As regras de atracção
Há mulheres que se apaixonam por gays? Sim. E gays que se apaixonam por mulheres? Também. Talvez tal realidade provoque no típico macho latino estranheza, perplexidade e, por que não dizê-lo, um certo nojo, mas é um facto que há histórias de amor profundo e duradouro entre gays e mulheres heterossexuais. O interesse de uma mulher por um gay pode ter a ver com padrões estéticos, mas passa também por um grau de entendimento intenso e completo, já que os gays muitas vezes percebem as mulheres melhor do que os homens, mesmo entre os que percebem de mulheres, porque uma coisa é saber como elas são e outra bem diferente é entendê-las intuitivamente. Um gay que goste de mulheres – com ou sem interesse sexual por elas – sabe naturalmente ler-lhes a alma. Ele possui uma facilidade nata para as perceber, enquanto um heterossexual nem sempre consegue o mesmo. «Há muitos anos que deixei de tentar perceber as mulheres, sei apenas que preciso muito delas», dizem-me com frequência os heterossexuais. Ora a diferença reside exactamente aqui: um heterossexual aceita ainda que não entenda, já um gay entende quase sempre uma mulher. Mas há ainda outra questão: se é comum dizer que o amor não escolhe idade, por que não assumir que o amor também pode escolher o sexo? E por que precisamos de classificar tudo? Os rótulos trazem-nos segurança porque nos balizam e representam o conjunto de valores com os quais nos identificamos. Porém, a vida é profícua em trazer-nos surpresas: uma pessoa pode encantar-se, envolver-se, enrolar-se e até mesmo apaixonar-se por uma pessoa do mesmo sexo ou por uma pessoa que tendencialmente não se interessa pelo nosso. O que condiciona ou impede estes impulsos tem muito mais a ver com a dita escala de valores e de princípios com base nos quais actuamos, do que com os nossos próprios instintos. Em período de férias, com sabor a viagens e a liberdade, os contornos de tais valores para uns, ou apenas preconceitos para outros, suavizam-se ao sol, com o álcool e ainda com o gosto pela aventura. As regras da atracção podem mudar ao sabor das marés, sem que se consiga estabelecer um padrão lógico. Mas o que torna tudo isto ainda mais complicado é a tendência quase automática de misturar amor com sexo e pensar que são a mesma coisa. Às vezes são, mas às vezes não. Por isso talvez seja mais importante saber separar este trigo deste joio: atracção, interesse, carinho, tesão, envolvimento, carência, amizade e amor são sentimentos todos diferentes e convém usar da lucidez para os saber separar, sob o risco de criar grande equívocos. No fundo, não são as regras que nos fazem felizes, mas a sabedoria de entendermos o que realmente queremos e o que conseguimos oferecer, sem julgar os outros, nem nos deixarmos julgar pelo próximo ou por nós mesmos. A regra que nunca pode falhar é a da integridade.
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