dentro da empresa no qual o chefe do mesmo recebeu instruções para dispensar uma pessoa. E eram uma vez duas mulheres que trabalhavam nesse departamento.
Vamos inventar nomes: Cláudia, 20 e tal anos, alta, gira e boazona, solteira e com um segundo emprego como bartender numa discoteca da moda. E Isabel, discreta, organizada e competente, casada, perto dos 40 anos, com dois filhos pequenos e um marido com uma deficiência que se encontrava desempregado há alguns meses.

O chefe hesita, até porque Cláudia falta muitas vezes, enquanto Isabel cumpre escrupulosamente tanto o seu horário como a sua função. É natural, Cláudia vive numa agitação de noitadas e de namorados, Isabel vive preocupada em pagar a renda e em alimentar a sua família. Mas o chefe gosta de mulheres bonitas, vistosas, por isso chama Isabel ao seu gabinete e explica-lhe que é Cláudia quem vai ficar porque lhe faz «bem à vista». Tal e qual, ipsis verbis, «bem à vista».
O chefe pensa com as duas cabeças que a Natureza lhe deu, ou talvez só com a mais pequena, e mais, ele ainda tem a lata de usar a arma da sinceridade para se ilibar; ele revela a Isabel a verdadeira razão da sua escolha. E Isabel fica sem emprego, apesar de ter mais experiência, apesar de ser mais competente, apesar de tudo.
Este chefe não ponderou nem os factores decisivos para este tipo de situações, como a competência, a antiguidade, o empenho e o sentido de responsabilidade, da mesma forma que também não avaliou o enquadramento socioeconómico da sua subalterna. Nada disso, o importante é ele poder chegar ao seu local de trabalho e ver alguém que lhe faça bem à vista, isso sim é que é fundamental; ver uma mulher bonita, de formas generosas, que lhe encha a imaginação e lhe preencha as fantasias de macho. As vistas dele é que decidem.
Esta história não é das que a Isabel pode contar aos seus filhos antes de adormecerem, porque não tem um final feliz. Aqui, o dragão não pode ser vencido por um príncipe garboso montado num cavalo branco, a não ser que alguém faça uma fotocópia desta minha coluna e a entregue em mão, devidamente contextualizada, a quem de direito na dita empresa, para que o fim da história não seja este, porque infelizmente esta história não é inventada, aconteceu esta semana e, arrisco-me a dizer, acontece todas as semanas em milhares de empresas pelo mundo.
É uma vergonha que alguns homens pensem e ainda se sintam à -vontade para agir de forma tão abjecta e ignóbil. É uma vergonha para uma empresa deixar passar este tipo de situações. E é por estas e outras histórias de misoginia, de descriminação e de injustiça em relação ao género que agradeço ao meu querido jornal SOL o privilégio de me dar este espaço de opinião.
Fosse eu administradora desta empresa e teria já uma solução, digamos assim, também à vista, usando a expressão do chefe idiota: ele é que era despedido e aproveitava o momento para promover Isabel para o lugar dele. E assim o chefe já podia ir para casa lavar as vistas em sites de pornografia, que são grátis e não empatam a vida a ninguém, enquanto Isabel dirige o departamento. Pensando bem, não era nada mal visto.