O irresistível malandro II
Depois de ter dedicado uma crónica a Dean Martin, pus-me a pensar porque é que as mulheres se sentem fatalmente atraídas por malandros. Afinal, once malandro, always malandro, o que quer dizer que um malandro acaba sempre por dar problemas. Há mais de dez anos, quando tropecei propositadamente num malandro encartado e me dei bastante mal, o meu primo Pedro Granger, a quem reconheço a rara qualidade da lucidez aliada ao senso comum disse-me que não está nas nossas mãos mudar a natureza das pessoas. Nunca mais esqueci tão sábia frase e a partir daí passei a andar mentalmente munida de um detector de malandros, até mais para as minhas amigas do que para mim, porque como o meu modelo familiar é de um homem fiel e eternamente apaixonado pela sua mulher, nem sequer me encanto particularmente com o género. Acredito que os padrões desempenham um papel fundamental nas nossas escolhas, daí que aprecie o género homem-bonito-discreto-fiel-e-calmo-com-vocação-para-a-bricolage em detrimento do engatatão-sedutor-da-noite.
MAS há malandros e malandros. Um malandro parvo, mentiroso e polígamo não assumido é uma coisa; um malandro inteligente, denso e confuso é outra. Um malandro não tem necessariamente de ser um mau tipo; pode ser um bom tipo numa fase má, ou um tipo confuso que não quer ser mau, mas que de vez em quando mete a pata na poça. Ou seja, um bom malandro. A expressão remete-me para um dos mais divertidos romances da história da literatura portuguesa, a Crónica dos Bons Malandros de Mário Zambujal, em grande parte responsável pelo meu gosto pela escrita e pelo meu estilo tantas vezes desbragado. O livro é encantador, da mesma forma que o é o autor, também ele um bom malandro, porque todos os malandros com bom coração merecem se não a nossa paciência, pelo menos a nossa complacência.
PARECE-ME que o Dean Martin era isso mesmo, um bom malandro, porque a verdade é que pintou a manta, mas quem lhe foi próximo fala dele com uma enorme ternura, ao contrário do que acontece com outras lendas de Hollywood. Marlon Brando, por exemplo, partiu corações em barda e com tal violência que pelo menos uma das suas apaixonadas optou pelo suicídio. Brando, que não devia nada ao nome, era belo, poderoso, atormentado e um actor ímpar, mas não possuía aquela bonomia do bom malandro, enquanto que Dean a tinha toda, no sorriso, na voz de veludo, e na forma irresistível como olhava para as mulheres.
Quando um homem olha assim para nós, o mundo pode parar de girar, que nós nem percebemos. O petróleo pode acabar que nós não nos importamos. E as Maldivas podem desaparecer, mas nós não temos pena de nunca lá ter ido, porque quando uma homem olha para nós daquela maneira, estamos, no céu, no Olimpo, num paraíso qualquer, que tanto pode ser debaixo de uma palmeira como numa varanda do um segundo andar. Uma mulher não precisa só de ser amada. Ela precisa, quer e gosta de ser desejada. E um bom malandro sabe lançar-lhe esse olhar, esse feitiço, e jogar com esse poder, mesmo que ande a trabalhar em outros tabuleiros.