Pais a tempo inteiro
Pais a tempo inteiro Caro Ronaldo, venho por este meio dar-te os parabéns pelo teu lindo rebento. Estamos a entrar em plena silly season e graças à tua inesperada paternidade os meios de comunicação já têm com que se entreter. Não se fala de outra coisa, por isso receio que o teu filho venha a ser uma criança quase tão mediática quanto a pequena Suri Cruise, que parece gostar ainda mais do estrelato do que o pai. Escrevo-te porque sou mãe e é bom saber que andas cá para dar o exemplo. Nos teus comentários, não importa o assunto, assumes habitualmente um discurso equilibrado e politicamente correcto sem soar a falso, portanto tenho-te em boa conta, não apenas como futebolista de excepcional talento, bem como proprietário de um ‘eight pack’ de igual calibre. Parece que o sucesso não te desconcentrou nem da bola nem do bom senso, o que, como sabes, é muito fácil de acontecer à rapaziada nova. E agora que és pai, ficaste ainda com mais charme, porque um homem para ser homem, tem de escrever um livro, plantar uma árvore e ter filho. Ora como não te imagino amarrado a uma secretária todos os dias durante meses a fio – não queiras esta vida, porque isto ou é para doidos ou para quem lá caminha – e enquanto não plantas outra coisa, pelo menos já presenteaste o mundo com um herdeiro, o que, além da tua fama universal, é uma bonita forma de tocar a eternidade. Vi-te recentemente do lado de dentro do portão da casa onde estás a passar férias com a tua extensa família na tentativa vã de descansar depois de tanta emoção junta em tão pouco tempo, e estavas quase de cabeça perdida, a pedir privacidade e sossego aos paparazzi que rondam o portão dia e noite, quais lobos famintos. Não te iludas jovem pai, porque tu não alimentas apenas a máquina do futebol mundial, tu alimentas a imprensa nacional, ávida de não assuntos, como por exemplo, este. Mas há outra razão pela qual te escrevo, a única importante: ao assumires a guarda exclusiva do teu filho estás a mostrar aos homens portugueses que eles podem fazer o mesmo, ou seja, que se podem tornar melhores pais. Mas atenção, nem todos têm o teu poder, os teus meios, nem um séquito de mulheres na família para ajudar a criar e a educar uma criança. Esperemos que o teu exemplo resulte numa chamada de atenção para que os pais de Portugal se tornem mais activos, porque já estou farta de ver as mães deste país a arcarem com as tarefas familiares e domésticas quase na sua totalidade. O português viaja pouco – embora esteja convencido de que é muito viajado porque aceita ser despejado em resorts tipo hiper – e por isso não se passeia pelas cidades da Europa, como Amesterdão ou Londres, onde é comum ver pais dedicados. Aqui no território, cruzo-me com eles no McDonald’s às quartas e aos fins-de-semana, a olhar para os seus descendentes com a apreensão colada à cara de quem se interroga: «E agora como é que me vou safar nas próximas 48 horas?». Em Portugal, salvo uma minoria notável de homens, ser pai ainda é um part-time job, por isso conto com a tua prestação de bom cidadão para mostrares que não o vais ser. E boa sorte com os biberões, com as fraldas e com o resto.
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