O irresistível malandro
Há músicas – e músicos – que possuem o poder de me dispor bem automaticamente, como Billie Holiday, Stacey Kent, ou, ainda e sempre, antes e depois e acima de todos os outros, Dean Martin. Dean Martin, que alinhou com Frank Sinatra e Sammy Davis Jr. no lendário The Rat Pack, depois de ter conquistado a América em parelha hilariante com Jerry Lewis, era o que se levava menos a sério, na época de ouro do standards americanos; frequentemente, actuava com elevados níveis de alcoolemia no sangue, tropeçando nos próprios pés e esquecendo-se das letras, pequenos pormenores que só contribuíam para reforçar a sua aura de bon vivant inconsequente.
Como qualquer rapaz de sucesso do seu tempo, era casado com uma loira curvilínea e pai de uma extensa prole, sete rebentos em escadinha, e fazia questão de jantar todas as noites com a mulher e sua prole, embora, como se diz em português corrente, o que ele gostava mesmo era de copos e de paródia com os seus amigos de palco, que também o eram da vida. A biografia politicamente correcta difere em muito das outras, que o retratam como um grande malandro, o que é aliás compreensível num tempo em que a infidelidade masculina era uma espécie de must curricular, numa época em que não existia nem o medo da sida nem do julgamento da opinião pública.
Dean, que se chamava Dino e foi boxeur durante a juventude, começou a cantar por brincadeira e mesmo quando dominava as audiências com mais de 30 milhões de espectadores, nunca deixou de ser ele mesmo. Respeitado, estimado e amado pelos seus congéneres, nunca teve a ambição de Frank Sinatra e, ao contrário deste, sempre preservou com grande mestria e discrição as suas aventuras. Abordado pela imprensa sobre a inusitada presença de Shirley MacLaine no seio dos irredutíveis três machos que formaram o trio mais famoso da história da música americana, Dean respondeu com o seu sorriso irresistível, she’s just one of the boys e arrumou o assunto. Era bonito, sedutor, talentoso, possuía um físico invejável e uma inimitável voz de veludo, actuou ao lado de Marlon Brando e de Montgomery Clift, lendas consagradas quando eram ainda vivas, sem nunca se aperceber que também era já uma lenda, amada ainda hoje pela América e pelo mundo, quando entrou em Ocean’s Eleven. A sua capacidade de conquistar as audiências parece nunca lhe ter subido à cabeça e, no entanto, sempre que o revemos, sentimos aquele frio na barriga que só se manifesta perante os talentos únicos.
Mas acima do performer, do actor e do cantor extraordinário, Dean era terrivelmente sexy, hot, como se diz nas terras do tio Sam. Sempre que o oiço cantar You belong to me, Everybody loves Somebody, You’re Nobody till Somebody Loves You ou o inesquecível Sway, apetece-me entrar na máquina imaginária do tempo, viajar até Los Angeles, esconder-me no seu camarim e ter uma aventura inconsequente com ele, regada a copos e risota, hot and tender, wild and sweet. Ele é o irresistível malandro da minha vida e quem me dera ter vivido debaixo da pele da Shirley McLaine quando ela foi just one of the boys.