Entrada por saída
Eis uma das frases mais divertidas e sábias que ouvi nos últimos tempos, proferida em jeito de desabafo por uma amiga minha, gira, solteira, boa rapariga e bem na vida, com razoável grau de independência, que reúne tudo o que é preciso para encontrar um par à altura, embora tal circunstância não se tenha ainda proporcionado: «A minha vida é um circo, entra palhaço, sai palhaço».
Quanto rigor e concisão em tão poucas palavras. De facto, se há denominação que tem variadas nuances e um leque interessante de significados, é a palavra palhaço, até porque em linguagem corrente, e dado o seu enorme índice de popularidade, tanto pode ser substantivo como adjectivo, Quando dizemos ‘o meu filho tem medo de palhaços’ – o que não é tão pouco comum quanto se pensa –, é uma coisa. Quando comentamos ‘fulano tal é um palhaço’, já é outra coisa. E o mercado está cheio deles, tanto no campo dos solteiros /divorciados, como no campo dos casados.
Há palhaços por todo o lado, embora, paradoxalmente, o bicho homem tenha imenso medo de fazer figura de palhaço. O problema que se coloca amiúde é que fazem mais vezes do que pensam; quando enganam, mentem ou contam meias verdades, quando se gabam aos amigos das suas proezas sexuais, quando fingem que são bestiais e que somos o centro da vida deles e depois vimos a descobrir, hélas, que afinal haviam mais duas ou três. E um tipo também é palhaço quando é mal educado, quando diz inconveniências, quando chega atrasado, quando se esquece do nosso dia de anos. Na verdade ele nem sequer precisa de ser um grande artista para ser um palhaço, embora alguns actores tenham especial talento, mas não é caso para alarme, pois trata-se apenas de um clássico caso de deformação profissional.
E depois existem vários tipos de palhaços, tal e qual como no circo: o palhaço rico, o palhaço pobre, o palhaço feliz, o palhaço triste, os palhaço que sabe dançar e fazer piruetas, o palhaço sofisticado do Cirque du Soleil, o palhaço sazonal, talvez aquele a que se refere Ney Matogrosso quando canta ‘Mas quem sou eu nessa vida tão louca/mais um palhaço no seu carnaval’, no triste Tema de Amor de Gabriela. Ora um tipo que se sente mais um palhaço no carnaval na vida de uma mulher é o equivalente ao que tantas vezes as mulheres se sentem depois de uma desilusão amorosa; elas sabem que foram apenas mais uma e nenhuma mulher gosta de ser mais um dígito a acrescentar a uma estatística, da mesma forma que nenhum homem gosta de pensar, ou pior ainda, que os outros pensem que foi um palhaço.
POR ISSO, caro leitor, a solução está à vista, se não quer ser tratado como um palhaço, não se comporte como tal. Excepção honrosa e carinhosa a toda a equipa da Operação Nariz Vermelho que anima os serviços de Pediatria dos hospitais com dedicação, profissionalismo e enorme espírito de missão, merecendo por isso todo nosso respeito e apoio. Quanto aos outros, o melhor é que saiam de cena rapidamente, de preferência pela porta do cavalo, para dar lugar a quem merece.
Entra palhaço, sai palhaço. E siga a marinha.