O Esplendor da Carne
DEPOIS de alguns dias a passear pelo Algarve, descobri um lugar maravilhoso e constatei uma realidade incontornável. O lugar é a ilha da Barreta, ao largo de Olhão, inserida na bela Ria Formosa que muito jus faz a seu nome, com um areal a perder de vista e poucos veraneantes. A realidade incontornável, a poucos quilómetros dali, numa praia bem mais populosa, é que as portuguesas são em geral muito gordas.
A ver se me explico: elas não são cheiinhas, anafadas, bem nutridas, com uns quilos a mais. Nada disso, elas são mesmo muito gordas. E felizes com a sua gordura, porque é sem qualquer pudor que expõem os imensos peitos ao Sol e se munem de microscópicos biquinis que têm à frente o tamanho de uma folha de parra mirrada e atrás um triângulo, que não está ali para tapar carnes, mas sim para as exibir, com todo o esplendor. Ora estas senhoras que caminham lentamente para a água, não raro com um rebento nu pendurado por um braço, parecem não se importar com a sua gordura, até porque os cônjuges que as acompanham também não lhes ficam atrás, exibindo panças gigantescas, por vezes maiores do que barrigas de aluguer de trigémeos na quadragésima oitava semana.
OQUE se passa com este país? Porque é que há tanta gente anormalmente gorda? Não acredito que todos tenham distúrbios hormonais – e recordo uma personagem mítica do clássico Crónica de uma Morte Anunciada, Maria Alejandrina Cervantes, a facilitadora de serviços sexuais da aldeia, para quem comer sem medida sempre foi o seu único modo de chorar. Maria Alejandrina comia costeletas de vitela, lombo de porco e galinha ao pequeno-almoço, tudo isto acompanhado de banana e legumes, à turca, deitada em cima da cama, lânguida e sempre pronta para amar. «Senti o cheiro perigoso do animal do amor atrás de mim e senti que me afundava nas delícias das areias movediças da sua ternura» – escreve o autor, fazendo-me pensar que os gordos possuem encantos sexuais que desconheço.
O que é certo é que as senhoras gordas que vejo na praia me parecem mais sorridentes e felizes do que as poucas magras que por ali se estendem ao Sol e que exibem curvas mais suaves e harmoniosas com muito menos garbo. Talvez o ditado que reza «gordura é formosura» – ao qual eu sempre respondo com «magreza é beleza» – vença no território nacional.
COMER não é só uma necessidade: com a idade transforma-se em prazer, em vício, em obsessão. Conheci uma família de gordos que passava as refeições a relatar outros almoços e jantares de carácter histórico pelas inesquecíveis iguarias que deglutiram. Era uma família feliz, com excepção de um elemento – a minha amiga, da mesma idade que eu, desgraçadamente magra, como eu, e como tal, dada a tristezas e nostalgias.
Ser gordo não será um defeito, nem certamente um pecado – embora a gula faça parte da lista negra dos sete – e terá, admito reconhecer, encantos escondidos que não consigo alcançar. Deusas e mulheres da Antiguidade retratadas em estátuas e frescos tinham sempre o seu quê de carnes e do Renascimento a Botero a gordura impera. Será que ao transmitirem segurança, conforto, capacidade de procriação e sentido de protecção, por isso mesmo se tornam sexualmente atraentes, ganhando encantos próprios que arrumam as magras a um canto?
I wonder, I wonder.